Estudantes contra reforma do ensino em 2016. Foto: UPES

Como lutar pela educação pública, gratuita e universal construindo uma direção revolucionária na educação

Apresentamos aqui o informe para a “Mesa 2” do 2º Seminário em Defesa da Educação Pública, Gratuita e Para Todos, ocorrido no dia 17 de abril: Como lutar pela educação pública, gratuita e universal construindo uma direção revolucionária na educação. Você pode conferir a apresentação de slides utilizada e acompanhar a gravação no YouTube.

Durante a pandemia da Covid-19, vimos além da grave crise sanitária, a intensificação da jornada de trabalho, o aumento do desemprego, da carestia de vida, da miséria. A pandemia aprofundou os problemas e desigualdades da sociedade de forma acelerada. Com isso, os trabalhadores buscaram em suas ferramentas de luta, como os sindicatos, formas de combater pela vida e pela sua sobrevivência. O que estes trabalhadores viram, na maioria dos casos, foram sindicatos acuados, paralisados e sem disposição de dar a direção para o movimento operário. Esta postura demonstra, de forma desnudada, os limites e entraves do reformismo.

Para entender os limites do reformismo e a necessidade de uma direção revolucionária no movimento operário e estudantil, devemos compreender o que significa ser revolucionário. A figura de um revolucionário muitas vezes está associada à figura de uma pessoa utópica, sonhadora ou idealista. As palavras ‘revolucionário’ e ‘revolução’ são utilizadas para apontar uma mudança, na maioria das vezes no campo individual. Porém, a revolução é uma transformação profunda na sociedade, e revolucionário é a pessoa que entende que a sociedade em que vive não pode ser consertada ou reformada, mas deve ser colocada abaixo para a construção de uma nova sociedade.

No capitalismo, os revolucionários entendem que o Estado, assim como em outras momentos da história, é um instrumento de dominação da burguesia para manter a propriedade privada dos meios de produção. Os trabalhadores não devem esperar das instâncias desse aparato o resultado de suas conquistas, mas devem organizar própria dos trabalhadores, com independência de classe, para se contrapor aos interesses da burguesia e organizar a derrubada deste sistema.

A posição reformista, que entende que o Estado pode ser consertado para atenuar os conflitos entre as classes antagônicas, entende que os organismos do Estado podem solucionar os problemas da classe trabalhadora. Nessa linha, as greves e mobilizações são substituídas por ações judiciais e intervenções no parlamento, tentando suavizar os conflitos de classe. Assim, as direções sindicais reformistas se afastam da base, não mobilizam nem fazem a discussão política com os trabalhadores, para elevar sua consciência política, confiando nas instituições ‘democráticas’ do Estado.

Os problemas da educação durante a pandemia são um exemplo da ineficácia e nocividade da política reformista no movimento operário e estudantil. Alguns exemplos são as palavras de ordem “ano letivo se recupera, vidas não”, “adia Enem” e “aprova Fundeb”.

A palavra de ordem “ano letivo se recupera, vidas não” aponta corretamente a necessidade de combate pelas garantias de vida dos trabalhadores e estudantes, porém, apaga a necessidade de organizar professores e estudantes por condições de trabalho e estudo durante a pandemia. Este erro político coloca em segundo plano o direito à educação e corroboram com os governos na intensificação do trabalho nos períodos de recesso e férias, para ‘recuperar’ o tempo perdido.

Além de não garantir o direito à educação durante a pandemia, centrais sindicais e organizações estudantis desviaram o foco da discussão sobre o acesso ao ensino superior com o ‘adia Enem’. Apesar da evidente necessidade de adiamento da prova, por motivos sanitários, o movimento sindical e estudantil jogou peso no argumento que a pandemia e os problemas com o ensino remoto aprofundariam as desigualdades no acesso à universidade, o que é correto. Mas adiar o Enem soluciona o problema? O que vimos nos últimos anos foram milhões de jovens (entre 5 e 8 milhões, variando conforme o ano) fazerem a prova, mas apenas uma pequena parcela (cerca de 250 mil, menos de 5% dos inscritos) terem uma vaga em uma universidade pública garantida. O central nessa discussão é o caráter meritocrático do acesso às vagas e a necessidade da luta pelo fim dos vestibulares, por vaga para todos no ensino superior (leia mais).

Outro erro na mobilização dos trabalhadores em educação foi a palavra de ordem “aprova FUNDEB”. Os argumentos chegavam ao cinismo de dizer que sem a aprovação do Fundeb a educação pública acabaria. Nos últimos anos, houve sucessivos cortes nas verbas para educação, e a existência de um fundo de investimento para educação não conteve estes ataques. O Fundeb, visto em sua essência, é um modelo de restrição de verbas, e não garantias, ao delimitar muito bem uma pequena fatia do orçamento para a educação. Basta ver o orçamento de 2021, que destina 37,07% para a dívida pública, 2,9% para a saúde (em plena pandemia!) e 2,7% para a educação, para entender que os gastos da dívida pública, direcionada aos grandes banqueiros nacionais e internacionais, é a prioridade dos governos. Aliás, o Fundeb foi aprovado. E agora? A educação pública, gratuita e para todos está garantida?  Certamente não.

Além das palavras de ordem que não levam a conquistas reais por uma educação pública, gratuita e para todos, as direções sindicais chegam ao ponto de relativizar conceitos bem explícitos para todos, como a greve. O caso da Apeoesp demonstra como a direção sindical conseguiu relativizar a greve até chegar na conclusão de que os professores que estavam em sala de aula estariam ‘em greve’. Ou o caso do Sinte-SC, que encerra uma greve antes mesmo de começar.

Apresentação da Mesa 2 durante o 2º Seminário em Defesa da Educação – Imagem: Liberdade e Luta
Nos dois casos, os sindicatos também lançaram para a categoria a ideia de uma greve sanitária, em que os trabalhadores que estivessem no ensino presencial (ou híbrido) trabalhariam remotamente, e os trabalhadores que estivessem no ensino remoto não participariam da mobilização. Essa proposta resultou na divisão da categoria entre trabalhadores do ensino remoto e do ensino presencial, confusão e desconfiança na categoria, adesões individualizadas ao movimento, falta de um comando de greve e de mobilizações nos locais de trabalho. Em suma, o que as direções sindicais tentaram foi uma saída alternativa para o problema, sem enfrentar a posição dos governos de estabelecer o ensino presencial, impondo que toda a categoria fosse direcionada ao ensino remoto, combatendo politicamente contra a flexibilização das medidas de distanciamento social e apontando a responsabilidade pelo avanço da pandemia nas medidas tomadas pelos governos.

O ponto comum em todos esses exemplos é que uma posição reformista, de tentativa de conciliar interesses inconciliáveis – os interesses dos trabalhadores e os interesses da burguesia – só leva ao fracasso, desgaste, desconfiança e desmobilização dos trabalhadores. Uma posição revolucionária na educação, em defesa da educação pública, gratuita e para todos, se torna fundamental para o avanço das conquistas dos trabalhadores e estudantes. É necessária a luta com independência de classe, com os instrumentos e métodos da classe trabalhadora, sem ilusões nos aparatos do Estado.

Para os revolucionários, a principal tarefa é elevar a consciência de classe dos trabalhadores, denunciando a dominação de classe, organizando a classe operária pela derrubada do sistema de classes, rejeitando veementemente a política de conciliação de classes e lutando por uma política independente e pela tomada do poder pelos trabalhadores, pelo socialismo.

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