Foto: Jornal O Regional

Direção da Apeoesp orienta furar a greve que ela mesma propôs

Conselheiro da Articulação Sindical defende a greve sanitária na assembleia, mas orienta furá-la na base, segundo áudio de Whatsapp que circula na categoria.

A direção da Apeoesp é composta majoritariamente pela corrente petista Articulação Sindical (ArtSind). Ela é quem tem dirigido a greve sanitária da categoria, iniciada no dia 08 de fevereiro de 2020. Desde o início denunciamos o grave erro em se deflagrar uma greve sanitária, que tenta manter o trabalho remoto à revelia do governo. O resultado tem sido, semana a semana, a queda de uma adesão que já era baixa.

Mesmo com o baixo índice de adesão, a direção da Apeoesp nem propõe mudar o formato da greve (de greve sanitária para greve total), nem a suspender. Decide manter a greve sanitária numa postura que, na aparência, pode parecer corajosa e correta. Porém, ao analisar os fatos, percebemos que a direção do sindicado defende a fraude que ela própria criou.

Após a assembleia do dia 05/02/2021, que aprovou a greve sanitária que iniciaria na semana seguinte, nós, do coletivo Educadores pelo Socialismo, avançamos no diálogo com a categoria, para garantir a maior adesão possível ao movimento, mesmo discordando do método de luta aprovado. Ocorre que um professor da região Norte da capital recebeu o seguinte áudio de “orientação” sobre a greve, no domingo, 07/02/2021, do Conselheiro Israel, eleito pela ArtSind:

“Olá [nome ocultado] boa noite, tudo bom? Tá tudo bem com você? Eu tô bem, graças a Deus. Oh… Deixa eu te falar sobre greve, deixa eu só te dar uma orientada: greve… greve a gente começa com as pessoas que tem mais disponibilidade, entendeu? Que tá mais assegurada, e que pode ir pra luta, e que tenha mais assim oh, segurança… nas consequências. Então, oh, você vê, eu tô sendo muito lúcido com você. Você tem que fazer agora, o que te dá segurança. Se a greve, ela se mantiver, por 1, 2, 3, 4 dias e vim ganhando adesão, aí sim você começa a fazer a análise do seu ponto de vista, do ponto de vista da sua segurança, do seu trabalho, da sua profissão. Tá legal? Nada de precipitação, nada de se doar de uma maneira que ainda não é… ainda não é segurança para você. Tá legal? O que nós estamos querendo é parar tudo. Mas você não é um dos primeiros que deve fazer essa paralisação, tá bom meu nego? Cuidado, cuidado, cuidado. Não quero que você entre jamais, você sabe o tanto que gosto de você, que te admiro, eu não quero que você se coloque jamais em situação de risco da sua profissão tá? Abração [nome ocultado]…” (Fala do Conselheiro Israel, eleito pela Articulação Sindical e militando na subsede Norte da Apeoesp)

Isso é um escândalo! Enquanto nós estamos construindo a greve com toda a firmeza política possível desde o início, a própria direção do sindicato está orientando o desmonte da mobilização. Isso antes mesmo de ter começado. Certamente o caso do Conselheiro não é um isolado e representa o método geral da ArtSind em dirigir os movimentos, o que precisa ser absolutamente rechaçado.

O método exposto no áudio representa o que há de mais atrasado no movimento operário. É a expressão da degeneração burocrática que toma conta da direção do nosso sindicato. O método defendido pelo Conselheiro Israel é o de buscar soluções individuais para os problemas, em detrimento das coletivas. Fazer greve? Se for conveniente, é claro, se for seguro, e isso em detrimento de assembleia e de sindicato. Se todos os trabalhadores seguissem esse método não haveria mais greve e luta no país; seria o genuíno “cada um por si”, que tem consequências trágicas para os trabalhadores. Fazer greve, lutar contra os patrões e governos nunca é seguro, e sempre requer sacrifícios duros para a realização dos embates. Nossa organização coletiva é, a rigor, nossa única arma efetiva. O áudio do conselheiro da ArtSind reflete a falência dessa direção, que não dá qualquer respaldo ao professor que quiser aderir à greve. Respaldo esse que nós e setores da oposição temos conseguido garantir enfrentando as direções escolares que ameaçam a quebra de contrato de professores por conta da adesão à greve.

Como Lenin explicou, na luta por sua emancipação, os trabalhadores não têm outra arma senão sua organização. Essa não é uma frase vazia. Expressa uma realidade: sozinhos os trabalhadores não têm força de negociação contra seus patrões, da mesma forma que individualmente os professores de SP não têm condição nenhuma de luta contra o governo do estado. Nossa única arma é nossa organização coletiva, a defesa da democracia operária, unificando as categorias e os trabalhadores contra nossos opressores.

Com o método defendido pela ArtSind, a direção enfraquece suas instâncias de deliberação, a greve e a autoridade política do próprio sindicato.

Ao invés de confiar na luta coletiva da categoria para resolver o problema maior neste momento, ou seja, impedir o retorno às aulas presenciais, o professor orientado pelo método da ArtSind prefere, por exemplo, negociar sair uma hora mais cedo, ter revezamento dos dias trabalhados presencialmente, fazer busca ativa para não dar aulas presenciais. Optam por realizar todo tipo de acordo oficioso nas escolas que, no máximo, implicam na nostálgica lógica da minimização de danos. Isso é o que resta em casos de ausência total de alternativas, de devastação, terra arrasada, que seguramente não é o caso dos professores do estado de SP, uma categoria com mais 200 mil trabalhadores.

Nós, do coletivo Educadores pelo Socialismo, acreditamos na democracia operária e na necessidade permanente do combate pelo respeito às decisões coletivas nas instâncias da Apeoesp. Mesmo contrários à greve sanitária, aplicamos esse formato de greve, mas combatendo pela greve total em cada assembleia. Isso é respeito à democracia dos trabalhadores.

Ocorre que, após a assembleia do dia 19/02 e dos elementos levantados desde o início dessa greve, confirmamos que a direção do sindicato organizou uma verdadeira fraude: uma greve em que os professores fazem greve e continuam trabalhando ao mesmo tempo. Depois aprovaram a proposta da “greve de Schrödinger”, em que o professor deveria continuar em greve, mas ir às escolas e assinar o ponto. Em seguida, o áudio da presidente da Apeoesp dizendo que não era para assinar o ponto e continuar a greve sanitária, trabalhando só no remoto enquanto seus correlatos, como o Conselheiro Israel, orientavam os professores de base de sua área de influência a assinar o ponto. Ao mesmo tempo, militantes de setores da Oposição, como “Na Escola e Na Luta”, Resistência e PCB furaram a greve sanitária, assinando o ponto, sob o pretexto de que era isso que havia sido aprovado na assembleia de 12/02. Os professores não aderem à greve sanitária porque sabem que é fraudulenta, que tanto a direção quanto as lideranças da oposição estão furando a greve e que isso não vai levar a nada. Por outro lado, vemos que na rede municipal de São Paulo, por exemplo, mesmo com uma direção sindical também bastante pelega, por ter sido aprovada a greve total, há mais de 70% de adesão dos professores à greve. No estado, nós do coletivo Educadores Pelo Socialismo estamos nos mantendo firme, fazendo a greve sanitária como foi aprovada, sem assinar o ponto e discutindo com os professores, visitando escolas e formando comandos de greve. Mas, se fazemos isso sozinhos, não adianta nada.

Está na hora de acabar com essa sem-vergonhice! Como forma de melhor organizar a categoria para os próximos embates que virão, defenderemos na próxima assembleia a suspensão dessa greve fraudulenta e a aprovação da greve total como única forma de luta para defender as vidas dos professores diante da pandemia. Se a assembleia for esvaziada, expressão e resultado da fraude organizada pela direção do sindicato, defendemos medidas para a construção da greve total, com uma nova assembleia a cada semana para definir os rumos do movimento. Mas a fraude da greve sanitária deve acabar imediatamente! Continuar com isso só levará à desmoralização da categoria e à derrota. Com essa fraude organizada pelos dirigentes da ArtSind e de parte da Oposição, a direção da Apeoesp é cúmplice do Governo João Doria pelas mortes dos professores que virão com o aprofundamento do contágio devido ao retorno das aulas presenciais!

  • Abaixo a fraude e manipulação da direção da Apeoesp! Por uma Greve Total!
  • Aulas presenciais só com vacina para todos!
  • Fora Doria! Fora Bolsonaro!
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