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O movimento Afropaty e a degeneração política da luta antirracista no capitalismo

Não é novidade que o capitalismo tem ao longo dos séculos achado formas institucionais de escamotear o racismo utilizando-o como elemento indispensável à desagregação do conjunto da classe trabalhadora. Se por um lado, a burguesia reacionária tem sido muito hábil em propor “políticas de reparação” calcadas no individualismo, por outro, as direções dos movimentos negros têm trocado diariamente a luta política por meio do combate coletivo ao sistema que perpetua todas as formas de exploração e segregação; por políticas integracionistas para a população negra, em colaboração com a burguesia.

A deformidade das táticas antirracistas no presente; se expressa de várias formas e arrasta especialmente a juventude negra para uma ineficiência de combate desastrosa. O identitarismo, ancorado especialmente no ambiente acadêmico, tem pavimentado um desserviço ao entendimento histórico de que o racismo é um sistema de exploração próprio do capitalismo, disfarçado, no Brasil, de “democracia racial” e que, essencialmente, para pormos fim a um é preciso aniquilar o outro. Essa é a perspectiva que tem sido escamoteada da juventude negra e, em contrapartida, falsas expectativas têm sido difundidas como estratégias de integração, colocando a juventude negra em movimento para que efetivamente não saia do lugar.

A manipulação histórica também se revela ao se reafirmar constantemente que o racismo é a expressão de um pensamento branco, eurocêntrico, ocidental e machista, subtraindo o fato incontestável que ele é essencialmente um fenômeno do capitalismo. A tarefa de disfarçar, diluir o racismo, torná-lo mais palatável, combatendo as opressões de forma individualizada, é justamente encampada pela perspectiva de colocar em prática ações que “humanizem” o capitalismo tornando-o mais “inclusivo”.

É exatamente ao encontro dessa filosofia que movimentos como o “Afropaty” levantam suas bandeiras, reivindicando representatividade em espaços majoritariamente ocupados pela burguesia e pequena burguesia. O movimento Afropaty, ou pretas patrícias, tem como foco, de acordo com suas adeptas, “o empoderamento intelectual, emocional e financeiro, é a atitude da preta que venceu na vida, é o combate à perspectiva racista de que mulher preta precisa ser sofrida”.

A ascensão das mulheres negras a uma nova camada social, em lugares de destaque e a bens de consumo, entra na esteira da propalada disputa de narrativas sobre a população negra, seu estilo de vida e estética.

É bem verdade que os estigmas deterioram as identidades. Tanto a autoimagem, quanto a consciência de pertencimento a um grupo ou classe social podem ser distorcidos pelos evidentes efeitos gerados pelas opressões de um sistema cujo objetivo é desagregar as relações sociais.

Mas é importante pensarmos, sobre o que faz essas mulheres pretas acreditarem que o acesso de uma parcela ínfima de negros a determinados bens de consumo, a criação de um mercado capitalista de negros para negros,  é uma atitude antirracista eficiente contra a miséria e a barbárie que assola a nossa classe, no Brasil e no mundo. 

Talvez o problema seja exatamente o fato de, uma vez mais, não estarem pensando no conjunto, mas em formas individuais de se sentirem pertencentes e aceitas em um outro grupo social. Nesse sentido, a ausência da perspectiva marxista e materialista histórica, desemboca na falta de senso de realidade e na ausência de um horizonte de superação de um modelo econômico que atira diariamente milhares a barbárie.

O movimento Afropaty é mais um movimento de discriminação afirmativa, que incentiva a formação de guetos culturais e degenera os objetivos do movimento negro dentro da luta de classes. O que aparentemente é mal interpretado como resistência, na verdade segmenta e divide ainda mais o conjunto, fazendo crer que a nossa disputa com o Estado opressor se dará no campo das “narrativas” e do mundo simbólico, e não da revolução social.

Nesse sentido, na arena de combate contra o capitalismo e seus efeitos, quando o nosso pelotão se apresenta para reivindicar por trabalho igual, salário igual, serviços públicos gratuitos e para todos, previdência solidária, reestatizações, universidade pública e gratuita para todos, pelo não pagamento da dívida pública e pelo fim da PM e de toda a polícia racista, entre outras pautas, pouco importa como nossos camaradas estão trajados, qual a sua orientação de gênero ou religiosa.

Da mesma forma, não se trata aqui de ignorar o desejo legítimo de cada jovem negro melhorar suas condições de vida no capitalismo, mas o equívoco nesse caso está no completo esvaziamento político e coletivo do movimento. Também não se trata de uma discussão moral sobre o estudante que precisa se utilizar de políticas afirmativas para estudar ou de trabalhadores negros especializados que tenham melhores condições de vida. Todo trabalhador, independente de sua cor, deve ter o direito de usufruir de tudo que é produzido pela sua classe, seja do ponto de vista cultural ou material. Mas a distorção desse movimento está justamente na substituição da luta coletiva em defesa da emancipação de toda a classe pelo simbolismo do “empoderamento” de uma minoria.

Ao reivindicar o alpinismo social para uma fração ínfima de negros, uma das deformações mais evidentes desse tipo de movimento é ignorar seus irmãos e irmãs pretos, continuam sendo massacrados aos punhados diariamente pelas mãos assassinas da polícia. A polícia racista brasileira é a que mais mata no mundo, de forma que definitivamente, não será pelo apelo estético que sairemos desse sistema brutal. Portanto, para os comunistas a promoção da igualdade e a luta antirracista é uma pauta muito séria e ela corre inegociavelmente na esfera da luta de classes.