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Brasil blindado, marolinha, PIB zero… Para onde vamos?

O governo Lula é incapaz de compreender a crise porque acredita no capitalismo. O 3º Congresso do PT aprovou que a tarefa do governo é ‘criar o mercado interno que dê dinamismo ao capitalismo brasileiro e promova outro tipo de reforma’. Trágica fantasia!

O editorial do Jornal Luta de Classes nº 05, de Setembro de 2007, sob o título Lula, Mantega e o capitalismo num só país, explicava:

“Como previmos na Resolução Política da Conferência da Esquerda Marxista, em Abril, a crise norte-americana começou com a explosão da bolha imobiliária e já atinge todo o mundo. Que ninguém se engane.
As declarações de Lula e Mantega garantindo a “blindagem” do Brasil por causa da enorme disponibilidade de dólares em caixa são apenas bobagens e discurso para tentar acalmar o mercado. Não há “capitalismo em um só país”. O capitalismo é um sistema mundial único e os EUA, ao mesmo tempo em que concentram em si toda a força, integram também em si mesmo todas as contradições e perigos da bancarrota deste sistema social miserável.”

Foi a época da incrível frase “A crise é do Bush”. O que além de demonstrar uma total incompreensão do que estava ocorrendo, mostrava um interessante – mas não muito digno – método de trabalho. Lula deveria dizer “companheiro Bush”, como falou diversas vezes durante seus encontros amigáveis enquanto o dinheiro internacional entrava em cascata no Brasil. E no mínimo ser solidário com o companheiro. Mas, já se sabe que solidariedade não é forte de Lula. Que o digam Zé Dirceu, Genoíno, Delúbio e outros.

Na Assembléia Geral da ONU, segundo toda a imprensa, “Depois de ter acusado os países ricos de praticarem ‘populismo nacionalista’ e de ter dito que o sistema financeiro mundial investiu em uma ‘jogatina’ que resultou na atual turbulência econômica, Lula se despediu de Nova York e de sua temporada na Assembléia Geral da ONU, ‘decretando’ o fim da era neoliberal.” (BBC Brasil, 25/09/2008). A crítica ao dito “populismo nacionalista” (proteção de mercados nacionais) é de direita e de um adepto fanático do “livre marcado”, que nada mais é que latifúndio planetário sem porteiras para as multinacionais.

Para os especuladores Lula é Nota 10!

Mas, se tem razão sobre a “jogatina” do sistema financeiro mundial o espantoso é que aqui ele fez exatamente a mesma coisa o tempo todo. E sustenta esta jogatina com os juros mais altos do mundo. No jornal Luta de Classes nº 9, abril/08, explicamos: “ ‘Foi apostando que o dólar ficaria barato contra o real que o maior investidor do mundo ficou ainda mais rico. O americano Warren Buffett passou os últimos seis anos comprando a moeda brasileira e anunciou, nesta sexta-feira (29), um lucro de R$ 4 bilhões.’ (O Globo, 1/03/08). Seis anos de governo Lula em coalizão com os partidos capitalistas. ‘Os bancos estrangeiros lucraram R$ 13,56 bilhões no Brasil em 2007 –uma alta de 160% sobre o ano anterior — em um momento que as matrizes vivem em estado de alerta por causa da recente crise financeira nos Estados Unidos’, informa a Folha de SP, em 22/03/08. Ou seja, o comandante do cassino tupiniquim é o próprio governo.”

Quando a violência da crise começou a se espalhar pelo mundo, Lula já não podia defender sua estranha concepção de economia. Então, em outubro de 2008, Lula e seus brilhantes assessores descobriram que o tsunami que varria o planeta ia chegar ao Brasil só como uma “marolinha”. Mas como o seguro morreu de velho, anuncia uma injeção de mais de R$160 bilhões nos bancos e nas multinacionais. O dobro do Orçamento Federal para Saúde e Educação.

Depois Lula decretou o fim da crise declarando que “no Brasil, ao contrário dos outros países, não haverá recessão”. Então o IBGE divulgou que “A indústria brasileira registrou queda de 18,2% na produção no período de quatro meses, a partir dos resultados de outubro de 2008 a janeiro deste ano”. (Agência Estado, 06/03/2009).

Milhões de demitidos com o apoio do governo

Só em dezembro foram perdidos 654 mil empregos. E as demissões continuaram sem que qualquer patrão desse a menor bola para as “análises” fantasiosas do governo Lula ou para seus patéticos apelos a que o povo “continue comprando para não parar a economia”. Os capitalistas são bem realistas.

A Embraer demitiu sumariamente 4.200 operários e Lula declarou estar indignado. Depois recebeu a diretoria da empresa e disse “compreender” a atitude. E o mais escandaloso é que a Embraer privatizada está sob controle de vários Fundos de Pensão que o governo controla, entre eles a PREVI (Banco do Brasil).

Lula também “compreendeu” que a Vale feche minas e demita 1.300 trabalhadores. A gestão da Vale está entregue ao Bradesco, mas o controle acionário da empresa está nas mãos dos fundos de pensão estatais, entre eles a Previ. Só a Previ detém 15% do capital total e 30% do capital votante da Vale. Na Embraer ela tem 13% do capital total. A Previ lucrou com a Vale R$873 milhões em 2008. Com a Embraer lucrou R$61 milhões no mesmo período.

A Dança do PIB

Então, Mantega e Lula começaram a espalhar que o PIB brasileiro ia crescer 4% em 2009. Agora em Março o IBGE divulga uma queda de 3,6% do PIB brasileiro em Dezembro de 2008. Começam todos a falar em PIB zero. Mas, o incrível Lula volta à carga e declara que não haverá recessão e que teremos PIB positivo em 2009. Seu conselheiro Delfin Neto (ex-ministro da Agricultura e depois do Planejamento durante a ditadura militar) sai a campo dizendo que “O Brasil vai crescer 1,5 ou 2%”. Mas a verdade é que uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria mostra que 54% das empresas já demitiram e 36% vão cortar mais. Ou seja, 90% das empresas do país!

O banco Morgan Stanley previu, em 15/03/2009, que o PIB brasileiro em 2009 será negativo em 4,5%. Lula ironizou: “Esses bancos não acertam nem a situação deles”. E Lula, acerta?

Estatização entra no cardápio?

Lula disse, em 2003, aos trabalhadores da Cipla que não podia salvar os empregos porque “estatização não está no cardápio”. Agora, vamos ver o que diz Lula em discurso na abertura de um Seminário Internacional sobre Desenvolvimento realizado dia 05/03/2009 em Brasília:

“Será que os países ricos vão continuar apenas colocando dinheiro com o intuito de salvar os bancos ou será que algum país terá coragem de, sem medo da palavra, estatizar os bancos, recuperá-los e fazer voltar o crédito?”

Esta declaração mostra que Lula está começando a preparar a situação para uma eventual correção de rumo. Mas, quando fala em estatizar é para depois devolver os bancos saneados aos capitalistas assim que a ressaca passar. Para Lula não se trata de uma ruptura com o capital, mas apenas de impedir que o edifício desmonte. É o que surge muito claramente de suas declarações sobre o que fazer na atual situação mundial. Este foi o centro de suas discussões com Obama em 14/03/2009, na Casa Branca.

Lula estava feliz porque EUA e Brasil acordaram de criar um grupo para apresentar uma proposta conjunta à reunião do G-20, em 2 de abril.

Tentando curar um monstro

Mas, é incrível que alguém possa pensar a sério que vai realmente elaborar em conjunto com o governo dos Estados Unidos uma proposta para a crise. Estas propostas serão apenas as atuais propostas do governo imperialista de Obama, de uma pretensa “regulação internacional do mercado financeiro” e “mais transparência”. Ora, isto é só outra tentativa de semear ilusões e vender fantasias. O mercado financeiro capitalista é uma fonte inata e crônica de crimes e de trapaças. É só assim que criminosos e agiotas podem sobreviver, pouco importa se eles são legalizados ou marginais. É impossível este mercado ser “transparente” por definição, pois os ganhos fabulosos deste mercado estão embutidos no controle de informações, na feitura de leis adequadas, na apropriação de recursos públicos, etc. Hoje no mundo este mercado de papéis que não correspondem à riqueza real monta a 600 trilhões de dólares, enquanto o PIB mundial não passa de 60 trilhões. Como regular sem desmontar esta montanha de ficção?

O que Lula deveria compreender se quisesse continuar fiel à sua própria classe é que não há saída no capitalismo. Para avançar socialmente é preciso libertar a sociedade do regime da propriedade privada dos meios de produção. É preciso romper a colaboração de classe com a burguesia, expulsar os capitalistas do governo, apoiar-se na mobilização popular e atender as mais sentidas reivindicações populares. É preciso barrar as demissões, fazer a reforma Agrária, estatizar os bancos, as multinacionais e grandes empresas, garantir Saúde e Educação pública para todos, revogar a Reforma da Previdência, re-estatizar todas as empresas e serviços privatizados. E só a organização socialista da luta de classes do proletariado pode fazer isto.

É hora de explicar aos trabalhadores que o capitalismo traz a guerra e o sofrimento como a nuvem traz a tempestade. Contra a anarquia e caos, contra as crises permanentes do regime da propriedade privada dos grandes meios de produção, contra as conseqüências de uma economia baseada na busca do lucro, a saída é a conquista de um regime baseado na propriedade coletiva e socialista. Um regime socialista com uma economia planificada segundo as necessidades e o interesse do povo trabalhador e controlada democraticamente pelos trabalhadores.

É hora de ser realista! É hora de ser revolucionário e socialista. É hora de virar à esquerda e reatar com a luta pelo socialismo!

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