Lições de Abril

Em 1974, Portugal vivia sob o jugo de uma ditadura e era um país pobre, isolado e em guerra. Sete grupos econômicos controlavam a economia do país. Cansados da guerra e temendo vir a ser responsabilizados pela derrota, os Capitães (cerca de 300 militares) impulsionados por uma questão reivindicativa, evoluíram muito rapidamente para a oposição e conspiração contra a guerra e o regime. Que tudo se tenha passado numa questão de meses foi fruto do apodrecimento do regime. 

No dia 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas (MFA) protagonizou um golpe de Estado que o povo transformou imediatamente numa revolução. Com efeito, foi a mobilização popular que garantiu, na prática, na rua e nos dias seguintes, a instauração efetiva das liberdades políticas e sindicais, tal como as confraternizações dos soldados com os guerrilheiros na África traçaram, desde logo, um destino à guerra colonial. Em defesa do regime, praticamente não houve ninguém. Foi mesmo uma das revoluções mais pacíficas da história. Dias depois, as manifestações do 1º de Maio contando com a participação de milhões de trabalhadores irmanados com soldados e marinheiros foram uma eloquente consagração da revolução. 

Rapidamente a agitação social e a questão da guerra colonial sairiam fora de controle. Logo após o 1º de Maio, o país conheceu a sua maior onda de greves. Tinham sido 48 anos de repressão e exploração selvagem e agora os trabalhadores aproveitavam a liberdade recém-conquistada para tomar para si aquilo que consideravam justo: melhores salários, melhores condições de trabalho, e varrer os usurários e fascistas. Greves, manifestações, ocupações e até sequestros de administradores foram utilizados como armas deste movimento espontâneo e explosivo, dirigido muitas vezes por comissões de trabalhadores criadas ad hoc nas empresas. 

Para os capitalistas isto era um pesadelo, mas nada podiam fazer. Não obstante os discursos de Spínola (general a quem o MFA entregara o poder) condenando “os atentados à hierarquia”, as greves e conflitos laborais sucediam-se e, ao cabo de algumas semanas, o movimento operário arrancava do governo e dos patrões conquistas históricas como os aumentos médios de 30% dos salários, a criação de um o salário mínimo nacional que abrangeu cerca de 50% dos trabalhadores – para muitos significou um aumento das remunerações de 100%! Igualmente conquistados foram o mês de férias com subsídio de 100%, a redução das jornadas de trabalho ou o subsídio de Natal para os aposentados. 

A revolução revolvia as profundezas do país: populações de bairros proletários ocupavam casas; os nomes das ruas eram alterados; as empregadas domésticas organizavam um sindicato; os cinemas enchiam-se com público ávido de assistir aos filmes até então proibidos; os estudantes rebelavam-se contra os exames;  cantores de intervenção propunham-se cantar a revolução cultural; agitava-se uma comissão pró-divórcio e organizavam-se partidos políticos das mais variadas tendências; enfim, o movimento popular, fazia a revolução. 

Já nas colônias reinava entre as tropas portuguesas a confraternização com o “inimigo”, o desejo de regressar e de se conceder o imediato direito de autodeterminação aos povos africanos. Em Moçambique, por exemplo, no fim de julho, o batalhão de Vila Paiva de Andrade comunicou ao seu Quartel-general que já tinha terminado a sua comissão de guerra e iria regressar a Portugal, estando disposto a abrir fogo sobre quem tentasse detê-lo! Mas foi na Guiné (onde a guerra tinha sido mais dura) que estes sentimentos se expressaram melhor. Em 29 de abril, mais de mil oficiais, sargentos e praças milicianos subscreveram um comunicado no qual exigiam a autodeterminação do povo guinéu e o estabelecimento de negociações com o PAIGC – único interlocutor válido para eles – exigindo o regresso de todos os soldados. Também no Ultramar, o ímpeto vindo de baixo era determinante 

Spínola fora um homem do regime que cedo percebeu ser necessário encontrar uma solução política para uma guerra impossível de ganhar. Após o golpe, assumiu a presidência da República com o assentimento do MFA e o júbilo dos grandes capitalistas: ali estava o novo “De Gaulle” que não deixaria cair o poder na rua. Não estava nos seus planos (nos planos da burguesia portuguesa) entregar a “África portuguesa” aos africanos… Tinham planos neocolonialistas de formação de uma “federação lusíada”, espécie de Commonwealth, na qual os grandes grupos econômicos continuariam com os seus interesses incólumes! Todavia, essas quimeras seriam frustradas pela indisciplina no exército, pela luta dos povos africanos e pelo “caos social” na metrópole.  

Tentando evitar o inevitável, Spínola lançou-se primeiro num golpe palaciano em Julho (contrariado pelos Capitães) e depois procurou apelar à mobilização das reservas sociais da reação: O 28 de Setembro nasceu como tentativa de pôr fim ao “caos” na metrópole e segurar Angola, a “joia da coroa” do império, ou pelo menos de entregá-la aos movimentos pró-capitalistas (UNITA e FNLA). Foi assim convocada uma manifestação da “maioria silenciosa”, financiada pela oligarquia empresarial e tendo como objetivo criar uma gigantesca provocação na Lisboa vermelha, o que permitiria a Spínola o pretexto para que, no meio da “anarquia”, pudesse proclamar o “Estado de Sítio”, assumindo plenos poderes.  

A manifestação foi abortada na véspera quando comunistas, socialistas e militantes de outras organizações de esquerda se mobilizaram e ergueram barricadas nos acessos a Lisboa, montando postos de vigilância por todo o país. Nessas barragens foram sendo descobertas nas viaturas dos “manifestantes” mocas, caçadeiras e todo o tipo de armas com que a “maioria silenciosa” pretendia ruidosamente mostrar o seu protesto.  

A mobilização operária e popular voltara a ser determinante, tal como em 25 de Abril. Enquanto os mais graduados oficiais do MFA, muito disciplinadamente, se deixaram deter no Palácio de Belém às ordens de Spínola…. nessas horas, sem uma efetiva direção político-militar, o MFA foi a reboque do movimento popular que salvou o dia! No fim, vencido, Spínola teve de resignar à presidência. 

Com o general afastado, os militares do MFA eram agora (efetivamente) chamados a dirigir o Estado e a revolução. Como o fariam? Para responder é necessário recordar a caracterização marxista do Estado: o Estado é um instrumento de opressão de uma classe por outra. Mas isto é o abc! E há outras letras no alfabeto: em certos períodos, quando a luta de classes se encontra num ponto de equilíbrio tal que, a classe dominante já não é capaz de continuar a governar com os velhos métodos, mas a classe ascendente ainda não está em condições de derrubá-la, a tendência do Estado de separar-se da sociedade e adquirir cada vez maior independência, agudiza-se. Dá-se um fenômeno que temos visto muitas vezes ao longo da história: o “cesarismo” no período de decadência da república romana, o regime da monarquia absoluta na última etapa do feudalismo e o “bonapartismo” na época contemporânea.  

Em todas estas variantes, o Estado – o “executivo”- eleva-se acima da sociedade, emancipando-se de todo o tipo de controle, inclusive da classe dominante. O MFA formara-se como movimento clandestino dentro das forças armadas da ditadura. Mas derrubado o regime, os militares não tinham regressado tranquilamente aos quartéis: tinham feito o 25 de Abril e tinham uma palavra a dizer. 

E se os militares influenciavam o curso da revolução, eram eles próprios também radicalizados pelo processo político, pela confraternização com as massas, não apenas nas grandes jornadas, mas também nas pequenas lutas do dia-a-dia, fosse quando eram chamados para “acalmar os ânimos” e manter a ordem, fosse até para arbitrar os conflitos laborais. Isto teve um efeito enorme sobre soldados e oficiais que, muitas vezes contra a legalidade burguesa e contra a vontade da hierarquia militar ou as ordens do governo, se colocaram ao lado dos trabalhadores e das suas lutas.  

No dia 25 de Abril o regime caíra sem que ninguém estivesse na disposição de lutar por ele. A reação não possuía, então, qualquer apoio significativo e até os partidos burgueses como o PPD e o CDS, recém-criados, viram-se obrigados a falar em “socialismo”!  Contudo, ao invés de organizarem a tomada do poder pelos trabalhadores, os seus partidos, quer o Partido Socialista (PS), quer o Partido Comunista Português (PCP), entraram no governo provisório para colaborarem na “construção da democracia” e moderarem as exigências dos trabalhadores, em nome da “aliança antifascista” com a burguesia dita “liberal”.  

Tantos os dirigentes comunistas como os socialistas, justificavam a sua política de aliança com os setores “moderados” e “liberais” da burguesia, com o argumento de que, no momento atual dever-se-ia derrotar o fascismo e assegurar a democratização do país: primeiro a revolução democrática e só depois da revolução socialista. Com isto – diziam – seria possível assegurar o apoio das classes médias, isolando os fascistas. Tanto o PS como o PCP dividiam o seu programa político entre o que poderíamos chamar de “propostas mínimas” e “propostas máximas”. As primeiras, “pragmáticas”, eram aquelas que os seus dirigentes entendiam ser realisticamente aplicáveis “no momento atual” à situação portuguesa como forma de vencer a crise; as segundas, eram aquele conjunto de propostas como a expropriação dos grandes capitalistas, o socialismo e a sociedade sem classes, que eram belas ideias, mas que ficavam, invariavelmente, sem hora nem dia marcados.  

Todavia, cada vez mais vastos setores das classes trabalhadoras começavam a exigir uma transformação radical não para dali a vinte anos, mas para o “momento atual”. Nos anos 70 o capitalismo internacional viveu a sua maior crise desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Ameaçados pelas demissões e fechamento de empresas, os trabalhadores assumiam a sua gestão. Mais de mil funcionarão sob controle operário ao longo de 75. Contudo, era o apelo da nacionalização que mais adesão ia colhendo como solução para a crise nas empresas, mas também como arma política contra os inimigos da revolução. No dia 2 de janeiro de 75, por exemplo, a Assembleia-Geral do Sindicato dos Bancários em Lisboa exigia ao governo a nacionalização do setor como forma de “defender os interesses do povo português contra o imperialismo e os latifundiários”. Por outro lado, as ocupações das propriedades no Alentejo tornavam-se a resposta dos camponeses à constante violação pelos latifundiários dos acordos assinados com os trabalhadores e a sabotagem da produção, como o demonstrava a luta do Monte de Outeiro, a primeira propriedade ocupada em dezembro de 1974. 

Assim, o novo surto grevista que precedeu o 11 de março de 1975 foi marcado por características bem diferentes das lutas dos primeiros meses, porque batalhões inteiros da classe trabalhadora tinham chegado a essa formidável conclusão que, para conseguirem manter os avanços sociais da revolução, esta tinha de ir até o fim, até à expropriação dos capitalistas! Mas que propunham o MFA e as direções dos partidos de esquerda? Tímidas propostas de regulação e intervenção econômica do Estado que não punham em causa a natureza do capitalismo português (mereceram até a aprovação do patronato!) e que foram apresentadas em Fevereiro de 75 no chamado “Plano Melo Antunes“ –  o militar que o organizara. O Plano, porém, rapidamente acabaria na lata do lixo da história! 

Foi neste contexto que Spínola (já afastado da presidência) tentou um golpe de Estado.  Ele nem sequer contava com o apoio de unidades que sabia serem decisivas e as poucas forças que responderam ao apelo de sedição rapidamente se esfumaram, cercadas pelos populares que, à semelhança do 28 de Setembro, saíram à rua em defesa da revolução e derrotaram o golpe em poucas horas. Uma vez mais, a mobilização operária tombava a vitória para o campo da esquerda militar. Do terceiro malogro spinolista resultou a institucionalização do MFA, a viragem à esquerda dum novo governo provisório e a adoção de medidas socializantes como as nacionalizações. 

Marx costumava dizer que, por vezes, a revolução necessita do “chicote” da contrarrevolução, isto é: por vezes, numa situação de impasse, as tentativas da burguesia para travar a revolução apenas redundam numa maior radicalização do processo. Foi o que sucedeu em Portugal! 

Ao contrário do que os líderes de esquerda julgavam, os trabalhadores provaram que não era necessário esperar anos ou gerações, mas apenas algumas horas para se tomarem medidas sérias que estancassem a crise e desarmassem os capitalistas que insistiam em aventuras golpistas contra a revolução. Em 11 de março de 75 os bancários decidiram entrar em greve, ocupar os bancos, congelar a movimentação de capitais e fixar na fachada das dependências bancárias grandes cartazes proclamando “Banco do Povo” ao mesmo tempo que exigiram a sua nacionalização sob pena de não os reabrirem! 

Eles sabiam, através da movimentação de capitais, quem sabotava, quem conspirava, quem tentava destruir a revolução… Não houve clemência ou indenizações. Depois dos bancos foi a vez dos seguros e uma vez que os bancos e os seguros possuíam ou tinham participação numa série de empresas básicas do país, a sua total expropriação tornou-se não só mais simples, como absolutamente lógica. Simultaneamente, como já referido, o controle operária se alastrava entre muitas pequenas e médias empresas e nos campos do Sul a Reforma Agrária avançava pela pressão vinda de baixo, dos camponeses que, para salvarem empregos, ferramentas agrícolas, gado e colheitas, tinham de ocupar as terras e travar a sabotagem dos latifundiários. Um pouco por todo o país, sobretudo na Lisboa Vermelha e no Alentejo, existiam centenas se não milhares de comissões de trabalhadores, moradores e soldados, criadas para coordenar as lutas! Eram os embriões dos sovietes, mas nenhum partido de massas levantou como bandeira a unificação das mesmas a nível local, regional e nacional, como órgãos não apenas de luta, mas de gestão dos quotidianos do trabalho e das atividades da classe trabalhadora; órgãos de defesa da revolução sob permanentemente controle operário. 

Contudo, não se tocou no capital externo de modo a evitar represálias internacionais e muitas empresas nacionais importantes não seriam nacionalizadas. Também nunca existiu uma planificação da atividade econômica democraticamente decidida. As empresas nacionalizadas continuaram e funcionar num sistema de “livre concorrência”, segundo as regras da economia capitalista, sem coordenarem esforços nem geridas pelos seus trabalhadores. O 11 de Março não resultou em uma “economia socialista”: o peso da intervenção e do setor estatal na economia ficou em linha com o que sucedia, na época, em países como a França. Mas (e era um “mas” muito importante) as nacionalizações tinham sido tomadas em circunstâncias revolucionárias… 

Os militares, mesmo os mais radicais, julgavam que o socialismo era um objetivo a ser atingido dali a muitos anos. Com o 11 de março tinham visto as suas carreiras e vidas em jogo e, mais uma vez, era evidente a cumplicidade dos grandes capitalistas com os golpistas. Então, os militares do MFA – cuja legitimidade lhes era conferida pelo seu papel libertador no 25 de Abril e pela sua capacidade de entender as aspirações do povo – tomaram as medidas “socializantes” que os trabalhadores exigiam.  

As eleições à Assembleia Constituinte decorreram no primeiro aniversário da revolução. Participaram mais de 90% dos eleitores e o PS foi o grande vencedor com 37,9% dos votos, seguido pelo PPD com 26,4% e só depois o PCP com 12,5%. Os socialistas venciam até na “Lisboa vermelha”. O PCP ficou à frente apenas em Beja. Surgia uma divisão entre o Sul e um Norte mais conservador, mas a esquerda (PS + PCP + MDP + extrema-esquerda) vencia por ampla margem: cerca de dois terços dos votos, somados os “votos em branco no MFA”. 

A esquerda vencera as eleições, mas dentro da esquerda, as diferenças políticas eram tão grandes como as distâncias eleitorais. Primeiro saltava à vista o fraco resultado do PCP. No início da revolução, o PCP possuía todos os trunfos: tinha o prestígio da luta antifascista, uma organização com milhares de militantes, quadros experientes e uma estrutura nacional, hegemonizava o movimento sindical e contava com cumplicidades no seio das Forças Armadas (possuía uma organização militar clandestina). O stalinismo, contudo, já não possuía o prestígio e a autoridade política do imediato pós-segunda guerra e, ao contrário de França ou Itália, o PCP não iria tornar-se no partido hegemônico da esquerda. 

No início da revolução PS e PCP foram chamados ao governo provisório em coligação com a burguesia liberal do PPD, sob a “asa protetora” de Spínola para serem responsabilizados pelas políticas do governo provisório, chamados a controlar o “caos social” e o “irrealismo” do proletariado. Porém, tendo apenas o PCP uma real influência junto da classe foi (sobretudo) este partido a arcar com o ônus de moderar e travar os “excessos”, sucedendo-se, durante a primeira vaga de greves em maio/junho de 74, as denúncias do PCP contra o que chamava de “greves selvagens” que “faziam o jogo da reação” e eram organizadas por fascistas que queriam desestabilizar o governo provisório. Já a direção do PS, refundado em 1973 com umas duas centenas de militantes, sem grandes vínculos orgânicos à classe trabalhadora estava com mãos livres para inicialmente, com oportunismo, ultrapassar pela esquerda o PCP (ao menos a nível da retórica) agitando um programa bastante radical como o controle operário e as nacionalizações, a par da defesa das liberdades políticas. 

Foi o caso da proposta da Lei da Greve apresentada em agosto de 74 pelo governo provisório que proibia as greves políticas, de solidariedade e interprofissionais, impunha um pré-aviso de 37 (!) dias e permitia (na prática) o lock-out dos patrões. Para mais, manifestações só se poderiam realizar aos dias úteis depois das 19 e aos sábados depois das 13 horas. Apesar de estar também no governo, o PS veio publicamente criticar a Lei, vendo-se o PCP sozinho a defender a Lei da Greve mais restritiva da Europa Ocidental (excetuando a Espanha franquista).   

Ainda no plano sindical, novo choque com a Lei da Unicidade Sindical que consagrava a obrigatoriedade de uma Central Sindical única. Enquanto o PCP defendia o princípio da “unicidade”, isto é a existência de uma única Central Sindical consagrada legalmente, o PS protestou contra a lei argumentando que:

“se por via de um decreto se impõe um sindicato único e uma confederação sindical única, pela mesma lógica amanhã se poderá impor um partido único, uma imprensa única, uma lista única de candidatos à Assembleia Legislativa…”  

Mas só após as eleições à Constituinte é que a ruptura se consumaria. Até ao ato eleitoral vigorava uma legitimidade revolucionária: dos capitães do MFA, dos bancários que ocupavam bancos, dos camponeses que ocupavam terras ou das populações de favelas que ocupavam casas. Depois das eleições a par da legitimidade revolucionária, da ação direta das massas fazendo a revolução, emergia uma legitimidade eleitoral que colocava em cima da mesa a necessidade de se respeitar a vontade expressa pela maioria eleitoral. 

Para o Conselho da Revolução os resultados eleitorais afirmavam, “a firme determinação do povo português em caminhar para o socialismo”, mas isso pressupunha a disponibilidade das direções comunista e socialista o desejarem, de fato, e de se aliarem nesse propósito.  

Quando em 19 de maio a comissão de trabalhadores do República expulsou a direção do jornal ligada ao PS, acusada de prestar um mau serviço à revolução, a crise precipitou-se. Os trabalhadores do República eram não do PCP, mas da extrema-esquerda maoista. Todavia, para os líderes do PS, esse pormenor não iria estragar uma boa narrativa. E o PS, culpando o PCP, protestou que o partido mais votado pela classe trabalhadora não podia ser silenciado ou expulso de seu jornal! A crise do República arrastou-se durante semanas, conduzindo à saída do PS do governo provisório em julho de 1975. 

Os trabalhadores tinham-se mantido unidos nas mais importantes jornadas como no 28 de setembro e 11 de março. Agora, porém, a classe surgia politicamente dividida: a crescente hostilidade entre socialistas e comunistas condenava os trabalhadores à desorientação e inação numa altura em que setores da pequena-burguesia exigiam ordem e disciplina. Com o movimento operário dividido, todos aqueles que se opunham à revolução, mas não tinham tido coragem e força para se manifestar, entraram em cena. Durante os meses seguintes, o terrorismo da extrema-direita, auxiliado pela Igreja e com ramificações aos “partidos democráticos”, colocou o país a ferro e fogo, com atentados, ataques a militantes de esquerda e uma onda de assaltos às sedes comunistas e da Intersindical no centro e Norte do país.  

E o MFA? Dividiu-se em linhas de classe: alguns oficiais tombaram titubeantes para o lado do proletariado, mas a maioria passou-se decididamente para o lado da burguesia! Até aqui, o MFA tinha-se apoiado no movimento popular para resistir aos golpes da reação, mas não podia ficar imune ao conflito de classes que estava dividindo o país. Em agosto de 75, foi apresentado o “Documento dos Nove” (assinado por 80% dos oficiais do Exército contra o “anarco-populismo”). E nos primeiros dias de setembro de 1975, deu-se uma profunda recomposição dos órgãos do MFA, conferindo ao Conselho da Revolução uma maioria clara de moderados.  

A conquista de uma maioria colegial pelos moderados no MFA era importante, mas insuficiente. Os radicais controlavam ainda importantes forças militares e a insubordinação se alastrava pela base com a criação dos Soldados Unidos Vencerão que exigiam a expulsão dos oficiais reacionários dos quartéis e a destruição do exército burguês.  

No plano civil, o 6º governo repartia agora as pastas de acordo com a influência eleitoral dos partidos. O PS e o PPD eram dominantes e o PCP fazia-se representar com um só ministro, tendo um pé dentro do governo e outro em cada manifestação contra a sua política. A tática dos comunistas era utilizar a luta de massas para provocar uma nova remodelação governamental da qual saísse mais favorecido, tal como acontecera em anteriores remodelações!  

Com o novo governo ficou claro que iria ser levar a cabo uma política abertamente contrarrevolucionária. O socialismo era ainda a “meta” oficialmente perseguida, mas contra a crise exigia disciplina e a austeridade. Isso iria encontrar – e encontrou – enorme resistência dos trabalhadores, até porque a dualidade de poder que existia no seio das Forças Armadas, dava à burguesia um instrumento seguro para poder reprimir o movimento operário e popular que, sob o guarda-chuva protetor das unidades militares de esquerda, poderia imprimir uma radicalidade na contestação às políticas pró-capitalistas do governo, pondo em xeque a “normalidade democrático-burguesa” pretendida. 

Não obstante as divisões políticas entre PS e PCP, um setor da classe trabalhadora tinha-se radicalizado como resposta à radicalização à direita da pequena burguesia durante o Verão primeiro e, agora, perante os planos do 6º governo. A direção do PCP via-se em dificuldades para controlar parte da sua própria base. Foi neste período que avançou a maioria das ocupações e das cooperativas da reforma agrária num período marcado pela terceira grande onda de greves em torno das negociações de contratos coletivos de trabalho e contra a austeridade.  A agitação social era tal que (ineditamente) o próprio governo entrou em greve protestando contra as greves e o clima de anarquia! Queixava-se o então primeiro-ministro: “primeiro fazem-se plenários e só depois cumprem-se as ordens”.  

Com efeito, as intenções de força do executivo eram sabotadas pela indisciplina de várias unidades militares e pela audácia da classe trabalhadora. Por exemplo, quando os operários da construção civil cercaram e sequestraram os deputados da Constituinte (11 de novembro) para que o governo cedesse e assinasse o acordo coletivo de trabalho, este… cedeu! Tinha ordenado a “libertação” do Parlamento, mas os soldados preferiram confraternizar com os operários partilhando pão e vinho. 

Nem a burguesia não conseguia governar, nem o proletariado conseguia derrubá-la apenas por não ter um partido revolucionário de massas que agitasse um programa anticapitalista que salvaguardasse as liberdades e apontasse as tarefas socialistas da revolução, defendendo a unificação e coordenação a nível nacional das comissões de trabalhadores, moradores, soldados e estudantes como órgãos de luta e poder operário. 

Este (des)equilíbrio instável não podia durar. Sob um protesto dos paraquedistas que, com salários em atraso e em conflito com a hierarquia, ocuparam as bases aéreas de Lisboa, consumou-se em 25 de novembro de 75 um golpe fomentado pelos oficiais moderados (e não tão moderados assim), pelo PS e pela direita civil. Com recurso a escassas centenas de comandos da Amadora foi possível proceder à desarticulação da esquerda militar, à prisão de centenas de oficiais radicais e à reposição da disciplina militar, tal foi o grau de desorientação da esquerda militar e da desmobilização dos trabalhadores que (conscientemente) a direção do PCP promoveu nesse dia, aceitando o 25 de Novembro em troca da sua plena participação na “normalização democrática” nos anos seguintes! 

Durante a revolução existiram forças capazes de mudar o país e o mundo, mas faltou a direção política. Os trabalhadores e soldados revolucionários derrotaram várias tentativas de golpes de Estado, ocuparam terras, fábricas, casas, forçaram as nacionalizações, forjaram poderosos sindicatos e partidos. Em 1975, a Times escrevia: “Capitalism is dead in Portugal” [O Capitalismo está morto em Portugal]… mas não estava! Não foi por falta de mobilização ou de consciência dos trabalhadores que a revolução se perdeu. Que mais se poderia ter pedido aos trabalhadores na época? Apenas faltou uma direção política à altura dos acontecimentos e da vontade de lutar que havia!  Hoje, com a falência do stalinismo e da social-democracia, há condições incomparavelmente mais favoráveis para a construção de uma corrente revolucionária de massas. É o que queremos construir em Portugal e no mundo com a Internacional Comunista Revolucionária! 

Publicado originalmente em www.colectivomarxista.org e revisado de acordo com a variação linguística do português do Brasil.