Teses da CMI sobre a crise climática

As mudanças climáticas representam uma ameaça colossal para a humanidade e motivaram enormes protestos (principalmente por parte da juventude) no último período. Somente uma transformação socialista da sociedade, com a produção planejada democraticamente pela classe trabalhadora em harmonia com o planeta, pode acabar com a ameaça das mudanças climáticas. Este documento foi redigido pela Corrente Marxista Internacional (CMI) a fim de explicar nosso programa revolucionário de enfrentamento da crise climática.

1. Atualmente, a atenção do mundo inteiro está voltada para o combate à pandemia da Covid-19. Mas quando (se) esse perigo inicial desaparecer, outra ameaça existencial – ainda maior – surgirá: a das mudanças climáticas.

2. As florestas tropicais estão queimando. Incêndios violentos se espalham pela Austrália e Califórnia. As inundações são devastadoras na Indonésia e em Bangladesh. Ilhas inteiras e áreas costeiras estão submergindo rapidamente. Secas e fome estão criando um êxodo de refugiados. As ondas de calor na Europa estão matando milhares todos os verões. Espécies inteiras estão desaparecendo do planeta todos os dias. A crise climática não é um problema hipotético para as gerações futuras, mas está presente, aqui e agora.

3. Movimentos de massa de estudantes e jovens tomaram as ruas em todo o mundo em resposta. “Os oceanos estão subindo e nós também“, dizia um cartaz em Londres. Milhões participaram desses protestos internacionais. Em setembro de 2019, estima-se que seis milhões de pessoas participaram das greves climáticas globais “Fridays for Future1. Cidades nos EUA, Canadá, Alemanha, Itália e Grã-Bretanha viram demonstrações de centenas de milhares.

4. O capitalismo está matando o planeta. Esta é a conclusão a que muitos ativistas chegaram corretamente. Daí as demandas amplamente conhecidas sobre as mudanças climáticas: “mudança de sistema, não à mudança climática”; “planeta acima do lucro“. É o sistema capitalista – com sua busca insaciável de lucro – que é o responsável por destruir o meio ambiente, acabar com os ecossistemas e poluir o ar que respiramos e a água que bebemos.

5. Sob o capitalismo, são os grandes negócios que decidem o que é produzido e como é produzido. Mas isso não é feito de acordo com nenhum plano. Em vez disso, nossa economia é abandonada à chamada “mão invisível” – isto é, à anarquia do mercado. As empresas interferirão e enfrentarão as normas rígidas sempre que necessário, a fim de reduzir custos, superar seus rivais, conquistar novos mercados e maximizar seus lucros. Essa corrida para o fundo, no entanto, não é simplesmente o produto de patrões “gananciosos”. É o resultado lógico das leis econômicas do capitalismo: um sistema baseado na propriedade privada, na concorrência e na produção para obter lucro.

6. A escala do problema é enorme. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU sugere que o aquecimento global deve ser limitado a 1,5°C para evitar uma catástrofe ambiental. Para conseguir isso, as emissões totais de gases de efeito estufa precisariam ser reduzidas em 45% até 2030 e atingir níveis líquidos de zero até 2050. Além disso, medidas de adaptação e mitigação em larga escala – como a construção de defesas para inundações e reflorestamento – devem ser tomadas. Estima-se que tudo isso exigiria mais de US$ 2 trilhões em investimentos extras em todo o mundo a cada ano; cerca de 2,5% do PIB global.

7. A ciência e a tecnologia para conseguir isso existem. As redes de eletricidade podem ser descarbonizadas com energia eólica, solar e das marés. Os carros e os sistemas de transporte podem mudar para eletricidade, baterias e hidrogênio. Medidas de eficiência energética podem reduzir drasticamente as demandas de energia das famílias e da indústria. Os níveis de poluição podem ser reduzidos. Os alimentos podem ser cultivados de forma sustentável. Os resíduos podem ser reciclados. Áreas de florestas podem ser replantadas.

8. Mas todos esses passos vitais exigem duas coisas: planejamento e recursos – nenhum dos quais o capitalismo é capaz de fornecer. A base da produção capitalista é a propriedade privada e a concorrência, na busca dos lucros de um punhado de parasitas não eleitos e irresponsáveis; e não o planejamento para atender às necessidades sociais e ambientais.

9. Além disso, de onde virá o dinheiro, no capitalismo, para pagar as dramáticas mudanças necessárias? A economia mundial está se afogando em dívidas após a crise de 2008, uma década de austeridade e uma nova depressão profunda desencadeada pela pandemia. Cortes adicionais – não investimentos – estão na ordem do dia. Lidar com a crise climática é agora a última coisa na mente da classe dominante.

10. Os capitalistas não investirão nas medidas necessárias, pela simples razão de que não é rentável fazê-lo. De fato, tecnologias como a energia renovável, que poderia potencialmente fornecer uma abundância de eletricidade verde, limpa e com custo quase zero, colidem fundamentalmente com a motivação do lucro e o sistema de mercado.

11. Por exemplo, o investimento subsidiado pelo Estado em suprimentos de energia renovável realmente prejudicou os mercados internacionais de eletricidade. Inundados com suprimentos baratos e abundantes de eletricidade verde, os preços foram derrubados, tornando as usinas de carvão e gás improdutivas. Isso levou a uma queda acentuada em termos de investimento privado em nova geração de energia. Mas as famílias sequer veem o benefício de contas mais baixas, pois mais subsídios do governo são fornecidos para sustentar os grandes monopólios de energia. Em outras palavras, o mercado não pode resolver o problema – o mercado é o problema.

12. Tudo se resume a uma simples pergunta: quem paga? A riqueza existe, mas fica ociosa nas contas bancárias dos grandes negócios e é desperdiçada pelas potências imperialistas como meio de destruição. Apenas 10 grandes empresas americanas, por exemplo, estão acumulando mais de US$ 1,1 trilhão. E o gasto militar mundial é de US$ 1,8 trilhão por ano. No capitalismo, portanto, não apenas os impactos das mudanças climáticas caem esmagadoramente sobre os ombros da classe trabalhadora, dos pobres e dos mais vulneráveis – mas também os custos de evitar desastres ambientais, na forma de preços mais altos, impostos sobre o carbono e austeridade.

13. Greta Thunberg, 17 anos, sueca fundadora de Fridays for Future, tornou-se o rosto e a voz do movimento internacional de greve climática. Ao falar com multidões de “líderes” mundiais nos fóruns de Davos e nas cúpulas da ONU, ela alerta que “nossa casa está pegando fogo“. “Quero que você entre em pânico“, Thunberg diz a seu público de elite, “e que aja“. Mas seus apelos aos políticos por ações urgentes caem em ouvidos surdos.

14. Essa inércia no topo, no entanto, não se deve simplesmente à falta de vontade política. Os políticos do establishment não são passivos nessa questão porque careçam de determinação, mas porque seu objetivo principal é defender o sistema capitalista, não o futuro da humanidade ou do planeta.

15. Thunberg apontou que os cientistas estão sendo ignorados e pede que os governos ouçam as evidências e os conselhos científicos. Mas os capitalistas e seus representantes políticos não serão persuadidos por argumentos morais, nem por fatos e números, aos quais têm amplo acesso. Afinal, essa elite fora de contato não fará nada para proteger a Terra, pois seu único critério é maximizar o lucro às custas do resto de nós.

16. Alguns governos declararam simbolicamente uma “emergência climática” na tentativa de apaziguar os eleitores. Mas essa é uma frase vazia quando pronunciada pelos lábios desses políticos das grandes empresas. Afinal, no capitalismo, não são eles que realmente decidem. Em vez disso, nosso destino é deixado aos caprichos do mercado.

17. É necessária uma ação global para resolver um problema global, mas os governos capitalistas são impotentes. Cúpulas climáticas intermináveis são convocadas e tratados internacionais assinados. Mas tudo isso é palavreado vazio. Mesmo quando são feitos acordos, esses protocolos e acordos são inúteis; os objetivos não são vinculantes. Sob Trump, os EUA – a maior economia e o maior emissor de carbono do mundo – já se retiraram do Acordo de Paris de 2015.

18. Na raiz deste problema está a barreira do Estado-nação, bem como a propriedade privada dos meios de produção. Sob o capitalismo, os governos nacionais devem, em última instância, servir aos interesses de sua própria classe capitalista. Como um bando de piratas ladrões, eles podem cooperar por um tempo, desde que haja pilhagem suficiente para todos. Mas assim que o botim secar, os bandidos e gângsteres estarão rapidamente se pegando pela garganta um do outro. E, neste período de protecionismo e crise capitalista, cada governo está tentando exportar seus problemas para outro lugar, levando a políticas de “empobreça o teu vizinho”, à instabilidade geopolítica e a um colapso da cooperação em questões internacionais.

19. Perante tal impotência, os ativistas da greve climática têm saído às ruas em massa, ocupando estradas e fechando cidades, em um esforço para forçar os políticos a se sentarem e prestarem atenção. Em todo o mundo, milhões de estudantes e jovens entraram em atividades políticas pela primeira vez, exigindo ação imediata e mudanças sistemáticas.

20. Essas mobilizações encheram uma nova geração com um senso de confiança, poder e propósito. Para os que protestam, a ideia de uma ação de massa militante agora é a norma, não a exceção. A palavra “greve” está agora firmemente na vanguarda da mente dos jovens.

21. Muitos ativistas concluíram corretamente que a mobilização em massa é vital. Mas também devemos aprender das lições do movimento até agora e reconhecer suas limitações. Protestos nas ruas e greves de estudantes não são suficientes. Os ativistas climáticos precisam se conectar com a classe trabalhadora organizada e lutar por mudanças políticas radicais.

22. Essa ideia de mobilização em massa, de ação militante e mudança sistemática é um enorme passo adiante em comparação com o ativismo ambiental individualista do passado. Mas, na ausência de uma liderança revolucionária clara e consistente, o espectro desse velho ambientalismo liberal e pequeno-burguês continua a assombrar o movimento climático. Isso se nota mais claramente na infinidade de ideias estranhas e maravilhosas – como a do “decrescimento” e a do “anti-consumismo” – que se vertem no movimento, muitas vezes dominando o debate e abafando o radicalismo dos estudantes grevistas.

23. Todas essas ideias, no fundo, são uma regurgitação dos argumentos reacionários apresentados por Thomas Malthus, economista do início do século 19, que afirmou que a fome, a pobreza, as doenças e a mortalidade generalizadas eram o resultado da “superpopulação”. Hoje, o mesmo argumento aparece não apenas na forma de “existem demasiadas pessoas”; “Bocas demais para alimentar” – mas também que “estamos vivendo além dos nossos meios”; que “todos nós estamos consumindo demais”. Em outras palavras, as pessoas comuns – e não o sistema – seriam as responsáveis pela crise ambiental.

24. No entanto, Friedrich Engels respondeu a Malthus diretamente há muito tempo. “Não está sendo produzido o suficiente, essa é a raiz de toda a questão. Mas por que não está sendo produzido o suficiente?” Perguntou Engels retoricamente. “Não porque os limites da produção – mesmo hoje e com os meios atuais – estejam esgotados. Não, mas porque os limites da produção são determinados não pelo número de barrigas famintas, mas pelo número de bolsas capazes de comprar e pagar. A sociedade burguesa não quer e não pode desejar produzir mais. As barrigas sem dinheiro, o trabalho que não pode ser utilizado com fins lucrativos e que, portanto, não pode comprar, são deixadas para os índices da mortalidade”.

25. As previsões apocalípticas de Malthus também foram refutadas empiricamente, pois os avanços na técnica agrícola permitiram que populações maiores fossem sustentadas e com níveis nutricionais mais altos. Da mesma forma, hoje, já existem tecnologias para produzir muito mais, e sem a degradação e destruição ambiental associadas ao sistema capitalista. O problema – como observou Engels – é que o capitalismo não pode utilizar lucrativamente essas forças produtivas.

26. Como era de se esperar, os apologistas do capitalismo concordam com essas farsas neomalthusianas, sugerindo que devemos nos unir e fazer escolhas individuais “éticas” – reciclar mais; voar menos; veganismo etc. – como uma solução para resolver a crise ambiental. Afinal, o foco nas ações individuais e nas escolhas pessoais de estilo de vida desempenha um papel útil para a classe dominante, distraindo as pessoas comuns da tarefa real em questão: transformar fundamentalmente a sociedade ao longo de linhas socialistas.

27. As “soluções” que fluem desse mantra individualista são inteiramente reacionárias. Em essência, são apenas uma “lavagem verde” de austeridade – dizendo aos trabalhadores e aos pobres que devem apertar os cintos para resolver um problema criado pelos capitalistas e seu sistema podre.

28. Para os “anti-consumistas”, devemos fazer uma pergunta muito simples: quem está consumindo demais? As milhões de famílias da classe trabalhadora no chamado mundo “desenvolvido”, que devem escolher entre o aquecimento e a alimentação? As massas no chamado mundo “em desenvolvimento”, que lutam para alimentar suas famílias? Os trabalhadores e pobres em todo o planeta, que vivem em um estado de pobreza em meio à abundância?

29. De fato, como mostram as estatísticas, um integrante do 1% global é responsável por 175 vezes mais emissões de carbono do que alguém nos 10% inferiores. E a metade mais pobre da população do mundo contribui com apenas 10% das emissões totais de consumo de estilo de vida, em comparação aos 50% dos 10% mais ricos. Essa “desigualdade de emissões” é apenas um reflexo da igualdade econômica geral de dar água nos olhos, inerente ao capitalismo.

30. Os trabalhadores não são estúpidos. Eles podem ver a hipocrisia generalizada do establishment e seus porta-vozes políticos dizendo às pessoas comuns para “fazer sacrifícios” pelo bem do planeta. Enquanto isso, a elite capitalista super-rica vive inteiramente em outro planeta, acumulando níveis obscenos de riqueza e voando em jatos particulares. Daí, os protestos em massa dos gilets jaunes na França contra as tentativas de Emmanuel Macron de impor impostos mais altos sobre combustíveis aos trabalhadores; ou os movimentos de massa vistos recentemente em muitos países ex-coloniais contra a remoção imposta pelo FMI dos subsídios aos combustíveis.

31. Os socialistas devem se opor a todas essas medidas, incluindo os chamados “impostos sobre o carbono“. Esses impostos normalmente recaem sobre o consumo das famílias – sobre combustível ou energia – e não sobre os negócios, transferindo a carga para os ombros da classe trabalhadora e dos pobres. Tais impostos são reacionários e regressivos. E, de qualquer forma, eles não resolvem a crise climática, mas são apenas mais uma medida de austeridade. Ficamos lado a lado com os manifestantes de coletes amarelos, exigindo que os capitalistas – e não a classe trabalhadora – paguem por esta crise.

32. Culpar o “consumismo” e o “crescimento” é uma pista falsa. Os danos ambientais não são causados pela industrialização ou pelo crescimento, mas pela maneira como a produção é organizada e controlada sob o capitalismo. Longe de fornecer eficiência, a concorrência e a motivação do lucro levam a uma corrida ao fundo, criando enormes níveis de desperdício e poluição. As corporações incorporam a obsolescência nos produtos para vender mais. Um enorme setor de publicidade tenta nos convencer a comprar coisas de que não precisamos. E empresas, como a Volkswagen, trapaceiam e rompem ativamente as regulamentações ambientais, a fim de reduzir custos e aumentar os lucros.

33. É a motivação do lucro, não o próprio crescimento econômico, que é o problema. Vivemos dentro de um sistema econômico que depende do consumo constante de mercadorias e da acumulação de lucros. Os capitalistas produzem não para atender às necessidades, mas para obter lucros. Portanto, se os bens não são vendidos, as empresas e as indústrias fecham e milhões de trabalhadores perdem seus empregos.

34. É por isso que os apelos de certos setores do movimento verde por “crescimento zero” e “decrescimento” são reacionários. O “crescimento zero” no capitalismo é chamado de recessão – e são os trabalhadores e os pobres que são obrigados a pagar. Em essência, a demanda de “decrescimento” é um argumento para recessão permanente e austeridade permanente.

35. Toda a ênfase sobre teoria do “decrescimento” está equivocada – e, portanto, esse ativismo é prejudicial. A questão deve ser a da produção e como produzimos; não do consumo e das “escolhas do consumidor”. De que servem os boicotes individualistas diante da anarquia e do caos do mercado? Precisamos de um plano racional de produção, com controle democrático sobre a economia; e não de boicotes individuais e “consumismo ético”.

36. Mesmo se nós, como sociedade, quiséssemos reduzir nosso consumo coletivo, como isso seria possível se a produção é inteiramente de propriedade da classe capitalista, que a controla e decide? Como reduziríamos a indústria da carne? Como é que vamos limitar a população? Quem decidiria sobre o que e quanto é produzido? Simplesmente fazer essas perguntas demonstra o absurdo desse ambientalismo individualista e a natureza reacionária do malthusianismo em todas as suas variedades.

37. A crise do coronavírus expôs massivamente os limites dessa abordagem regressiva individualista, neomalthusiana. Toda a economia mundial parou. Aviões não estão voando. Ruas estão vazias. A demanda por petróleo entrou em colapso. O consumo das famílias despencou. O resultado é que se estima que as emissões globais de carbono caíram 8% neste ano. No entanto, esse mesmo nível de redução de emissões é necessário todos os anos para a próxima década, a fim de limitar o aquecimento global a 1,5 ° C.

38. Portanto, podemos ver os limites reacionários da ideologia do “decrescimento”. Como mostra a paralisia pandêmica, no capitalismo essas mudanças dramáticas só podem ser alcançadas de maneira completamente caótica, ao custo de mergulhar a economia em uma grave depressão, com desemprego em massa, pobreza e fome. E mesmo essas mudanças mal arranham a superfície do que é necessário. Claramente, é necessária uma transformação sistemática da produção – e de toda a organização da sociedade – para se reduzir as emissões na escala necessária.

39. O que é necessário não são mudanças no estilo de vida pessoal, cortes no consumo individual ou uma regressão a uma forma mais primitiva de produção (a chamada desindustrialização). Já existem recursos suficientes para todas as pessoas do planeta viverem uma vida confortável e decente. Se estes fossem distribuídos de maneira racional e equitativa, haveria o suficiente para todos, sem produção ou desperdício adicional. O que é necessário é uma mudança econômica sistemática, fundamental e internacional.

40. No capitalismo, as tecnologias e técnicas introduzidas para aumentar a produtividade podem se transformar no seu oposto e destruir completamente o potencial de crescimento. Isso pode ser visto com os recentes desenvolvimentos na agricultura, onde o uso indiscriminado de inseticidas e fertilizantes artificiais dizimou as populações de insetos, empobreceu o solo e poluiu o suprimento de água. Em uma escala mais ampla, é visto pela maneira como a indústria e o transporte bombeiam a poluição e as emissões de carbono, destruindo o mundo natural do qual, em última análise, depende toda a sociedade humana.

41. Esta é uma confirmação do que Marx explicou em O Capital, ao discutir a natureza da produção agrícola no capitalismo: “Todo progresso na agricultura capitalista é um progresso na arte, não apenas de roubar o trabalhador, mas de roubar o solo; todo progresso no aumento da fertilidade do solo por um determinado tempo é um progresso no sentido de arruinar as fontes duradouras dessa fertilidade … A produção capitalista, portanto, desenvolve a tecnologia … apenas minando as fontes originais de toda a riqueza – o solo e o trabalhador“.

42. No entanto, nada disso é um argumento contra a tecnologia e a indústria, ou a favor da “desindustrialização”. Pelo contrário, é um argumento contra a propriedade privada, a anarquia do mercado e o lucro. É um argumento a favor do planejamento socialista; de se usar a ciência e a tecnologia no interesse das pessoas e do planeta, não nos lucros de poucos.

43. Em suma, é uma questão de classe. Quem possui? Quem decide? A anarquia do capitalismo está destruindo o meio ambiente. Precisamos planejar – de forma racional e democrática – como utilizamos os recursos do planeta; quais tecnologias precisamos desenvolver e implantar. Mas, como diz o velho ditado, você não pode planejar o que não controla; e você não controla o que não possui.

44. Em muitos países, organizações liberais e partidos políticos tentaram dominar, cooptar e atrapalhar o movimento climático, minando as manifestações e suas demandas radicais. ONGs, como o Greenpeace, muitas vezes se colocam burocraticamente à frente do movimento, pregando uma estratégia de “ecumenismo”. Grupos ativistas, como Extinction Rebellion, enquanto isso, caem na mesma armadilha, despolitizando os protestos e apelando aos políticos de todo o espectro político para “virem à mesa“.

45. O problema é que as mudanças climáticas são políticas. São os capitalistas e seu sistema que são responsáveis pela destruição do planeta. Ligar-se a partidos burgueses e apelar para os grandes empresários é pior do que inútil – é prejudicial, pois dilui ativamente o programa do movimento e leva os ativistas a um beco sem saída. Esses políticos do establishment defendem os interesses da classe capitalista, não as necessidades da sociedade e do meio ambiente. O movimento não deve depositar nenhuma esperança ou confiança neles, nem nas ONGs e nos liberais que tentam enganar jovens grevistas radicais do clima.

46. O apoio aos partidos verdes aumentou em alguns países devido às crescentes preocupações ambientais e a uma desconfiança geral nos partidos tradicionais do establishment. Mas, fundamentalmente, os líderes verdes são apenas liberais, que não desafiam o sistema nem veem a divisão da sociedade em classes mutuamente opostas. O exemplo do novo governo de coalizão conservador-verde na Áustria é muito revelador. Seu programa anti-classe operária pode ser resumido em duas demandas: reduzir a imigração e reduzir as emissões. Isso fez com que a máscara “progressista” dos Verdes deslizasse, revelando sua verdadeira e feia face.

47. Por outro lado, foram tomadas medidas positivas para vincular a questão ambiental às demandas políticas da esquerda. Mais notavelmente, a proposta de um Green New Deal (GND) tornou-se um grito de guerra para a esquerda nos EUA e no Reino Unido. No início de 2019, por exemplo, Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) apresentou uma resolução em Washington pedindo ao governo federal que reduza as emissões de carbono investindo em suprimentos de energia renovável e criando empregos verdes. Indo além, uma moção para um “Novo Acordo Verde Socialista” – baseado na propriedade pública e no controle democrático da economia – foi aprovada na conferência do Partido Trabalhista de 2019 na Grã-Bretanha.

48. Mas, na realidade, o slogan do GND é um pouco vazio, capaz de ser preenchido com o conteúdo que se deseje. Isso é evidenciado pela variedade de apoiadores que se inscreveram no Green New Deal de AOC, incluindo candidatos presidenciais democratas de direita, como Biden, Buttigieg e Klobuchar.

49. Essas vagas propostas de GND geralmente representam uma estratégia keynesiana de tentar regular e gerenciar o sistema capitalista. Mas o capitalismo não pode ser gerenciado. Não pode ser domado e tornado “verde”. Enquanto a economia se basear na produção com fins lucrativos, serão os grandes negócios que darão ordens aos governos, e não o contrário. Em suma, em vez de oferecer “mudança de sistema”, as demandas keynesianas do Green New Deal buscam salvar o sistema capitalista de si mesmo.

50. Um estudo frequentemente citado mostrou que 100 grandes empresas (principalmente produtoras de combustíveis fósseis) são responsáveis por mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa. Mais recentemente, foi revelado que apenas 20 empresas geraram um terço de todo o CO2 desde 1965. Da mesma forma, apenas cerca de 3 a 10% dos resíduos de aterros sanitários nos países capitalistas avançados vêm de residências; o restante é resultado principalmente de processos industriais em larga escala, da construção e da mineração.

51. Tudo isso destaca onde está a verdadeira culpa pela crise ambiental. E demonstra claramente a solução: colocar essas empresas e indústrias sob propriedade comum e controle democrático, como parte de um plano racional de produção socialista. Só então podemos gerar uma economia sustentável, onde o aumento do padrão de vida não contrarie a proteção do planeta.

52. Em mãos privadas, os principais monopólios geram níveis obscenos de desperdício e danos ambientais. Nacionalizados sob um plano econômico socialista, no entanto, eles poderiam empregar modernas tecnologias verdes para reduzir as emissões e a poluição no espaço de alguns anos, fornecendo comida, abrigo, educação, transporte e assistência médica de qualidade para todos.

53. Ao combinar as melhores mentes científicas com as habilidades dos trabalhadores da indústria, sob controle democrático dos trabalhadores, podemos colocar todas as habilidades e recursos tecnológicos da sociedade a serviço da humanidade e do planeta. O Plano Lucas da década de 1970 na Grã-Bretanha mostra o potencial. Aqui, trabalhadores organizados da indústria militar e aeroespacial elaboraram uma proposta detalhada, demonstrando que as mesmas fábricas, máquinas e funcionários poderiam ser reequipados e reimplantados para produzir tecnologias renováveis e equipamentos avançados de saúde, em vez de mísseis e armas. Os trabalhadores foram finalmente vendidos pelos líderes trabalhistas e sindicais. Mas o poder criativo da classe trabalhadora para planejar a produção foi demonstrado claramente.

54. O exemplo do Plano Lucas demonstra a possibilidade de – e a necessidade de – uma “transição climática”. Não há razão para que uma mudança para indústrias verdes e o fechamento de indústrias poluentes devam levar ao desemprego. Os trabalhadores podem ser treinados novamente; fábricas podem ser reformadas. Mas isso requer propriedade pública, controle dos trabalhadores e um plano geral de produção. Deixado para o mercado, a naftalina das indústrias obsoletas só pode levar a uma cicatriz permanente nas comunidades da classe trabalhadora, como mostram as antigas áreas de mineração da Grã-Bretanha e o Rust Belt [Cinturão da Ferrugem] nos EUA.

55. Isso destaca a necessidade de o movimento ambiental se vincular ao movimento dos trabalhadores. Em alguns países, os grevistas climáticos entraram corretamente em contato com os sindicatos para obter apoio. A própria Greta Thunberg pediu aos trabalhadores de todo o mundo que se juntem aos estudantes em paralisações globais. Ocasionalmente, os sindicatos apoiam essa convocação, prometendo lutar ou protestar ao lado dos jovens ativistas. Essa é a abordagem correta. Este não é apenas um problema para os jovens, mas algo que afeta todos os trabalhadores.

56. A classe trabalhadora organizada deve estar à frente da luta contra as mudanças climáticas. Grupos como Extinction Rebellion, no entanto, agem de maneira a marginalizar o movimento trabalhista, concentrando-se exclusivamente em uma estratégia de ação direta e acrobacias publicitárias. Seu objetivo é “aumentar a conscientização“, chamando a atenção da mídia, geralmente acorrentando-se a edifícios e transportes ou fechando estradas. Em um caso fracassado, os ativistas consideraram usar drones para forçar o aeroporto de Heathrow, em Londres, a fechar. Mas ninguém da rede sequer pensou em entrar em contato com membros do sindicato no aeroporto, onde funcionários (incluindo manipuladores de bagagem e pilotos) estavam discutindo possíveis ações de greve. Uma greve desses trabalhadores teria paralisado o aeroporto – e ajudado a aumentar a consciência e a confiança dos trabalhadores em todos os lugares – muito mais efetivamente do que as palhaçadas irresponsáveis de Extinction Rebellion.

57. Em vez dessas ações frívolas e apolíticas, o movimento climático precisa se basear na mobilização em massa de trabalhadores e jovens em torno de claras exigências socialistas. O poder da classe trabalhadora organizada, armado com um programa socialista, seria imparável. Como os marxistas sempre declararam, nem uma lâmpada brilha e nem uma roda gira sem a permissão da classe trabalhadora.

58. Os movimentos políticos e sociais de esquerda estão aumentando em todo o mundo. A tarefa é levar a militância e o radicalismo das greves climáticas dos estudantes para o movimento trabalhista mais amplo, com trabalhadores e jovens lutando juntos por políticas socialistas ousadas. Esse programa deve incluir demandas para:

  • Nacionalizar os grandes monopólios de energia, as empresas de combustíveis fósseis e as redes de transmissão sob controle democrático dos trabalhadores, tirando nosso suprimento de energia das mãos dos aproveitadores e barões do petróleo. Sob propriedade pública, poderíamos fornecer investimentos em massa em energia renovável e eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que reduziríamos os preços para os consumidores.
  • Desapropriar as empresas de construção e tomar as terras e os bancos à propriedade comum. Dessa forma, poderíamos empreender um programa público em massa de proteção das casas existentes e de construção de novas moradias sociais de alta qualidade e eficiência energética.
  • Trazer todo o transporte – serviços de transporte, ferrovias, redes de metrô, ônibus, bondes, companhias aéreas e marítimas – à propriedade pública. Substituir o caos atual por um sistema de transporte público verde, de alta qualidade, amplo, coordenado, integrado e gratuito. Nacionalizar as empresas fabricantes de automóveis e a indústria aeroespacial sob controle dos trabalhadores para investir em veículos e aviões verdes.
  • Colocar todos os recursos naturais – incluindo terras, minas, rios e florestas – sob propriedade pública e controle democrático. Não se deve permitir que o capitalismo e o imperialismo assolem e saqueiem o planeta em prol do lucro. Implementar um programa mundial de massa de reflorestamento e construção de defesas contra inundações.
  • Expulsar as grandes empresas das universidades. A pesquisa e o desenvolvimento devem ser financiados publicamente, decididos democraticamente e orientados para as necessidades da sociedade e do planeta, não para os lucros das empresas multinacionais.
  • Implementar o controle e a gestão democrática dos trabalhadores em todas as indústrias e serviços públicos nacionalizados, através do modelo do Plano Lucas, liderado pelos trabalhadores, para realizar a transição de setores poluentes para indústrias e empregos verdes.

59. Longe de ignorar a questão do meio ambiente, Marx e Engels se interessaram profundamente pelo assunto. Mas a conclusão deles, como é a nossa agora, era que nunca seria possível acabar com a destruição do mundo natural sob um sistema em que reina a anarquia capitalista. Um desenvolvimento harmonioso entre humanidade e natureza só é possível com base em um plano socialista consciente, como explica Engels:

60. “No entanto, não nos deixemos lisonjear demais por causa de nossa conquista humana sobre a natureza. Pois cada uma dessas conquistas se vinga de nós. É verdade que cada uma delas tem, em primeiro lugar, as consequências com as quais contávamos, mas, em segundo e terceiro lugares, tem efeitos imprevistos bastante diferentes, que muitas vezes anulam o primeiro … Assim, a cada passo, somos lembrados de que de modo algum dominamos a natureza como um conquistador sobre um povo estrangeiro, como alguém que está fora da natureza – mas que nós, com carne, sangue e cérebro, pertencemos à natureza e existimos em seu meio, e que todo o nosso domínio dela consiste no fato de termos a vantagem sobre todos os outros seres de poder conhecer e aplicar corretamente suas leis”.

61. Somente com a transformação socialista da sociedade podemos satisfazer as necessidades da maioria em harmonia com o meio ambiente, em vez de gerar lucros para uma minoria parasitária. Existem a ciência e a tecnologia para lidar com as mudanças climáticas. Mas, sob o capitalismo, essas forças estão destruindo o planeta Terra, não o salvando. Socialismo ou barbárie: esse é o futuro diante de nós.

1 Sexta-feiras para o Futuro

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM MARXIST.COM

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