O capitalismo é horror sem fim! Cadáveres são abandonados em casas e queimados nas ruas da maior cidade do Equador

A pandemia do novo coronavírus tem escancarado todas as contradições desse sistema. Entre elas, a falta de leitos hospitalares, atendimento de urgência/emergência e serviço funerário. 

Na cidade portuária de Guayaquil, maior metrópole do Equador com cerca de 3 milhões de habitantes, as pessoas estão morrendo nas casas e nas ruas. Sem nenhum tipo de socorro, morrem e são abandonadas. Tanto o sistema de saúde quanto o sistema funerário já viviam seu limite antes da crise, bastou a pandemia para transbordar tudo. Não há ambulâncias, nem médicos, nem vagas nos cemitérios. 

Vídeos e depoimentos circulam pela internet e mostram o horror vivido na cidade equatoriana. 

Meu tio morreu em 28 de março e ninguém vem nos ajudar. Vivemos no noroeste da cidade. Os hospitais disseram que não tinham macas e ele morreu em casa. Ligamos para o 911 (serviço de emergência) e nos pediram paciência. O corpo ainda está na cama, onde ele morreu, porque ninguém pode tocá-lo“, disse Jésica Castañeda à BBC News (01/4/20).

As informações divulgadas por agências de notícias nos remetem aos tempos bárbaros, em que a vida era banal e sem valor. Como no restante do mundo, a classe dominante equatoriana é incapaz de solucionar a crise e vê toda sociedade sendo mergulhada na atrocidade. O que amplifica os efeitos do coronavírus é justamente a falta de condições sanitárias básicas, falta de testes para o diagnóstico da Covid-19, isolamento social e tratamento dos acometidos pela doença. 

As mortes estão diretamente ligadas à falta de atendimento médico. Como se vê no depoimento de uma jovem de Guayaquil, também à BBC News, sobre a morte de seu pai: Eles nunca o testaram para o coronavírus, apenas nos disseram que poderiam agendar uma consulta e falaram para tomar paracetamol. Tivemos que remover o corpo com recursos particulares, porque não recebemos respostas do Estado. Nos sentimos impotentes ao ver meu pai assim e ter que sair para pedir ajuda“, disse a garota, que mora no sudeste da cidade e relatou que seu pai morreu em seus braços e passou 24 horas em casa sem ter quem levasse o corpo. 

A jornalista Blanca Pesantes, do jornal equatoriano Expresso, começou a denunciar situação dos cadáveres deixados na rua. Por meio do Twitter, ela relata cada caso e descreve o local do abandono, esperando que alguma autoridade faça algo. Em entrevista à TV venezuelana TeleSur, Blanca explica que os defuntos ficam até cinco dias jogados, podendo propagar ainda mais contaminação. 

Em 30 de março, o governo informava que o número oficial de óbitos em todo país era de 79 pessoas. Porém, o jornal equatoriano El Comercio noticiou que, somente na última semana de março, a polícia recolheu mais de 300 corpos em diversas casas de Guayaquil. Isso mostra que a quantidade de mortos pelo novo coronavírus no Equador deve ser ainda maior do que já foi revelado.

Divisão na cúpula

Diante da incapacidade de resolver a situação, a elite que administra a região está dividida e em crise.  O governo regional e a prefeitura se acusam mutuamente de não agir com antecedência e não empregar recursos necessários. 

A prefeita de Guayaquil, Cyntia Viteri, que está em isolamento com a Covid-19, apenas lamentou à BBC News, culpando as pessoas de abandonarem os corpos: 

“Eles não tiram os mortos de suas casas. Eles os deixam nas calçadas, caem na frente de hospitais. Ninguém quer buscá-los. E os nossos pacientes? Famílias perambulam por toda a cidade, batendo nas portas para um hospital público recebê-los, mas não há mais leitos”.

Segundo o jornal equatoriano El Universo, o plano da prefeitura era jogar todos os cadáveres em uma vala comum, fato que causou enorme repercussão e a fez recuar. 

Diante da situação, o presidente Lenín Moreno teve que fazer algo: entregou, no fim de março, a coordenação militar e policial da Província de Guayas a Darwin Jarrín, comandante da Marinha Nacional. Jarrín prometeu que nos próximos dias iria resolver, pelo menos, a situação de recolher os cadáveres. 

Tradições rasgadas

Dezenas de pessoas se amontoam na porta dos hospitais, todos os dias, na esperança de poderem receber o corpo de familiares falecidos para realizarem o velório. 

“Constantes gritos se escutavam na manhã deste 31 de março de 2020 na frente do Hospital Del Guasmo, no sul de Guayaquil. Cerca de 25 pessoas repetiam sem parar a frase: ‘Só queremos os corpos’”. Narrou o Jornal El Comercio.

O Equador é um país com fortes tradições católicas, no qual o velório e despedida dos mortos é tida como sagrada. O ritual não existe mais. O calor da cidade portuária faz com que os corpos se decomponham mais rapidamente e o correto seria o isolamento do corpo que, no caso da Covid-19, pode contagiar todos à volta. O capitalismo equatoriano nega as condições sanitárias e ignora a cultura de um povo. 

Com os moradores de rua a situação é ainda mais deplorável. As pessoas simplesmente amanhecem mortas e os corpos ficam ali por dias, como se não existissem. Como medida de desespero, a população começou a queimar os defuntos por todos os cantos da metrópole. 

Epicentro do coronavírus

Segundo dados oficiais, o Equador é um dos países mais atingidos pelo novo coronavírus na América Latina – e a curva de contaminação da epidemia ainda está em ascensão, longe de atingir seu pico. No dia 2 de abril, já eram 2.758 pessoas oficialmente contaminadas e 98 óbitos contabilizados. Dentre esses números, 70% dos casos estão em Guayaquil. 

O Equador tem relações estreitas de convivência com a Espanha, um dos países mais atingidos na Europa. Cerca de 422 mil equatorianos vivem lá e os voos entre os países são constantes. O governo de Moreno sabia dessa variável em desfavor ao seu povo, mas demorou para tomar as medidas de isolamento social, e, quando fizeram, não foram por completo. 

Onda revolucionária

O Equador foi um dos países que a onda revolucionária sacudiu em 2019. Após o presidente Lenín Moreno anunciar em 1º de outubro um pacote de contrarreformas econômicas, o país viu greves massivas e protestos violentos contestarem o poder da classe dominante. Além do fim dos subsídios aos combustíveis, o pacote do governo fazia duros ataques aos serviços públicos, com cortes no orçamento e retirada de uma série de direitos trabalhistas. Justamente hoje, o setor público é o mais requisitado para combater o coronavírus e sente os impactos de contingenciamentos. 

O governo Lenín Moreno respondeu aos protestos de 2019 com violenta repressão, enquanto os trabalhadores resistiam e levantavam as palavras de ordem “Fora, Moreno!” e “Ou some o pacote ou some o governo”. O Palácio Presidencial, sede do governo na capital nacional Quito, foi cercado à época por manifestantes e toda a presidência teve que fugir para Guayaquil, de onde decretou estado de exceção durante 60 dias, suspendendo dessa forma a liberdade de organização e reunião. Os trabalhadores seguiram em luta e o governo se via quase sem saída, quando algumas lideranças decidiram fechar um acordo com Lenín, que cancelava o fim do subsídio ao combustível e flexibilizava o pacote de austeridade, mas sem extingui-lo. 

O poder estava nas mãos dos trabalhadores equatorianos, mas a falta de uma direção revolucionária que apontasse o caminho do socialismo fez com que a insurreição recuasse por conta de um acordo retrógrado. No entanto, o governo Lenín segue na corda bamba, com a popularidade em míseros 8% (pesquisa realizada pelo instituto Click Report, em fevereiro deste ano).

Os trabalhadores, camponeses e jovens equatorianos têm uma orgulhosa tradição revolucionária e, nos últimos 20 anos, derrubaram governo após governo através de levantamentos massivos contra suas tentativas de introduzir pacotes de austeridade: Abadlá Bucaram, em 1997; Jamil Mahuad, na revolução de 2000; e Lucio Gutierrez, em 2005. As massas entraram de novo em cena em 2007 mediante a eleição de Rafael Correa e novamente em 2010, quando derrotaram uma tentativa da oligarquia de dar um golpe de estado contra ele. Em alguns desses casos (Bucaram e Gutierrez), governos que foram eleitos com o apoio popular dos trabalhadores e camponeses que buscavam uma mudança fundamental, foram derrubados por insurreições populares quando os traíram. É possível que Lenin Moreno siga o mesmo caminho.”, explica o marxista Jorge Martin, em artigo publicado no site da Esquerda Marxista.

Os trabalhadores equatorianos vivem duras experiências com a pandemia, a falência do sistema de saúde e a incapacidade de gestão da burguesia. Será mais um grande aprendizado. Provado está que o punhado de famílias ricas que dominam e exploram o povo equatoriano são incapazes de atender às necessidades e aos anseios populares. Passou da hora de jogá-las na lata de lixo da história por meio de uma revolução que enterre de vez esse sistema baseado na exploração do trabalho e na apropriação privada das riquezas coletivas. A luta de classes certamente dirá qual será o futuro.

Referências:

– “Drama de familias de fallecidos está en los hospitales y hogares” (Diario El Comercio, 01/04/2020): https://www.elcomercio.com/actualidad/drama-familias-fallecidos-coronavirus-guayaquil.html

– “Colapso funerário no Equador leva famílias a conviverem com cadáveres por dias” (Folha de S.Paulo, 02/04/2020): https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/colapso-funerario-no-equador-leva-familias-a-conviverem-com-cadaveres-por-dias.shtml

– “Mortos em casa e cadáveres nas ruas: o colapso funerário causado pelo coronavírus no Equador” (BBC News, 01/04/2020): https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52129845

– “Equador retira 150 corpos de casas; funerárias enfrentam caos por conta da Covid-19” (G1, 02/04/2020): https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/04/02/equador-retira-150-corpos-de-casas-em-guayaquil-em-meio-ao-caos-da-covid-19.ghtml

– “Equador: pacote de austeridade do governo provoca um levantamento massivo” (Esquerda Marxista, 09/10/2019): https://www.marxismo.org.br/equador-pacote-de-austeridade-do-governo-provoca-um-levantamento-massivo/

– “Coronavirus: ¿por qué Ecuador tiene el mayor número de contagios y muertos per cápita de covid-19 en Sudamérica?” (BBC News, 02/04/2020): https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-52036460

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