Myanmar: trabalhadoras da indústria contra-atacam – reviver o movimento operário!

Na primeira semana de julho, em Myanmar, vimos uma erupção espontânea de protestos de trabalhadoras industriais contra os cortes no salário, contra a piora das condições nos locais de trabalho e contra a intensificação do trabalho na fábrica de roupas A Dream of Kind (ADK) na cidade de Mingalardon, em Yangon. Cerca de duas mil operárias estão demandando direitos trabalhistas, garantia de licença médica, férias remuneradas, bem estar social, e aumento dos salários.

Violações dos direitos trabalhistas e várias formas de opressão ocorrem de maneira desenfreada nas fábricas. Essas operárias estão agora sendo forçadas a trabalhar no mínimo seis dias por semana, das 7 até 19 horas, sem qualquer aumento nos salários. Além disso, elas são muitas vezes obrigadas a fazer hora extra nos domingos.

Para os patrões, mesmo isso não é o suficiente. Eles demandam um aumento da produtividade do trabalho de 45 para 62 roupas por hora – uma intensificação do trabalho que visa extrair cada vez mais mais-valia dentro do mesmo período de tempo.

Para as trabalhadoras, já basta! Elas devem contra-atacar para garantir uma existência decente.

Repressão

Vinte soldados e policiais, sob as ordens da junta militar governante, chegaram à frente da fábrica às 11 da manhã para aterrorizar as operárias. De fato, essas zonas industriais estão sob lei marcial desde a revolução da primavera de 2021.

Um mês após o golpe de 1 de fevereiro de 2021, o regime declarou a ilegalidade das organizações operárias e dos sindicatos, acabando com o direito de livre organização trabalhista. Alguns ativistas operários tiveram que fugir com a repressão brutal dos militares contra o movimento de massas.

Desde então, o movimento operário de Myanmar recuou e os capitalistas se sentiram encorajados a aumentar a exploração e a opressão. Na sequência do golpe e do movimento de massas, centenas de indústrias e de empresas fecharam as portas, levando à demissão de mais de um milhão e meio de trabalhadores.

Sob a pressão de um exército de reserva massivo composto por desempregados, aqueles sortudos o suficiente para ter um emprego devem tolerar várias formas de opressão no local de trabalho, e uma profunda exploração. O salário mínimo é de 4.800 kyats (2,2 dólares) para cada oito horas de trabalho.

Em termos concretos, o poder de compra dos trabalhadores caiu pela metade conforme o preço dos bens básicos disparava após um ano e meio do golpe.

A taxa de câmbio do kyat de Myanmar contra o dólar dos EUA era de 1.300 kyats por dólar logo antes do golpe. Hoje em dia ela está de 2.100 kyats por dólar.

O custo de vida dos operários dobrou, no melhor dos casos, e ao mesmo tempo os seus salários estagnaram e seu poder de compra real se reduziu significativamente. Somado à desvalorização da moeda de Myanmar e do aumento dos preços, também há a tática dos empregadores de demitir e recontratar os seus funcionários em piores termos e condições, tornando as suas vidas insustentáveis.

O retrocesso na luta de classes e o novo contra-ataque

Embora a classe trabalhadora organizada tenha inflamado o movimento de massas contra a junta militar nos primeiros meses do ano passado, a luta de classes recuou desde abril de 2021, após massacres e repressões brutais realizados pelos militares.

O movimento operário sofreu um retrocesso temporário. Combates armados nas áreas rurais e as então chamadas atividades de guerrilha urbana de vários grupos de milícias substituíram a luta de massas. O papel independente e dirigente da classe trabalhadora organizada não foi parte da equação.

O autoproclamado Governo de Unidade Nacional (NUG), a ala burguesa liberal do partido banido NLD, aproveitou a situação e enganou as pessoas comuns, semeando ilusões na vitória iminente da “luta armada”.

O Banco Mundial estima que a recessão econômica de Myanmar causou um encolhimento de 18% da economia em 2021. Essa recessão estava composta pela hiperinflação, pelos encargos da dívida e pela repressão brutal da contrarrevolução militar – que utilizou de massacres e das táticas de terra arrasada contra as milícias antigolpistas. De fato, esses métodos não foram aplicados apenas contra as milícias, mas também contra os civis, de forma indiscriminada.

As forças armadas da junta incendiaram vilarejos e queimaram 18.886 casas em 16 meses de golpe, de acordo com o grupo Data For Myanmar.

Nessa situação, os setores mais militantes e radicalizados da juventude foram atraídos pela ideia maoísta de “cercar as cidades pela periferia”, ou seja, organizar a luta de guerrilhas no campo como uma precursora da captura dos centros urbanos.

A famosa citação de Mao, “o poder político cresce do cano de uma arma”, é mais uma vez popular entre a juventude radicalizada. Infelizmente, na prática, isso significa que eles deixaram de lado o papel independente e dirigente do movimento da classe trabalhadora urbana. Vários grupos de milícias tentaram se apresentar como substitutos das lutas das massas.

Em oposição a esse cenário, vimos o desenrolar de protestos espontâneos de milhares de operárias em Yangon, o centro urbano de Myanmar. Esse movimento é muito significativo, e pode sinalizar um despertar em potencial da classe trabalhadora no front industrial, apesar da ausência de liderança e mesmo de sindicatos.

Com base nessa experiência, é necessário generalizar essa ação e reanimar o movimento operário, levando adiante um programa independente de demandas classistas. A liderança organizadora dos protestos de Yangon deve combater para converter essa luta espontânea por baixo em uma união permanente e em organizações operárias, e chamar as outras partes da classe trabalhadora birmanesa que também estão em ebulição, para que sigam o seu exemplo.

A bancarrota e a traição da burguesia liberal reunida em torno do NUG está sendo exposta cada dia mais. É por isso que qualquer intervenção desses elementos na luta deve ser rejeitada ferozmente pelos trabalhadores. A classe trabalhadora precisa de seu próprio partido de massas independente ao invés de seguir a burguesia liberal.

Para essa luta heroica, os marxistas devem ser sucintos:

  • Estamos em solidariedade com as grevistas!
  • O direito ao emprego, o direito à auto-organização e o direito à greve são direitos fundamentais da classe trabalhadora!
  • Demandamos uma escala móvel de salários de acordo com o índice da inflação e com os preços das commodities: totalizando no mínimo 10 dólares a cada 6 horas de trabalho!
  • Não mais do que 36 horas de trabalho por semana!
  • Fim das seguidas demissões e readmissões!
  • Combater por um partido operário de massas!
  • Abaixo a junta militar!
  • Por uma luta revolucionária dos trabalhadores para conquistar a democracia operária e o socialismo!

Tradução de João Lucas Brandão.

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