Foto: Ricardo Moraes, Reuters

Mil dias se passaram e ainda não temos a resposta: Quem mandou matar Marielle?

Chegamos aos mil dias desde que Marielle Franco, vereadora pelo PSOL do Rio de Janeiro, foi assassinada, junto com o motorista Anderson Gomes. No mesmo dia em que esse crime brutal foi cometido já se apontava a investigação envolvendo as milícias no Rio de Janeiro, que dominam dezenas de bairros, favelas e controlam o comércio, serviços e venda de drogas.

É importante relembrarmos o caso para que ele não seja apagado da história. Marielle tinha acabado de ser eleita relatora da Comissão da Câmara Municipal para acompanhar e discutir a Intervenção Federal, feita por militares, para a segurança do Rio de Janeiro. Ela denunciava os abusos que estavam sendo cometidos pela PM ostensivamente contra a juventude e a classe trabalhadora da periferia. Isso fez com que Marielle ganhasse muitos inimigos, que não gostaram da ideia de alguém que se colocasse diretamente contrária à intervenção militar no Rio de Janeiro.

Nesse cenário é fundamental recuperar o que Lenin explica em “O Estado e Revolução” sobre o papel das forças de repressão, uma vez que essa passagem nos ajuda a compreender que tipo de ameaça para o aparato repressivo estatal significava o posicionamento político de Marielle:

“O segundo traço característico do Estado é a instituição de um poder público que já não corresponde diretamente à população e se organiza também como força armada. Esse poder público separado é indispensável, porque a organização espontânea da população em armas se tornou impossível desde que a sociedade se dividiu em classes. Esse poder público existe em todos os Estados. Compreende não só homens armados, como também elementos materiais, prisões e instituições coercivas de toda espécie, que a sociedade patriarcal (clã) não conheceu”.

A definição de Lenin continua sendo exemplarmente ilustrada no nosso tempo, e, nessa linha, a polícia tem exercido o papel de servir ao Estado como seu braço armado e, enquanto estiver na ordem do dia a garantia da “lei e da ordem” para os grandes poderosos, milhares de pessoas estarão condenadas às “balas perdidas”, incluindo aqueles que os combatem publicamente.

Paralelamente existem as milícias, também abertamente combatidas por Marielle, que se apresentam como um subproduto direto da degeneração do capitalismo em países atrasados e superexplorados onde as polícias se misturam ao crime organizado. As milícias já não são um fenômeno exclusivo do estado do Rio de Janeiro e se constituem em grupos de policiais e ex-policiais que controlam economicamente uma determinada área, invariavelmente da classe trabalhadora. São grupos que exercem um controle econômico e coercitivo paralelo ao Estado, especialmente com o oferecimento de todo tipo de serviços, desde o acesso à água, passando pela moradia até a “segurança”. Além disso as milícias também monopolizam os tráficos de drogas e armas, disputam politicamente cargos públicos e têm licença do Estado para matar. Marielle usou o seu mandato para denunciar toda essa violência territorial e política e foi eliminada por isso.

Desde a sua morte, o Brasil e o mundo não deixaram de ver as ações da polícia levando jovens, crianças e adultos à morte. Em março deste ano o G1 noticiou: “Ao menos 3.148 pessoas foram mortas por policiais no primeiro semestre deste ano em todo o país. O número é 7% mais alto que o registrado no mesmo período do ano passado, quando foram contabilizadas 2.934 mortes.” Nesse último final de semana (4/12), as primas Emily e Rebeca foram vítimas da violência policial, com disparos na cabeça e no abdômen por balas da Polícia Militar, em mais um dos “casos isolados”.

A Esquerda Marxista se soma a todos que exigem uma efetiva investigação e que todos os criminosos sejam condenados. Não podemos ter nenhuma ilusão nos órgãos da justiça burguesa, que não são confiáveis e não têm interesse em aprofundar esta investigação para se chegar aos mandantes, o que os manterá na impunidade. Exigimos uma investigação independente para Marielle Franco e Anderson Gomes. Mas precisamos ir além e combater o que Marielle morreu combatendo, ou seja, lutar pelo fim da milícia e de todas as polícias. Não podemos aceitar mais nenhuma morte por bala perdida e garantir que o Estado saia impune enquanto milhares de famílias choram a morte de suas crianças.

Fora Bolsonaro! Por um governo dos trabalhadores, sem patrões nem generais!

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