Malcolm X, 57 anos da morte de um revolucionário

Há 57 anos, Malcolm X se levantou no Audubon Ballroom, no Harlem (Nova York), para falar. Ele ia falar contra a segregação racial em todos os EUA. Ele iria apelar a seus irmãos e irmãs para resistir e lutar contra a “opressão do homem branco” quando foi morto a tiros. O topo do establishment norte-americano deu um suspiro de alívio. Uma das vozes mais altas contra a injustiça havia se perdido.

“O futuro pertence a quem se prepara para ele hoje” (Malcolm X)

A juventude de Malcolm

Malcolm X nasceu como Malcolm Little em 19 de maio de 1925 em Omaha, Nebraska. Naquela época havia cerca de 13 milhões de negros nos Estados Unidos – a maioria deles nos estados do Sul. Eram principalmente agricultores e meeiros. No Norte, os negros concentravam-se nas comunidades industriais. No Sul, as leis Jim Crow estabeleceram um regime de apartheid, separando os negros do restante da sociedade. As consequências práticas dessa lei significavam que a moradia dos negros era separada da moradia dos brancos, as crianças negras tinham que estudar separadas das crianças brancas e até os banheiros públicos eram separados.

Uma das leis mais perniciosas era a que impedia os trabalhadores negros de se filiarem a muitos sindicatos importantes. Isso foi particularmente favorável para os patrões americanos, que espalharam o veneno racista entre os trabalhadores brancos. Essas táticas de dividir para governar levaram à derrota de muitas lutas dos trabalhadores e impediram que a classe trabalhadora dos EUA se unisse.

No entanto, a situação no Norte não era muito melhor. Os negros viviam separados dos brancos em guetos superlotados, como o Harlem em Nova York ou o South Side em Chicago. O racismo também estava presente ali. No entanto, a Primeira Guerra Mundial forçou os patrões a atrair os negros para a força de trabalho industrial. Isso criou uma esperança de melhora das condições de vida, mas era apenas uma ilusão que estava longe da realidade. Em 1919, o fim da guerra trouxe uma onda maciça de greves que abalou os Estados Unidos. A resposta dos patrões foi incitar o racismo e dividir a classe trabalhadora culpando os negros pelo aumento do desemprego e trazendo negros do Sul, desesperados por emprego, para acabar com as greves dos trabalhadores brancos no Norte.

A recusa da Federação Americana do Trabalho (AFL) em organizar a força de trabalho negra e o papel pernicioso que a burocracia desempenhou em várias greves ajudaram os patrões a esmagar o movimento do proletariado americano. Revolução e contrarrevolução sempre andam lado a lado. No verão do mesmo ano, mais de 25 pogroms1 aconteceram. O racismo sempre foi uma das ferramentas mais úteis usadas pelos patrões em suas táticas de divisão, e a família de Malcolm, como a maioria da população negra, não estava livre da violência racista.

O pai de Malcolm era um pregador que seguia as ideias de Marcus Garvey sobre a libertação negra. Naquela época, muitos negros se juntaram a organizações que defendiam o orgulho racial como forma de resistir à opressão racista. Marcus Garvey foi um campeão do movimento “de volta à África”. Essas ideias tiveram um impacto profundo. Mais tarde, enquanto as lutas de libertação nacional aconteciam na África durante a década de 1960, essa ideia mística recuperou popularidade.

Quando Malcolm tinha quatro anos, a casa de sua família foi incendiada por uma gangue racista. Aos seis anos, seu pai foi assassinado pela Ku Klux Klan. Nesse contexto social, não é difícil entender por que ele teve problemas na infância e na juventude. Ele passou sua adolescência em Boston, Lansing, New Haven, Flint e em Nova York. Lá, ele se envolveu em pequenos crimes, como jogos ilegais, roubo e tráfico de drogas em pequena escala. Como muitos negros, ele foi para a Costa Leste na esperança de encontrar um emprego. Embora atraídos para a classe trabalhadora industrial, os negros sempre acabavam com os piores empregos, se conseguissem encontrar algum. Para sobreviver, muitos foram empurrados para pequenos crimes em busca de uma renda. Em 1946, Malcolm foi preso sob a acusação de arrombamento, posse de arma de fogo e furto. Ele foi condenado a uma pena de oito a dez anos de prisão, e acabou cumprindo seis anos.

Malcolm Little se torna Malcolm X

Na prisão, juntou-se à Nação do Islã, também conhecida como Movimento Negro Muçulmano, e adotou o nome de Malcolm X. Acabaria por passar 14 anos nesse grupo religioso. Dentro de um curto espaço de tempo, ele se tornou uma das figuras mais proeminentes do grupo e também o principal porta-voz de seu obscuro líder, Elijah Muhammad.

A Nação do Islã era uma seita religiosa com a visão de que, para alcançar a salvação, os negros que realmente seguiam Alá tinham que se segregar da sociedade branca e criar a “Nação do Islã”. A doutrina do grupo era uma das versões mais sectárias do nacionalismo negro. Eles viam o racismo negro como a melhor maneira de combater o racismo branco do establishment. Na frente econômica, eles usaram as mesmas táticas. Eles contrapuseram o “capitalismo negro” ao “capitalismo branco”. Eles pediram aos negros que “comprassem preto”. Como Marx explicou, o ser social determina a consciência social, e o chamado para “comprar preto” expressou as frustrações da pequena camada da classe média negra que possuía pequenas lojas nos guetos urbanos e nas cidades do interior.

Um dos principais obstáculos ao progresso da classe média negra foi o racismo institucional. As limitações desta posição são bastante óbvias. Acima de tudo, a ideologia e a visão da classe média negra nunca atacaram os fundamentos do capitalismo – a verdadeira raiz da opressão racial. O grupo reduziu seus ataques aos limites impostos aos negócios negros pelos supremacistas brancos – limites que impediam sua capacidade de competir no mercado e favoreciam os negócios brancos. Apesar do radicalismo superficial dessa teoria, as ideias reacionárias por trás dela são bastante evidentes. Não é possível que um grupo racial inteiro se torne empresário. Essa ideia de “negócios negros” simplesmente favoreceu uma pequena camada de negros – a classe média.

Os muçulmanos negros procuravam criar uma burguesia negra para enfrentar a burguesia branca. Eles nunca foram capazes de ver além da cor da pele dos supremacistas e nunca viram o papel desempenhado pela burguesia branca na sociedade e na produção. A falência dessas ideias é hoje mais evidente do que nunca. O estabelecimento de uma pequena elite negra nos Estados Unidos, representada por Jesse Jackson e companhia, não tirou da pobreza, da violência e das drogas a maioria dos que ainda vivem nos guetos e nas cidades do interior. Essa pequena elite negra tem sido usada pela classe dominante dos EUA para minar a luta das massas negras e promover os “Pai Tomás” (o nome usado por Malcolm X para definir os líderes negros moderados) que amarraram o movimento à ala liberal da burguesia norte-americana – os democratas.

A Nação do Islã, bem como Marcus Garvey, assumiu a ideia de “voltar à África”. Como no início da década de 1920, com a UNIA (Universal Negro Improvement Association) de Marcus Garvey, essa ideia atraiu uma ampla camada de negros nos EUA. Leon Trotsky analisou essa ideia na década de 1930:

“Os negros americanos se reuniram sob a bandeira do movimento ‘De volta à África’ porque parecia uma possível realização de seu desejo de ter sua própria casa. Eles não queriam realmente ir para a África. Era a expressão de um desejo místico por um lar no qual eles estariam livres da dominação dos brancos, no qual eles mesmos pudessem controlar seu próprio destino.” (On Black Nationalism, Leon Trotsky, International Socialism 43, abril/maio, 1970)

Durante os anos que Malcolm passou na Nação do Islã o número de membros dessa organização aumentou dramaticamente. O Partido Comunista dos Estados Unidos da América, naquela época, havia sido seriamente prejudicado pelos expurgos de McCarthy. No início da década de 1950, a maioria dos sindicatos liderados pelo Partido Comunista havia sido expulso do Congresso das Organizações Industriais (CIO). Durante a década de 1930, o Partido Comunista organizou uma ampla gama de trabalhadores negros. No entanto, na década de 1950, eles usaram o mesmo argumento usado pelo Partido Democrata. O PC reduziu o problema racial nos EUA ao Sul e às leis Jim Crow. O PC falhou totalmente em fornecer uma alternativa para as massas negras no Norte.

Não havia um veículo viável através do qual a luta dos negros pudesse se expressar. Friedrich Engels explicou que a natureza abomina o vácuo. Esse vácuo foi preenchido por diferentes seitas religiosas que usaram discursos radicais contra a opressão racista. Muitos jovens negros, incluindo Malcolm, foram atraídos pelos muçulmanos negros porque era um movimento que denunciava a opressão branca. Isso atraía enormemente Malcolm, que procurava uma explicação para os sofrimentos de sua juventude. Apesar de ter abraçado o Islã na prisão e permanecido nele até sua morte, sua principal preocupação sempre foi a luta contra a opressão de seu povo. Quando se separou da Nação do Islã, gradualmente colocou sua religião em uma posição secundária em relação à sua política. Mesmo quando ele estava com a Nação do Islã, ele era considerado o mais político dos ministros de Elijah Muhammad. Ele também foi o ministro que passou mais tempo viajando pelo país e pelo mundo, misturando-se com outras pessoas não relacionadas ao movimento.

Durante os 14 anos que passou com os Muçulmanos Negros, Malcom foi considerado o orador mais brilhante do grupo. Ele percorreu os Estados Unidos, bem como a África e o Oriente Médio, falando contra a opressão racial em termos brutais e honestos. Não foi em vão que ele ganhou o nome de “o homem mais raivoso da América”. Ele rejeitou a hipocrisia dos líderes negros moderados. Não pediu concessões, apenas exigiu o que achava que o establishment lhe devia. Ele foi a figura mais intransigente do movimento de libertação negra.

No entanto, seu sectarismo (uma das principais características da Nação do Islã) atuou como uma barreira para alcançar mais pessoas. Em uma sequência de “Malcolm X”, filme biográfico dirigido por Spike Lee, uma estudante branca se aproxima de Malcolm e se atreve a perguntar o que ela poderia fazer pelo movimento. Malcolm olha para ela e responde: “Nada!”, numa demonstração de desprezo. Mesmo quando ele se separou dos Muçulmanos Negros, havia resquícios de sectarismo em seu pensamento. Quando ele foi solicitado logo após a separação a prestar homenagem a um ativista dos direitos civis branco morto por uma escavadeira em Cleveland, ele declarou:

“…Bom, o que o homem fez é bom. Mas acabaram-se os dias em que você encontraria negros que iriam se levantar e aplaudir as contribuições dos brancos nesta data tão tardia… nunca pense que eu usaria minhas energias para aplaudir o sacrifício de um homem branco individual. Não, esse sacrifício é tardio demais.”

Esse sectarismo tornou ainda mais difícil para ele estabelecer um movimento genuíno e intransigente, mas amplo, contra a opressão racial. Durante os últimos meses de sua vida, ele tentou corrigir seu sectarismo inicial, mas era tarde demais. As declarações que ele fez enquanto membro da Nação do Islã alienaram uma grande camada de ativistas dos direitos civis. A mídia burguesa mais tarde usou isso para ajudar nesse processo, afastando de Malcolm X ainda mais muitos ativistas dos direitos civis.

A cisão e a evolução ideológica de Malcolm

O grupo de Elijah Muhammad estava longe de ser uma organização política. No entanto, os muçulmanos negros preencheram o vácuo deixado pelas organizações políticas tradicionais da classe trabalhadora. Essas organizações não foram capazes de oferecer qualquer alternativa às massas negras, especialmente à juventude. A Nação do Islã tinha uma política de abstenção absoluta da política. Por um lado, eles nunca endossaram os democratas ou os republicanos e criticaram os líderes brandos do movimento pelos direitos civis, mas por outro lado eles foram incapazes de liderar as massas negras ou de se tornar um veículo para a expressão de sua raiva devido à sua política de abstenção.

No início da década de 1960, a Nação do Islã ganhou fama por “falar duro e não fazer nada”. Essa política absurda acabou se tornando uma camisa de força para Malcolm. Em 1962, a polícia de Los Angeles atirou em sete muçulmanos desarmados e prendeu outros dezesseis. Malcolm foi a Los Angeles para organizar a resposta. Quando tentou organizar um movimento que envolvia outros grupos religiosos, foi afastado por Elijah Muhammad. Suas tentativas de ir mais além do grupo seriam um dos elementos que ajudaram a produzir a cisão.

A degeneração adicional da liderança do grupo também influenciaria a decisão de Malcolm de deixar a organização. Não era segredo que Elijah Muhammad teve contato com George Lincoln Rockwell, o chefe do Partido Nazista nos EUA. Em 1963, Elijah Muhammad chamou Malcolm para ir à sua luxuosa residência em Phoenix, onde confirmou cinicamente a Malcolm os rumores e fofocas sobre seus relacionamentos sexuais com vários adolescentes da Nação do Islã. Quando viu que os principais líderes da organização não estavam praticando o que pregavam ficou profundamente desapontado.

Em 1º de dezembro de 1963, nove dias após o assassinato de John F. Kennedy, em uma reunião em Nova York Malcolm X atribuiu a morte de JFK ao clima de ódio e violência que o homem branco havia criado. Ele também afirmou:

“As galinhas voltam para casa, para o poleiro. Sendo eu mesmo um velho fazendeiro, as galinhas que voltavam para casa para se empoleirar nunca me deixavam triste; elas sempre me fizeram feliz.”

Alguns autores apontaram a declaração anterior como o catalisador para a briga de Malcolm com a Nação do Islã. O que é verdade é que Elijah Muhammad usou essa declaração em particular para proibir Malcolm de falar e mantê-lo em silêncio. Foi isso que desencadeou a ruptura entre Malcolm e os muçulmanos negros. O materialismo dialético explica que a necessidade se expressa por acidente. Malcolm X estava buscando uma alternativa revolucionária na Nação do Islã e, quando não encontrou tal alternativa, foi embora.

Em 12 de março de 1964 ele anunciou sua separação da Nação do Islã e a fundação da Muslim Mosque Inc [Mesquita Muçulmana Inc.]. Pouco depois ele foi para Meca e se converteu ao Islã ortodoxo. Sua experiência ali o ajudou a ampliar suas ideias e passou a colocar a religião em segundo plano. Sobre esta questão, afirmou:

“Nenhuma religião jamais me fará esquecer as condições do nosso povo neste país, (…) Nenhum Deus, nenhuma religião, nem nada me fará esquecer até que pare, até que termine, até que seja eliminado. Eu quero deixar esse ponto claro.”

Ele também percebeu que a Mesquita Muçulmana Inc., não seria suficiente para reunir um movimento de massas de negros contra a opressão racial. Com isso em mente, ele lançou a Organização da Unidade Afro-Americana (OAAU, em suas siglas em inglês). Essa nova organização não tinha nada a ver com religião. Pelo contrário, apelava aos  negros americanos para aderirem independentemente da sua formação religiosa e apelava pela criação de um movimento de base ampla. O programa fundador foi profundamente influenciado pelas lutas de libertação que estavam ocorrendo na África naquela época. Tomou algumas posições interessantes como a adoção da autodefesa contra os ataques racistas. Isso foi muito mais progressista do que a abordagem não violenta patrocinada por alguns líderes negros moderados que realmente deixaram o movimento desprotegido diante dos ataques racistas em andamento.

No entanto, a OAAU estava longe de ser uma organização socialista e sua política econômica foi reduzida às ideias pequeno-burguesas do nacionalismo negro. O movimento também rejeitou a participação de brancos nele. Essa ideia foi inicialmente patrocinada por Malcolm, que disse que antes de alcançar a unidade entre brancos e negros, estes deveriam se unir entre si. Essa ideia reduzia a luta contra a opressão racial simplesmente às vítimas da opressão racial. Naquela época, a camada mais avançada de trabalhadores e estudantes simpatizava com a luta contra a opressão racial, mas essa política os impedia de participar dela.

É verdade que o Nacionalismo Negro é uma consequência direta da opressão racista que o capitalismo implementa. No entanto, pode ser um freio massivo à unidade da classe trabalhadora negra oprimida e de suas contrapartes brancas. A história dos Estados Unidos está repleta de exemplos que mostram como a influência desses movimentos pequeno-burgueses diminui quando os trabalhadores negros veem a oportunidade de lutar junto com os trabalhadores brancos para ganhar algo concreto. Um exemplo é a onda de greves em 1919, quando os trabalhadores brancos e negros dos frigoríficos desfilaram juntos pelo bairro negro de Chicago.

Malcolm finalmente viu as limitações do nacionalismo negro como uma solução para a opressão racista que o capitalismo impôs às massas negras. Um mês antes de ser assassinado, ele relembrou em entrevista seu encontro com o embaixador argelino em Gana:

“(…) quando estive na África em maio, no Gana, falei com o embaixador argelino que é extremamente militante e revolucionário no verdadeiro sentido da palavra (…) quando lhe falei que minha política, filosofia social e econômica era o nacionalismo negro, ele me perguntou aonde isso me levou? Porque ele era branco. Ele era africano, mas era argelino e, aparentemente, um homem branco. E eu lhe disse que defino meu objetivo como a vitória do nacionalismo negro, onde isso o deixou? Onde isso deixa os revolucionários no Marrocos, Egito, Iraque e Mauritânia? Então ele me mostrou onde eu estava alienando as pessoas que eram verdadeiros revolucionários, dedicados a derrubar o sistema de exploração que existe nesta terra por qualquer meio necessário.”

Ele também entendeu que a natureza podre do capitalismo era a causa da opressão racista: “Você não pode ter capitalismo sem racismo”, disse ele uma vez em um comício no Harlem. Em outra ocasião, quando falava sobre as lutas de libertação na África, afirmou o seguinte:

“Você não pode operar um sistema capitalista a menos que você seja um abutre (…) Mostre-me um capitalista e eu te mostro um sanguessuga.”

Ele foi ainda mais longe do que isso. A citação a seguir mostra que ele estava se movendo em direção a uma posição de classe:

“Estamos vivendo em uma era de revolução, e a revolta do negro americano é parte da rebelião contra a opressão e o colonialismo que caracterizou esta época… É incorreto classificar a revolta do negro como simplesmente um conflito racial do negro contra o branco, ou como um problema puramente americano. Em vez disso, estamos vendo hoje uma rebelião global dos oprimidos contra o opressor, dos explorados contra o explorador”.

Essas frases representam algumas das mudanças mais significativas em seu pensamento. No entanto, a evolução em sua ideologia não parou por aí. Em questão de meses, se não semanas, ele rejeitou abertamente todos os resquícios de sectarismo sem diluir em absoluto seu discurso. Ele abandonou seus preconceitos sobre casamentos mistos e reconheceu o papel das mulheres na luta pela libertação negra. Malcolm também afirmou que a OAAU tinha que trabalhar com outras organizações, independentemente da cor da pele de seus membros, porque percebeu que a questão importante era a política dos lutadores contra os supremacistas brancos.

Sua posição sobre os dois partidos burgueses nos EUA também evoluiu. Se bem que os muçulmanos negros simplesmente rejeitaram tanto os democratas quanto os republicanos por razões não políticas, Malcolm apontou que ambos os partidos representavam os interesses da classe dominante predominantemente branca. Ele lutou contra os líderes negros que tentaram amarrar o movimento dos direitos civis aos democratas, expôs a ala “mais progressista” da burguesia americana como os piores e mais traiçoeiros inimigos das minorias oprimidas nos EUA. Ele destacou que os democratas tiveram suas origens nos proprietários de escravos vindos dos estados do Sul dos EUA.

Ele não reduziu suas duras críticas aos Muçulmanos Negros, que continuamente tentavam prejudicar seus esforços para construir o que ele não podia fazer dentro da estrutura da Nação do Islã: uma organização genuína para lutar contra a opressão dos negros.

Ele também estava se tornando uma pessoa muito perigosa aos olhos do establishment americano. Se Malcolm X tivesse vivido mais e fosse capaz de refinar suas ideias, ele poderia ter iniciado um movimento intransigente contra a opressão racial ao longo de linhas anticapitalistas genuínas. Isso era algo que a classe capitalista norte-americana, que já presenciava a radicalização do movimento de libertação negra, temia acima de tudo. Malcolm X tornou-se um problema sério não só para a classe dominante dos EUA, mas também para os líderes negros da classe média – entre eles a Nação do Islã – que sempre foram duramente criticados por ele. Suas ideias confusas, embora intransigentes, lhe renderam muitos inimigos. É por isso que ele foi morto a tiros no início de um comício no Harlem em 21 de fevereiro de 1965.

Apesar da opinião de alguns grupos autodenominados marxistas nos EUA e no exterior, Malcolm X não era socialista e nunca afirmou ser. Como a citação acima mostra, é verdade que ele estava se movendo em direção a uma posição anticapitalista e anti-imperialista, e sua atitude inicialmente hostil em relação às ideias socialistas mudou. Também é verdade que ele nunca entendeu o papel da classe trabalhadora como a única classe revolucionária que poderia levar o movimento à vitória. Apesar disso, foi um revolucionário, embora não tenha conseguido construir uma verdadeira organização revolucionária. Como ele foi tragicamente assassinado, ninguém pode realmente dizer como ele teria finalmente evoluído.

O que sabemos é que ele passou boa parte de sua atividade política expondo o papel traiçoeiro dos “Pais Tomás” que sempre buscaram soluções para a classe média negra e que sempre venderam o movimento em troca de algumas migalhas. Malcolm entendeu que os líderes negros da classe média estavam ali para atuar como freio ao movimento.

Malcolm X foi um homem que nunca hesitou em falar contra a injustiça e a opressão do sistema capitalista. Apesar de suas limitações, ele foi um dos lutadores mais honestos e intransigentes do século 20.

1 O termo pogrom tem múltiplos significados, mais frequentemente atribuída à perseguição deliberada de um grupo étnico ou religioso, aprovado ou tolerado pelas autoridades locais, sendo um ataque violento massivo, com a destruição simultânea do seu ambiente.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.
MALCOLM X, 40 YEARS AFTER THE DEATH OF A REVOLUTIONARY” FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO EM MARXIST.COM (2005).

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