Foto: Thierry Ehrmann, Flickr

Eleições francesas: no que concordamos com a França Insubmissa e no que devemos ir mais longe

Na eleição presidencial francesa de abril de 2017, a seção francesa da Corrente Marxista Internacional (CMI), Révolution, apoiou criticamente a candidatura de Jean-Luc Mélenchon da França Insubmissa. Cinco anos depois, os marxistas franceses voltarão a apoiar a FI nas próximas eleições (que começam em 10 de abril), apesar de manterem suas críticas às limitações dela e de Mélenchon. Neste artigo escrito no início do ano, eles explicam sua posição.

Jean-Luc Mélenchon e a França Insubmissa (FI) representam a única possibilidade real de derrotar o presidente Emmanuel Macron e a extrema direita nas eleições presidenciais. O programa oficial da FI, L’Avenir en commun (“Um Futuro Compartilhado”) é mais radical que o dos Verdes e o do Partido Socialista (PS), que prometem “mudar” a sociedade sem levantar um dedo contra os interesses, o poder e a riqueza da burguesia francesa. Mas o programa da FI, no entanto, não deixa de ser reformista. Pretende melhorar drasticamente as condições de vida da grande maioria, sem romper com o sistema capitalista. Nós o submetemos aqui a uma crítica marxista.

“Corrigindo” o capitalismo?

Em sua introdução ao programa, Mélenchon escreve:

“O capitalismo financeiro de nosso tempo está criando violência social e saqueando a natureza em um grau sem precedentes na história da civilização humana. Ele se alimenta de tudo em seu caminho, incluindo pandemias […] E como se alimenta de seus próprios desastres, o sistema é incapaz de se corrigir”.

Mas o que deve ser feito? Os marxistas respondem: enquanto lutam continuamente para defender e melhorar as condições de vida das massas, o movimento operário deve assumir o objetivo central de derrubar o sistema capitalista, levar os trabalhadores ao poder e iniciar a transformação socialista da sociedade. Até que o capitalismo seja derrubado, na França e em todo o mundo, ele continuará condenando a humanidade a crises econômicas, declínio social, guerras imperialistas e catástrofes ambientais.

L’Avenir en commun, por outro lado, planeja “corrigir” – em outras palavras, reformar – o sistema capitalista. Mélenchon aponta o dedo não para o capitalismo em geral, mas para o capitalismo “financeiro”. Uma seção do capítulo 8, intitulada “Desfinancializar a economia real”, argumenta que “devemos proteger a economia real das ações dos especuladores, recuperando o poder sobre as finanças”.

Mas as leis fundamentais da “economia real”, sob o capitalismo, necessariamente trazem o desenvolvimento e a crescente dominação do capital financeiro. Marx antecipou isso em O Capital – e Lênin mais tarde enfatizaria o papel central desse fenômeno no desenvolvimento do imperialismo. Toda a história do capitalismo desde então confirmou a análise de Marx e Lênin.

Para acabar com o caos econômico e social, a sociedade deve ser completamente purgada do capitalismo, e não simplesmente “financiar” o capitalismo. Todos os setores-chave da economia devem ser expropriados sob o controle democrático dos trabalhadores. Os próprios empregados devem administrar a “economia real”, a fim de coordenar um plano econômico democrático no interesse de todos.

Oposição burguesa

L’Avenir en commun propõe uma série de políticas bastante radicais: aumentos salariais significativos, aumento das pensões e das garantias sociais, expansão dos serviços públicos, recrutamento de funcionários públicos, redução da semana de trabalho (para 32 horas), uma sexta semana de férias pagas, educação e saúde pública gratuitas e a construção de um milhão de casas sociais.

Prevê “aumentar imediatamente o salário-mínimo mensal para 1.400 euros líquidos”, “aumentar todas as pensões considerando uma carreira completa para, pelo menos, o nível do salário-mínimo (aumentado)”, e trazer todos os benefícios sociais mínimos (benefícios fora do trabalho, benefícios de velhice etc.) “até ao nível da linha de pobreza” (1.063 euros por mês). Acrescenta que: “Os jovens que já não fazem parte do agregado fiscal dos pais” se beneficiarão de uma “garantia de autossuficiência” no mesmo valor. Mesmo tomadas isoladamente, essas medidas seriam suficientes para tirar milhões de pessoas da miséria.

O programa continua: “Todo candidato a um emprego de longo prazo receberá um emprego (do Estado) que desempenhe um papel na transição ecológica ou na ação social (setores prioritários urgentes), de acordo com suas qualificações e de forma voluntária”. Esses empregos – mais de um milhão, potencialmente – serão pagos “no mínimo pelo salário-mínimo aumentado”, ou 1.400 euros líquidos. Além disso, o programa propõe a contratação em massa de servidores públicos em todos os serviços e administrações.

Se Mélenchon vencer as próximas eleições, dada a profunda crise do capitalismo, a classe dominante lutará contra o programa da FI ainda mais impiedosamente do que fez contra o governo de Tsipras em 2015 na Grécia / Foto: ECB, Flickr
Como um governo da FI financiaria essas políticas? L’Avenir en commun responde: por meio de empréstimos (graças à generosa boa vontade do BCE – Banco Central Europeu) e da tributação (sobre os lucros das famílias de alta renda e das empresas). Como um todo, o programa propõe tirar pelo menos várias dezenas de bilhões de euros, todos os anos, dos bolsos das grandes empresas e entregá-los a trabalhadores, desempregados, estudantes e aposentados.

A classe dominante aceitaria o programa da FI? Isso iria contra toda a experiência passada, começando com a conclusão da crise grega de 2015, que viu o reformista Alexis Tsipras abandonar seu programa de reformas sociais, sob a pressão da burguesia europeia, e impor a austeridade.

Se Mélenchon ganhar as próximas eleições, a classe dominante francesa combaterá o programa da FI de forma ainda mais implacável, dada a profunda crise do capitalismo. Sem contar que, nas últimas décadas, o capitalismo francês está em constante declínio em relação aos seus principais concorrentes no mercado mundial. Nas mãos do BCE, a dívida seria um meio para a burguesia atacar o governo. E o programa tributário progressivo da FI provocaria profunda oposição entre as camadas mais ricas da sociedade.

Sob tais circunstâncias, um governo de FI teria apenas duas opções: ou ceder à pressão e desistir de seu programa progressista, ou partir para a ofensiva, nacionalizando as principais alavancas da economia para privar a burguesia de seus meios de sabotar as ações do governo. Teria que colocar na agenda a expropriação das grandes alavancas da produção e do intercâmbio: indústria, bancos, distribuição em massa, transporte, setor farmacêutico etc.

Expropriar a burguesia – derrubá-la como classe dominante – é a única maneira de realizar as políticas sociais contidas em L’Avenir en commun. Mas Mélenchon exclui explicitamente isso, e esta é a principal debilidade de toda a sua abordagem política.

A crise da saúde pública

O sexto capítulo do programa intitula-se “Vida em Estado de Pandemia Permanente. Ele propõe uma série de medidas que diferem consideravelmente do tratamento catastrófico da crise de saúde pública pelo governo Macron, que se preocupa principalmente em proteger os lucros das grandes empresas.

Por exemplo, L’Avenir en commun planeja “reverter a queda no número de leitos [hospitalares]” e “iniciar um plano de recrutamento plurianual para profissionais de saúde e assistência social (médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e pessoal administrativo)”. Além disso, o tratamento seria totalmente gratuito, garantido por um “reembolso de 100% dos cuidados de saúde prescritos”.

Se a saúde deve ser 100% reembolsada, não há razão para que todo o setor de saúde não seja 100% público. A pandemia demonstrou perfeitamente a contradição central entre a busca do lucro e a saúde pública, que ceifou a vida de tantas pessoas desde março de 2020. Ela só pode ser resolvida nacionalizando – sob controle democrático dos trabalhadores – todas as unidades de saúde privadas (clínicas, hospitais, lares de idosos etc.), toda a indústria farmacêutica e todos os setores ligados à saúde pública.

Em 2020, o faturamento total da indústria farmacêutica na França foi de mais de 62 bilhões de euros, um aumento de 2,4% em relação a 2019. Esses números por si só são suficientes para justificar a expropriação da Big Pharma. E, no entanto, L’Avenir en commun não contém tal medida, apenas planeja “requisitar empresas necessárias para a produção de equipamentos médicos (máscaras, testes, purificadores)”.

O que é necessário é a nacionalização, sem indenização, de todo o setor da saúde: arrancá-lo das garras dos acionistas. Isso nos permitiria melhorar a remuneração e as condições dos trabalhadores em hospitais, asilos e outros estabelecimentos de saúde, que, há anos, tiveram condenadas suas exaustivas condições de trabalho, que se deterioraram sob a pressão das políticas de austeridade. O L’Avenir en commun não apenas não apresenta tais medidas, como planeja “promover condições para conceder doações a empresas privadas que se dedicam a pesquisas médicas e de vacinas”!

Não estamos sugerindo transformar todos os médicos particulares em profissionais de saúde pública de uma só vez. Em vez disso, a saúde privada seria gradualmente absorvida pela saúde pública à medida que o próprio sistema estatal se desenvolvesse por meio de investimentos adequados, oferecendo melhores condições de trabalho aos seus funcionários e cobertura adequada em todo o país.

Planejamento ecológico

Perante o “capitalismo financeirizado que desgasta os humanos e destrói o planeta”, o programa defende “o planejamento, já que o mercado e a concorrência se mostraram incapazes de enfrentar os desafios [ambientais]”. Este é um forte contraste com o “capitalismo verde” teimosamente defendido pelos líderes do PS e dos Verdes. L’Avenir en commun apresenta medidas específicas que visam pressionar os capitalistas a poluir menos e a desperdiçar menos. Mas também propõe “um plano maciço para investir 200 bilhões de euros em atividades ecológica e socialmente úteis”.

Estas propostas apresentam duas questões. Em primeiro lugar, é realmente possível pressionar os capitalistas a interromper atividades extremamente lucrativas? Em segundo lugar, quem vai realizar os colossais investimentos necessários ao desenvolvimento das energias renováveis, à expansão do transporte público e à transição ecológica em geral?

Planejar democraticamente a economia permitiria mais harmonia na relação entre a humanidade e a natureza / Foto: Universidade de Stanford
Essas duas questões têm uma única solução: a nacionalização dos principais meios de produção e o planejamento democrático da economia, sob o controle de trabalhadores e consumidores. Você não pode planejar o que não controla – e não pode controlar o que não possui. Mas o número de nacionalizações planejadas é muito limitado. O programa menciona as autoestradas, as ferrovias, a Ariane Espace, a Française des Jeux, a sucursal de “energia marinha” da Alstom, os aeroportos recentemente privatizados, EDF, Engie e “alguns bancos generalistas”.

Por que deixar aos capitalistas um só dos grandes bancos “generalistas”, ou seja, instituições especializadas na especulação e pilhagem dos recursos do planeta? Qualquer planejamento genuíno deve basear-se em um setor bancário totalmente público e centralizado, capaz de investir adequadamente.

A nacionalização de grandes empresas de energia, como EDF e Engie, é essencial. Mas muitos outros setores também são responsáveis ​​pela destruição do meio ambiente. Por exemplo, no setor de transporte se vê um punhado de capitalistas produzindo milhões de veículos altamente poluentes (mas muito lucrativos) para uso pessoal, enquanto o transporte público é negligenciado e acorrentado ao lucro. Investir em transporte público em detrimento da indústria de transporte privado exige o controle do setor, e isso significa expropriar os parasitas que o controlam atualmente.

Outra questão fundamental para a transição ecológica é o isolamento térmico das habitações. Não apenas precisamos melhorar as casas existentes, mas também garantir que esse requisito esteja em vigor para todas as novas habitações. Isso é perfeitamente possível! Com mais de cinco milhões de desempregados na França, o problema não é a falta de mão de obra ou qualificação. Mas, em vez de fornecer lucros aos magnatas imobiliários, as grandes empresas de construção deveriam ser nacionalizadas e fundidas em uma indústria pública centralizada, para coordenar as grandes obras de construção e reforma que são necessárias.

Finalmente, a indústria de alimentos e os grandes varejistas também devem ser transferidos para o setor público, para que possamos reorganizar e desenvolver a agricultura voltada para atender às necessidades de todos, ao mesmo tempo em que se dá um fim aos danos que inflige à natureza, à nossa saúde e às nossas carteiras.

Planejar democraticamente a economia permitiria a mais harmonia na relação entre a humanidade e a natureza. Tal perspectiva só pode ser plenamente alcançada em escala global: a poluição e as mudanças climáticas não reconhecem fronteiras. A crise é global, o que, em última análise, só o socialismo internacional poderá resolver.

A Sexta República

L’Avenir en commun começa com o objetivo de fundar uma nova, a Sexta República, na qual seria convocada uma assembleia constituinte que teria dois anos para elaborar uma nova constituição, que seria então submetida a um referendo.

Os marxistas abordam essa questão – como todas as outras – de uma perspectiva de classe. A burguesia francesa sabe que as instituições da Quinta República estão cada vez mais desacreditadas. Isso coloca em risco seu poder de aderência, como mostra o importante papel desempenhado pela demanda por um “referendo por iniciativa cidadã” durante o movimento dos Coletes Amarelos. No entanto, a classe dominante não está tentando, por enquanto, recuperar seu prestígio por meio de uma nova república porque teme que tal mudança desperte expectativas demais entre as massas e desencadeie um movimento por reformas democráticas e sociais que possa escorregar de seu controle.

A Quinta República é corrupta e podre até o âmago. Em última análise, porém, a crise dentro de suas instituições é apenas a expressão da crise do sistema capitalista sobre o qual elas se sustentam. O poder real não reside nas assembleias eleitas por sufrágio universal, nem nos conselhos de ministros, nem mesmo nos palácios presidenciais ou reais. O poder real reside nos conselhos de administração de bancos e multinacionais. Na França, cem famílias capitalistas têm uma influência decisiva nas políticas de cada sucessivo governo.

Como seus antecessores, o atual “monarca presidencial”, Emmanuel Macron, se ajoelha diante do todo-poderoso Capital. Por isso, se uma Sexta República não destronar o verdadeiro rei, será apenas mais uma república burguesa. O programa da FI não contém as medidas necessárias para acabar com a ditadura do Capital. Para dar real importância ao projeto de uma sexta república, seria necessário reformulá-lo da seguinte forma: “Abaixo a Quinta República! Por uma nova república socialista!”.

O aparato estatal

L’Avenir en commun expressa indignação com a forma como “uma casta privilegiada, a serviço dos ricos, está envenenando o Estado”. Mas o Estado burguês está, por sua natureza, “a serviço dos ricos”. Em vez de chegar à conclusão de que precisamos de um Estado operário, baseado em relações de produção socialistas, os autores de L’Avenir en commun apresentaram “um plano para separar dinheiro e Estado”, visando alguns dos casos mais flagrantes de corrupção, clientelismo e nepotismo. É como tentar esvaziar um oceano com a ajuda de uma colher de chá.

O segundo capítulo do programa, dedicado à justiça e à polícia, contém algumas medidas que vão na direção certa – por exemplo, tornando gratuitos os procedimentos [legais] mais comuns (incluindo o divórcio). Mas fora isso, o capítulo deixa completamente de mencionar o caráter de classe do sistema de justiça e da polícia.

Afirma que “em uma república, a justiça é dispensada em nome do povo”. Mas na República Francesa, mais de 400 manifestantes dos Coletes Amarelos foram presos. Entre seus companheiros de cela não há nenhum dos bandidos de colarinho branco que, ano após ano, praticam a evasão fiscal em grande escala com total impunidade.

A polícia não pode ser reformada, ela só pode ser derrubada por uma revolução socialista, que substituiria essa instituição pelo “povo armado” / Foto: EuroPalestine
Além disso, L’Avenir en commun propõe “reconstruir uma polícia republicana… comprometida com o estado de direito”, porque “a polícia deve agir para proteger as liberdades individuais e coletivas”. Como explicou Marx, a polícia burguesa faz parte dos “órgãos de homens armados que defendem as relações capitalistas de produção” e que são a essência do Estado burguês. A polícia não pode ser reformada; ela só pode ser derrubada por uma revolução socialista, que substituiria essa instituição pelo “povo armado”, como disse Marx sobre a experiência da Comuna de Paris em 1871.

Os Communards também produziram dois outros princípios para a fundação de um estado operário: 1) todos os funcionários de alto escalão devem ser eleitos e revogáveis ​​a qualquer momento; 2) seus salários devem ser iguais aos de um trabalhador qualificado. Essas duas medidas sozinhas seriam infinitamente mais eficazes para “separar o Estado e o dinheiro” do que as medidas apresentadas por L’Avenir en commun. Mas a aplicação dessas duas medidas pressupõe uma revolução socialista.

A União Europeia

Os líderes da União Europeia (EU) seriam muito hostis a um governo de FI. Em particular, a classe dominante alemã – que domina economicamente a UE – exerceria enorme pressão sobre o governo francês para forçá-lo a recuar em seu programa de reformas progressistas.

A forma como Mélenchon prevê essa situação – e como ele planeja responder – evoluiu um pouco nos últimos anos. A versão de 2017 do L’Avenir en commun afirmava:

“O plano A é que todos os países estejam a favor de exercer uma saída conjunta dos tratados europeus, retirando as regras existentes e negociando novas. O Plano B é a saída unilateral da França dos tratados europeus para iniciar novas parcerias. Ou mudamos a UE ou saímos”.

Na versão atual do programa da FI, o Plano A permanece o mesmo, mas o plano B é assim redigido: “em todos os casos, vamos aplicar imediatamente o nosso programa a nível nacional e enfrentar o confronto com as instituições europeias. Para isso, usaremos todos os mecanismos possíveis para afirmar nossa posição no Conselho Europeu e desobedecer às regras obstrutivas sempre que necessário”. Em vez de sair da UE, temos a perspectiva de a França desobedecer às injunções dos líderes europeus – mas sem uma ruptura formal.

Essa mudança no programa da FI provocou protestos entre uma seção (muito pequena) da “esquerda radical” que constantemente afirma que “sair da UE”, por si só, marcaria um grande passo à frente para trabalhadores e jovens em todo o país. Mas enquanto empresas como Bouygues, Dassault, Bolloré, Lagardère controlarem o núcleo da economia francesa, não haverá saída para trabalhadores e jovens, seja dentro ou fora da UE. Por exemplo, o Brexit proporcionou alguma melhoria na vida das massas britânicas exploradas e oprimidas?

Dito isto, a mudança em L’Avenir en Commun não é uma melhoria. O “Plano A”, que propõe, por exemplo, negociar uma “mudança no status do BCE”, é uma quimera que deixaria a classe dominante alemã (entre outras) completamente imóvel. O novo “Plano B”, por outro lado, prevê o inevitável “confronto” entre um governo da FI e os líderes da UE sem oferecer um plano de como vencer.

Mais uma vez, a única solução seria romper com o capitalismo e apelar às classes trabalhadoras da Europa para seguirem o exemplo da França, na perspectiva de substituir a UE – este instrumento colossal a serviço das multinacionais europeias – pelos Estados Unidos Socialistas da Europa.

Guerras e paz

O capítulo sobre política externa e guerra, “Diplomacia Anti Globalista”, afirma que “para promover a paz e a cooperação, é necessário recuperar uma voz independente”. Para isso, o programa planeja “retirar imediatamente [a França] do comando integrado da Otan e depois, em etapas, da própria organização”. A razão dada é que “alianças militares permanentes como a Otan, construídas para e pelos Estados Unidos, são contrárias aos interesses e princípios de nosso país”. Mélenchon afirmou anteriormente que, sob um governo da FI, “[a França] não seria mais arrastada para conflitos empreendidos apenas em benefício dos Estados Unidos em seu declínio”.

É verdade que o imperialismo francês é uma potência de segunda categoria e o governo de Macron é um subalterno do imperialismo dos EUA (embora barulhento). Mas, dito isso, como poderia a independência da França com relação aos Estados Unidos “contribuir para a paz [mundial]”? Obviamente, não somos a favor da permanência da França na Otan, no entanto, por que milagre a retirada da Otan permitiria ao capitalismo francês perder seu caráter imperialista? Além disso, por que outro milagre impediria as outras potências da Otan – com os EUA à frente – de continuar suas guerras imperialistas?

L’Avenir en commun responde a esta última pergunta propondo que a França deveria, portanto, “recusar todas as intervenções militares sem mandato da ONU” – o que significa aceitar intervenções que tenham recebido tal mandato. O papel da ONU não é impedir a guerra. Nunca desempenhou um papel progressista. Nada mais é do que um fórum no qual as grandes potências imperialistas debatem questões de importância secundária.

Quando uma questão de real importância está na agenda, a ONU não tem a última palavra: as próprias grandes potências decidem, de acordo com seus interesses. Vimos isso no caso da invasão do Iraque em 2003, por exemplo. Por motivos ligados aos interesses do imperialismo francês, a França se posicionou, na ONU, contra a intervenção militar. Os imperialistas norte-americanos invadiram o Iraque de qualquer maneira, sem um mandato da ONU.

Devemos explicar incansavelmente que a paz real, duradoura e universal só será possível quando o mundo for expurgado do capitalismo – e, portanto, do imperialismo / Foto: Otan, Flickr
É verdade que, de tempos em tempos, os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU estão de acordo sobre certas intervenções militares. Mas isso não significa que tais intervenções sejam menos imperialistas ou reacionárias. A Primeira Guerra do Golfo (1990) foi apoiada pela ONU, assim como o embargo imposto ao Iraque entre 1991 e 2003 que resultou entre 500 mil e 1,5 milhão de vítimas, a maioria crianças. Mais recentemente houve a operação militar na Líbia (2011), que mergulhou o país em um estado de caos do qual ainda não saiu. E o Haiti, um país eternamente atormentado pelo imperialismo, que teve que suportar, de 2004 a 2017, a ditadura de facto das forças de paz da ONU?

Uma das funções da ONU é justamente dar às suas guerras um véu de “legitimidade internacional”. Nosso papel é expor essa propaganda e explicar o que realmente motiva os países em guerra. Muitas vezes, o horror da guerra faz com que ativistas de esquerda declarem: “temos que fazer alguma coisa, e agora!”. Muitas vezes isso faz com que eles acabem apoiando uma intervenção imperialista, particularmente quando tal intervenção recebeu um mandato da ONU.

Dizemos: a guerra é uma característica fundamental e inevitável do capitalismo moderno. Você não pode ter um sem o outro. Se levamos a sério a luta para acabar com as guerras imperialistas, nosso primeiro dever é explicar, sempre que tivermos a chance, a genuína natureza de classe da guerra e os reais objetivos perseguidos pelas diferentes forças envolvidas. É a partir dessa perspectiva de classe que as mobilizações de massa contra as guerras imperialistas devem ser organizadas.

Na França, a prioridade deve ser expor os crimes do imperialismo francês e mobilizar o movimento trabalhista contra esses crimes. Devemos explicar incansavelmente que a paz real, duradoura e universal só será possível quando o mundo for expurgado do capitalismo – e, portanto, do imperialismo.

Socialismo, coletivismo e cooperativismo

Como Lênin escreveu: “não pode haver avanço exceto em direção ao socialismo”. Este é o cerne da questão: L’Avenir en commun se recusa a avançar para o socialismo. Mélenchon afirmou anteriormente que prefere a palavra “coletivismo” a “socialismo”. Claro que discordamos, mas o debate não é realmente sobre a escolha das palavras – é sobre o conteúdo. O socialismo – no sentido marxista do termo – visa coletivizar todas as grandes empresas de um país. Isso é precisamente o que L’Avenir en commun não procura fazer. Então, em que consiste o “coletivismo” dos líderes da FI?

Uma resposta é dada em um capítulo intitulado “Compartilhando a Riqueza”. Propõe “generalizar a economia social, inclusiva e cooperativa” ao “promover a expansão das Sociedades Cooperativas de Interesse Público (SCIC) e as Sociedades Cooperativas e Participativas (SCOP) para desenvolver serviços públicos onde a responsabilidade é compartilhada entre os cidadãos, os usuários, os funcionários e os parceiros privados e públicos”. Esta é apresentada como uma “alternativa à economia liberal”.

Observe-se: alternativa à economia liberal – e não à economia capitalista. E por um bom motivo: o cooperativismo não é realmente uma alternativa ao capitalismo, porque uma cooperativa é uma empresa que concorre, em um mercado, com outras empresas, mesmo que também sejam cooperativas. Esta competição obriga a aumentar a produtividade e a intensidade do trabalho, a limitar ou a cortar salários, a reduzir ao máximo a massa salarial total etc., métodos usados ​​pelas empresas capitalistas clássicas. Isso muitas vezes resulta na introdução de uma diferenciação crescente dentro da empresa entre os trabalhadores gerentes ​​e os trabalhadores que recebem ordens.

Além disso, como o cooperativismo não elimina o caos do mercado, é incompatível com o planejamento econômico. O planejamento requer a socialização e centralização dos principais recursos econômicos do país, bem como sua gestão democrática. Para que esses recursos sejam planejados racional e democraticamente, eles devem ser propriedade coletiva de todos os trabalhadores.

Atualmente, na França e em todas as grandes potências capitalistas, a classe trabalhadora constitui a esmagadora maioria da população. Seu papel na história é tomar o poder e reorganizar a sociedade com base no planejamento socialista e democrático da economia. Como proprietários coletivos dos meios de produção, eles poderão coordenar, desenvolver e administrar a produção para satisfazer as necessidades e reduzir a carga de trabalho de toda a população.

Essa perspectiva não é menos relevante hoje do que quando Marx e Engels a desenvolveram pela primeira vez em sua forma científica. Continua sendo o único meio de superar a barbárie para a qual o capitalismo global está levando a humanidade.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.
PUBLICADO EM MARXIST.COM

Deixe Seu Comentário