Foto: GrenadaNOW

“Avançar sempre, nunca retroceder”: a tragédia da Revolução Granadina

O dia 13 de março marcou o aniversário de uma insurreição de um pequeno partido em 1979 – com o apoio popular das massas – que derrubou um ditador e tentou se livrar dos grilhões do imperialismo. Essa insurreição foi realizada por um partido conhecido como New Jewel Movement (NJM), auto-descrito como “marxista-leninista”, que se propôs a obter uma série de ganhos positivos em um país que sofria de um legado de imperialismo e escravidão. Estruturas democráticas, medidas para a libertação das mulheres, melhoria na saúde e na educação deram apoio popular ao partido revolucionário nos estágios iniciais da revolução – um episódio inspirador na história do Caribe.

Esse momento revolucionário terminou com uma luta de facções no partido e com a imposição de um regime de marionetes pelos EUA, que começou a desfazer os ganhos da revolução. Deveríamos estudar a Revolução Granadina, não apenas para celebrar essa luta contra o imperialismo, mas para aprender de suas lições para a atualidade.

“Sangue de todos os poros”

Granada é uma ilha no sudeste do mar do Caribe. Abrange um número de ilhas periféricas menores, as duas povoadas sendo Carriacou e Petite Martinique. A população é relativamente pequena – apenas cerca de 110 mil habitantes – e não era muito menor durante a revolução.

Como a maioria das ex-colônias, a história de Granada é dominada pelo genocídio, escravidão e imperialismo. No entanto, também contém grandes períodos de heroicas batalhas de classe, desde o século 19, quando revoltas de escravos tentaram afastar o domínio de seus opressores imperiais, até o século 20, quando numerosas greves gerais atingiram níveis quase insurrecionais para alcançar justiça e igualdade.

Granada trocou de mãos entre franceses e britânicos desde sua primeira colonização em 1654. Essa colonização exterminou os indisciplinados ameríndios, que haviam se estabelecido nas ilhas antes deles, e a encheu de elementos da sociedade francesa considerados “indesejáveis” – criminosos, religiosos heréticos etc. A produção de açúcar passou a dominar a ilha, através do uso do trabalho escravo, até o início de 1800, quando a indústria deixou de ser rentável devido às plantações de açúcar mais produtivas (diga-se: mais brutais) de Cuba e do Brasil. A escravidão foi abolida na década de 1830 devido à sua falta de rentabilidade e, mais importante, à série de revoltas de escravos em massa que abalaram as Índias Ocidentais.

Militância crescente

Na superfície, houve um período de relativa paz social em Granada durante o início do século 20, em comparação com as greves gerais de massas e as lutas insurrecionais que ocorreram em países do Caribe, como Trinidad e Tobago, após a Primeira Guerra Mundial. No entanto, Granada não estava isenta de uma pobreza semelhante – a Comissão Moyne de 1945 descobriu que havia desnutrição desenfreada, moradia precária, saúde péssima e um salário mínimo que hoje seria igual a US$ 4,35 por dia!

Debaixo da superfície, borbulhava uma crescente raiva de classe. Isso ocorreu com a primeira greve geral, em 19 de fevereiro de 1951. O recém-formado Sindicato dos Trabalhadores Manuais e Intelectuais de Granada (GMMWU, em sua sigla em inglês), liderado por Eric Gairy, convocou essa greve geral. Isso deu expressão à crescente raiva na sociedade e a greve tornou-se uma revolta total: casas de fazenda foram saqueadas e incendiadas; campos de noz-moscada e cacau foram destruídos; barreiras foram montadas em toda a ilha. A classe trabalhadora de Granada paralisou completamente a vida econômica da ilha.


Eric Gairy liderou uma greve geral de sucesso em 1951 e liderou o país, mas depois sucumbiu à corrupção

Foi declarado um estado de emergência e a marinha britânica e os destacamentos policiais foram levados para a ilha. Eric Gairy foi preso, mas isso se mostrou insuficiente para conter o descontentamento. A classe dominante foi forçada a trazer Gairy de volta rapidamente, pedindo que ele fizesse um discurso pelo rádio para restaurar a paz. O governo cedeu às demandas da greve – sufrágio universal e um aumento salarial maciço.

Por causa do sucesso da greve, Gairy se tornou o político mais popular de Granada. Ele formou o Grenada United Labour Party (GULP) para disputar a eleição de 1951 e a ganhou esmagadoramente, recebendo 65% dos votos e ocupando seis dos oito assentos do conselho legislativo (os outros dois foram decididos pelo governo britânico). No entanto, uma vez no poder, Gairy aliou-se a várias figuras burguesas.

Alarmados com a greve, surgiu um partido baseado na pequena burguesia e nos proprietários de plantações, chamado Partido Nacional de Granada (PNB). O PNB e o GULP se alternariam no governo entre 1951-1973. Gairy, que encheu os seus bolsos e de seus apoiadores, seria expulso por corrupção, e o PNB faria o jogo da classe dominante. O PNB vendeu as empresas de telefonia e eletricidade a investidores privados, forneceu subsídios aos proprietários das plantações e aumentou suas receitas em 170%. Durante sua reeleição em 1962, o PNB proibiu greves nos serviços de telefonia, eletricidade e água, bem como em todos os setores considerados “essenciais”. O PNB ficaria desacreditado devido a essas políticas brutais, Gairy cinicamente usaria suas organizações para obter apoio por meio de greves e campanhas, e o GULP seria reeleito. Isso foi até 1973, quando Gairy começou a manter seu poder por meio de fraudes eleitorais e grupos paramilitares.

Surge o New Jewel Movement

Na década de 1970, os serviços públicos haviam se deteriorado drasticamente. A maioria dos professores não possuía treinamento profissional, até 80 alunos eram agrupados em uma única sala de aula e apenas 15% das crianças do ensino fundamental passavam para o ensino médio. Os hospitais careciam de camas, medicamentos e outros equipamentos médicos básicos. A taxa de mortalidade era alta e a maioria das gestantes tinha que dar à luz em pisos de concreto.

Em resposta a essas condições, 30 enfermeiros do hospital local de St. George organizaram um protesto. Gairy respondeu transferindo-os para outras partes do país, o que causou a propagação do protesto – a polícia de Gairy os enfrentou com gás lacrimogêneo e porretes. Vinte e duas das enfermeiras foram presas e defendidas no tribunal por Kenrick Radix e Maurice Bishop, dois advogados que haviam acabado de voltar de sua formação no exterior e que se lançaram na luta, passando a formar o New Jewel Movement (NJM). A jovem intelectualidade – com figuras como Bishop, Radix e Bernard Coard – depois de estudar no exterior e influenciados pelas ideias de vários anti-imperialistas, como Fidel Castro, de nacionalistas negros, como Malcolm X (ele mesmo meio granadino) e pelo movimento do poder negro nos EUA, retornaram à sua terra natal para lutar pela emancipação das massas trabalhadoras.


O New Jewel Movement (NJM) era uma frente popular de várias organizações anti-Gairy / Foto: Dahn

 

O NJM foi fundado em 1973 por meio da fusão de várias organizações menores: o “Movimento para as Assembleias do Povo” (MAP) e o “Empreendimento Conjunto para o Bem-Estar, a Educação e a Libertação (JEWELL)”. Embora este partido mais tarde se chamasse de “marxista-leninista”, organizativamente tinha uma estrutura frouxa. A atmosfera do partido era mais como um grupo de discussão e, durante a maior parte de sua existência, não haveria comitê central. A maioria das estruturas partidárias foi criada no processo de luta, e não de acordo com qualquer plano ou teoria.

Com a adoção de uma linha “marxista-leninista”, vieram todas as armadilhas da teoria stalinista, como a teoria da “revolução por etapas”. O NJM acreditava que precisava do apoio de todas as classes da sociedade, pois considerava a revolução vindoura uma luta nacional anti-imperialista. O programa socialista teria, portanto, de esperar. Eles viam a pobreza sofrida pelas massas, não como resultado de uma economia dominada pelo imperialismo capitalista, mas como a criação de uma pequena e exploradora burguesia “pró-Gairy” de comerciantes e banqueiros que dependiam do capital americano e europeu. Isso decorreu do argumento de que uma revolução nacional-democrática deveria ser uma aliança de todas as classes, incluindo a burguesia “patriótica”, o que permitiria a construção de uma economia nacional livre do imperialismo.

Portanto, o NJM adotou a palavra de ordem de “unidade nacional” – aliando-se aos partidos burgueses e pequeno-burgueses (como o PNB), sob a condição de serem anti-Gairy. Como em outros países, onde esse frentismo popular foi tentado, os partidos burgueses e pequeno-burgueses eram numericamente fracos e só receberam força do popular NJM, que os sustentava. O programa do NJM era, em última análise, reformista, com moradias mais baratas, assistência médica preventiva, reforma agrária e construção de escolas. No entanto, inspirou as massas, e o NJM poderia facilmente ter dispensado esses apoiadores capitalistas.

Gairy respondeu a esse crescente descontentamento organizando um bando de criminosos violentos conhecidos como Gang Mongoose, que foram treinados e munidos de armas pelo ditador chileno Pinochet e seriam utilizados para esmagar qualquer dissidência.

A distração da independência

No final de 1973, Gairy tentou usar a questão da independência para superar essa crescente insatisfação. Ele argumentou que a independência abriria as portas para as instituições financeiras internacionais e incentivaria a ajuda. O governo britânico, agora apenas um poder de segunda classe, estava disposto a se libertar desse fardo econômico e social. O NJM se opôs à independência com base em que reforçaria o domínio de Gairy no poder. Em resposta à independência, o NJM organizou um Congresso Popular com mais de 10 mil  pessoas – o que equivaleria a 7 milhões de pessoas no Reino Unido nas ruas de Londres! Essa reunião de massas aprovou moções acusando Gairy de corrupção e assassinato e o convidou a renunciar em duas semanas ou enfrentar uma greve geral. Ele não aceitou, de ânimo leve, a ameaça de uma greve geral e tentou forçar o NJM a se submeter. A Mongoose Gang de Gairy e a polícia seguiram seis líderes do NJM em seu caminho para organizar a greve geral com um grupo de empresários. Os seis foram atacados, espancados quase até a morte e depois jogados na prisão local. O chefe de polícia ordenou que suas cabeças fossem raspadas com cacos de vidro e ameaçou forçá-los a comer a resultante mistura de sangue e cabelo.

Quando se espalhou a notícia dessa tortura brutal, a oposição em massa forçou Gairy a libertar os seis prisioneiros. Esse tratamento brutal dos líderes do NJM foi um sério erro de cálculo. O chicote da reação provocou a greve geral que ele pretendia evitar. Os trabalhadores das docas, organizados no Sindicato dos Trabalhadores Marítimos e Estivadores (SWWU), entraram em greve em 1º de janeiro de 1974 contra Gairy, ao longo da orla de St. George. Os grevistas ganharam cada vez mais simpatia e solidariedade. As greves impediram a importação de alimentos e combustível. Gairy não tinha dinheiro para pagar o serviço público – nem mesmo a Gang Mongoose! Sua posição tornou-se ainda mais precária quando setores do serviço público e da polícia começaram a simpatizar com os trabalhadores em greve. Gairy atacou e jogou a Gang Mongoose contra grevistas e manifestantes.

Gairy foi apoiado pelo imperialismo britânico, que lhe enviou 100 mil libras para pagar o serviço civil e canhões para as docas a fim de intimidar os trabalhadores. Gairy também tinha outro aliado – a covardia dos líderes sindicais. Chegaram US$ 45 mil de granadinos no exterior para o fundo de greve, o que teria permitido à greve continuar sua ação militante e poderia ter derrubado Gairy. Os líderes do SWWU, apoiadores do PNB liberal, ficaram alarmados com a militância da greve e se preocuparam com o que aconteceria se a greve continuasse – eles consequentemente interromperam a greve. Isso deu a Gairy algum espaço para respirar e ele se comprometeu com setores da burguesia descontente. As massas granadinas sofreram outra derrota.

O “Revo” começa

Gairy fraudou a eleição de 1976 retirando os membros da oposição do registro de votação, permitindo que seus apoiadores votassem duas vezes, acrescentando os nomes das pessoas falecidas, além de usar a polícia e o exército para interromper comícios anti-Gairy. O NJM uniu oportunamente forças com o PNB e o Partido Popular Unido (uma cisão de direita do PNB) na “Aliança do Povo”. No entanto, apesar das maquinações de Gairy, a Aliança do Povo conquistou 48,5% dos votos e conquistou seis dos quinze assentos. Essa “Aliança do Povo” rapidamente se rompeu no ano seguinte, quando as diferenças de classe no bloco ficaram evidentes, com os partidos burgueses denunciando o “domínio” do NJM.

Maurice Bishop (foto na Alemanha Oriental) foi um dos primeiros líderes do NJM / Foto: Ulrich Häßler

 

O apoio ao NJM estava crescendo em toda a ilha. Eles conquistaram os trabalhadores para o seu programa, construindo apoio nos sindicatos existentes e conquistando cargos executivos neles, além de formar novos sindicatos. Eles formaram um grupo de jovens e mulheres ao lado o partido principal. O NJM também se infiltrou no exército e na polícia enquanto construía seu próprio destacamento paramilitar. A infiltração nas forças estaduais seria útil, pois foi após uma denúncia de um simpatizante da polícia que o NJM soube que Gairy havia ordenado a liquidação da liderança do NJM enquanto ele estivesse fora nos EUA. Essas informações forçaram a mão do NJM a iniciar a insurreição para tomar o poder.

No mesmo dia em que Gairy viajou, o NJM organizou a insurreição e marcou a data para 13 de março de 1979. O grupo atacaria os homens de Gairy estacionados no quartel em True Blue. O ataque não exigiu praticamente nenhum esforço. Depois de apreender o arsenal desprotegido do exército e queimar o quartel, eles tomaram a Estação de Transmissão e transmitiram um discurso, pedindo apoio à revolução. Milhares de granadinos invadiram as ruas, prendendo os membros da Gang Mongoose, confiscando as delegacias de polícia e arvorando a bandeira do NJM. No dia seguinte, toda a ilha estava em suas mãos.

A etapa nacional-democrata

A podridão do regime significou que houve pouca resistência. Como Trotsky disse uma vez: “Um leão mata-se com um tiro; a pulga esmaga-se entre as unhas”. O NJM proclamou o início do Governo Revolucionário Popular (PRG), mas não tomou medidas para derrubar o capitalismo.

Como os stalinistas, eles argumentaram que, devido ao baixo nível de desenvolvimento em Granada e ao pequeno tamanho da classe trabalhadora, Granada teria que passar primeiro pela “etapa nacional-democrata”. Para o NJM, isso consistia na construção de uma economia nacional, gerida com base em uma economia mista, com a aliança de todos os grupos anti-Gairy, incluindo a suposta burguesia “anti-imperialista” e anti-Gairy. As empresas estatais supostamente liderariam o desenvolvimento da economia, mas também trabalhariam ao lado e competiriam com o setor privado

Sobre a revolução, Bishop declarou:

“A Revolução de Granada é uma revolução nacional-democrática e anti-imperialista, envolvendo a aliança de muitas classes, incluindo setores da pequena burguesia, mas sob a liderança e com o papel dominante desempenhado pelo povo trabalhador e particularmente pela classe trabalhadora, através de seu partido de vanguarda, o NJM” (Discurso de março de 1982).

Como resultado, haveria pouca nacionalização pelo novo governo. No entanto, o PRG foi forçado a nacionalizar certas empresas devido à sabotagem econômica e má administração por parte da burguesia. Por exemplo, a Companhia de Eletricidade e a Companhia de Telefonia tiveram que ser assumidas devido à má administração. O Holiday Inn Hotel foi retomado após um incêndio e os proprietários se recusarem a reconstruí-lo. O Banco Imperial do Comércio Canadense cessou toda a atividade econômica e, consequentemente, foi nacionalizado.

Da mesma forma, o NJM interrompeu qualquer tentativa das massas de ir além dos limites do sistema capitalista. O exemplo mais famoso foi a supressão da Fazenda Coletiva do Povo, em uma propriedade junto ao rio Antoine. Esta propriedade foi tomada pelos trabalhadores e eles começaram a administrá-la sob o controle democrático dos trabalhadores. Os líderes desta iniciativa denunciaram o PRG como um “governo reformista pequeno-burguês” e escreveram vários artigos atacando-o. O PRG tentou “negociar” com os trabalhadores, mas alegou que eles estavam indo longe demais e estavam sendo contrarrevolucionários. Após inúmeras reuniões sem sucesso, os líderes dessa tomada foram jogados na prisão e a propriedade foi devolvida ao seu proprietário anterior.

Isso foi aproveitado pelos reacionários, que acusaram o PRG de ser um fantoche cubano/soviético que queria abolir todos os direitos humanos. Isso, por sua vez, foi usado pelo PRG como suposta evidência de que os líderes da expropriação estavam no bolso da reação. Se isso é verdade ou não, é discutível – embora suscite a questão da razão por que os reacionários iriam gostar de desafiar os direitos de propriedade burgueses em primeiro lugar. No entanto, o que não se pode discutir é que a ocupação da propriedade foi um verdadeiro levantamento dos trabalhadores contra os patrões. Nenhuma quantidade de propaganda pode forçar os trabalhadores a assumir o controle da produção.

A sabotagem realizada pela classe capitalista foi um fator significativo que acabou causando a queda do PRG, o que poderia ter sido evitado, desde que a liderança do NJM estivesse preparada para abolir o capitalismo e expropriar a classe dominante, que, no final das contas, retinha o controle da economia. No entanto, fazer isso exigiria a participação ativa dos trabalhadores e camponeses – uma decisão que a liderança do NJM não estava disposta a tomar.

Uma face “respeitável”

A construção de um governo “nacional-democrata” também serviu ao objetivo de apresentar uma face “respeitável” ao imperialismo mundial. Membros da burguesia anti-Gairy receberam posições no governo e apenas a propriedade da burguesia pró-Gairy foi nacionalizada. O NJM acreditava que, ao eliminar a influência do grupo de Gairy e enfiar de paraquedas figuras burguesas nas posições do governo, impediriam a agressão imperialista.

Para citar Bishop:

“Isso foi feito deliberadamente para que o imperialismo não ficasse muito emocionado e dissesse: “bom, eles têm bons companheiros nessa coisa; está tudo bem”. E, como resultado, não pensaria em enviar tropas”.

Outro exemplo foi quando o NJM chegou ao poder e prendeu o governador-geral. Eles lhe pediram que prometesse lealdade ao novo governo e, consequentemente, deixaram sua posição intacta. Isso levou à situação bizarra em que o PRG era um governo “marxista-leninista”, com a rainha britânica como proclamada chefe de Estado! A Lei do Povo nº 3 declara:

“O Chefe de Estado permanecerá Sua Majestade a Rainha, e seu representante neste país continuará sendo o Governador Geral, que desempenhará as funções que o Governo Revolucionário Popular de tempos em tempos aconselhar”.

Isso foi para dar ao PRG um certo grau de legitimidade aos olhos do imperialismo. No entanto, apesar da “legitimidade” que os líderes do NJM acreditavam ter sido dada a eles, os EUA começaram a invadir, independentemente de qualquer grau de legalidade. As potências imperialistas usariam quaisquer medidas para atingir seus objetivos, não importa quão legais ou ilegais pudessem ser. Os EUA sempre desejariam invadir, pois o PRG representava uma ameaça aos interesses dos EUA no Caribe. Portanto, o PRG deveria ter ido mais longe e expropriado os capitalistas dos EUA e seus lacaios, confiscado as grandes propriedades e implementado o controle dos trabalhadores.

O PRG buscou aparecer como um governo “legítimo” aos olhos do imperialismo, mesmo assim os EUA invadiram Granada / Foto: T. Sgt. M. J. Creen

 

A única verdadeira ruptura do imperialismo é derrubar o capitalismo. Nenhuma construção do “socialismo em um só país”, a construção de uma “economia nacional” ou a aparência de “respeitabilidade” pode impedir que as ondas destrutivas do imperialismo colidam contra esse muro de autopreservação isolada. A única defesa do socialismo é a revolução internacional, ou seja, virar-se para fora e apelar às massas exploradas no Caribe e nas Américas para se juntarem à luta para derrubar seus opressores, em uma federação socialista do Caribe, que inspiraria novas revoluções em todo o mundo, fortalecendo ainda mais a revolução socialista internacional.

Os ganhos da revolução

Apesar do fracasso do PRG em desafiar seriamente as estruturas do capitalismo, a revolução obteve uma série de ganhos. Todas as leis sindicais anti-trabalhistas foram revogadas pelo PRG em 1980. 14% do orçamento foram alocados em gastos com saúde, tornando-o um dos mais altos da Commonwealth no Caribe. O PRG pôs fim à corrupção no setor de saúde e usou a St. George’s University para treinar novos médicos e equipe clínica para seus hospitais. Equipes de saúde móveis também foram criadas para áreas remotas.

O PRG instituiu uma série de medidas que ajudaram a elevar a posição das mulheres na sociedade. O ônus da assistência à infância foi aliviado com o estabelecimento de pré-escolas e creches. Todas as formas legais de discriminação, como a desigualdade salarial, foram removidas imediatamente e as mulheres receberam licença de maternidade e maiores oportunidades de emprego. Mães solteiras de baixa renda também receberam subsídios para ajudar na compra de uniformes escolares e outras despesas.

Além disso, mais de 22% do orçamento foi alocado à educação e o analfabetismo foi reduzido de 70% para abaixo de 3%, em menos de 4 anos. Também foi criado um programa para dar aos professores do ensino fundamental uma educação formal. O ensino médio não era mais um privilégio inatingível, pois a taxa de estudantes que frequentavam o ensino médio aumentou de 11% para 40%. Foram criados cursos de educação de adultos para matricular milhares de granadinos em matemática, inglês e ciências. Foram criados programas de treinamento de habilidades para trabalhadores, treinando trabalhadores nos setores agrícola, de pesca, turismo e serviços públicos. Paralelamente, as bolsas para educação universitária gratuita aumentaram de um punhado para centenas.

Depois de chegar ao poder, o PRG tentou resolver a questão da terra. Antes da revolução, as maiores propriedades, responsáveis por menos de 1% do total de propriedades, constituíam 50% das terras cultiváveis. Em 1979, um terço dessa terra cultivável foi abandonada. O NJM distribuiu centenas de hectares ao campesinato e usou a terra para reduzir o desemprego para 10% em 1983. No entanto, o PRG apenas nacionalizou as terras que não estavam sendo usadas, o que significa que a maioria das terras ainda estava nas mãos dos grandes proprietários.

Conselhos zonais ou conselhos de trabalhadores?

Outro ganho da revolução foi na área da democracia. O PRG organizou o que eram essencialmente órgãos proto-soviéticos, chamados de conselhos zonais, que representavam zonas ou grupos de aldeias em uma paróquia. As reuniões eram organizadas todos os meses e um membro do Politburo do NJM precisava estar presente em todas as reuniões do conselho. Muitos dos programas do PRG tiveram origem em discussões e debates nessas reuniões do conselho. O PRG usou esses conselhos para ajudar a elaborar um “Orçamento popular”, permitindo que os trabalhadores e camponeses participassem da redação.

No entanto, houve vários problemas com esses conselhos. Suas estruturas nasceram de estruturas existentes do NJM e, consequentemente, tinham um caráter de comando de cima para baixo. Embora um membro do governo participasse dessas reuniões, não havia nada que os obrigasse a atender às demandas do povo. Não havia direito imediato de revogação, pois esse membro era nomeado pelo partido. Isso não quer dizer que o povo tenha sido ignorado, mas uma característica básica desse sistema eram os inexplicáveis burocratas estatais, que tinham apenas que “ouvir” as massas, em oposição aos oficiais do conselho nomeados pelos trabalhadores e camponeses. À medida que a revolução progredia e as dificuldades surgiam na liderança do partido, no último ano da revolução, nenhum oficial do PRG compareceu a uma reunião do conselho em mais de 18 meses. Isso significava que a única via pela qual os trabalhadores e camponeses tinham alguma aparência de controle democrático sobre a revolução foi cortada.

A derrota da revolução

As massas foram mantidas na obscuridade sobre os debates dentro do partido e o caminho a seguir para a revolução até a hora fatídica. Dentro do partido, uma luta pelo poder eclodiu entre dois grupos – um liderado por Bishop e o outro por Coard.

Maurice Bishop (foto na Alemanha Oriental) foi um dos primeiros líderes do NJM / Foto: Ulrich Häßler
A Revolução Granadina foi esmagada entre lutas de facções e a intervenção imperialista / Foto: Sgt. Christopher GrayH

Essa luta ocorreu no final de 1983, sob a ameaça de intervenção imperialista. Em março, os navios de guerra dos EUA se reuniram a quase 10 km do aeroporto de Point Salines e o governo dos EUA alegou que esse aeroporto estava sendo usado para fins militares soviéticos e cubanos. Essas alegações se revelaram comprovadamente falsas após a invasão dos EUA. A CIA também corrompeu e controlou a liderança sindical através do Instituto Americano de Desenvolvimento do Trabalho Livre (AIFLD), criado pela AFL-CIO. Eles tentaram desestabilizar o governo através de vários atos de sabotagem, como a tentativa de incitar os trabalhadores a entrar em greve e a dar um fim ao poder em todo o país.

Além disso, estavam as ineficiências administrativas, que afetavam a liderança do NJM. Os membros do Comitê Central do NJM (CC), todos ministros do governo, desconsideraram as massas, pois se concentraram no funcionamento do Estado quando a economia começou a diminuir. A base do partido, de apenas 500 membros, também era pequena demais para poder gerenciar a economia. Com excesso de trabalho e sobrecarregados, muitos membros tiveram que tirar licenças por enfermidade, exacerbando ainda mais esses problemas.

Razões tiveram que ser encontradas para essas ineficiências. A raiz desses problemas foi identificada pela primeira vez como negligência e falta de disciplina por parte dos funcionários, mas acabou se transformando em críticas dirigidas a Bishop – acusando-o de “arrogância”, de “personalismo” e de “desvios pequeno-burgueses”.

Para resolver essa crise, o NJM concordou com um modelo de liderança conjunta entre Bishop e Coard no início de setembro de 1983. Bishop concordou com a sugestão de liderança conjunta e partiu para a Hungria em uma missão diplomática. Bishop disse à sua segurança (Cletus St. Paul e Errol George) que essa era uma luta pelo poder e que apenas um deles sairia vitorioso. Depois da Hungria, Bishop seguiu para Cuba antes de retornar a Granada em 6 de outubro. St. Paul e George circularam em Granada um boato de que Coard estava planejando matar Bishop. Alarmada com isso, a facção de Coard ordenou que Bishop fosse preso e o colocou em prisão domiciliar por atividades contrarrevolucionárias em 13 de outubro.

Membros da facção Bishop alertaram às pessoas sobre a prisão de Bishop e milhares de pessoas saíram às ruas para exigir que ele fosse libertado. Nos bastidores, a facção de Bishop estava negociando com a facção Coard, na esperança de alcançar algum tipo de compromisso. Eles tentaram conter as massas ativamente, usando-as apenas como tática de negociação contra a facção de Coard. No entanto, as massas irromperam nas ruas. 15 mil pessoas saíram em 19 de outubro e algumas foram à casa de Bishop para libertá-lo. De lá, eles marcharam com ele até Fort Rupert.

Outros membros da facção de Bishop começaram a distribuir armas para as massas em defesa dele, o que levou a um impasse entre o Exército Revolucionário Popular (PRA) e as massas armadas, antes de terminar em um confronto violento. Vendo a carnificina se desenrolar, Bishop protestou e se entregou para parar a violência. Bishop, juntamente com alguns outros, foram presos e sumariamente fuzilados. Hudson Austin, líder do PRA e parte da facção Coard, assumiu o comando e formou o “Conselho Militar Revolucionário” – instituindo um toque de recolher de 72 horas no qual, se alguém deixasse suas casas, seria morto a tiros. No entanto, centenas de pessoas ainda saíram às ruas para protestar contra o assassinato de Bishop. Em menos de uma semana, em 25 de outubro, os EUA invadiram a ilha, esmagaram as forças do PRA e derrubaram o governo de Austin. Depois de varrer o PRG, o imperialismo dos EUA organizou a eleição de um regime fantoche, que começou a desfazer todos os ganhos da revolução.

Lições para hoje

Essa luta pelo poder é geralmente apresentada como uma batalha entre duas ideologias opostas. Bishop é retratado como o “moderado” ou melhor como um social-democrata, em contraste com Coard, que é retratado como o marxista radical que queria erradicar o capitalismo e estabelecer uma ditadura. No entanto, nada do que Coard disse indicava uma direção mais radical – ambos concordavam com a “revolução nacional-democrática”. Antes da revolução, eles haviam trabalhado praticamente em conjunto em todas as decisões dentro do NJM. Bishop costumava pedir às pessoas que aprovassem as propostas de Coard antes de conhecê-las e vice-versa. Mas, apesar disso, a luta pelo poder ainda terminou em um banho de sangue. Isso mostra que, apesar das boas intenções da liderança do NJM, os trabalhadores e camponeses não tinham controle democrático sobre o partido, o que criou uma situação em que a luta entre duas facções opostas só poderia ser resolvida através da liquidação da outra.

Há muitas lições que podem ser extraídas da revolução granadina, sejam os problemas organizacionais associados a governar sem as massas, ou as questões táticas como o frentismo popular, mas a principal lição da revolução granadina é o fracasso em não concluir a revolução. Em vez de tentar administrar uma “economia mista” com uma aliança de classes hostis, o NJM deveria ter derrubado o capitalismo – expropriado a economia e colocando-a sob o controle democrático dos trabalhadores e camponeses.

A liderança do NJM mostrou que, apesar do desejo de libertar as massas, não estavam preparados para seguir todo o caminho. Em vez disso, permitiram que a maioria da classe capitalista mantivesse suas propriedades e sabotasse ativamente a revolução. Quando os trabalhadores tomaram a iniciativa de assumir o controle sobre seus locais de trabalho, o PRG reuniu os “provocadores” e os jogou na prisão, enquanto devolvia a propriedade aos capitalistas. O NJM finalmente não acreditava nas massas, acreditando que a construção do socialismo poderia ser deixada apenas à mão orientadora do partido. Isso é demonstrado pela falta de democracia real dos trabalhadores em Granada, apesar da presença dos Conselhos Zonais, que eram principalmente clubes de discussões e não órgãos do poder dos trabalhadores.

Era inevitável que, sem a derrubada do capitalismo com a participação ativa das massas, a revolução terminasse em derrota. As contradições na sociedade e a influência das forças pequeno-burguesas e burguesas não enfraquecem quando o partido revolucionário chega ao poder, mas se tornam mais fortes. As dificuldades em manter essa aliança infeliz de classes abalaram imensamente a liderança. As pressões do imperialismo, a sabotagem ativa da burguesia local e a crescente apatia das massas agiram como catalisadores de uma luta entre facções que o imperialismo americano explorou ao máximo.

Hoje, os eventos de 1979 a 1983 fornecem um exemplo inspirador para as massas oprimidas do mundo. Apesar das limitações da revolução, os trabalhadores dessa pequena ilha, ameaçados por todos os lados, assaltaram o céu. Mas, dessa luta heroica, há uma lição crucial para todos nós: não se pode fazer uma meia revolução. Somente uma luta internacional para derrubar o capitalismo em todo o mundo pode garantir a vitória do socialismo. Esta é a nossa luta.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM MARXIST.COM

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