Foto: European Parliament/Pietro Naj-Oleari

A dor da gente sai no jornal?

Notas sobre a postura da mídia diante da violência contra a mulher

As manchetes dos jornais de 18 de janeiro, sobre o suposto assassinato de um homem, que não por acaso teve seus atributos de bom cidadão enumerados um a um, causam espanto por um dado mencionado de forma rasa nas matérias de diversos veículos: o homem deu causa à reação da verdadeira vítima, a mulher, que apenas se defendeu, numa reação proporcional e razoável, empurrando o agressor – morto por acidente – que lhe golpeara a cabeça instantes antes. Mas qual seria a causa, o propósito de diversos veículos assinarem uma versão tendenciosa e por que não dizer mentirosa sobre a legítima defesa de uma mulher? A resposta é simples: o machismo. Todavia a realidade é mais complexa do que parece. O machismo é embaixador fiel de algo que se alimenta de sua capacidade segregadora: o capitalismo.

 Já quando uma mulher decide denunciar um caso de violência, não são seus atributos que são exaltados, mas seu comportamento cotidiano, suas roupas e fotos nas redes sociais, como vimos no assombroso processo do caso de Mariana Ferrer. Às mulheres, como diz o infame ditado “não basta ser honesta, é preciso provar que é”.

Sabemos que a mídia é o aparelho ideológico da classe burguesa e que, embora o machismo não tenha surgido com o capitalismo (mas com a sociedade dividida em classes), este incentiva e se beneficia enormemente da crença na inferioridade da mulher. À mídia burguesa, somam-se o poder judiciário e a polícia para garantir que tudo permaneça no seu devido lugar.

Mesmo diante de uma aparente posição progressista da mídia que, juntamente com setores da burguesia, tem assimilado reinvindicações pautadas pelos movimentos das mulheres, negros e LGBT, ainda persiste, nesses casos, a dúvida diante das acusações das mulheres, reciclando o comportamento reacionário que culpabiliza as vítimas e justifica as ações dos agressores.

Essa prática persistente demonstra os limites dessas reinvindicações quando não estão vinculadas à uma proposição radical de superação do capitalismo e de todas as relações sociais convencionadas por ele. Disputar “espaços de poder” ou lutar pela “representatividade” nesse Estado e nesse sistema não é suficiente diante da barbárie na qual estamos imersas. É preciso derrubar esse sistema nos organizando a partir das nossas necessidades mais imediatas.

É preciso compreender que, assim como o racismo – criado pelo capitalismo para justificar a acumulação primitiva do capital através da escravidão negra – também o machismo rebaixa a média salarial da classe trabalhadora como um todo, já que mulheres e negros costumam receber salários menores do que homens brancos para realizarem os mesmos trabalhos. Além disso, ambos (racismo e machismo) reforçam as divisões na classe trabalhadora (“dividir para conquistar”), o que desvia o foco do problema real que é o sistema de exploração em que vivemos: o capitalismo.

Sim, é necessário lutar pela emancipação da mulher agora e com urgência, para que casos como esse e todas as mortes de mulheres, que inundaram os noticiários no final de 2020, sejam abolidos. Porém, precisamos ter clareza de que sem estratégia revolucionária, ou seja, sem derrubar este sistema, o fim da violência contra a mulher jamais será alcançado.

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