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Foto: Flickr, Studio Incendo

Protestos de Hong Kong forçam a suspensão da lei de extradição: o movimento deve avançar!

Em 16 de junho, há apenas uma semana da última marcha de milhões de pessoas que ocorreu em Hong Kong, aconteceu um segundo protesto em massa. Segundo os principais organizadores da Frente Civil de Direitos Humanos, cerca de dois milhões de pessoas participaram de passeata de ontem. A julgar pelas imagens e números disponíveis, bem como pelo que vi, é inteiramente crível que esse protesto seja maior do que o do domingo anterior.

Esse movimento de protesto ampliado ocorreu apesar da suspensão, no dia anterior, pela Chefe do Executivo Carrie Lam, da lei de extradição, e do pedido de desculpas aos cidadãos de Hong Kong que ela emitiu na noite do domingo. A demanda por uma greve geral continua a ser popular e agora o movimento está avançando da simples exigência de retirada da lei à renúncia de Carrie Lam como Chefe do Executivo. Como já vimos em muitos casos ao redor do mundo, a lógica dos acontecimentos está impulsionando o movimento defensivo das massas a passar à ofensiva.

Catalisador

Talvez o principal gatilho que impulsionou os já enormes protestos em Hong Kong a um nível superior foi a morte de um manifestante na noite de 15 de junho. Naquela noite, um manifestante subiu os andaimes de construção do Almirantado, o distrito onde a maioria dos prédios do governo estão localizados, para pendurar uma bandeira pedindo a renúncia da Chefe do Executivo Carrie Lam e o cancelamento permanente da lei de extradição. Quando as autoridades tentavam removê-lo dos andaimes, ele despencou para a morte.

Embora já houvesse um protesto marcado para hoje, a morte do manifestante transformou o protesto do domingo em uma vigília em massa. Dezenas de milhares de pessoas vestidas de preto desceram sobre o Almirantado, muitas delas carregando uma flor branca. Havia um sentimento de disciplina e de ira contida quase palpáveis entre os manifestantes enquanto entravam em cena. A multidão era formada esmagadoramente por pessoas jovens. Enquanto caminhava através da multidão, não foram poucas as palavras murmuradas em chinês (Mandarim) com sotaque continental, que escutei.

A morte de um manifestante em 15 de junho impulsionou os protestos a um novo nível. Foto: Flickr, Studio Incendo

O protesto massivo fluía constantemente no Almirantado da tarde para a noite, altura em que o tamanho da multidão cresceu nas ruas. Parecia que tinha sido lançada uma ocupação improvisada, visto que muitos manifestantes permaneceram até altas horas da noite. A disciplina e a criatividade das massas eram inspiradoras. A certa altura, a multidão abriu caminho de forma eficiente e silenciosa para uma ambulância passar, numa cena que nos lembrou Moisés abrindo o Mar Vermelho. À medida em que o protesto já passava das 12 horas da manhã da segunda-feira, 17 de junho, quando seria considerado oficialmente ilegal, os manifestantes se organizaram para cantar “Aleluia ao Senhor”, para explorar uma lacuna legal em que as reuniões religiosas não são regulamentadas pelas disposições de segurança pública de Hong Kong. Alguns manifestantes, inclusive, foram ao aeroporto com propaganda de agitação que pareciam sinais de boas-vindas para os visitantes estrangeiros se mostrarem solidários com a manifestação.

O ânimo das massas é militante e em nível mais alto do que durante o Movimento Umbrella de 2014. Por um lado, o método da luta de classes de uma greve geral permanece altamente popular dentro das fileiras dos participantes como um meio de combater os ataques do governo. Os grupos reacionários locais, de extrema-direita, que se baseavam no ódio anti-continente e nos sentimentos anticomunistas, foram incapazes de intervir no movimento desta vez, como o fizeram no Movimento Umbrella. Isto se atribui, em parte, às suas próprias lutas internas, mas também ao fato de que as massas estão claramente mais interessadas, desta vez, na luta de classes do que na xenofobia, para resolver os seus problemas.

De fato, a nova geração de habitantes de Hong Kong oferece um vislumbre de porque o potencial de solidariedade com o continente é enorme, enquanto o ódio xenofóbico está fadado ao fracasso. Um dos participantes, um colegial de 17 anos de idade, descreveu-se dessa forma:

“Os estudantes de minha geração tendem a tocar Tik Tok, a beber Heytea [uma cadeia de casas de chá baseada em Shenzhen] a ouvir A Voz da China, e alguns inclusive falam mais Mandarim do que o Cantonês. Usamos Instagram, mas não tanto o Facebook. Não sinto repulsa pela China. Vejo programas de jogos chineses, mas não quero que o PCC [Partido Comunista da China] governe Hong Kong”.

Covardia de classe média e fracasso de liderança

Infelizmente, as massas nessa etapa não têm a liderança que merecem. Embora tenham se movido de forma corajosa, é claro que as organizações que lideraram os protestos desempenham o papel de dirigir a energia do movimento por meio de políticas incorretas.

Embora o apelo por uma greve geral permaneça popular até agora, nenhuma organização trabalhista ou outra se esforçou seriamente para organizar uma. Por exemplo, há a Frente Civil de Direitos Humanos, que, apesar de ser o suposto organizador de todo o movimento, é claramente incapaz de liderar o protesto de milhões de pessoas em que esse movimento se transformou. Antes do protesto do domingo, a Frente Civil de Direitos Humanos solicitou, preventivamente, a suspensão das “Três Greves” (greve dos trabalhadores, greve dos estudantes e greve do mercado) que muitos das fileiras claramente desejavam.

Por volta das 11 horas da noite, eles retomaram a convocação para o lançamento das Três Greves no dia seguinte, proporcionando apenas um gráfico que parece mostrar que haveria apenas uma greve dos assistentes sociais, uma paralisação escolar dos estudantes e um protesto organizado pela Confederação dos Sindicatos de Hong Kong (HKCTU). Por parte do HKCTU, eles continuaram a caricaturar trabalhadores pedindo um dia de folga para protestar, como forma de luta, confundindo completamente a luta de classes inerente às greves, e transformando-a em uma decisão individual e não em uma ação coletiva.

No entanto, dada a escala do recente protesto, que excedeu em muito as expectativas da Frente Civil de Direitos Humanos e de outras organizações, é muito provável que as massas avancem sem ouvir a liderança existente.

Divisões no topo

Em claro contraste com seu descarado desafio às massas há apenas alguns dias atrás, a Chefe do Executivo, Carrie Lam, voltou atrás e anunciou que a lei seria suspensa. Isso foi acompanhado por um pedido de desculpas emitido na noite do domingo. No entanto, significa isso que tudo acabou e que as massas devem arrumar as malas e voltar para casa?

A real razão por trás desse seu movimento pode ser atribuída a dois fatores. Em primeiro lugar e acima de tudo, a extrema fermentação que essa lei de extradição fez surgir na sociedade de Hong Kong agora está claramente ameaçando a estabilidade do capitalismo, apesar da ausência de uma greve geral. De acordo com a Agência Reuters, os negócios e interesses pró-Pequim foram completamente incapazes de organizar contraprotestos, algo que eles foram capazes de fazer em ocasiões anteriores. Alguns capitalistas inclusive saltaram a vala e começaram a transferir seus ativos para fora de Hong Kong ante esse movimento de massas.

Embora não tenha ocorrido uma greve geral e nenhum esforço sério por parte da liderança dos trabalhadores ou dos líderes estudantis para organizar uma, o fato de que a ideia de uma greve geral tenha se tornado tão claramente popular pegou o governo e os capitalistas de surpresa. Isso nos dá um vislumbre do verdadeiro poder da classe trabalhadora na sociedade.

Tanto o South China Morning Post quanto a Reuters informam que a própria Lam se rendeu ante a enorme pressão das massas e buscou a aprovação de Pequim para mudar sua estratégia com relação aos manifestantes (especificamente, junto ao membro do Comitê Permanente Han Zheng, que supervisiona a política do PCC com respeito a Hong Kong). O PCC, supostamente, aceitou a contragosto essa proposta, visto que o tamanho dos protestos está começando a interferir em muitos acontecimentos futuros importantes, na medida em que a China afunda cada vez mais na guerra comercial com os EUA. Sem dúvida, o regime chinês também teme que a imensidade do movimento em Hong Kong pode começar a ter um impacto na própria China continental.

Os acontecimentos em Hong Kong também estão rejuvenescendo as perspectivas eleitorais em Taiwan para o presidente burguês do DPP, Tsai Ing-wen, em sua candidatura à reeleição no próximo ano. Devido à ausência de um partido de massa dos trabalhadores ou de uma alternativa socialista em Taiwan, muitos trabalhadores e jovens estão sob a pressão do argumento do “mal menor” para apoiar Tsai, que é visto, de forma superficial, como a pessoa mais viável para resistir à China. O DPP sofreu uma derrota massiva nas eleições municipais do ano passado devido às suas políticas reacionárias e antitrabalhadoras desde que tomou posse, mas a ascensão de populistas de direita do KMT, tais como Han Kuo-yu e do CEO de Foxconn, Terry Guo, ambos considerados como extremamente pró-China e altamente preferidos pelo PCC, está agora empurrando algum apoio de volta ao DPP. Uma segunda vitória eleitoral do DPP significaria, no entanto, outra derrota para a estratégia do PCC com relação a Taiwan.

Por outro lado, embora a lei tenha sido suspendida, não foi cancelada. A suspensão realizada por Carrie Lam ontem pode muito bem ser uma manobra para confundir e desmobilizar as massas, apenas para que a lei e outras medidas ditadas pelo PCC sejam implementadas em data posterior. Afinal, o PCC tem rotineiramente sequestrado pessoas de Hong Kong para a China e as forçado a “confessar” na televisão sem qualquer base legal. Felizmente, a enorme manifestação de hoje comprova que as massas estão longe de estar desmoralizadas e estão mais determinadas do que nunca.

O PCC também não pode permitir que essa suspensão pareça uma derrota de sua parte, porque tal coisa minaria o temor das massas chinesas ao PCC como um monólito incontestável. Eles encontrarão outros meios para derrotar o movimento. Vários organizadores dos movimentos de Hong Kong já foram presos.

Portanto, o movimento de Hong Kong não deve perder o seu impulso e começar a construir comitês de greves nos bairros e locais de trabalho para se preparar para o próximo ataque do governo de Hong Kong e do PCC. Eles devem também oferecer políticas positivas, tais como a reformulação da Constituição, o direito de autodeterminação e a expropriação de grandes ativos empresariais, colocando-os sob o controle democrático dos trabalhadores para mitigar a crise social causada pelo sistema capitalista de Hong Kong. Deve pedir ativamente à classe trabalhadora chinesa para se organizar e lutar também contra o PCC.

Solidariedade internacional

A solidariedade além das fronteiras não é apenas romantismo, e sim uma exigência real e concreta. Já vimos manifestações de solidariedade de muito além de Hong Kong.

No mesmo momento em que grassava o protesto de milhões de pessoas em Hong Kong, mais de dez mil jovens taiwaneses se reuniram em torno do Yuan Legislativo de Taiwan, também vestidos de preto, em apoio a Hong Kong. Nos dias anteriores, houve reuniões espontâneas de apoio a Hong Kong por toda Taiwan. Um exemplo notável ocorreu em 14 de junho, quando um estudante da Universidade Nacional de Taiwan, em Taipei, pediu aos estudantes que se reunissem para mostrar solidariedade aos manifestantes anti-extradição de Hong Kong. Dentro de meia hora, mais de 500 estudantes compareceram à reunião. O militante Taoyuan Flight Attendant Union, que está atualmente liderando uma significativa greve de EVA Air Workers, também emitiu uma petição de solidariedade assinada por 46 sindicatos e organizações, além de muitos indivíduos. A petição não somente declarava solidariedade às massas de Hong Kong, também criticava os governos de Taiwan e Hong Kong por enfraquecerem a capacidade da classe trabalhadora de se defender, ao não concederem o direito de greves políticas.

Os estudantes universitários da Coreia do Sul também lançaram uma petição ao presidente Moon Jae-in, em 14 de junho, para apoiar o movimento em Hong Kong, que desde então já reuniu mais de 20.000 assinaturas. Os organizadores da petição estão agora fazendo campanha enérgica por mais assinaturas, já que o presidente seria obrigado a responder à petição se esta obtém mais de 200.000 assinaturas dentro de 30 dias. A União da Juventude da Coreia do Sul, uma confederação amalgamada que afirma representar todos os trabalhadores entre as idades de 15 a 39 anos, emitiu uma declaração de apoio ao movimento.

É difícil avaliar como a classe trabalhadora e a juventude chinesa continental responderam a esse evento desde dentro, já que a China, como esperado, bloqueou todas as notícias sobre os protestos em Hong Kong. No entanto, dada a presença de pessoas do continente dentro do movimento em Hong Kong e a ocasional palavra de apoio delas, é provável que não poucos estejam acompanhando de perto os acontecimentos.

Todos os movimentos radicais devem avançar continuamente; caso contrário, recuarão e o governo será capaz de se reafirmar. Este não é diferente. A manifestação de ontem a impulsionou a um nível mais alto do que nunca. Hong Kong tem muitos problemas além da lei de extradição. É extremamente custoso viver lá – mais para a classe trabalhadora do que em Londres, Nova Iorque ou Tóquio. Os trabalhadores vivem em condições precárias.

Além do mais, a constituição não proporciona espaço para a representação da classe trabalhadora, e não há eleições genuinamente democráticas. Portanto, para avançar, o movimento deve agora levantar as demandas de habitação social e de expropriação da propriedade e dos ativos dos parasitas bilionários, e a formação de uma constituição completamente nova e democrática, a ser elaborada por representantes eleitos deste movimento e dos sindicatos. Esta é uma oportunidade histórica. O movimento deve se apoderar dela.

Tradução de Fabiano Leite.

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