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Awd Mohamed Ahmed Ibn Auf

O Sudão depois da queda de Bashir: as massas lutam contra o golpe

Depois da remoção dia 11 pelos militares do agora ex-presidente Omar al-Bashir do poder, o povo do Sudão permaneceram nas ruas. Eles rejeitaram o toque de recolher e o conselho militar de transição liderado por Awad Mohammed Ahmed Ibn Auf, o ex-vice-presidente do Sudão. Dia 11, em resposta ao novo governo de transição formado pela velha guarda do regime, cânticos podiam ser ouvidos dizendo “Não substituiremos um Koaz [líder islâmico] por outro, Ibn Auf nos esmagará, somos a geração que não será enganada” e “a revolução apenas começou”.

Rapidamente se seguiu a isso uma declaração das Forces of the Declaration of Freedom and Change [Forças da Declaração de Liberdade e Mudança], formadas pela Sudanese Professional Association (SPA) e grupos de oposição, incluindo a National Consensus Alliance (NCA), Sudan Call e Unionist Gathering [Encontro Sindical]. Essa declaração conjunta convocou o povo do Sudão a “continuar a revolução, mantendo suas posições de ocupação no QG das Forças Armadas em Khartum e em outros postos principais do SAF, nas províncias do Sudão, e a permanecer nas ruas de todas as cidades do Sudão. Manteremos nossas posições nas praças públicas e estradas que libertamos com nosso poder, continuando com a luta popular até que o poder estatal seja reintegrado a um governo civil de transição que represente as forças da revolução. Esta é a nossa clara e irrevogável posição: as ruas nunca traem e nos encontraremos ali”.

Soldados sudaneses

Pela noite do dia 11, enquanto o sol se punha e se aproximava o toque de recolher, o número de manifestantes na concentração inflou enquanto Khartum via um fluxo de manifestantes das cidades vizinhas, incluindo Atbara, onde o movimento teve início. Chegou as 10 horas da noite, a hora do toque de recolher, e o povo não se moveu. Deixaram claro que não vão ceder até que tenham um governo civil de transição. À medida em que chegavam mais informes sobre a mudança cosmética da liderança e da transferência interna do poder dentro do regime, tornou-se claro para todos que esta era uma tentativa final do Partido do Congresso Nacional (NCP, em suas siglas em inglês) para manter o poder e reprimir o movimento.

O anúncio também chegou como uma novidade para grande parte dos militares. Fontes anônimas dentro do exército disseram que não haviam sido informados desse golpe nem concordam com ele e, em vez disso, ficariam do lado do povo. Disseram que este era um golpe interno organizado pelo Conselho de Segurança, formado pelos líderes do NCP, NISS e Ibn Auf. O conselho militar de transição informou que divulgará uma declaração nomeando os membros do conselho, mas até agora somente duas pessoas haviam sido nomeadas, despertando suspeitas. No entanto, está claro que o conselho é totalmente composto por figuras do velho regime.

Ibn Auf, por exemplo, foi sancionado por crimes de guerra em Darfur em 2007, os mesmos crimes que viram Bashir ser procurado pelo ICC [Tribunal Criminal Internacional] por crimes de guerra. Durante os últimos três meses de manifestações, Ibn Auf teria ordenado ações violentas contra os protestos, dando aos militares até mesmo permissão para atirar para matar. No entanto, ainda existem divisões dentro do exército. Os que escolheram ficar do lado do povo permanecem nas ocupações. Além disso, uma declaração recente emitida pelo comandante das Forças de Apoio Rápido (RSF, em suas siglas em inglês) disse que não se juntaria ao conselho militar de transição. Embora isso represente um grande golpe para o conselho militar de transição, cabe lembrar que as RSF atualmente detêm a grande maioria dentro de Khartum – o RSF era o exército privado de al-Bashir dentro do exército e é composto de ex-membros da Janjaweed [milícia de criminosos em Darfur – NDT]. Estes últimos são criminosos notórios que cometeram atrocidades massivas em Darfur. Isso significa que as intenções da RSF ainda estão por se ver.

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O próximo passo

As pessoas estão conscientes de que os próximos dias serão cruciais; o conselho militar de transição fará o que puder para dispersar as multidões. Já tentaram fechar as principais pontes que levam a Khartum antes do toque de recolher e emitiram declarações anônimas de solidariedade dos soldados a Ibn Auf. Contudo, isso apenas mostra o desespero do regime. O povo já sabe que muitos dos militares de baixa patente simpatizam com o movimento. Eles também tentaram ganhar a simpatia do povo libertando todos os presos políticos da revolta desde meados de dezembro. No entanto, também indicaram que, caso não consigam o que querem, desencadearão ações agressivas contra o povo. O povo não tem quem o proteja além de seus números e do movimento para lutar contra essa tentativa de golpe militar.

Emblema do Partido Comunista Sudanês

O Partido Comunista Sudanês, junto a outros grupos de oposição, declarou que rejeita qualquer golpe militar e que o exército deve fazer o que o povo quer. O partido propõe formar uma coalizão com os movimentos civis e os sindicatos e formar um conselho único para governar o país por um mínimo de quatro anos. Isso, acreditam eles, é para assegurar que o povo seja capaz de se organizar e decidir por si mesmo a direção do Sudão.

Embora seja correto exigir que o exército recue, negociar com o exército e substituir o regime por outro governo não-eleito não resolverá nenhum dos problemas. O que é necessário é que o Partido Comunista, os sindicatos e outras organizações de massa construam uma rede de conselhos em todas as fábricas, escolas, bairros e aldeias, eleitos pelas massas revolucionárias com o direito de revogação. Estes devem estar conectados em nível nacional para tomar o poder.

Em 6 de abril, uma greve geral foi anunciada. Apesar de todos os decretos do exército, o povo permanece nas ruas. Os militares estão totalmente isolados e muito fracos e o golpe não tem nenhum apoio. Está sofrendo uma série de divisões e é incapaz de reagir com violência contra os manifestantes. Tal ataque levaria a uma reação em massa ainda maior, que poderia desintegrar o exército e destruir o regime totalmente. Está totalmente superado em número pelo povo, que detém o poder real em suas mãos. A tarefa agora não é pedir ou negociar, mas mobilizar e expandir a revolução, para derrubar o exército e todo esse regime apodrecido que há décadas despoja o povo.

Publicado em 12 de abril de 2019, sob o título “Sudan after Bashir’s fall: the masses fight against the coup“. Tradução de Fabiano Leite.

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