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Sobre Dilma, a ONU e os golpes contra a juventude negra

Nesta última sexta-feira a presidenta Dilma Rousseff esteve em Nova York para participar da Assembleia geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Para desconsolo dos petistas ela nem tocou no tema “golpe”. Preferiu manter a diplomacia e dizer que o Brasil não “aceitará retrocessos” no que diz respeito à democracia. Porém, após a Assembleia, a presidenta falou mais claramente e criticou os golpistas para a imprensa.

Nesta última sexta-feira a presidenta Dilma Rousseff esteve em Nova York para participar da Assembleia geral da ONU (Organização das Nações Unidas).

Para desconsolo dos petistas ela nem tocou no tema “golpe”. Preferiu manter a diplomacia e dizer que o Brasil não “aceitará retrocessos” no que diz respeito à democracia. Porém, após a Assembleia, a presidenta falou mais claramente e criticou os golpistas para a imprensa.

Parece que a presidenta segue a linha de “dois pesos, dois discursos”. Para a burguesia internacional ela mantém a diplomacia e as boas aparências, mas para os de dentro do país inflama a ideia de que existe um golpe sendo tramado.

Talvez essa história de golpe tenha ido longe demais e esteja começando a apresentar suas contradições, afinal a ideia de golpe inflama uma parcela da população em defesa do governo Dilma, é verdade. Porém, empurra a classe trabalhadora a exigir uma postura mais à esquerda da presidenta, coisa que ela não está interessada em assumir, vide a Lei antiterrorismo que ela assinou recentemente. Lei esta que só tem como alvo os trabalhadores e jovens que têm ido às ruas lutar por seus direitos.

Por falar em terrorismo, bem que Dilma poderia ter denunciado a atuação criminosa das tropas da ONU no Haiti, pois a ação que a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) tem realizado não pode receber outro nome a não ser terrorismo. Porém essa denúncia seria outra contradição de Dilma, afinal a “missão de paz” é coordenada pelas forças armadas brasileiras, o mesmo aparato repressor que atua na pacificação das favelas no Rio de Janeiro.

Enquanto a assembleia da ONU declarava que esta será a década da erradicação da fome e da desnutrição, os soldados da ONU no Haiti (e em outros países) se aproveitam da situação de fome e miséria de inúmeras crianças para cobrar favores sexuais em troca de água e comida.

Só no Haiti os casos de denúncias de abusos sexuais foram mais de 225, e um terço dessas mulheres são menores de idade. Nos outros países, onde as “Tropas da Paz” atuam, chega a mais de 455 casos registrados entre 2007 e 2013. Os números reais são bem maiores, afinal, sabemos que a maioria das pessoas que sofre abuso não tem coragem de denunciar, sem falar que até 2005 nem existia lei nesse país que punisse os estupradores.

Os relatos são assustadores. A BBC apresentou uma entrevista em março onde relata os bárbaros casos de abusos sexuais realizados pelas ações da ONU. Em um dos casos uma menina de 7 anos afirma ter feito sexo oral em soldados franceses em troca de água e biscoito. Os casos são recorrentes e assustadores e denunciam toda a perversidade com que o capitalismo trata os negros há séculos.

Vemos que nem a ONU nem a Dilma estão muito interessadas em acabar com o assassinato da juventude pobre e negra, seja do Haiti, seja do Brasil. Afinal, o mesmo aparato militar utilizado para oprimir, humilhar e assassinar a juventude pobre e negra no Brasil, é utilizado também no Haiti.

Além dos crimes sexuais, as tropas da ONU cometem muitos outros crimes como agressões, assassinatos e extorsões, quando na verdade deveriam estar ajudando o povo haitiano. Os capacetes azuis (como são conhecidas as tropas da ONU) também levaram para o país a cólera, que já causou mais de 8 mil mortes registradas e 712 mil casos de incidência da doença.

Vemos que os jovens pobres do mundo todo não têm outra solução a não ser resistir.

Quem está sofrendo um golpe não é Dilma, e sim a classe trabalhadora, que segue sendo explorada e oprimida pelo sistema capitalista. Cada dia que passa a burguesia prepara mais uma chicotada nas costas da classe trabalhadora. O capitalismo é barbárie sem fim.

E a democracia burguesa, a qual Dilma tanto defende, não é capaz de mudar essa situação. O Estado Democrático de Direito cria leis que só beneficiam os mais ricos e, quando os pobres reagem, o Estado lança seus cachorros raivosos para garantir a ordem.

Foi isso que vimos nas jornadas de junho: repressão e agressão. É isso que os moradores de favela vivem todos os dias, seja com a Unidade de Polícia Pacificadora, seja com as Tropas da Paz da ONU.

A solução é destruir a democracia burguesa, que só é “democrática” para os ricos. Devemos construir a democracia operária, um governo dos trabalhadores.

 A juventude e a classe trabalhadora devem se unir e construir uma saída revolucionária para a situação cotidiana de terror e opressão. Organizar comitês de luta e assembleias em todas as fábricas, escolas e bairros. Assembleias populares onde as pautas dos pobres sejam colocadas na ordem do dia.

Se Dilma estivesse interessada em conseguir apoio para enfrentar os ataques que seus ex-aliados burgueses estão lhe dando, ela deveria recorrer à classe trabalhadora. Mas para isso ela precisaria pautar as reinvindicações dos trabalhadores e da juventude, e a isso ela não está disposta. Por isso prefere continuar recorrendo às alianças com a burguesia, enquanto golpeia mais a classe trabalhadora com medidas como: Ajuste Fiscal, Reforma da Previdência, PPE, Dívida Externa, Lei Anti-terrorismo etc.

Enquanto isso a juventude só quer ser livre. Livre pra ser mulher e andar na rua sem ser estuprada, livre para ser negro sem ser acusado de ser criminoso, livre para poder ser homossexual sem ser agredido, livre para ter comida e dar aos filhos, livre para viver com dignidade.

Enquanto esse mundo de liberdade não existir, seguiremos na luta.

  • Fim da Ocupação Militar Já! Fora Tropas da ONU!
  • Ajuda humanitária deve ser com médicos, professores, infra-estrutura! Basta de tropas militares!
  • Pelo direito à autodeterminação do povo haitiano! Que os haitianos tenham a liberdade de se organizar e manifestar! Que possam lutar por melhorias e decidir seu próprio futuro!
  • Fim dos assassinatos, abusos sexuais e massacres dos pobres pelas tropas da ONU e Polícia Nacional!
  • Liberdade aos presos políticos – parem com as detenções ilegais e torturas no Haiti!

*Para entender mis sobre a história do Haiti, leia nosso artigo “Haiti 2004-2014: 10 anos de ditadura militar da ONU” :  http://www.marxismo.org.br/content/haiti-1994-2014-10-anos-de-ditadura-militar-da-onu

*Felipe Araujo é professor de Filosofia e Membro da Liberdade e Luta

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