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Foto: White House

O significado do giro na relação entre EUA e Coreia do Norte

“Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China.” Marx e Engels, Manifesto Comunista

Há poucos meses atrás, Kim Jong-un e Donald Trump trocavam insultos e ameaças. Alguns analistas da imprensa burguesa chegaram a dizer que uma terceira guerra mundial estava à vista, com dois líderes fora de controle e com armas nucleares prontas a serem lançadas ao aperto de um botão. Explicamos desde o início que tais ameaças, de ambas as partes, eram na realidade bravatas.

Agora, os insultos se transformaram em elogios. Trump classificou o norte-coreano como “um líder muito respeitável”. No dia 12 de junho os dois se encontraram em Singapura e assinaram uma declaração conjunta, cujo ponto central diz: “Reafirmando a Declaração de Panmunjom, de 27 de abril de 2018, a RPDC (República Popular Democrática da Coreia) se compromete a trabalhar pela desnuclearização completa da Península Coreana”.

O fato é que o regime norte-coreano foi incapaz de resistir às pressões dos EUA, em especial às sanções econômicas, e teve que ceder às exigências de pôr fim ao seu débil programa nuclear. Esse encerramento teria começado antes mesmo do encontro, com a destruição de uma base de testes que especula-se ter desabado, o que seria mais um sinal da incapacidade técnica norte-coreana.

A Coreia do Norte é dominada por uma burocracia stalinista, cuja liderança segue a hereditariedade. Kim Jong-un foi antecedido no comando do país por seu pai e este por seu avô, Kim Il-sung, que após a 2ª Guerra chegou ao poder com apoio da União Soviética na divisão da península coreana, implantando um Estado operário deformado desde o seu nascimento. Um dos objetivos não declarados das negociações entre Kim e Trump é a abertura econômica e plena restauração do capitalismo no país.

A atrasada economia norte-coreana é profundamente vinculada à China desde a Guerra da Coreia (1950-53), em que a ajuda militar chinesa foi fundamental para a construção do regime norte-coreano. A Coreia do Norte pode ser considerada um peão da China no tabuleiro mundial. Não por acaso, logo após o encontro com Trump, Kim foi à China prestar contas ao presidente Xi Jinping.

Os EUA terem dobrado a Coreia do Norte relaciona-se com a China ter cedido à abertura de suas empresas do setor financeiro ao capital estrangeiro. Isso já animou o banco JP Morgan (EUA) a deslocar forças para a China. O CEO Jamie Dimon anunciou em comunicado: “Nosso investimento na China é um compromisso para levar a força plena do JPMorgan Chase e nossos recursos para o país”. Obviamente, o que esperam é lucrar investindo e controlando empresas e bancos chineses.

Esta tática agressiva de Trump na negociação com China e Coreia do Norte se combina na relação tumultuosa com outros países. Na reunião do G7, que reúne os mais importantes países imperialistas (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido), Trump deu mais uma demonstração de seu estilo. Primeiro ameaçou não ir, depois saiu antes do término e, por fim, retirou o apoio (pelo Twitter) ao comunicado final da reunião.

Se, por um lado, estas relações conflituosas expressam disputas no interior da burguesia, alimentadas pela crise do sistema, por outro lado é preciso considerar na postura dos EUA a necessidade política de Trump em alimentar seu estilo demagógico e populista para manter certa base de apoio, sendo ele mal visto por setores da burguesia imperialista e com uma instabilidade correndo a base da sociedade dos EUA.

Do ponto de vista econômico, as medidas alfandegárias de Trump são bastante limitadas, assim como as “respostas” da China ou da União Europeia. O “América Primeiro” tem como efeito alavancar determinados setores e reduzir outros da própria economia dos EUA. Quando eleva a taxa de importação de aço e alumínio, por exemplo, indiretamente está prejudicando grandes empresas montadoras, as grandes empresas de aviões com plantas nos EUA, que dependem dessas matérias-primas e poderiam comprá-las a um custo mais baixo de outros países, e, por outro lado, favorecendo as siderúrgicas que produzem aço e alumínio nos EUA.

A guerra que existe hoje, de fato, é da burguesia contra o proletariado, pela retirada dos direitos e conquistas, pela redução do custo da força de trabalho. As contradições que fizeram explodir a crise econômica em 2008 estão longe de estarem resolvidas. Esta é a raiz da instabilidade política e econômica que corre o mundo. Jovens e trabalhadores resistem, lutam e, cada vez mais, concluem que o sistema está falido.

Editorial do Foice&Martelo 118, de 22 de junho de 2018.

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