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O resultado eleitoral: Um questionamento sobre o crescimento do PT

Os jornais destacam que cresceu o número de prefeituras e eleitorado administrado pelo PT (Prefeitos eleitos: passou de 558 para 635. E o eleitorado governado pelo PT passou de 20 milhões para 27,6 milhões).  Mas o partido amargou derrotas …

Os jornais destacam que cresceu o número de prefeituras e eleitorado administrado pelo PT (Prefeitos eleitos: passou de 558 para 635. E o eleitorado governado pelo PT passou de 20 milhões para 27,6 milhões).  Mas o partido amargou derrotas – Recife, Salvador, Diadema, Campinas, Porto Alegre – que são resultado direto da política de alianças e que levaram o PT a esta situação atual. O PT também aumentou o número de vereadores eleitos, o que mostra o potencial do partido (aumentamos de 4.164 para 5.191)!

Ganhou, mas se podemos dizer assim, só levou em São Paulo

Além disso, a derrota em Belo Horizonte, onde a prefeitura foi entregue ao PSB quatro anos atrás e o fato de nem disputar o Rio, deixam um gosto travado na boca. Sim, o PT cresceu nas cidades com mais de 100 mil habitantes, mas vem diminuindo nas capitais (9 em 2004, 6 em 2008 e agora 4). Deixou de ser o partido que mais governa capitais (o maior agora é o PSB) e, além disso, teve que ver levantar da cinzas o fantasma de ACM na Bahia, que consegue manter vivo o semi-cadáver do DEM. Mais ainda, aonde está o nosso orgulhoso partido de chegada, que a militância mantinha viva e presente? De 22 prefeituras que disputamos no segundo turno, ganhamos 8 e perdemos 14!

Como chegamos a isso? O que aconteceu? Como uma vitória pode ser tão amarga, com gosto tão travado (e é uma vitória conquistar a prefeitura de São Paulo e manter a maior parte das prefeituras do cinturão industrial – a grande SP)? Convidamos nossos leitores a fazer conosco um breve passeio pelos problemas do PT e a procurar entender um pouco esta situação.

Os partidos brasileiros – uma burguesia fragmentada

Embora alguns petistas queiram apelidar a imprensa de PIG – partido da imprensa golpista – a verdade é que a imprensa está onde sempre esteve: os grandes jornais foram, são e serão sempre os porta-vozes da burguesia. O fato da burguesia brasileira, burguesia compradora, com fortes laços com o imperialismo em todo o seu sangue, ser incapaz de construir um partido próprio, com raízes próprias, capaz de enfrentar as intempéries políticas e o próprio poder do proletariado (representado pelo PT) leva a esta situação. Afinal, se os seus partidos são incapazes de fazer a tarefa para o qual foram construídos, a burguesia serve do que tem a mão, no caso, a imprensa. Assim, a Veja, a Folha de São Paulo, o Globo, o Estado de São Paulo, as TVs, os seus comentaristas, jornalistas, analistas, economistas, têm como tarefa diária apresentar o PT como uma quadrilha, que se apodera do estado e que deve ser removido a qualquer custo.

Sim, não adianta o PT fazer todo o trabalho sujo da burguesia, não adianta o PT organizar a entrega de fatias do patrimônio público para os burgueses – chamando de concessão as privatizações. Não adianta o PT fazer a reforma da previdência dos servidores, retirando direitos históricos e tentar fazer o mesmo com o restante dos trabalhadores. A burguesia quer mais, quer destruir a organização dos trabalhadores porque sabe que nada tem para contrapor-se a ela. O episódio dos militantes do PT se reunindo na cidade mais repressora do país (São Paulo) e garantindo pela força que seu ex-presidente (José Dirceu) possa exercer o seu direito de voto, mostra que a burguesia teme o PT. Isto foi feito no primeiro turno, era previsível que fosse feito no segundo e a burguesia não teve coragem suficiente para mandar o seu aparato militar (a PM, a Rota, tudo que São Paulo tem de mais detestável para atacar os movimentos populares) mostra o seu medo e a sua covardia. Sim, a burguesia precisa da imprensa, porque não tem um partido para chamar de seu e até o sanguinolento Alkmin (que um dia declarou “quem morreu foi quem resistiu” para defender as mortes cometidas pela PM) não teve a coragem de colocar um batalhão da PM e enfrentar-se com a militância do PT. Dai a sua dependência da imprensa para fazer o papel que seria de um partido sério (se isto houvesse), de políticos com espinha (como vemos, nem Alkmin a tem) que eles não possuem.

Isto leva a uma dança de cadeiras nas prefeituras, rito que se repete há anos, e que a burguesia e seus analistas enxergam com horror ao ver o crescimento continuo, ainda que pequeno do PT.

Olhemos estas eleições com mais cuidado:

Partido

2008

2012

Diferença

PMDB

1201

1025

-176

PSDB

791

702

-89

PSD

0

497

497

PP

551

468

-83

PSB

310

440

130

PDT

352

314

-38

DEM

496

298

-198

PR

385

276

-109

PPS

129

123

-6

PV

75

96

21

Total

6298

6251

-51

PT

558

635

77

Tabela 1: Quadro eleitoral dos principais partidos

Na multidão de partidos brasileiros, deixamos de fora os partidos menores, embora estes sejam responsáveis por alguma flutuação estatística. De forma geral, o que vemos é o seguinte:

– o PSD sai de zero para 498 prefeituras chupando diretamente do DEM (de onde se originou) e também incorporando pequenas siglas ou líderes locais. O DEM perde quase 200 prefeitos, assim como o PP perde 83 (e isto é significativo frente ao que tinham antes)

– O PMDB e o PSDB estão lentamente se desidratando, sendo que até o momento o PSD (o “novo”) foi o principal destinatário, além do PSB (renovado, pela política do governador de Pernambuco de descolar-se um pouco do PT e coquetear com o PSDB, em outras palavras, ganha prefeituras quando se desloca da esquerda para a direita)

– O PT continua aumentando o seu número de prefeituras, apesar de todo o ataque sofrido pela burguesia, principalmente a partir da imprensa e do STF.

Sim, o PT ganhou prefeituras e vereadores, mas poderia ter se saído melhor e poderia estar sem o gosto amargo que todos os filiados sentem da derrota em tantas prefeituras importantes, as quais que já foram governadas pelo partido. O que aconteceu, afinal?

Um pequeno desvio – o lugar do PSOL

O PSOL elegeu duas prefeituras e nada mais interessante para analisar o caráter do partido que aliança que levou Clécio a prefeitura de Macapá. O seu vice-prefeito é do PPS, o partido burguês resultante da quebra do antigo PCB e maior aliado do PSDB em nível nacional. Além disso, participam da coligação PV, PPS, PMN, PCB, PTC e PRTB. Ou seja, temos uma aliança de partidos de direita, burgueses, com um candidato do PSOL. Nada mais parecido com o que fazia e faz o PT, apesar de todas as críticas do PSOL ao PT. No final das contas, o que sobrou é que o PSOL se declara “ético” frente ao PT, mas esta é a política que o PT praticava e pregava a partir dos anos 90 que levou aonde levou. Em outras palavras, apesar do fenômeno de Marcelo Freixo (que pregava a continuidade dos contratos da prefeitura, tal qual Lula em 2002) o que temos é um partido que imita toda a política – ruim – do PT. O PSOL cresceu? Sim. Algo novo sobre o Sol? Nada, apenas a mesma velha cantilena de aliança com a burguesia, desta vez de um partido novo e pequeno, que de socialismo só carrega o nome.

O PT, as alianças e a política

Há alguns anos, o PT elegeu o governador do DF e depois perdeu para Roriz, só retomando em 2010, com um governo cheio de problemas (Agnelo). Eu militava no DF na época e um fato foi marcante: o que derrotou Cristovam foram os professores, os mesmos que o elegeram. Entendam: os professores votaram em Cristovam para governador e depois repetiram o voto quando se tratou da reeleição. Mas Cristovam perdeu e esta derrota foi causada pelos professores. Por quê? Porque se havia algo que todos esperavam quando Cristovam chegou ao governo é que tratasse dos problemas da educação, que resolvesse os problemas dos professores, funcionários e alunos. Depois de uma greve histórica, em que a Palavra de Ordem mais gritada era “Cristovam, fique do nosso lado” (Cristovam é professor de origem), os professores foram derrotados, humilhados e massacrados. Nem um aumento enquanto a inflação progredia. Na primeira eleição, os professores fizeram gato e sapato para eleger Cristovam. Na segunda, todos eles votaram em Cristovam (afinal, nenhum trabalhador organizado votaria em Roriz). Mas, não entraram na campanha, não se esforçaram e Roriz ganhou.

Agora, na Bahia, os analistas burgueses têm razão: o que derrotou o PT foram os professores e a PM. Afinal, o tratamento dado às duas greves foi digno do melhor governador do PSDB: nenhuma negociação, arrogância, maus tratos, repressão. O resultado: castigo no PT. E o PT perdeu em Salvador.

No RS, logo depois da eleição do PT, o governador aplica a política de previdência que o governo anterior não tinha conseguido implementar. E reprime uma greve de professores. Agora o candidato do PT em Porto Alegre não chegou ao segundo turno.

Em Santa Catarina, o prefeito da maior cidade, Joinville, trata os professores com desdém, tenta cassar o mandato do vereador mais votado do PT no estado (Mariano, da EM, que apoiou os professores) e chega a ser o candidato com o maior índice de rejeição no Estado. Não chegou ao segundo turno.

No Rio, o PT continua na onda do seguidismo em relação ao PMDB e nem lança candidato a prefeito no RJ. Uma boa parte da militância petista adere à candidatura de Marcelo Freixo do PSOL, que não chegou ao segundo turno, mas que obtém uma votação que lembra a votação do PT.

Em Belo Horizonte, depois de entregar a prefeitura ao PSB quatro anos atrás, por conta de uma disputa interna e para “atender aos aliados” e buscar uma ponte com Aécio Neves, o PT é chutado pelo prefeito e tem que montar uma candidatura de última hora, a tal ponto que até a Presidente Dilma teve que descer do seu salto e tratar de botar a mão na massa da política. Mas o candidato não conseguiu chegar ao segundo turno.

Em Recife, o candidato natural do PT (reeleição do prefeito) é contestado (o que é natural no partido), mas ganha as prévias. Tal qual aconteceu em vários estados do Brasil, antes, em nome das alianças, o prefeito é apeado da candidatura e substituído por um senador chamado de última hora. Os aliados, agradecidos, lançam um candidato (do PSB) e derrotam o PT no primeiro turno. Êta aliados danados de bom, com amigos como estes quem precisa de inimigos?

Sim, a lista é grande e poderíamos continua-la, cidade após cidade, erros após erros, de entrega e submissão aos aliados burgueses, de defesa do estado burguês contra os trabalhadores, de ataques às greves de professores e outras. Afinal, é só lembrar que todos os ministros do STF que foram nomeados pelo PT ( de um total de 11 Lula e Dilma indicaram 8) são os que hoje atacam o partido. Porque Lula e Dilma não nomearam ministros de esquerda, juízes novos para o STF?

O resultado: o STF continua representando os interesses da burguesia e vamos amargar mais e mais derrotas. Mas, sejamos francos, não foi o povo o culpado! Lula e Dilma, e a maioria dos dirigentes do PT são culpados ao nomear todos esses, ao invés de nomear juristas ligados à luta dos trabalhadores, advogados ligados a sindicatos, juízes trabalhistas acostumados a votar com os trabalhadores e contra os interesses da burguesia. Pagamos o que a direção plantou.

A Esquerda Marxista parabeniza a todos os petistas pelas vitórias obtidas e por sua luta pelas candidaturas de classe. Vamos lembrar que nossa força é a força dos trabalhadores, as alianças só estão servindo para nos deixar fracos e prostrados. E depender do PMDB: ninguém merece!

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