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O que é o marxismo (Parte 2)

Publicamos abaixo a segunda parte do texto O que é o marxismo que trata de explicar o pensamento humano, a filosofia, o idealismo e a dialética. 

Publicamos abaixo a segunda parte do texto O que é o marxismo que trata de explicar o pensamento humano, a filosofia, o idealismo e a dialética. 

Que é a filosofia?

Em cada etapa da história humana, os homens e mulheres desenvolveram alguma forma de interpretar o mundo e refletiram acerca do lugar que ocupam nele, desenvolvendo assim uma filosofia. Os elementos utilizados para se elaborar esta interpretação foram obtidos mediante a observação da natureza e através da generalização das experiências do dia a dia.

Há pessoas que creem não necessitar de nenhuma filosofia ou concepção do mundo. Contudo, na prática todos têm uma filosofia, inclusive se não está desenvolvida de forma consciente. As pessoas que se guiam pelo mero “senso comum” e que pensam que se saem bem sem a teoria, na prática não fazem mais que pensar à maneira tradicional. Marx dizia que as ideias dominantes na sociedade são as ideias da classe dominante. Para manter e justificar seu domínio, a classe capitalista faz uso de todos os meios disponíveis para distorcer a consciência do trabalhador. A escola, a Igreja, a televisão e a imprensa são utilizadas para fomentar a ideologia da classe dominante e para doutrinar os trabalhadores a aceitarem o seu sistema como a forma mais natural e permanente da sociedade. Na ausência de uma filosofia socialista consciente, aceitam inconscientemente a filosofia capitalista.

Em cada etapa da sociedade de classe, a classe revolucionária ascendente, que tem por objetivo mudar a sociedade, terá de lutar por uma nova concepção do mundo e terá que atacar a filosofia antiga, que, se baseando na velha ordem, justificava-a e defendia-a.

Idealismo e materialismo

Ao longo da história da filosofia encontramos dois campos opostos, o idealista e o materialista. A ideia comum de “idealismo” (isto é, a honradez, a retidão na busca dos ideais) e de “materialismo” (ou seja, o egoísmo cobiçoso e avarento) não tem nada a ver com o idealismo e o materialismo em termos filosóficos.

Muitos grandes pensadores do passado foram idealistas, especialmente Platão e Hegel. Esta escola de pensamento considera a natureza e a história como um reflexo das ideias ou do espírito. A teoria segundo a qual os homens e mulheres e tudo o que é material foram criados por um espírito divino, é um conceito básico do idealismo. Esta perspectiva se expressa de diferentes formas; contudo, sua base é que as ideias governam o desenvolvimento do mundo material. A história se explicaria como uma história do pensamento. As ações das pessoas são vistas como o resultado de pensamentos abstratos e não de suas necessidades materiais. Hegel deu um passo além, sendo um idealista coerente, e converteu o pensamento em uma “Ideia” autônoma que existe fora do cérebro e independe do mundo material, convertendo este último em mero reflexo desta ideia. A religião faz parte do idealismo filosófico.

Os pensadores materialistas, por outro lado, sustentaram que o mundo material é real e que a natureza ou matéria é o primário. A mente ou as ideias são um produto do cérebro. O cérebro e, portanto, as ideias surgiram em uma etapa determinada do desenvolvimento da matéria viva. Os princípios fundamentais do materialismo são os seguintes:

·         O mundo material, conhecido por nós através de nossos sentidos e explorado pela ciência, é real. O desenvolvimento do mundo se deve às suas próprias leis naturais, sem nenhuma interferência sobrenatural.

·         Só há um mundo, o mundo material. O pensamento é um produto da matéria (o cérebro), sem o qual não pode haver ideias com existência própria. Portanto, a mente ou as ideias não podem existir isoladamente, fora da matéria. As ideias gerais são somente reflexos do mundo material. “Para mim – escreveu Marx – a ideia não é outra coisa que o mundo material refletido na mente humana e traduzido na forma de pensamento”. Deriva daí que “o ser social determina a consciência”.

Os idealistas concebem a consciência, o pensamento, como algo externo e oposto à matéria, à natureza. Esta oposição é algo totalmente falso e artificial. Há uma correlação estreita entre as leis do pensamento e as leis da natureza, porque as primeiras acompanham e refletem as segundas. O pensamento não pode derivar suas categorias de si mesmo, mas apenas do mundo exterior. Mesmo os pensamentos aparentemente mais abstratos na realidade procedem da observação do mundo material.

Mesmo uma ideia aparentemente abstrata como a matemática, em última instância, deriva da realidade material e não é uma invenção do cérebro. Na escola, a criança conta em segredo seus dedos materiais antes de resolver um problema aritmético abstrato. Ao fazê-lo, está recriando as origens da própria matemática. Baseamo-nos no sistema decimal porque temos dez dedos. Os números romanos se baseavam originalmente na representação dos dedos.

Nas palavras de Lênin: “A matéria agindo sobre nossos órgãos sensitivos produz sensações. As sensações dependem do cérebro, dos nervos, da retina (…), ou seja, são o produto supremo da matéria”.

A pessoa é parte da natureza e desenvolve suas ideias em interação com o restante do mundo. Os processos mentais são de fato reais, mas não constituem algo absoluto, à margem da natureza. Devem ser estudados dentro das circunstâncias materiais e sociais em que surgem. “Os fantasmas formados no cérebro humano – afirmava Marx – são necessariamente sublimações de seu processo material de vida”. Mais adiante, concluía: “Moral, Religião, Metafísica, todo o resto da ideologia e suas correspondentes formas de consciência, não se sustentam em sua aparência de independência. Não têm história, nem desenvolvimento; mas os homens, desenvolvendo sua produção material e suas relações materiais, alteram paralelamente sua existência real, sua forma de pensar e o produto desta. A vida não é determinada pela consciência e sim a consciência pela vida”.

As origens do materialismo

“A pátria primitiva de todo o materialismo moderno – escrevia Engels – desde o século XVII em diante é a Inglaterra”.

Nessa época, a velha aristocracia feudal e a monarquia começaram a ser combatidas pelas classes médias recém-aparecidas. O bastião do feudalismo era a Igreja Católica de Roma, que proporcionava uma justificação divina para a monarquia e as instituições feudais. Estas, portanto, tinham que ser liquidadas antes que o feudalismo pudesse ser abatido. A burguesia em ascensão enfrentou as velhas ideias e os conceitos divinos sobre os quais a velha ordem se baseava.

“Acompanhando a ascensão das classes médias, veio o grande renascimento da ciência: a astronomia, a mecânica, a física, a anatomia, a fisiologia, todas foram cultivadas novamente. E a burguesia, para o desenvolvimento de sua produção industrial, requeria uma ciência que investigasse as propriedades físicas dos objetos naturais e as formas de ação das forças da natureza. Até então a ciência não havia sido outra coisa além de servidora da Igreja, não se havia permitido ir mais além dos limites que a fé determinava e, precisamente por isto, não tinha havido ciência de forma alguma. A ciência se rebelou contra a Igreja; a burguesia não podia fazer nada sem a ciência e, portanto, tinha que se unir a ela na rebelião” (Engels, prólogo à edição inglesa de 1892 ao Do socialismo utópico ao socialismo científico).

Foi por esta época que Francis Bacon (1561-1626) desenvolveu suas ideias revolucionárias sobre o materialismo. Segundo ele, os sentidos eram infalíveis e, também, a fonte de todo o conhecimento. Toda ciência se baseava na experiência e consistia em submeter o fato concreto a um método racional de investigação: indução, análise, comparação, observação e experimentação.

No entanto, ficou para Thomas Hobbes (1588-1679) continuar e desenvolver o materialismo de Bacon como um sistema. Hobbes se deu conta de que as ideias e os conceitos eram somente o reflexo do mundo material e que “é impossível separar o pensamento da matéria sobre a qual se pensa”. Mais tarde, o pensador inglês John Locke (1632-1704) aportou provas deste materialismo.

Esta escola de filosofia materialista passou da Inglaterra à França, para ser recolhida e posteriormente desenvolvida por René Descartes (1596-1650) e seus seguidores. Estes materialistas franceses não se limitaram a criticar a religião, como também ampliaram sua crítica a todas as instituições e ideias. Enfrentaram estas coisas em nome da Razão e armaram a nascente burguesia em sua batalha contra a monarquia. O nascimento da Grande Revolução burguesa da França de 1789-93 fez da filosofia materialista o seu credo. Diferindo da Revolução Inglesa de meados do século XVII, a Revolução Francesa destruiu completamente a velha ordem feudal. Engels deu relevo a isto mais tarde: “Sabemos hoje que esse reinado da razão era apenas o reinado idealizado pela burguesia; a justiça eterna se corporificou na justiça burguesa; a igualdade se reduziu à igualdade burguesa perante a lei; os direitos essenciais do homem, proclamados pelos racionalistas, tinham como representante a sociedade burguesa; e o Estado da razão, o contrato social de Rousseau, ajustou-se, como de fato só podia se ter ajustado à realidade, convertido numa República democrático-burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII, sujeitos às mesmas leis de seus predecessores, não podiam romper os limites que sua própria época traçava” (Engels, Anti-Dühring).

O defeito, apesar de tudo, deste materialismo desde Bacon em diante, era sua rígida e mecânica interpretação da Natureza. Não é acidental que a escola materialista inglesa florescesse no século XVII, quando os descobrimentos de Isaac Newton fizeram da Mecânica a ciência mais avançada e importante de seu tempo. Nas palavras de Engels, “a limitação específica deste materialismo consistia em sua incapacidade de conceber o mundo como um processo, como uma matéria sujeita a desenvolvimento histórico ininterrupto” (Engels, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã).

A Revolução Francesa teve um profundo impacto no mundo civilizado, da mesma forma que logo o teria a Revolução Russa de 1917. Efetivamente, ela revolucionou o pensamento em todos os campos: político, filosófico, científico e artístico. A fermentação de ideias que emergiu desta revolução democrático-burguesa assegurou avanços nas ciências naturais, na geologia, botânica, química, bem como na economia política.

Foi nesse período que se fez a crítica do ponto de vista mecânico destes materialistas. Um filósofo alemão, Immanuel Kant (1724-1804), foi o primeiro que rompeu com a velha mecânica, com o seu descobrimento de que a Terra e o Sistema Solar haviam chegado a ser e que não haviam existido eternamente. O mesmo acontecia com a geografia, a geologia, as plantas e os animais.

Estas revolucionárias ideias de Kant foram desenvolvidas ainda mais por outro brilhante pensador alemão, Georg Hegel (1770-1831). Hegel era um filósofo idealista que pensava que o mundo poderia ser explicado como uma manifestação ou reflexo de uma “mente universal” ou “Ideia”, isto é, algum tipo de Deus.

Hegel observava o mundo, não como um membro ativo da sociedade e da história humana, e sim como filósofo, observando os fatos de fora. Situou-se numa posição acima do mundo, interpretando a história do pensamento e do mundo como o mundo das ideias, como um mundo ideal. Assim, para Hegel, os problemas e as contradições não se colocavam em termos reais e sim em termos de pensamento e, dessa forma, poderiam ser resolvidos através da evolução do próprio pensamento. Em vez das contradições na sociedade serem resolvidas pela ação dos homens, pela luta de classes, a solução para Hegel se encontrava na cabeça do filósofo, na Ideia Absoluta.

No entanto, Hegel reconheceu os erros e a miopia do velho ponto de vista mecanicista. Também reconheceu a falta de adequação da lógica formal e lançou os alicerces para uma concepção do mundo que poderia explicar as contradições através da mudança e do movimento.

Apesar de Hegel ter redescoberto e analisado as leis da mudança e do movimento, o seu idealismo punha as coisas de cabeça para baixo. Contra isto, os jovens hegelianos, dirigidos por Ludwig Feuerbach (1804-1872), moveram uma luta e uma crítica, que tentava corrigir esta posição e colocar a filosofia com os pés no chão. Mas mesmo Feuerbach – “cuja metade inferior era materialista e a metade superior idealista” (Engels) – não foi capaz de limpar totalmente o hegelianismo de sua concepção idealista. Esta tarefa ficou para Marx e Engels, os quais foram capazes de limpar o método dialético do caráter místico que até então ostentava.

A dialética hegeliana se fundiu com o materialismo moderno para produzir a concepção revolucionária que é o materialismo dialético.

O que é a dialética?

Vimos que o materialismo moderno parte da consideração de que a matéria é o primário e que a mente ou as ideias são produtos do cérebro.

Mas, o que é pensamento dialético, ou a dialética?

“A dialética não é mais que a ciência das leis gerais do movimento e da evolução da natureza, da sociedade humana e do pensamento” (Engels, Anti-Dühring).

O método dialético tinha já uma duradoura existência antes que Marx e Engels o desenvolvessem cientificamente como um meio de compreender o desenvolvimento da sociedade humana.

Os gregos antigos produziram alguns grandes pensadores dialéticos, entre os quais estão Platão, Zenão de Elea e Aristóteles. Já no ano 500 antes de nossa era, Heráclito adiantava a ideia de que “todas as coisas são e não são, porque tudo flui, está mudando constantemente, e constantemente nascendo e morrendo. É impossível mergulhar duas vezes no mesmo rio”.

Esta frase já contém a concepção fundamental da dialética, de que tudo na natureza encontra-se em constante estado de mudança e que esta mudança se produz através de uma série de contradições.

“A grande ideia cardinal de que o mundo não pode ser concebido como um conjunto de objetos prontos e acabados, mas como um conjunto de processos, em que as coisas que parecem estáveis, da mesma forma que seus reflexos em nossas cabeças, os conceitos, passam por uma série ininterrupta de mudanças, por um processo de gênese e caducidade; esta grande ideia cardinal se acha já tão arraigada desde Hegel na consciência habitual, que, exposta assim, em termos gerais, encontra oposição mínima. Mas uma coisa é reconhecê-la de palavra e outra coisa é aplica-la à realidade concreta, em todos os campos submetidos à investigação.

Para a filosofia dialética não existe nada definitivo, absoluto, consagrado; em tudo, ela põe de relevo o que tem de perecível, e não deixa em pé mais que o processo ininterrupto do devir e perecer, uma ascensão sem fim do inferior ao superior, cujo mero reflexo no cérebro pensante é esta mesma filosofia”. (Engels, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã).

A dialética e a metafísica

Os filósofos gregos anteciparam brilhantemente o posterior desenvolvimento da dialética, bem como o de outras ciências. Mas não podiam eles mesmos levar esta antecipação à sua conclusão lógica, devido ao baixo desenvolvimento dos meios de produção e à falta de uma informação adequada acerca dos fenômenos do Universo.

Suas ideias forneceram uma visão correta do conjunto, mas frequentemente não eram mais que geniais intuições e não teorias elaboradas cientificamente. Para levar mais longe o pensamento humano, era necessário abandonar este caminho e tentar chegar a uma compreensão geral do Universo, e se concentrar nas pequenas, mas rotineiras, tarefas de coletar, elaborar e nivelar um conjunto de fatos individuais, de verificar as teorias particulares, mediante a experimentação e a definição.

Esta aproximação factual, experimental, empírica, permitiu um enorme avanço do pensamento humano e da ciência. As investigações sobre os fenômenos da natureza agora podiam ser realizadas cientificamente, analisando-se cada problema particular e verificando-se cada resultado. Mas nesta evolução, neste novo estágio de desenvolvimento, a velha habilidade de tratar as coisas em sua conexão, e não isoladamente, em seu movimento, e não estaticamente, em sua vida, e não em sua morte, se perdeu.

A este estreito e empírico modo de pensar, surgido em consequência, deu-se o nome de aproximação “metafísica” e é o que ainda domina na moderna filosofia e na ciência capitalistas. Na política, isto se reflete no famoso pragmatismo de Harold Wilson: “se funciona, deve estar correto” e no constante apelo aos fatos, mas sempre os tomando de forma isolada.

Mas os fatos não se selecionam a si mesmos. Devem ser eleitos pelos homens. A ordem e a sequência em que são ordenados, bem como as conclusões que deles se obtêm, dependem das noções pré-concebidas do indivíduo. Dessa forma, estes apelos aos fatos, que se supõe estar de acordo com a imparcialidade científica, costumam ser somente uma cortina de fumaça para encobrir os preconceitos dos que os utilizam.

A dialética não se ocupa apenas dos fatos, mas dos fatos em sua conexão, isto é, de processos; não apenas de ideias isoladas, mas de leis; não apenas do particular, mas do geral.

O pensamento dialético guarda uma relação com a Metafísica como a relação que é guardada por um fotograma de um filme com o filme em sua totalidade. Um não contradiz o outro, porém o complementa. Contudo, a mais precisa e completa aproximação à realidade está no filme.

Na vida cotidiana e nos cálculos mais simples, o pensamento metafísico ou o senso comum é suficiente. Mas tem suas limitações e, além destas, converte a verdade em mentira. A principal limitação deste tipo de pensamento é a sua incapacidade para compreender o movimento e o desenvolvimento, aliada ao seu repúdio de toda contradição. Seja como for, o movimento e a mudança implicam contradições.

“Para o metafísico as coisas e suas imagens no pensamento, os conceitos, são objetos isolados de estudo, que são considerados um depois do outro e sem o outro, firmes, fixos e rígidos, dados de uma vez para sempre. Seu pensamento está formado de antíteses sem termo médio; diz: sim, sim, e não, não; e tudo o que passar disto, procede de mau espírito. Para ele, toda coisa ou existe ou não existe: uma coisa não pode ser ao mesmo tempo ela mesma e algo diferente. O positivo e o negativo se excluem um ao outro de forma absoluta; a causa e o efeito se encontram da mesma forma em rígida contraposição. Este modo de pensar parece-nos à primeira vista muito plausível porque é o do chamado saudável senso comum. Mas o saudável senso comum, por mais estimado companheiro que seja no domínio doméstico de suas quatro paredes, experimenta assombrosas aventuras quando se arrisca pelo amplo mundo da investigação” (Engels, Anti-Dühring).

Para as questões do cotidiano, por exemplo, é possível se dizer com certo grau de convicção se um indivíduo, uma planta ou um animal está vivo ou morto. Mas é muito mais complicado de se dizer exatamente onde está o limite a partir do qual se pode falar de vida independente do feto no ventre materno, e igualmente é impossível de se fixar o momento da morte, porque a fisiologia demonstrou que a morte não é um episódio instantâneo, mas um processo bastante longo.

Heráclito já advertia: “A mesma coisa em nós vive e morre, dorme e está desperta, é jovem e velha; cada uma delas muda de lugar e se torna outra. Nós entramos e não entramos no mesmo rio: estamos e não estamos”.

Trotsky, em seu ABC da dialética materialista, caracterizava a dialética como a ciência das formas de nosso pensamento, na medida em que não se reduz aos problemas diários, mas que tenta chegar a uma compreensão dos processos mais complicados e complexos.

Ele comparava a dialética e a lógica formal (a metafísica) como se comparam a matemática superior e a básica. Aristóteles foi quem primeiro desenvolveu as leis da lógica formal, e seu sistema lógico foi, a partir de então, sempre aceito pelos metafísicos como o único método possível de pensamento científico:

“A lógica aristotélica do silogismo simples parte da premissa de que A é igual a A. Este postulado é aceito como um axioma para determinado número de ações humanas práticas e de generalizações elementares. Mas, na realidade, A não é igual a A. Isto é fácil de demonstrar se observarmos estas duas letras sob uma lente: são completamente diferentes. Mas, poder-se-á objetar, não se trata do tamanho ou da forma das letras, dado que elas são somente símbolos de quantidades iguais, por exemplo, de um quilo de açúcar. A objeção não é válida; na realidade, um quilo de açúcar nunca é igual a um quilo de açúcar: uma balança delicada descobriria sempre a diferença. Mais uma vez se poderia objetar: contudo um quilo de açúcar é igual a si mesmo. Tampouco isto é verdade: todos os corpos mudam constantemente de peso, de cor etc. Nunca são iguais a si mesmos. Um sofista contestará que um quilo de açúcar é igual a si mesmo ‘em dado momento’. Além do valor prático extremamente duvidoso deste axioma, tampouco resiste a uma crítica teórica. Como concebemos realmente a palavra ‘momento’? Se se trata de um intervalo infinitesimal de tempo, então um quilo de açúcar está submetido, durante o transcurso deste ‘momento’, a mudanças inevitáveis. Ou este ‘momento’ é uma abstração puramente matemática, ou seja, zero tempo? Mas tudo existe no tempo e a própria existência é um processo ininterrupto de transformação; o tempo é, em consequência, um elemento fundamental da existência. Desta forma, o axioma A é igual a A significa que uma coisa é igual a si mesma se não muda, ou seja, se não existe.

“À primeira vista, poderia parecer que estas sutilezas são inúteis: na realidade, têm importância decisiva. O axioma A é igual a A é, ao mesmo tempo, o ponto de partida de todos os nossos conhecimentos e o ponto de partida de todos os erros de nossos conhecimentos. Somente dentro de certos limites ele pode ser utilizado com uniformidade. Se as mudanças qualitativas que se produzem em A carecem de importância para a questão que temos entre as mãos, então poderemos presumir que A é igual a A. Esta é, por exemplo, a forma como o vendedor e o comprador consideram um quilo de açúcar. Da mesma forma consideramos a temperatura do sol. Até há pouco considerávamos da mesma forma o valor aquisitivo do dólar. Mas quando as mudanças quantitativas superam certos limites se convertem em mudanças qualitativas. Um quilo de açúcar submetido à ação da água ou do querosene deixa de ser um quilo de açúcar. Um dólar nas mãos de um presidente deixa de ser um dólar. Determinar o momento preciso, o ponto crítico, em que a quantidade se transforma em qualidade, é uma das tarefas mais difíceis e importantes em todas as esferas do conhecimento, inclusive da sociologia” (Trotsky, Em defesa do marxismo).

Traduzido por Fabiano Adalberto

Parte I

Parte III

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