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Em defesa de Lenin

Nota da Redação: O presente artigo que trazemos agora ao público brasileiro traduzido do inglês foi escrito pelo camarada Rob Sewell em 2014 para o site da Corrente Marxista Internacional.

Noventa anos atrás, em 21 de janeiro de 1924, Vladimir Lenin, o grande marxista e líder da Revolução Russa, morria devido a complicações advindas de um tiro assassino. Desde então tem sido mantida uma campanha difamatória contra seu nome e suas ideias, indo desde historiadores burgueses e apologistas até reformistas, liberais e anarquistas. A tarefa deles tem sido desacreditar Lenin, o marxismo e a Revolução Russa de acordo com os interesses “democráticos” decretados por banqueiros e capitalistas.

Uma história recente do Professor Robert Service, “Lenin: A Political Life, The Iron Ring”, diz que:

“Apesar deste volume tencionar a imparcialidade[!], relatos multifacetados, ninguém pode escrever sobre Lenin de maneira imparcial. Sua intolerância e repressão continuam a me estarrecer.”

Outro historiador “equilibrado”, Anthony Read, vai tão longe para afirmar, sem nenhuma evidência, que Lenin estava em minoria no Congresso do Partido em 1903, e simplesmente escolheu o nome “bolcheviques” (palavra russa para maioria) assim como “Lenin nunca perdeu uma chance de promover a ilusão do poder. Desde seus primórdios, portanto, o Bolchevismo foi fundado em uma mentira, estabelecendo um precedente a ser seguido pelos próximo noventa anos.”

Sr. Read continua com seu discurso difamatório: “Lenin não teve tempo para democracia, confiança nas massas e nenhum escrúpulo em relação ao uso da violência.” (The World on Fire, 1919 and the Battle with Bolchevism, pp.3-4, Jonathan Cape, 2008)

Não há nada novo nessas falsas alegações, as quais se baseiam, não nos escritos de Lenin, mas fortemente nas posições dos professores Orlando Figes e Robert Service, dois “especialistas” nas “maldades” de Lenin e da Revolução Russa. Cheios de fúria, eles vendem a mentira de que Lenin de alguma forma criou o stalinismo.

Da mesma forma, os stalinistas transformaram Lenin em um ícone inofensivo, e também distorceram suas ideias para servir aos seus crimes e traições. A viúva de Lenin, Krupskaya, gostava de citar suas palavras:

“Há ocasiões na história nas quais os ensinamentos dos grandes revolucionários são distorcidos após suas mortes. Os homens fazem deles ícones inofensivos e, enquanto honram seus nomes, eles amaldiçoam o aspecto revolucionário de seus ensinamentos.”

Em 1926, Krupskaya disse que “se Lenin estivesse vivo, ele estaria em uma das prisões de Stalin.”

Lenin foi, sem sombra de duvidas, um dos maiores revolucionários do nosso tempo, cujos esforços culminaram na vitória do Outubro de 1917 e cujo trabalho mudou o curso da história do mundo. A revolução socialista foi transformada, por Lenin, de palavras para ações. Ele se tornou da noite para o dia no “mais odiado e mais amado homem na Terra.”

A juventude de Lenin

Nascido em Simbirsk, nas margens do rio Volga, em 1870, Lenin vivenciou tempos de agitação na Rússia. O país semifeudal era governado pelo Czarismo despótico. A intelligentsia revolucionária, frente ao despotismo, foi atraída por métodos terroristas da Vontade do Povo. O irmão mais velho de Lenin, Alexander, foi enforcado por sua participação na tentativa de assassinato do Czar Alexander III.

Após essa tragédia, Lenin ingressou na universidade e foi logo expulso por suas atividades. Isto aumentou sua sede política e o levou a ter contato com os círculos marxistas. Isto progrediu para um estudo de “O Capital” de Marx, o qual estava circulando em pequenos números, e então para o “Anti-Duhring” de Engels.

Ele entrou em contato com o ilegal Grupo de Emancipação do Trabalho, comandado por George Plekhanov, o fundador do marxismo russo, o qual ele considerava como seu pai espiritual. Lenin se mudou, aos 23 anos, de Samara para São Petersburgo para criar um dos primeiros grupos marxistas.

“Foi portanto, entre a execução de seu irmão e sua mudança para São Petersburgo, nesse período de seis anos de trabalho árduo, que o Lenin futuro foi formado”, explica Trotsky. “Todas as características fundamentais de sua personalidade, sua perspectiva de vida, e seu modo de ação foram formados durante o intervalo entre seus 17 e 33 anos.”

O investimento estrangeiro massivo estimulou o desenvolvimento do capitalismo e a emergência de uma pequena classe trabalhadora. A emergência de círculos de estudo e o impacto das ideias marxistas assistiram as tentativas de se estabelecer um Partido Socialdemocrata Russo revolucionário.

Lenin se encontrou com Plekhanov na Suíça em 1895 e em seu retorno foi preso e, logo após, exilado. O primeiro Congresso do Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR) foi realizado em 1898, mas o Congresso foi atacado e os participantes presos.

Marxismo e Bolchevismo

Ao fim de seu exílio, Lenin concentrou suas energias na criação de um jornal marxista – Iskra, a “Faísca”. Assim, Iskra buscava colocar o marxismo como a força dominante à esquerda. Contrabandeado para a Rússia, o jornal serviu para unir os círculos em um partido nacional unificado em bases teóricas e políticas sólidas.

Neste período Lenin escreveu sua famosa obra “O que fazer?”, na qual defendia um partido formado por revolucionários profissionais, pessoas dedicadas à causa.

Em 1903, ocorreu o segundo Congresso do POSDR, o qual se caracterizou com o Congresso fundador. Foi neste momento que os camaradas do Iskra se estabeleceram com a tendência dominante no partido. Contudo, uma divisão entre Lenin e Martov, ambos editores do Iskra, ocorreu durante o processo sobre questões organizacionais. A maioria em torno de Lenin ficou conhecida como os “bolcheviques” e a minoria em torno de Martov ficou conhecida como os “mencheviques”.

Muitos mitos cercam esta divisão, a qual pegou de surpresa a maioria dos participantes, incluindo Lenin. Não houve divergências políticas naquele momento. Essas só apareceriam depois. Lenin tentou a reconciliação entre as facções, mas falhou. Mais tarde, ele iria caracterizar a divisão como uma “antecipação” de diferenças importantes.

As diferenças surgiram sobre as perspectivas para a revolução na Rússia. Todas as tendências viram a revolução futura como “democrático-burguesa”, ou seja, um meio de varrer o antigo regime feudal e limpar o caminho para o desenvolvimento capitalista. Os Mencheviques, contudo, declararam que nesta revolução os trabalhadores precisariam se submeter à liderança da burguesia. Os bolcheviques, por outro lado, acreditavam que a burguesia liberal não poderia liderar a revolução, já que estava presa ao imperialismo. Assim sendo, os trabalhadores deveriam liderar a revolução apoiados pelos camponeses. Eles formariam uma “ditadura democrática dos proletários e camponeses”, a qual provocaria a revolução socialista no Ocidente. Por sua vez, isto ajudaria a Revolução Russa. Trotsky defendeu uma terceira posição: ele concordava com Lenin que os trabalhadores liderariam a revolução, mas acreditava que eles não deveriam parar no meio do caminho, ou seja, continuariam com as medidas socialistas como o começo de uma revolução socialista mundial. Por fim, os eventos de 1917 confirmaram os prognósticos de Trotsky da “Revolução Permanente”.

Internacionalismo

A Revolução de 1905 demonstrou na prática o papel de liderança da classe trabalhadora. Enquanto os Liberais fugiam, os trabalhadores formavam os Sovietes, os quais Lenin reconheceu como os embriões do governo dos trabalhadores. O POSDR cresceu imensamente sob essas condições e serviu para unir as duas facções.

A derrota da Revolução de 1905, entretanto, foi seguida por um período de reação cruel. O partido enfrentava tremendas dificuldades conforme se isolava mais e mais das massas. Os bolcheviques e os mencheviques cresceram separados tanto politicamente quanto organizacionalmente. Até 1912 os bolcheviques se constituam como um partido próprio.

Nesses anos, Trotsky era um “conciliador” entre os bolcheviques e os mencheviques. Ele se separou das duas facções enquanto defendia a “unidade”. Isso levou a amargos confrontos com Lenin, o qual apoiava a independência política dos bolcheviques. Esses confrontos foram mais tarde usados pelos stalinistas para negar Trotsky, apesar do desejo de Lenin, contido em seu testamento, de que o passado não bolchevique de Trotsky não deveria ser usado contra ele.

O renascimento do movimento de trabalhadores após 1912 testemunhou um crescente apoio aos bolcheviques, os quais reivindicavam o apoio da grande maioria dos trabalhadores russo. Esse crescimento, contudo, foi cessado pela Primeira Guerra Mundial.

A traição de agosto de 1914 e a capitulação dos líderes da Segunda Internacional significaram um terrível golpe contra o socialismo internacional. Isso significou a morte efetiva dessa internacional.

O pequeno número de internacionalistas pelo mundo se reagrupou em uma conferência antiguerra ocorrida em Zimmerwald em 1915, onde Lenin realizou um chamado pela criação de uma nova internacional dos trabalhadores. Eram tempos sombrios – as forças do marxismo estavam completamente isoladas. Perspectivas revolucionárias pareciam muito fracas. Em janeiro de 1917, Lenin dirigiu-se a uma pequena reunião da Juventude Socialista Suíça em Zurique. Ele observou que a situação mundial mudaria eventualmente, mas que ele não viveria para ver a revolução. Mesmo assim, no período de um mês, a classe trabalhadora russa traria o Czarismo a baixo e desenvolveria uma situação de duplo poder. Dentro de nove meses, Lenin lideraria um governo de Comissários do Povo.

A Revolução Russa

Enquanto em Zurique, Lenin descobriu nos jornais os acontecimentos recentes na Rússia. Ele viu que os sovietes, dominados pelos líderes dos Socialistas Revolucionários (SRs) e pelos mencheviques, haviam entregado o poder para o Governo Provisório, liderado pelo monarquista Prince Lvov. Imediatamente telegrafou para Kamenev e Stalin, os quais estavam hesitantes: “Nenhum apoio ao governo provisório! Nenhuma confiança em Kerensky!”.

Escrevendo do exílio, Lenin alertou:

“A nossa revolução é burguesa, assim, os trabalhadores devem apoiar a burguesia, dizem os Potresovs, Gvozdyovs e Chkheidzes, como Plekhanov disse ontem.”
“A nossa revolução é burguesa, dizemos nós marxistas, por isso os trabalhadores devem abrir os olhos do povo para a fraude praticada pelos políticos burgueses, ensiná-los a não confiar em palavras, depender unicamente de sua própria força, sua própria organização, sua própria unidade, e suas próprias armas… Vocês devem realizar milagres de organizações, organização do proletariado e de todo o povo para preparar o caminho de sua vitória na segunda parte da revolução.”

Em sua carta de despedida aos trabalhadores suíços, Lenin explicou a tarefa chave: “façam da nossa revolução o preâmbulo para a revolução socialista mundial.”

Quando Lenin retornou para a Rússia em três de abril de 1917, ele apresentou suas Teses de Abril: uma Segunda Revolução Russa deveria ser um passo para a revolução socialista mundial. Se posicionou contra a velha guarda que estava atrasada diante da situação e lutou para rearmar o Partido Bolchevique.

“Aquele que fala apenas de uma “Ditadura democrático-revolucionária do proletariado e do campesinato” está ultrapassado, consequentemente se moveu para a pequena-burguesia e se colocou contra a luta da classe proletária; esta pessoa deveria ser colocada no arquivo dos antigos pré-revolucionários ‘bolcheviques’ (poderia ser chamado de arquivo dos ‘velhos bolcheviques’).”

Ele conseguiu ganhar o apoio nas fileiras e superou a resistência das lideranças, as quais o acusaram de “Trotskismo”. Na verdade, Lenin se moveu em direção da posição de Trotsky da Revolução Permanente, mas de seu próprio modo.

Em maio, Trotsky retornou para a Rússia após ser exilado no Canadá pelos britânicos. “No segundo ou terceiro dia após a minha chegada Petrogrado eu li as Teses de Abril de Lenin. Eram o que a revolução precisava”, explicou Trotsky. Sua linha de pensamento é idêntica a de Lenin. Em concordância com Lenin, Trotsky se uniu à Organização Interdistrital com o objetivo de conquistá-los para o Bolchevismo. Ele entrou em colaboração com os bolcheviques, se descrevendo como “Nós, bolcheviques internacionalistas.”

A tomada do poder

Em primeiro de novembro de 1917, em uma reunião do comitê de Petrogrado, Lenin disse que após Trotsky ser convencido da impossibilidade de união com os mencheviques, “não houve bolchevique melhor”. Rememorando a Revolução dois anos mais tarde, Lenin escreveu: “No momento em que se tomou o poder e se criou a República Soviética, o Bolchevismo trouxe para si os melhores elementos do pensamento socialista próximos a ele.”

“Lenin não veio a mim, eu fui até Lenin”, declarava Trotsky modestamente. “Eu me uni a ele mais tarde do que outros. Mas me atrevo a pensar que o entendi de uma maneira não inferior aos outros.”

Nos meses que precederam a Revolução, Lenin apelou aos Mencheviques e aos Sovietes dominados pelos SRs para que rompessem com os ministros capitalistas e tomassem o poder, o que eles recusaram fazer. Contudo, o lema Bolchevique – Pão! Terra! Paz! Todo o poder aos Sovietes! – rapidamente recebeu apoio entre as massas. As manifestações de massas refletiram esta mudança. Isto também levou o novo primeiro-ministro Kerensky a iniciar uma campanha repressiva contra os bolcheviques. Os “Dias de Julho” assistiram os bolcheviques afundarem. Uma campanha de histeria foi imposta contra eles, sendo os mesmos chamados de “agentes alemães”, o que forçou Lenin e Zinoviev a se esconderem e levou à prisão de Trotsky, Kamenev, Kollontai e outros líderes bolcheviques.

Em agosto, o general Kornilov tentou impor sua própria ditadura fascista. Desesperado por ajuda, e temendo Kornilov, o governo libertou Trotsky e outros bolcheviques. Os trabalhadores bolcheviques e soldados encontraram uma brecha e derrotaram o processo contrarrevolucionário de Kornilov.

Isso aumentou imensamente o apoio aos bolcheviques, que venceram as majoritárias nos Sovietes de Moscou e Petrogrado. “Nós somos os vencedores”, declarava Trotsky sobre as eleições no Soviete de Petrogrado. Essa vitória se mostrou decisiva e se tornou um salto necessário para a vitória em outubro.

Lenin, que estava se escondendo na Finlândia, ficou muito impaciente com os líderes bolcheviques. Ele temia que eles estivessem se movendo lentamente. “Os eventos estão determinando nossa tarefa tão claramente para nós que a procrastinação está se tornando nitidamente criminosa”, explicava Lenin em uma carta para o Comitê Central. “Esperar seria um crime para a Revolução.” Em outubro, o CC decidiu tomar o poder, contrariando os votos de Zinoviev e Kamenev, os quais publicaram uma declaração se opondo a qualquer insurreição e para o Partido buscar a convocação de uma Assembleia Constituinte!

Trotsky, como chefe do Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado, agiu rapidamente para que se realizasse uma tranquila transferência de poder em 25 de outubro de 1917. A Revolução se sucedeu de uma maneira que não ocorreu derramamento de sangue e no dia seguinte, 26 de outubro, os resultados foram anunciados no Segundo Congresso de Todos os Sovietes Russos. Desta vez os bolcheviques conseguiram em torno de 390 delegados de um total de 650 presentes, uma clara maioria. Em protesto, os mencheviques e os SRs foram embora. Lenin, o qual se dirigiu ao Congresso, simplesmente proclamou aos delegados triunfais: “Procederemos para a construção da ordem Socialista.” O Congresso procedeu para o estabelecimento de um novo governo Soviético com Lenin como chefe. Desprezados quatro meses antes, os bolcheviques eram agora aclamados pelos trabalhadores revolucionários.

Em questão de dias, decretos foram emitidos pelo governo de Lenin: sobre propostas de paz e abolição da diplomacia secreta, sobre terras para os camponeses, sobre a autodeterminação dos povos, sobre o controle dos trabalhadores e o direito de poder revogar o mandato de todos os representantes, sobre a igualdade completa entre homens e mulheres, e sobre a completa separação entre Estado e igreja.

Quando o Terceiro Congresso dos Sovietes, em janeiro de 1918, proclamou a fundação da República Soviética Federativa Russa, grandes extensões da Rússia ainda estavam ocupadas pelos Poderes Centrais, nacionalistas burgueses e generais brancos.

Cinco dias após a Revolução, o novo governo foi atacado pelas forças cossacas lideradas pelo general Krasnov. O ataque foi repelido e o general foi entregue por seus próprios homens. Contudo, foi liberado após dar sua palavra de que não pegaria em armas. Claro, ele quebrou sua promessa e foi para o sul para liderar o Exército Branco Cossaco. Similarmente, após os cadetes militares do Palácio de Inverno serem libertos, eles organizaram uma revolta.

Ano Um

A Revolução foi muito generosa e confiante em seus primeiros dias. “Nós somos acusados de recorrer ao terrorismo, mas não recorremos, e espero que não recorramos, ao terrorismo dos revolucionários franceses que guilhotinaram homens desarmados”, declarava Lenin em novembro. “Espero que não precisemos recorrer a isto, porque temos a força ao nosso lado. Quando prendemos alguém nós dizemos que o libertaríamos se o mesmo nos desse uma promessa por escrito de que não praticaria sabotagens. Tais promessas escritas foram dadas.”

Essa inocência foi reconhecida por Victor Serge, um antigo anarquista que acabou por se tornar Bolchevique, o qual escreveu em seu livro “Ano Um da Revolução Russa”:

“Os Brancos massacram os trabalhadores no Arsenal e no Kremlin: os Vermelhos libertam seu inimigo mortal, General Krasnov, em liberdade condicional… A revolução cometeu o erro de demonstrar generosidade ao líder do ataque cossaco. Ele deveria ter sido executado no local… [Em vez disso] Ele saiu para colocar a região Don sob o fogo e a espada.”

Assim que o poder soviético foi estabelecido, os imperialistas agiram para destruir a revolução. Em março de 1918 Lenin passou o governo para Moscou, uma vez que Petrogrado havia ficado vulnerável aos ataques alemães.

Logo em seguida, as tropas britânicas desembarcavam em Murmansk acompanhadas pelas forças americanas e canadenses; os japoneses desembarcavam em Vladivostok ao lado dos batalhões britânicos e americanos. Os britânicos também tomaram o porto de Baku para se apossarem do petróleo. Forças francesas, gregas e polonesas desembarcavam nos portos do Mar Negro de Odessa e Sevastopol e se associaram aos exércitos brancos. A Ucrânia estava ocupada pelos alemães. No total, 21 exércitos estrangeiros de intervenção em diversos fronts confrontavam as forças do governo soviético. A Revolução estava lutando por sua vida. Estavam cercados, famintos e infestados de conspirações.

Terror Branco

A liderança do partido SR defendia o princípio da intervenção estrangeira para “restaurar a democracia”. Uma posição contrarrevolucionária similar era mantida pelos mencheviques, o que os colocou ao lado dos inimigos. Eles colaboravam com os Brancos e recebiam dinheiro do governo francês para cumprirem suas atividades.

No verão de 1918 atentados foram realizados com o objetivo de assassinar Lenin e Trotsky. Em 30 de agosto, Lenin foi baleado, mas conseguiu sobreviver. No mesmo dia, Uritsky foi assassinado, assim como o embaixador alemão. Volodarsky também foi morto. O plano para explodir o trem de Trotsky fracassou, felizmente. O Terror Branco serviu, por sua vez, para desencadear o Terror Vermelho em defesa da Revolução.

O Terror Branco foi minimizado pelos capitalistas, os quais colocavam a culpa de tudo nos Vermelhos. As atrocidades brancas “eram geralmente trabalho de generais brancos e chefes militares isolados e não eram sistemáticas ou questões de política oficial”, explica Anthony Read em uma tentativa de desculpá-los. “Mas eles frequentemente encontravam e às vezes superavam o Terror Vermelho.” Na verdade, como política eles sempre superavam o Terror Vermelho em termos de brutalidade, assim como é a natureza das forças contrarrevolucionárias.

Curiosamente, Read continua a descrever os métodos do General Baron Roman von Ungern-Sternberg. “Nenhum Bolchevique, por exemplo, podia se igualar ao general branco Baron Roman von Ungern-Sternberg, um báltico alemão nascido na Estonia, o qual havia sido enviado pelo Governo Provisório para a Rússia Oriental, onde ele afirmava ser a reencarnação de Genghis Khan e fez seu melhor para superar em brutalidade o conquistador mongol. Um fanático antissemita, em 1918 ele declarou sua intenção de exterminar todos os judeus e comissários na Rússia, uma tarefa que ele iniciou com grande entusiasmo, tendo seus homens matado qualquer judeu que eles encontravam por meio de vários métodos bárbaros, incluindo os esfolando enquanto ainda vivos. Ele também ficou conhecido por liderar seus homens por percursos noturnos de terror, carregando tochas humanas através da estepe a todo galope, e por prometer ‘fazer uma avenida de enforcamentos que se estenderia da Ásia até a Europa’.”

Esse era o destino que aguardava os trabalhadores e camponeses na Rússia caso a contrarrevolução fosse vitoriosa. Foi o destino de Spartacus e seu exército de escravos nas mãos impiedosas do estado escravista romano. A alternativa ao poder soviético não era a “democracia”, mas a mais brutal barbárie fascista. Todo o esforço do Exército Vermelho e da Cheka, a força de segurança, foi, portanto, dirigido para vencer a Guerra Civil e derrotar a contrarrevolução.

O governo soviético não tinha alternativas, a não ser lutar fogo contra fogo, e fazer um apelo revolucionário às tropas estrangeiras de intervenção. Como Victor Serge explicou:

“As massas trabalhadoras usam o terror contra as classes que estão em minoria na sociedade. Isto não faz mais do que completar o trabalho forças econômicas e políticas recentemente surgidas. Quando medidas progressivas uniram milhões de trabalhadores para a causa da revolução, não é difícil destruir, neste estágio, a resistência de uma minoria privilegiada. O Terror Branco, por outro lado, é realizado por estas minorias privilegiadas contra os trabalhadores, aos quais tem de matar, para dizimá-los. Os Versaillais (nome dado às forças contrarrevolucionárias que derrubaram a Comuna de Paris) contabilizaram mais vítimas em uma semana somente em Paris, do que a Cheka matou em três anos em toda a Rússia.”

Um período de “Comunismo de Guerra” foi imposto aos bolcheviques, onde os grãos foram requisitados dos camponeses para alimentar os soldados e trabalhadores. A indústria, devastada por sabotagens, guerras e agora guerra civil, estava em um estado de colapso total. O bloqueio imperialista paralisou o país. A população de Petrogrado caiu de 2,400,000 em 1917 para 574,000 em agosto de 1920. A febre tifoide e a cólera mataram milhões. Lenin descreveu a situação como “Comunismo em uma fortaleza ocupada”.

Em 24 de agosto de 1919, Lenin escreveu: “a indústria está paralisada. Não há comida, nem combustível, nem indústria.” Diante dessa catástrofe, os sovietes dependiam dos sacrifício, da coragem e da força de vontade da classe trabalhadora para salvar a revolução. Em março de 1920, Lenin declarou: “A determinação da classe trabalhadora, sua inflexível adesão às palavras de ordem ‘Morte ao invés da rendição!’ não é somente um fator histórico, é o fator decisivo para a vitória.”

O Resultado da Guerra Civil

Sob a liderança de Lenin e Trotsky, os quais haviam organizado o Exército Vermelho a partir do princípio, os soviéticos foram vitoriosos, mas a um custo terrível. Mortes no front, fome, doenças, tudo combinado com o colapso econômico.

Ao fim da Guerra Civil, o governo bolchevique foi forçado a realizar um recuo e implementar a Nova Política Econômica (NEP). Isso permitiu aos camponeses o livre mercado de seus grãos e contribuiu para o crescimento de fortes tendências capitalistas, resultando na emergência dos NEPmen (novos burgueses surgidos da NEP. Nota da Redação – NR) e dos Kulaks (camponeses ricos. NR). Foi simplesmente um tempo para respirar.

Devido ao baixo nível cultural, onde 70% da população era analfabeta, o regime soviético tinha que descansar através do apoio dos antigos oficiais, funcionários e administradores czaristas, os quais eram contrários à revolução. “Perfure o estado soviético em qualquer ponto e, por baixo, verá o mesmo velho aparato estatal czarista”, declarava Lenin sem rodeios. Com o contínuo isolamento da revolução, foi constituído um perigo grave através da degeneração burocrática da revolução. A classe trabalhadora estava enfraquecida pela crise. Os sovietes deixaram de funcionar à medida que os profissionais e os burocratas preenchiam a lacuna.

Apesar de medidas serem implementadas para se combater a ameaça burocrática, a única salvação real para a Revolução Russa seria o sucesso da revolução mundial, assim como a ajuda material do Ocidente.

No início de 1919, Lenin havia criado a Terceira Internacional como uma arma para espalhar a revolução internacionalmente. Era uma escola de Bolchevismo. Partidos Comunistas de massas estavam logo estabelecidos na Alemanha, França, Itália, Checoslováquia e outros países.

Infelizmente, a onda revolucionária após o término da Primeira Guerra Mundial foi derrotada. A revolução na Alemanha em 1918 foi traída pelos socialdemocratas. As jovens Repúblicas Soviéticas na Bavária e Hungria haviam sido esmagadas pelas contrarrevoluções. As revolucionárias ocupações de fábricas na Itália em 1920 também haviam sido derrotadas. Mais uma vez, em 1923, todos os olhos estavam voltados para a Alemanha, a qual estava sob a pressão de uma crise revolucionária. Contudo, os falsos conselhos dados por Zinoviev e Stalin resultaram em seu fim trágico.

Isso foi como um golpe contra a moral dos trabalhadores russos, os quais estavam por um triz. Ao mesmo tempo, a derrota reforçou o crescimento de uma reação burocrática no estado e no partido. Com a incapacidade de Lenin devido a uma série de derrames, Stalin começou a emergir como a figura representativa da burocracia. Na verdade, o último combate de Lenin em conjunto com Trotsky foi contra a burocracia e Stalin. Stalin recuou, mas um último derrame deixou Lenin paralisado e mudo.

Antes disto, Lenin havia elaborado um testamento. Neste é declarado que Stalin “tendo se tornado Secretário Geral, [ao que Lenin se opôs – Nota de Rob Sewell] possui autoridade ilimitada concentrada em suas mãos, e eu não estou certo de que ele será sempre capaz de utilizar essa autoridade com suficiente cautela.” “O camarada Trotsky, por outro lado… é notável não apenas por suas grandes capacidades. Ele talvez seja, pessoalmente, o homem mais capaz do presente CC…” Ele alertou de que havia o perigo de uma divisão no partido.

Stalinismo

Duas semanas mais tarde, Lenin adicionou um anexo ao seu testamento após Stalin praguejar e insultar Krupskaya por ajudar Trotsky e outros a se comunicarem com Lenin. Lenin acabou por romper toda e qualquer relação pessoal com Stalin. “Stalin é muito rude e esse defeito, embora tolerável em nosso meio e nas relações entre nós comunistas, se torna intolerável para um Secretário Geral”, declarava Lenin. Ele insistia para que Stalin fosse removido de sua posição devido a sua deslealdade e tendência ao abuso de poder.

Mas em 7 de março de 1923, Lenin sofreu um derrame que o deixou completamente incapacitado. Ele permaneceria nesse estado até sua morte em 21 de janeiro de 1924. A saída de Lenin da vida política fez aumentar o poder de Stalin, o que ele utilizou para tirar proveitos, até mesmo para suprimir o testamento de Lenin.

Foi deixada para Trotsky a tarefa de defender a herança de Lenin, a qual estava sendo traída por Stalin. A vitória do stalinismo ocorreu, fundamentalmente, devido à razões objetivas, acima de tudo devido ao terrível atraso econômico e social da Rússia e, também, devido ao seu isolamento.

As derrotas subsequentes da revolução internacional na Grã-Bretanha e especialmente na China serviram para desmoralizar ainda mais os trabalhadores russos, exaustos por anos de lutas. Na base deste terrível cansaço, a burocracia, liderada por Stalin, consolidou seu estrangulamento. O corpo de Lenin, contra os protestos de sua viúva, foi colocado em um mausoléu.

É uma enorme mentira sugerir que o stalinismo é a continuação do regime democrático de Lenin, assim como os apologistas do capitalismo clamam. Na verdade, um rio de sangue separa os dois. Foi Lenin quem iniciou a Revolução de Outubro; Stalin foi seu coveiro. Eles não possuem nada em comum.

Terminamos este tributo como as palavras de Rosa Luxemburgo:

“O que um partido poderia oferecer de coragem, visão revolucionária e coerência em um momento histórico, Lenin, Trotsky e outros camaradas deram em boa medida. Toda a honra e capacidade revolucionárias que faltavam aos socialdemocratas ocidentais, eram demonstradas pelos bolcheviques. Sua insurreição de outubro não foi apenas a salvação da Revolução Russa; foi também a salvação da honra do socialismo internacional.”

Noventa anos após sua morte, fazemos homenagem a este grande homem, suas ideias e coragem. Lenin combinou teoria e ação e personificou a Revolução de Outubro. Lenin e os bolcheviques mudaram o mundo; nossa tarefa neste momento de crise capitalista é terminar o trabalho.

Artigo publicado em 21 de janeiro de 2014, no site da Corrente Marxista Internacional.

Tradução de Maurício Miotti.

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