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Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Bolsonaro – uma análise marxista da sua política

De “sindicalista militar” a privatista, a trajetória de um oportunista político

Em sua página pessoal, assim se define o deputado e pré-candidato a presidente da República Jair Bolsonaro:

Nascido em Campinas, Jair Bolsonaro é um militar da reserva e deputado federal. Está em seu sétimo mandato na Câmara dos Deputados, eleito pelo Partido Progressista. Foi o deputado mais votado do Estado do Rio de Janeiro nas eleições gerais de 2014, com 464.565 votos. Nesta sessão legislativa, Bolsonaro é titular da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional e suplente da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, além de ter sido membro atuante, em outras sessões, da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

É pai de Carlos Bolsonaro, vereador no município do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, deputado estadual fluminense, e de Eduardo Bolsonaro, deputado federal por São Paulo eleito pelo PSC, agremiação partidária à qual todos se encontram filiados atualmente.

Jair Bolsonaro é conhecido por suas posições em defesa da família, da soberania nacional, do direito à propriedade e dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Suas bandeiras políticas são fortemente combatidas pelos partidos de ideologia esquerdista.

Em seus mandatos parlamentares, destacou-se na luta contra a erotização infantil nas escolas e por um maior rigor disciplinar nesses estabelecimentos, pela redução da maioridade penal, pelo armamento do cidadão de bem e direito à legítima defesa, pela segurança jurídica na atuação policial e pelos valores cristãos.

No país inteiro, existem movimentos de direita que apoiam Bolsonaro. A sua curta biografia pessoal é uma boa amostra de como se fazer agitação política (nos termos marxistas, agitação é explicar poucas ideias a muitas pessoas): concentrando tudo de sua propaganda atual em uma página. A maioria da esquerda procura combater Bolsonaro simplesmente explicando tudo… o que ele próprio explica – dizendo que ele é machista, anti-gay e a favor do armamento. Essa crítica, que simplesmente repete as posições das quais o deputado se reclama, nada ajuda a entender porquê, apesar disso, ele é o segundo colocado nas pesquisas para presidente.

A trajetória de Bolsonaro

Bolsonaro estreou na vida política com um artigo na Veja sobre os baixos salários dos militares em 1986. Com episódios controversos (foi inocentado pelo Superior Tribuna Militar) de planejar atentados, como “método” de conseguir reajustes salariais. Assim ele acabou sendo eleito vereador em 1988 no Rio e deputado federal em 1990. Passou por 7 partidos políticos, todos de direita, e é deputado até hoje. Como bom carreirista, não construiu um “movimento” ou um partido, mas elegeu vários filhos como deputados e vereador.

No começo de sua carreira destacou-se como aquele que mobilizava militares e mulheres de militares por aumentos salariais. Depois, quando o filão não rendia mais votos, mudou um pouco de atitude, transformando-se em “nacionalista extremado”. Assim concede uma entrevista a Jô Soares no ano 2000, defendendo o fuzilamento de Fernando Henrique pelas privatizações que ele vinha fazendo.

Quando começa o governo Lula, Bolsonaro é um “oposicionista de direita nacionalista”, que critica a esquerda e o comunismo (ele identifica Lula e o PT ao comunismo, um erro crasso de julgamento, mas um bom argumento político para se fazer entender junto à pequena burguesia) e defende as estatais.

Bolsonaro, para conseguir se manter em evidência, começa a multiplicar seus pronunciamentos machistas e racistas. A eleição de Jean Wyllys pelo PSOL oferece uma oportunidade única – o confronto com Wyllys dá aos dois um instrumento de propaganda excelente e evita que ele se explique sobre outras questões um pouco mais embaraçosas, como a defesa do estupro (já condenado em primeira instância na Justiça por isso).

Ressalte-se que a Câmara dos Deputados, que tem o dever de fazer o julgamento moral de Bolsonaro, sempre se recusou a puni-lo por qualquer de suas atitudes. Isso chegou ao ponto que na votação do impedimento de Dilma ele exaltar um torturador conhecido e a Câmara nada fazer sobre isso, como se a defesa da tortura fosse algo “normal” numa democracia. Aliás, isso diz mais sobre a democracia burguesa do que sobre o caráter de Bolsonaro.

Na crise política que se abre, aonde a direita não tem um candidato claro, Bolsonaro se lança como candidato com um discurso direitista que está exposto na sua biografia que reproduzimos.

Duas questões se colocam então: por que Bolsonaro tem o apoio que tem? E qual é o rumo político que ele propõe ao país?

O imperialismo e os falsos nacionalistas

Bolsonaro cresce e se consolida junto com a crise do sistema. A pequena burguesia, os funcionários públicos desiludidos com o PT, trabalhadores cansados da retórica da “esquerda” de “melhorar a vida” que não melhora nada, militares. Todos atingidos por uma crise e buscando uma saída.

O problema é que a saída apontada pela “esquerda tradicional” nada resolve. Parlamentares falam em “direitos humanos” enquanto nas favelas a polícia mata a rodo (as mortes por bala aumentaram 2% segundo a última estatística divulgada, e as mortes feitas por intervenção policial aumentaram 25%). Nos bairros populares, nas favelas, não existe nenhum direito certo. Os bandidos matam. A polícia mata. E o direito à vida seria o mínimo. Então, quando Bolsonaro fala em armas todo mundo pensa que poderá defender sua vida.

Mas não é bem assim. A chamada “bancada da bala”, da qual Bolsonaro faz parte, defende que sejam armadas determinadas categorias como proprietários de terra e donos de caminhão. Dai a armar todos vai uma grande distância. Os marxistas são favoráveis a que os trabalhadores se organizem em comitês de autodefesa, por fábrica e local de trabalho, por local de moradia, que tenham treinamento militar e que possam se armar. Em síntese, Bolsonaro quer armar a pequena burguesia e os proprietários de terras, enquanto nós queremos armar os trabalhadores. Essa é a diferença de classe.

Bolsonaro se diz defensor da família e contra a erotização infantil nas escolas. A farsa dessa defesa dos moralistas de direita é um escândalo que a burguesia e os jornais burgueses fingem não ver. A verdade é que as mulheres estão sendo exploradas e as crianças e adolescentes estão sendo “educados” não pela escola, mas pela internet, nos milhares de canais de vídeos pornô, aonde todos aprendem que a mulher é um objeto a ser usado. Ao contrário, uma sadia educação sexual nas escolas poderia ensinar que o sexo é uma relação entre duas pessoas, de amor e de prazer, ao invés de uma relação de dominação e compra. O resultado prático dessa posição é a situação atual de degradação e de estupros, é o número crescente de gravidez na adolescência. Mas essa verdade os nossos “defensores da família” não querem enxergar, porque isso significaria mexer com grandes conglomerados de mídia e com grandes capitalistas.

São essas posições, de “saídas fáceis” e adaptadas ao capitalismo, que permitem o crescimento de sua candidatura. Oportunista nato, Bolsonaro se diz admirador de Trump e sonha em fazer o que ele fez – alguém que é “politicamente incorreto” e é enxergado como antisistema, apesar de ser apenas a parte podre que o sistema produziu.

Mas Bolsonaro, para ser eleito, precisa de um pouco mais que isso. Afinal o Brasil não é os Estados Unidos e a burguesia daqui precisa do aval da burguesia imperialista para se mexer. E Bolsonaro sabe disso. Então, ele vai aos EUA e lá suas declarações aos investidores mostram o que ele pretende fazer :

  • Precisa de uma reforma da previdência, mas não tão depressa como Temer está fazendo. É preciso cuidado (o capitão sem medo de nada mostra o verdadeiro medo da burguesia, o medo do proletariado que pode se levantar contra a reforma da previdência).
  • Precisa privatizar tudo, inclusive a Petrobras, mas é preciso deixar o controle com capitalistas nacionais (sabemos disso, a Vale tem um “controle nacional”… e o capital japonês lá dentro “não influi em nada”).
  • Precisamos de mais investimentos, mas não de capital chinês (aliás, ele diria o que aos investidores yanques, que preferia o capital chinês?)

Copiando FHC, Bolsonaro agora quer esquecer que um dia prometeu fuzilar o presidente que privatizava e adere ao programa de privatizações. Se alguma coerência tivesse, deveria suicidar-se. Mas a verdade é que Bolsonaro, como bom empregado do capital, não tem a mínima intenção de fazer tal ato. Pretende apenas ser um candidato e talvez um presidente com mais apoio que Temer, para aplicar o programa de Temer de privatizações e da Reforma da Previdência.

Precisa dizer mais? A verdade é que o problema com a candidatura de Bolsonaro não é somente suas posições reacionárias sobre sexo e mulheres. O verdadeiro caráter de classe da candidatura de Bolsonaro está exatamente em que ele apresenta-se como anti-sistema, admirador de Trump, defensor das privatizações, de uma reforma da previdência e de mais capital estrangeiro na economia brasileira.

Nesta entrevista curta, difundida por seus próprios partidários, Bolsonaro explica porque é contra os direitos trabalhistas, porque votou contra os direitos trabalhistas para as empregadas domésticas, usando exatamente os mesmos argumentos de Temer para fazer a reforma trabalhista – se tiver direitos, tem desemprego. Ter direitos assegurados é socialismo, e ele é pela liberdade… do patrão:

Pode ser combatido? Pode e deve. Mas é necessária uma postura classista, uma postura que explique o seu papel de defensor do capitalismo e não como um “excêntrico” ou um “Trump brasileiro”. O restante é fazer coro ao resto dos políticos burgueses e atrelar o carro do proletariado à locomotiva da burguesia. Os marxistas querem exatamente fazer saltar essas estradas ideológicas e mostrar que o caminho para a solução dos problemas do mundo é outro, uma solução socialista, que passa por expropriar a burguesia e abrir o caminho para um novo mundo sem esse tipo de “excentricidade”.

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