PSOL com Lula e a capitulação de Valério Arcary

É de conhecimento público que no último 30 de abril, a Conferência Eleitoral Nacional do PSOL aprovou que o partido não apresentará candidatura própria à presidência da república e que estará na coligação da chapa Lula-Alckmin. O que muitos podem não saber é que essa “conferência” não foi composta por delegados eleitos pela base do partido, mas apenas pelos próprios membros do Diretório Nacional (DN) do PSOL. Chamaram de “conferência eleitoral”, mas foi só mais uma reunião do DN, restrita a seus 61 membros. Outro dado que pode fugir ao conhecimento de muitos é o do placar da votação (35 a 25): 35 votos a favor do PSOL entrar na coligação da candidatura Lula-Alckmin contra 25 votos a favor do PSOL lançar candidato a presidente (um membro do DN se ausentou por problemas de saúde, senão seria 35 a 26). Longe de ter se formado uma ampla maioria, o que há é uma direção dividida. E a maioria dos 35 membros do DN que aprovaram essa adesão à chapa Lula-Alckmin é de correntes que realizaram as chamadas “filiações em massa” ao partido nos últimos anos, com o objetivo de conquistar a maioria nos congressos do PSOL, mas dificilmente representam a maioria da militância de fato ativa do partido.

O que também não é do conhecimento geral é que o PSOL tinha sim plenas condições de lançar uma candidatura a presidente, mesmo contra a vontade de Boulos. Desde o ano passado, quando Lula teve seus direitos políticos reabilitados e Boulos disse que não seria mais candidato a presidente, o deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro, Glauber Braga, se apresentou como pré-candidato à presidência da república pelo PSOL. Não foi feita nenhuma consulta às bases do partido, nem uma prévia, nada! O único fórum de decisão do PSOL que se posicionou sobre a pré-candidatura do companheiro Glauber foi essa “conferência” dos membros do DN, dos quais ainda assim, 42% votaram a favor de lançar Glauber candidato a presidente – proposta apoiada pela Esquerda Marxista.

No vídeo abaixo em que vemos a intervenção do companheiro Glauber na conferência, fica claro que se o PSOL o lançasse como candidato teria sim condições de obter apoio de uma considerável parcela do proletariado brasileiro, em particular entre sua juventude que rechaça Bolsonaro, mas não tem mais ilusões em Lula, no PT e em sua política de conciliação de classes: uma parte do proletariado e de sua juventude que busca instrumentos para lutar contra o capitalismo e por uma nova sociedade!

Se haveria viabilidade ou não para chegar a um segundo turno, não há como saber. Além de que todas as pesquisas realizadas e divulgadas até então não incluíram a pré-candidatura de Glauber num evidente boicote ao PSOL, não há como saber como se comportariam os eleitores mais à esquerda diante de uma candidatura de Lula com a confirmação de Alckmin como seu vice se o PSOL tivesse Glauber como o seu candidato defendendo um programa de luta contra o capital.

O impressionismo de Valério Arcary

Já era esperado por todos que as maiores correntes do PSOL – Primavera (corrente dirigida por Ivan Valente) e Revolução Solidária (corrente dirigida por Boulos) – adotassem essa postura de adesismo à candidatura Lula-Alckmin desde o primeiro turno. Mas, para a surpresa de alguns, o que garantiu essa posição como majoritária na “Conferência Eleitoral” do PSOL, foi a adesão de correntes que se reivindicam do trotskismo, em particular a “Resistência”, corrente oriunda de uma cisão do PSTU e dirigida por Valério Arcary (que se expressa através do site EOL “Esquerda Online”).

Valério, em contraste com Glauber, faz uma inflamada intervenção na Conferência Eleitoral do PSOL a favor da adesão à candidatura Lula-Alckmin, como podemos ver no vídeo abaixo.

De nossa parte, não há dúvidas de que em um eventual segundo turno entre Bolsonaro e Lula, o PSOL deveria apoiar com todas as suas forças a candidatura de Lula, mesmo com Alckmin como seu vice, para derrotar Bolsonaro. Seria uma situação de “classe contra classe”, apesar do apoio de setores importantes da classe dominante à candidatura Lula-Alckmin (isso já analisamos bem no editorial “As eleições vão passar, a luta de classes não”). Entretanto, o PSOL não deveria abrir mão de apresentar sua própria candidatura e programa no primeiro turno das eleições de outubro. Ao fazê-lo, na prática, retira a possibilidade dos setores da classe trabalhadora mais avançados expressarem sua luta de maneira independente da burguesia no processo eleitoral.

A conclusão a que chega Valério pode ser resumida a grosso modo assim: contra o “neofascismo” devemos realizar a mais ampla frente única, apesar do Alckmin como vice de Lula, desde o primeiro turno. E aí há pelo menos três equívocos.

O primeiro equívoco de Valério é o impressionismo de caracterizar o que estamos combatendo como “o neofascismo”. Se assim o fosse, não estaríamos tendo sequer a oportunidade de debater táticas eleitorais, pois nem mesmo haveriam eleições para as quais um partido como o PSOL teria permissão de participar (nem mesmo o PT). Basta ver o que o atual regime ucraniano fez com os partidos da classe trabalhadora (e nem estamos afirmando que o governo de Zelensky seja fascista, embora se apoie em algumas organizações neonazistas e as tenha incorporado em suas forças armadas). Bolsonaro pode ter a ambição de encabeçar um regime de tipo fascista, mas entre o seu desejo e a realidade há um enorme fosso. Não estamos nem perto de um regime de tipo fascista no Brasil. A caracterização precisa do governo Bolsonaro foi feita pela Esquerda Marxista em novembro de 2018, antes mesmo desse tomar posse (pode ser lido aqui). Trata-se de uma tentativa de regime bonapartista, fraco, em crise e que só consegue se manter no poder por conta da covardia e traição das direções do movimento operário brasileiro (voltaremos a isso mais à frente).

Valério acrescenta ao suposto “neofascismo” a afirmação de que “uma parte da classe dominante quer romper com o regime democrático liberal”. Ah, então o neofascismo está no governo, mas o regime democrático liberal ainda não foi rompido – é o que podemos deduzir de seu raciocínio. Isso seria o que? Um “neofascismo democrático liberal”?! E de que parte da classe dominante Valério está falando? Luciano Hang? Edir Macedo? Quais são os grandes burgueses brasileiros que apoiam Bolsonaro ainda hoje, a ponto de conformar “a parte da classe dominante” que Valério diz que quer enfrentar os setores da classe dominante que estão contra Bolsonaro e em defesa das instituições democráticas burguesas, como o STF? E mesmo dentre o setor ultraminoritário da burguesia brasileira que realmente apoia Bolsonaro, quais seriam os burgueses dispostos a ir até o fim na aventura de “romper com o regime democrático liberal” contra a maior parte da burguesia (sem falar no proletariado e suas organizações)? É preciso ter senso de proporção.

O segundo equívoco de Valério é o de conceber que para enfrentar o suposto “neofascismo”, poderíamos nos apoiar na burguesia ou mesmo em setores dela (Alckmin). Grave equívoco que a história já mostrou ter consequências trágicas. A frente única contra Bolsonaro deve se efetivar entre os componentes da classe trabalhadora! Só a unidade da classe trabalhadora pode enfrentar a reação fascista ou mesmo um projeto disso. Alianças entre a classe trabalhadora e a burguesia enfraquecem o combate do proletariado contra o fascismo. Quando os dirigentes da classe trabalhadora governam junto com a classe exploradora (e portanto em defesa dos interesses desta), o proletariado perde a confiança em sua direção e, se não houver uma direção alternativa que seja capaz de ganhar a confiança do proletariado, este tende a perder a confiança em si mesmo, se desmoralizando e abrindo o flanco para que seus estratos mais atrasados sejam cooptados pela pequeno-burguesia fascista radicalizada. O fenômeno do bolsonarismo de massas só se tornou viável no Brasil por conta da política de colaboração de classes do PT. Ou seja, Bolsonaro presidente é subproduto da política aplicada pelos governos Lula e Dilma de coalizão com a burguesia. Agora, a chapa Lula-Alckmin é uma reedição deste problema e não uma solução. Portanto, o PSOL não deveria aderir a esta chapa, mas contrapor-se a ela no primeiro turno e só apoiá-la como último recurso para evitar uma vitória eleitoral de Bolsonaro. Esta chapa poderá ser utilizada como um instrumento eleitoral para retirar Bolsonaro do poder, mas o governo resultante dela só preparará o terreno para o fortalecimento de fenômenos como o bolsonarismo de massas mais adiante. Foi Trotsky que, ao criticar a política de Frente Popular nos anos 1930, explicou que a colaboração de classes é a antessala do fascismo. Alguém pode argumentar que Valério considera equivocada por parte de Lula a escolha de Alckmin como vice – “é amargo”, diz Valério no vídeo que acabamos de ver. Mas, como já constatava Paracelso no século XVI, “o que difere o remédio do veneno é a dosagem”. Num eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro, o voto na chapa Lula-Alckmin seria de fato um remédio amargo, porém necessário. Contudo no primeiro turno, a adesão do PSOL a essa chapa é um veneno (e aí pouco importa o sabor).

O terceiro equívoco de Valério reside em buscar aplicar mecanicamente nas eleições brasileiras de 2022 as lições que os trotskistas extraem do exemplo histórico clássico da Alemanha de 1933. A recusa da direção stalinista do Partido Comunista Alemão (KPD) em realizar uma aliança eleitoral com o Partido Socialdemocrata Alemão (SPD) possibilitou a vitória eleitoral do Partido Nazista de Hitler em 1933. Mas, seria possível afirmar que se o PSOL lançasse candidatura própria a presidente agora estaria cometendo o mesmo erro sectário do KPD de 1933? A resposta definitivamente é não! São situações muito diferentes. E não apenas porque Bolsonaro hoje não dispõe de um movimento de massas armado e organizado de tipo fascista, como dispunha Hitler. As eleições alemãs de 1933 eram muito diferentes das eleições brasileiras de 2022. Lá então, não havia 2º turno. O Partido Nazista obteve a vitória com cerca de um terço dos votos. Uma aliança eleitoral entre o KPD e o SPD teria facilmente impedido Hitler de chegar ao poder pela via eleitoral naquele ano. Já aqui, o PSOL poderia apresentar sua candidatura com um programa revolucionário e, não obtendo o apoio eleitoral necessário, num eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro, declarar seu apoio a Lula para derrotar Bolsonaro. E ainda diante de um improvável cenário onde se desenhasse a possibilidade de um segundo turno entre Bolsonaro e um outro candidato burguês (como Moro, por exemplo), e Lula estivesse em terceiro lugar brigando para ir ao segundo turno, o PSOL poderia retirar sua candidatura e apoiar a de Lula, para então levá-lo ao segundo turno. Jamais deveria manter sua candidatura num cenário desses. Foi o erro do Partido Comunista francês, que se tivesse retirado sua candidatura em prol de Mélenchon, este último teria ido ao segundo turno contra Macron, no lugar de Marine Le Pen nas recentes eleições francesas.

Ou seja, do ponto de vista da tática eleitoral para impedir a reeleição de Bolsonaro, não há justificativa alguma para o PSOL ter aberto mão agora de sua candidatura independente no primeiro turno. Pelo contrário. Com Alckmin como seu vice, Lula apresenta-se cada vez mais como um candidato da ordem, do sistema, do status quo. Sem uma candidatura do PSOL, a juventude das classes exploradas que quer mudanças se vê sem escolha a não ser votar em Lula ou Bolsonaro (ou se abster, anular o voto, votar em branco). E se tem algo que ainda pode dar alguma chance para Bolsonaro obter uma vitória eleitoral neste ano (o que é bastante improvável), é se ele conseguir fazer a mágica de, mesmo estando à cabeça do governo, apresentar-se como o representante da “mudança de tudo o que está aí”. Inacreditavelmente, Lula dá uma bela ajuda a Bolsonaro nesse sentido se apresentando ao lado de Alckmin “em defesa das instituições”. Não é por acaso que desde que Alckmin foi se consolidando como o vice de Lula, Bolsonaro tem tido alguma recuperação nas pesquisas.

A capitulação de Valério Arcary

Ao final da Conferência Eleitoral do PSOL, foi realizado um ato público com a participação de Lula, onde novamente Valério fez uso da palavra, desta vez com o dobro do tempo (10 minutos), quando ele expressou de maneira mais clara e profunda sua capitulação. Confira no vídeo abaixo.

Valério começa reafirmando um ponto importante que havia usado já em sua argumentação durante a Conferência Eleitoral para defender a adesão do PSOL à chapa Lula-Alckmin, quando havia afirmado que “nós não conseguimos derrotar Bolsonaro nas mobilizações do ano passado… Vai ser no terreno eleitoral!”. Agora, se apresentando como um “trosko velho” e um “otimista incorrigível” ele expõe melhor seu raciocínio:

“Foram anos muito duros. Vamos ser honestos. Não foi só a pandemia. Nós tentamos construir a mobilização na rua… nós colocamos em algumas cidades 10 mil, em outras 20 mil, em outras 50 mil, em São Paulo em alguns momentos superamos os 100 mil. Isso não era o bastante. E não faltavam razões para que milhões fossem às ruas. Todas elas já foram apresentadas aqui pelo Randolfe [senador pela Rede Sustentabilidade] com poesia e com inspiração quase mística, eu diria. O problema é que não basta que as coisas estejam muito ruins para as pessoas lutarem. Isso não é o bastante. A tragédia não é o bastante. A catástrofe não abre caminhos para revoluções. É preciso que as pessoas acreditem que é possível vencer. É uma transformação, um choque na mentalidade, na consciência de dezenas de milhões de pessoas que não ocorre somente por uma experiência individual. É preciso que haja um processo de luta que faça com que a consciência dê esse salto. O que nós não conquistamos no ano passado nas ruas, agora o desafio… o desafio é duro, nós vamos ter que conquistar nas eleições.”

Dizer que é preciso que as pessoas acreditem que é possível vencer para que se mobilizem não é mais do que dizer o óbvio. Ninguém sai às ruas para protestar sem acreditar na possibilidade, mesmo que pequena, de vitória. Mas, se não faltavam razões para que milhões fossem às ruas, como diz Valério, o que aconteceu? Valério argumenta que as pessoas não acreditavam que fosse possível vencer. Será que esta leitura está correta? Vejamos.

Em maio de 2019, com menos de 5 meses de governo Bolsonaro, mais de 2 milhões de pessoas saíram às ruas em um único dia contra os cortes de verbas de Bolsonaro na educação. Aquelas mobilizações ficaram apelidadas de “Tsunami da Educação”. Naquele momento, a Esquerda Marxista praticamente sozinha agitou nas ruas a consigna “Fora Bolsonaro”. Essa consigna foi agarrada pela juventude em luta que gritava “Fora Bolsonaro” em todos os cantos do país. Dirigentes sindicais e estudantis, desavisados, ao se defrontarem com a palavra de ordem entoada pelos manifestantes, também repetiam nos microfones e carros de som: Fora Bolsonaro! Mas, as cúpulas das organizações se apressaram em impedir que um movimento pela derrubada de Bolsonaro se iniciasse. A imprensa noticiou que uma reunião entre dirigentes do PT, PCdoB, PDT, PSB e PSOL havia definido, por proposta de Lula (que ainda estava preso), que não deveriam usar a consigna “Fora Bolsonaro”. Assim, as direções dos aparatos da classe trabalhadora e da juventude conseguiram transformar o “tsunami da educação” na pequena marolinha de mobilização que acabou sendo completamente incapaz de impedir a aprovação da contrarreforma da previdência de Bolsonaro.

Aquelas manifestações de maio de 2019 foram maiores que as manifestações de 2021, quando finalmente as direções burocráticas decidiram tardiamente aderir ao “Fora Bolsonaro”. E só o fizeram para tentar canalizar o movimento crescente em toda a sociedade para o leito seguro das vias institucionais, em primeiro lugar através de pedidos de impeachment, e depois relegando o combate para as eleições de 2022.

Valério Arcary parece desconhecer ou esquecer esse processo. Esquece ele que quando defendemos que o PSOL aderisse ao “Fora Bolsonaro”, foi a Silvia Ferraro, sua companheira de tendência, uma das que fez a defesa mais intransigente contra a nossa proposta na reunião do Diretório Nacional do PSOL já no final de 2019 (leia artigo sobre isso aqui). Esquece Valério, que quando Lula sai da prisão, faz um discurso em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo dizendo que não devíamos lutar para derrubar Bolsonaro e devíamos “respeitar o mandato democrático de 4 anos” (assista ao vídeo aqui). A linha de raciocínio exposta por Valério exime as direções dos partidos operários, das centrais sindicais e dos movimentos populares de qualquer responsabilidade. Exime em particular Lula de qualquer responsabilidade. Segundo Valério, não houve sabotagem decidida das direções para impedir que um movimento de massas pela derrubada de Bolsonaro se desenvolvesse. Se damos crédito ao que Valério afirma, devemos concluir, como evidentemente ele conclui, que não conseguimos derrubar Bolsonaro por responsabilidade das massas, que apesar de terem inúmeras razões para sair às ruas, não o fizeram.

Mas é preciso ir mais fundo. Valério com esse discurso busca eximir a ele próprio da responsabilidade. Foi ele que durante mais de um ano escreveu artigos e mais artigos combatendo a nossa linha política de agitar “Fora Bolsonaro”, nos acusando de belakuninistas e coisas do gênero. Foi ele que, enquanto haviam dois milhões de jovens nas ruas em maio de 2019 gritando “Fora Bolsonaro”, escrevia que “ainda não é hora”, que pedia calma, que buscava convencer a juventude que era preciso ter cautela. Que estávamos numa “situação desfavorável”. A impressão que temos é a de que Valério vem sendo guiado por um medo fundamentado em uma leitura impressionista da realidade. E agora vem dizer que “tentamos, mas não conseguimos”?! Que “colocamos 100 mil nas ruas”?! Milhões foram às ruas não porque Valério e seus companheiros os colocaram lá, mas foram às ruas apesar de todo o esforço de Valério, Lula, Boulos e seus companheiros para que nenhuma luta contra Bolsonaro acontecesse, porque “ainda não era hora” ou porque devia-se “respeitar o mandato conquistado democraticamente para governar por 4 anos”.

Mas, como se não bastasse essa vergonhosa capitulação para alguém que se reivindica revolucionário, Valério Arcary continua seu amável discurso dirigido a Lula durante o ato “PSOL com Lula” no último 30 de abril com as seguintes palavras:

“É por isso que nós terminamos, Lula, o encontro do PSOL e decidimos que o PSOL desta vez excepcionalmente não vai apresentar candidato próprio. Não é porque o PSOL não tenha um programa. O PSOL tem um programa. Votou hoje uma atualização de um programa para o Brasil. Vinte grupos de trabalho, 400 militantes, especialistas, se reuniram, fizeram síntese, um diagnóstico, um conjunto de propostas… vai ser preciso fazer não uma, mas duas, três revoluções, uma revolução permanente pra cumprir pouco mais de metade daquelas propostas. Se texto transformasse o mundo, era só a gente declamar o programa do PSOL que a burguesia entrava em choque e dizia ‘prefiro ir pra Bolívia’. Agora, nós fechamos um acordo, Lula, com o Mercadante, dos 12 pontos. Eu não sei se você já leu eles com atenção, porque nós fizemos uma boa politizada ali. Então é o seguinte, pra gente conquistar aqueles 12 pontos vai ser preciso transformar a vida da classe dominante desse país num pesadelo. Não vai ser só uma mudança na relação social de forças, vai ter que ter mudança na relação política de forças. Vai ser duro. Isso significa, portanto, Lula, que o PSOL dá um apoio a você em torno dessa plataforma dos 12 pontos.”

Não é o objetivo deste artigo fazer uma análise do “programa do PSOL para o Brasil” mencionado por Valério, mas afirmo que é um programa bastante rebaixado, que nem pode ser considerado um programa socialista. Entretanto, quero me deter sobre a conclusão de Valério Arcary de que a plataforma dos 12 pontos acordada entre uma comissão da direção do PSOL e uma comissão do PT chefiada por Aloisio Mercadante, seria já um programa muito avançado e difícil de realizar. Claro que qualquer mudança na sociedade burguesa em prol dos trabalhadores não é fácil e só é possível ser conquistada com luta. Mas o que teria de tão avançado nesses 12 pontos que Valério alardeou como sendo o grande trunfo do PSOL que permitiria apoiar a chapa Lula-Alckmin desde o primeiro turno em detrimento do PSOL apresentar o seu próprio programa através de uma candidatura independente?

A fraude do acordo de 12 pontos

Alguém poderia argumentar que tudo o que analisamos neste artigo até agora dizia respeito a equívocos de tática do Valério e que não poderia ser caracterizada uma capitulação. Mas a capitulação derradeira de Valério Arcary se dá sobre o programa.

O que há nos famigerados 12 pontos de tão revolucionário? Será que fala em suspender o pagamento da dívida pública? Não. Nem uma auditoriazinha, já prevista na Constituição de 1988? Também não. Sequer menciona a dívida pública, sistema central de pilhagem do país em benefício do capital financeiro internacional.

Começou mal. Mas, pelo menos deve falar em revogar a Reforma da Previdência do Bolsonaro, né? Também não. Nem menciona a questão da previdência.

Eita! Mas então deve falar, sei lá, da legalização do aborto? Também não. Não toca nesta que é uma questão de vida ou morte para milhões de mulheres trabalhadoras. Mas o Lula defende a legalização do aborto. Por que o PSOL não incluiria isso na plataforma mínima de 12 pontos para apoiar a chapa Lula-Alckmin, já que teria o acordo prévio do Lula? Será que não incluíram isso na pauta para não chatear a Rede Sustentabilidade, da Marina Silva e Heloísa Helena que são contra a legalização do aborto? Olha os efeitos da federação com a Rede já aparecendo aí…

Alguém pode dizer: “Vamos ser justos! Nos 12 pontos está a revogação da reforma trabalhista do Temer!”, mas isto já estava no programa do PT. Aliás, já estava no programa da federação do PT com o PCdoB e o PV. E, não apenas isso, mas os 12 pontos que a direção do PSOL afirma ter negociado com o PT como condição para apoiar a chapa Lula-Alckmin, já estavam todos eles no programa do PT! É uma fraude quando dizem que os 12 pontos resultaram de uma negociação! Já estava tudo lá!

O que Valério Arcary exalta como sendo um programa avançadíssimo e alerta para que o Lula leia com atenção, porque o PSOL teria “dado uma boa politizada” é nada mais nada menos do que uma parte do programa que o PT já tinha. É rebaixadíssimo! Aliás, o próprio Lula, no ato do dia 30 “PSOL com Lula”, delatou a capitulação de Valério Arcary quanto ao programa. Lula, em seu longo discurso de encerramento do ato, se referiu a vários dirigentes do PSOL e embora não tenha mencionado Valério nem uma vez, como Valério foi o único que havia falado sobre a questão do programa e do “acordo dos 12 pontos”, evidentemente que este trecho da fala de Lula, foi para ele:

“E a gente pensa que a gasolina tá cara por conta da guerra da Ucrânia. A gasolina tá cara porque depois que eles quebraram a BR, nós temos 392 empresas importando gasolina dos EUA e se importa em dólar, vende em dólar. E o nosso povo ganha em reais, os petroleiros ganham em reais, as coisas são produzidas em reais, então não fez sentido essa desfaçatez. E agora querem vender também a Eletrobrás. Se vender a Eletrobrás, a gente não vai mais conseguir fazer programa ‘Luz para todos’, porque não tem empresa privada pro PSOL fazer de forma socialista, levar luz de graça pra todo mundo. Então pessoal, vocês percebem, que o programa de vocês talvez ainda seja fraco diante das coisas que nós vamos ter que fazer nesse país pra recuperar a democracia.”

Claro que essa é uma hipocrisia do Lula. Ele estava “jogando para a plateia” nesse momento do discurso. O Lula não tem a menor intenção de radicalizar seu programa. Explicamos bem isso no já mencionado editorial quando ressaltamos o significado da escolha de Alckmin como vice como uma garantia ou uma “trava de segurança” se preferirem, que o próprio Lula oferece à burguesia para que esta possa ter confiança de que ele não vai pisar um milímetro fora da linha. Lula vai aplicar o programa que a burguesia mandar aplicar.

Mas, Valério não precisava ter ido dormir com essa. O programa que ele exaltou como avançado, além de ser uma fraude rebaixada, foi chamado publicamente de “fraco” pelo próprio Lula.

As lições do 1º de Maio

No dia seguinte a essa celebração que a direção do PSOL fazia com Lula, dirigentes do PT, PCdoB e Rede, ocorreu em São Paulo um esvaziadíssimo ato do 1º de Maio em frente ao Pacaembu, cujas atrações centrais eram shows musicais e uma prévia do lançamento da pré-candidatura Lula-Alckmin (que será lançada oficialmente em 7 de maio). Menos de 10 mil pessoas conseguiram lotar apenas a área mais próxima ao palanque que havia sido montado.

No mesmo horário, os bolsonaristas realizaram um ato na Av. Paulista com muito mais gente.

Nesta análise importa pouco a quantidade de bolsonaristas atraídos para o ato na Paulista. A questão é o esvaziamento do ato das centrais sindicais no Pacaembu. Em um momento de forte crise, com dezenas de milhões de desempregados, milhões passando fome, aumento da carestia de vida e todas as mazelas do povo exacerbadas, realizar um ato do 1º de Maio como se fosse uma festa, é de uma insensibilidade política tão grande que se continuar nessa linha, o improvável cenário da reeleição de Bolsonaro pode começar a ganhar viabilidade.

Chegamos onde estamos, sob o governo da escória bolsonarista, por responsabilidade da política de colaboração de classes dirigida por Lula nas últimas três décadas. Agora, essa chapa com Alckmin que Lula conseguiu impor ao conjunto da classe trabalhadora como único instrumento viável para enfrentar Bolsonaro, não anima ninguém.

Se Lula conseguir a vitória eleitoral, o programa que realmente será aplicado por ele quando eleito levará a uma nova crise política e social que obrigará a um novo reposicionamento de todas as peças no tabuleiro da política brasileira. Grande parte das lideranças e organizações de esquerda participarão do governo Lula, provavelmente inclusive aqueles que hoje controlam a direção do PSOL. Por outro lado, logo após ter passado o torpor da vitória eleitoral sobre Bolsonaro, a insatisfação popular com o governo crescerá a cada dia. O PSOL será colocado à prova permanentemente, assim como o próprio PT, a CUT e todas as direções do movimento operário.

Só mantendo de maneira firme nossa linha política de independência de classe, chamando o voto crítico em Lula, criticando seu programa e suas alianças, a começar pelo vice, criticando o programa da direção do PSOL e sua adesão à chapa Lula-Alckmin, além de sua federação com a Rede e propagandeando um programa de ruptura da ordem burguesa e enfrentamento ao capital é que poderemos avançar nossa política revolucionária nos próximos meses.

Em todo o mundo, as lutas de massas que vimos desenvolverem-se nos últimos anos – e crescer em quantidade e qualidade logo antes do advento da pandemia – podem e tendem a ser retomadas mais e mais à medida em que os imperialistas não têm outro caminho a seguir a não ser fazer suas guerras, impor retiradas de direitos e condições de trabalho cada vez piores, além de privatizar e sucatear os serviços públicos para extrair uma proporção cada vez maior da massa de mais-valia produzida pelo conjunto do proletariado mundial.

O futuro previsível é de forte acirramento da luta de classes em nível internacional. A ausência de uma Internacional marxista de massas faz com que o proletariado encontre muita dificuldade para unificar suas lutas, levar o combate até a expropriação da burguesia e a planificação da economia sob controle dos trabalhadores nos diversos países onde as condições para tal vão se apresentando. De nossa parte, seguimos construindo a Corrente Marxista Internacional como um ponto de apoio para o desenvolvimento desse instrumento internacional tão necessário para a classe trabalhadora e a humanidade. Junte-se a nós!

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