As eleições vão passar, a luta de classes não

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Com o lançamento oficial da chapa Lula-Alckmin previsto para 7 de maio, a aprovação da federação PT-PCdoB-PV pelo diretório nacional do PT e a aprovação da federação PSOL-REDE pelo diretório nacional do PSOL, somados aos acordos entre dirigentes do PT e do PSOL para que o PSOL apoie Lula desde o primeiro turno (e a provável aprovação desta proposta na conferência eleitoral do PSOL em 30 de abril), podemos agora ver mais nitidamente o delineamento dos contornos dos canais eleitorais através dos quais a luta de classes poderá se expressar de maneira deformada em outubro nas urnas e nos meses precedentes durante a campanha eleitoral nacional.

Por um lado, a chamada “terceira via”, tão almejada por grandes setores da burguesia, não conseguiu se consolidar nem através da candidatura de Moro nem de qualquer outro. Ciro, que busca se apresentar para este papel, não tem a confiança dos setores mais importantes da burguesia. Desta forma, vai se consolidando cada vez mais o apoio da maioria da burguesia à chapa Lula-Alckmin, contra Bolsonaro.

Por outro lado, sem uma candidatura própria do PSOL com um programa claro de luta pelo socialismo, de ruptura com a ordem vigente, consolida-se a cada dia mais também o apoio da maioria do proletariado à candidatura Lula, independente de quem seja o seu vice, para derrotar Bolsonaro. As candidaturas restantes à esquerda (UP, PCB e PSTU) são muito pequenas e inexpressivas. Portanto, são incapazes de conquistar a confiança de setores importantes do proletariado.

Assim, contraditoriamente, o voto do proletariado em Lula para derrotar Bolsonaro será a expressão do sentimento de “classe contra classe”, embora os setores mais importantes da classe dominante também apoiem a chapa Lula-Alckmin.

A disputa real de classe se dará não em quem o voto será depositado, mas no conteúdo desse voto:

a) Para a grande burguesia e o imperialismo, o voto na chapa Lula-Alckmin e seu apoio político e financeiro se baseará no compromisso de Lula em governar para o capital financeiro internacional (dentre outras questões, garantindo que cerca de metade do orçamento federal nacional seja destinado ao pagamento da dívida pública) e na sua promessa de promover a paz social com a conciliação de interesses das classes antagônicas – ao contrário de Bolsonaro que promove o enfrentamento aberto de classes, a contragosto da burguesia.

b) Já para o proletariado, o voto em Lula terá o significado de buscar utilizá-lo para retirar Bolsonaro do poder, revogar as contrarreformas impostas por Temer e Bolsonaro, buscar impor novas conquistas e a ampliação de direitos para os trabalhadores.

Evidentemente, o compromisso de Lula já está selado em prol dos interesses da burguesia. Este é o sentido da escolha de Alckmin como vice, uma garantia de que, se Lula não governar para a burguesia, ela poderá removê-lo (pelos meios que lhe forem convenientes) tendo um fiel representante como Alckmin sentado na cadeira de presidente, sem necessitar de uma nova eleição.

Portanto, a despeito de que nas tratativas entre dirigentes do PT e do PSOL tenha ficado acertado que no programa de Lula constará a consigna de “revogação da contrarreforma trabalhista de Temer”, Lula eleito trabalhará para que apenas pequenas revisões sejam feitas, mas nada de revogação que restabeleça direitos trabalhistas.

Essa contradição entre o significado do voto do proletariado em Lula, as expectativas dos trabalhadores em um novo governo encabeçado pelo PT e o programa que realmente será aplicado por ele quando eleito levará a uma nova crise política e social que obrigará a um novo reposicionamento de todas as peças no tabuleiro da política brasileira.

Grande parte das lideranças e organizações de esquerda participarão do governo Lula, provavelmente inclusive aqueles que hoje controlam a direção do PSOL. Por outro lado, logo após ter passado o torpor da vitória eleitoral sobre Bolsonaro, a insatisfação popular com o governo crescerá a cada dia. Pela direita, uma oposição bolsonarista vai buscar se valer disso para crescer e tentar eleger Bolsonaro novamente em eleições futuras (ou um de seus filhos, caso o pai fique inelegível). Pela esquerda, caberá àqueles que sejam capazes de desenvolver uma oposição com independência de classe buscar ganhar a confiança de setores do proletariado nesse processo. O PSOL será colocado à prova permanentemente, assim como o próprio PT, a CUT e todas as direções do movimento operário.

Tendo a possibilidade de volta do bolsonarismo ao poder como uma ameaça constante, Lula poderá gozar ainda por um tempo de um certo comportamento de tolerância dos batalhões pesados da classe trabalhadora. Mas a direção petista da CUT já não controla mais suas bases sindicais como no passado e, mais cedo ou mais tarde, essa insatisfação deverá explodir em lutas abertas nas fábricas e nas ruas. Se isso tardará mais ou menos a ocorrer, bem como o grau de radicalidade desses movimentos, dependerá da capacidade das organizações operárias para desenvolver entre os trabalhadores uma política de independência em relação ao governo, além de garantir que tais lutas não sejam passíveis de assimilação pelos bolsonaristas.

Todo este esboço de perspectiva a partir do que vai se desenhando com as cartas do baralho que estão sendo postas à mesa estará sujeito também – e de maneira brutal – ao contexto mais amplo da luta de classes internacional e da crise mundial do capitalismo. As lutas de massas que vimos se desenvolver nos últimos anos – e crescer em quantidade e qualidade logo antes do advento da pandemia – podem e tendem a ser retomadas mais e mais à medida em que os imperialistas não têm outro caminho a seguir a não ser fazer suas guerras, impor retiradas de direitos e condições de trabalho cada vez piores, além de privatizar e sucatear os serviços públicos para extrair uma proporção cada vez maior da massa de mais-valia produzida pelo conjunto do proletariado mundial.

O futuro previsível é de forte acirramento da luta de classes em nível internacional. A ausência de uma Internacional marxista de massas faz com que o proletariado encontre muita dificuldade para unificar suas lutas, levar o combate até a expropriação da burguesia e a planificação da economia sob controle dos trabalhadores nos diversos países onde as condições para tal vão se apresentando. De nossa parte, seguimos construindo a Corrente Marxista Internacional como um ponto de apoio para o desenvolvimento desse instrumento internacional tão necessário para a classe trabalhadora e a humanidade.

No Brasil, isso passa, até 30 de abril, pelo combate para que o PSOL aprove a candidatura de Glauber Braga para presidência da República com um programa de enfrentamento ao capital, enquanto levamos o combate constante para que o PSOL rompa a federação com a Rede. Na eventual – e provável – derrota desta proposta, deveremos combater ombro a ombro com o proletariado para eleger Lula contra Bolsonaro, mas sem deixar de fazer toda a crítica ao seu programa e aliados, apresentando como palavras de ordem centrais a luta contra o pagamento da dívida pública, a revogação das contrarreformas de Temer e Bolsonaro, a reestatização de tudo o que foi privatizado e a luta pelo socialismo.

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