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Perspectivas da luta de classes nos EUA após eleições presidenciais

Artigo publicado no jornal Foice&Martelo Especial nº 19, de 12 de novembro de 2020. CONFIRA A EDIÇÃO COMPLETA.

A maior potência do mundo é o centro da luta de classes no momento e desdobramentos interessantes podem acontecer no próximo período. A instabilidade é o que caracteriza a conjuntura diante da maior crise do capitalismo desde 1929. O desemprego bate recordes, assim como o aumento brutal do número de famílias em pobreza extrema. Ao mesmo tempo, a desigualdade social aumenta, com os milionários cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

As análises mais sérias da própria burguesia indicam muitas dificuldades para a retomada de qualquer crescimento econômico. Incapaz de garantir emprego, renda e direitos sociais, a classe dominante precisa atacar ainda mais os trabalhadores e a juventude para garantir sua recuperação da taxa de lucro, mas, para isso, precisa esmagar ainda mais quem já está sofrendo tanto.

O Estado, como órgão gestor dos negócios da burguesia, se encarrega de legitimar cada vez mais exploração e opressão. Porém, o que está provocando é uma verdadeira panela em ebulição. É visível o desespero da burguesia para recompor o sistema e manter seu poder enquanto classe dominante. E, ness e sentido, a legitimidade de um processo eleitoral é sempre um instrumento útil para essa recomposição. Entretanto, se tem uma questão que ficou evidenciada com as eleições dos Estados Unidos é que essa legitimidade não virá. Ao contrário, o desfecho das eleições norte-americanas não caminha para a estabilidade desejada pelos setores mais sérios da burguesia, que buscam a recomposição como forma para conter as convulsões sociais, diante de alguns elementos que passamos a analisar.

Primeiramente, devemos indicar que os partidos Republicano e Democratas estão longe de representarem interesses da classe trabalhadora ou da juventude. São frações de um mesmo interesse de classe, representando fielmente a burguesia. Historicamente se alternam para, de forma mais direta ou indireta, com mais ou menos verniz autoritário, reprimir qualquer efetiva mobilização para inverter a ordem estabelecida.

O que permanece nos EUA é um profundo rechaço ao poder político destes dois partidos. Biden não se elegeu porque há uma ilusão de que ele seja uma pessoa progressista ou menos belicista, como se comprova pelo seu passado como parlamentar e vice-presidente. Nem mesmo a simbologia de uma vice-presidente mulher e negra é capaz de enganar, justamente por ser uma figura identificada com a direita do próprio Partido Democrata. Mesmo considerando o aumento de votos e participação popular, não se pode concluir que houve um aumento da legitimação do Partido Democrata, seja por analisar a votação para o Congresso Nacional (Republicanos mantém maioria no Senado e Democratas mantém maioria na Câmara, mas de forma muito apertada), seja porque parte significativa da burguesia, inclusive do establishment e mesmo toda a turma de Wall Street apoiou Biden, ou ainda, porque mais do que a comemoração pela vitória de Biden, nos EUA e no mundo, a comemoração ou o alívio, para muitos, foi por promover a derrota de Trump.

Em segundo lugar, tem-se que a suposta maior democracia do mundo, como tentam vender diariamente, mostrou-se aos olhos de todos que, mesmo num jogo eleitoral da burguesia, da mera democracia formal, o sistema eleitoral dos EUA é profundamente antidemocrático, uma vez que é indireto, com a eleição popular submetida à eleição de delegados partidários, com pesos distintos, gerando distorções, como nas eleições de 2016, quando Hillary Clinton ganhou no voto popular, mas perdeu pelo método de eleição de delegados, via colégio eleitoral.

Um terceiro ponto que reforça a instabilidade, justamente pelo que mencionamos acima, é a margem que acaba sendo dada para o questionamento da candidatura derrotada, como procedeu Trump. O não reconhecimento do resultado é um fato que nunca havia ocorrido em um processo eleitoral dos EUA. E mais: no fim do dia 03 de novembro, Trump anunciou sua vitória e cham ou às ruas seus eleitores e simpatizantes para que assim o declarassem , suspendendo a contagem de votos naquele momento, faz com que a ebulição social e o questionamento da ordem, através de seu processo eleitoral, fique ainda maior , gerando ainda mais instabilidade, quando a burguesia mais inteligente deseja, desesperada, a recomposição social.

Trump, agindo assim, busca manter-se vivo politicamente, mobilizando seus apoiadores para que não aceitem o resultado e pressionem de todas as maneiras a representação formal deste setor da burguesia. Busca-se construir, assim, um movimento de ultradireita nacionalista, denominada por alguns como “trumpismo”, como forma de sobrevivência política, intimidação de Biden e do Partido Democrata, e mesmo eventual legitimidade para ações diretas nas ruas contra a classe trabalhadora, a juventude, os movimentos antiracistas e em defesa dos imigrantes. Assim, mais uma vez, o que se verifica é uma faísca ainda maior para a ebulição social que se avizinha.

Por fim, justamente por esse motivo, aumenta a pressão para Biden e todos do Partido Democrata forçarem a recomposição, cedendo espaços institucionais e políticos a membros do Partido Republicano, buscando isolar Trump, mas, com isso, distanciando-se ainda mais de qualquer perspectiva de que, minimamente certos reformistas ou progressistas venham a ter qualquer ilusão no governo que se avizinha. Ao contrário, Biden ficará cada vez mais refém de um processo de reunificação e reorganização da burguesia, e, com isso, torna-se ainda mais difícil qualquer atendimento das reivindicações da classe trabalhadora e da juventude, do movimento negro e latino, que foi decisivo para sua eleição. Combinando-se com a constatação de que Biden não é Obama, ou seja, não possui habilidade política nem o carisma e a autoridade que Obama possuía, que estava repleto de expectativas e muito ânimo quando de sua eleição, Biden não conseguirá conter um movimento de massas que está nas ruas, afirmando que “I can´t breathe”, ou seja, que não conseguem respirar, não somente em analogia ao dito por George Floyd assassinado por sufo camento, mas pelo sufocamento que a ordem capitalista impõe, com tanta raiva e ódio ao sistema de opressão e exploração.

Diante disso, o cenário de instabilidade política na maior potência do mundo traz uma interessante perspectiva para a luta de classes. De forma trágica, vemos a maior crise do capitalismo, aprofundada e acelerada pela pandemia da Covid-19, que, longe de encerrar, vivenciamos uma segunda onda na Europa e EUA, e a manutenção no Brasil e em outros países, com mortes em um “platô” muito alto, sem contar as subnotificações existentes. A burguesia busca, desesperadamente, recompor suas relações com parcelas dos setores médios e mesmo de trabalhadores, como forma de legitimar sua exploração e opressão com um viés de cordialidade ou humanidade. Porém, trata-se de uma tarefa impossível, pela natureza do Estado e o grau de desigualdade provocada durante todos os ataques cometidos desde a crise econômica de 2008. Com razão, a grande maioria da classe trabalhadora e da juventude está farta deste sistema podre, rechaça a política institucional e busca construir alternativas que efetivamente possam garantir suas reivindicações. Assim, está na ordem do dia a construção de um partido da classe trabalhadora nos EUA, atraindo uma juventude que se autoproclama socialista e que busca um novo eixo de independência de classe, contra toda a corja institucional, como pudemos ver em Minnea polis, em Seattle, em Portland, em Oakland, em Nova Iorque e em tantas cidades.

Uma nova etapa da luta de classes está ocorrendo e serão decididos os próximos passos a maior potência mundial. U ma mudança efetiva nos rumos dos EUA terá um impacto brutal em todo o mundo. Estamos vivendo o que Lenin definiu como: “há décadas em que nada acontece , mas há semanas em que décadas acontecem”.

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