O materialismo histórico no banco dos réus

Durantes os quatro dias da Universidade Marxistas Internacional 2020 os militantes da Esquerda Marxista, seção brasileira da Corrente Marxista Internacional (CMI) estão empenhados em disponibilizar em nossa página breves relatos dos 16 temas tratados na Escola. O objetivo é estimular nossos leitores a aprofundar o conhecimento sobre nossas posições e a juntarem-se a nós na construção da CMI. Para sua localização procure pelo dia e o tema que deseja fazer a leitura.

O terceiro dia da Universidade Marxista Internacional teve entre os temas abordados o Materialismo Histórico. O informe foi apresentado por Josh Holroyd, do Socialist Appeal — seção da Corrente Marxista Internacional (CMI) na Grã-Bretanha. Holroyd começou sua fala com a seguinte explicação:

“Quando Karl Marx e Friedrich Engels desenvolveram os princípios básicos do materialismo histórico, eles mudaram a história de várias maneiras. Primeiramente eles revolucionariam o estudo da história, colocando-o pela primeira vez sob base científica real. Mas, ao fazer isso, também criaram um poderoso instrumento para transformação real da sociedade pela classe operária”

Neste sentido, por possibilitar a compreensão dos fenômenos históricos e, ao mesmo tempo, ser uma ferramenta de transformação, o materialismo histórico passou a ser alvo tanto dos pensadores burgueses quanto de acadêmicos das universidades.

Um dos princípios fundamentais da abordagem marxista é o entendimento de que o desenvolvimento histórico é regido por leis básicas — acontecimentos gerais, que podem ser compreendidos pelos seres humanos. Essa conclusão, obtida por meio da observação dos fatos, é negada e combatida por concepções pós-modernas, para as quais a História é apenas uma interpretação passível de várias versões; ou seja, não é científica. Argumentam que a história não pode ser prevista; embora quase todas as previsões de Marx sobre a crise tenham sido confirmadas. A insistência em dissociar  História e ciência é uma tentativa de fazer valer a explicação da classe dominante sobre a história e a existência. 

O conhecimento científico pressupõe análise e verificação. Os fenômenos em comum constituem leis gerais — ou teorias — que possibilitam prever acontecimentos. Nas palavras de Josh Holroyd: “Leon Trotsky disse que a teoria é a vitória da previsão sobre os fatos”. O pensamento burguês insiste em dizer que são as ideias que movem o mundo. Josh trouxe uma citação de Marx, que consta no prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Política, para dizer justamente o contrário:

“Na produção social que os homens realizam, eles entram em determinadas relações indispensáveis e independentes de sua vontade; tais relações de produção correspondem a um estágio definido de desenvolvimento das suas forças materiais de produção. A totalidade dessas relações constitui a estrutura econômica da sociedade – fundamento real, sobre o qual se erguem as superestruturas política e jurídica, e ao qual correspondem determinadas formas de consciência social.”

Analisando diversas correntes do pensamento dominante, o informante usou um tom de humor para se referir à imaturidade desse raciocínio:

“Voltamos ao idealismo clássico, em que as ideias teriam sido as bases da história humana. Mas, como e quando que essa separação houve? Talvez um dos nossos ancestrais, um dos macacos, acordou um dia, pensou e começou sua busca para o sentido. E ao longo do tempo ele começou a produzir armamentos, ferramentas e descobriu o fogo, na sua busca pela alma imortal.”

Um outro erro provocado pela análise subjetiva da história — método recorrente entre os pós-modernos — é o entendimento de que o cérebro se desenvolveu antes das habilidades e que essa teria sido a condição para a evolução da nossa espécie. Segundo este entendimento, as ideias sempre estiveram na cabeça, prontas para criarem coisas. Em contraposição, o marxista britânico buscou na história da humanidade exemplos que ajudam a ilustrar esse equívoco. 

“Nosso ancestral de três milhões de anos atrás tinha um cérebro menor que o do chimpanzé, mas tinha desenvolvido movimento de pinça com as mãos, para segurar ferramentas. Assim começa a evolução humana: não na cabeça, mas na mão. A primeira ferramenta achada, um tipo de machado de pedra com mais de três milhões de anos, é muito mais velha do que o homo sapiens. Foi quando o trabalho se tornou mais complexo que o cérebro expandiu, dando condições para idiomas complexos e conceitos abstratos. Por volta de sete milhões de anos, o caminho de nossos ancestrais se desviou do caminho dos chimpanzés. Os burgueses acreditavam que a primeira diferença entre eles era o tamanho do cérebro. Agora, a ciência provou isso ser falso. E o que Engels disse 144 anos atrás provou ser correto. Na Lucy, que viveu três milhões de anos atrás, o que a diferenciava era a postura erguida para andar. Engels explica que andar liberou o movimento para o uso das mãos. É o que vemos com a Lucy: as mãos mais parecidas com a nossa, o pescoço e o tronco se adaptando para o uso das mãos.”

O materialismo histórico dá as condições necessárias para entender que o mundo nem sempre foi da forma como é. Nem sempre existiram classes, individualismo e exploração; e, portanto, não é uma condição permanente e pode ser eliminada: 

“Há 600 mil anos, os neandertais chegaram a outro nível, muito mais alto de criação de ferramentas. O cérebro estava no nível do nosso. Ao invés da ideia de serem brutos da caverna, as provas mostram uma sociedade solidária, com carinho entre os membros, e cuidado dos mortos e machucados. Cuidavam dos aleijados para se protegerem como sociedade; isso é mais do que os capitalistas fazem hoje. Por milhões de anos as ferramentas para sobreviver foram evoluindo com os modos de produção, que moldam a relação entre nós e a sociedade.”

E Josh continua:

“Até 10 mil anos atrás a sociedade humana era igual, criada com base na fome, para se proteger dela. Ainda não havia a mais-valia; Marx e Engels chamaram isso de comunismo primitivo. Não lutamos por estar com fome, lutamos agora porque a mais-valia extraída está tão grande que apenas lutando poderemos ter um futuro sem fome para todos. É a única maneira de levar a humanidade para a frente. A história é feita por possibilidades. Estudamos a história não para conhecer o passado, mas para ampliar o horizonte. Para entender que nossa situação atual não é natural e nem inevitável, e que temos muitas alternativas diante de nós, mais do que imaginamos.”

Enquanto explicava o papel do indivíduo na história, as relações com as condições materiais e as acusações de determinismo, o informante britânico demonstrou a compreensão anticientífica que tem dominado teóricos de universidades e ideólogos da classe dominante: 

“Os auto intitulados socialistas também espalharam críticas ao materialismo histórico, principalmente nas universidades. Se apresentam como salvadores das ideias boas de Marx, pretensamente descartando o resto, alegando serem desatualizadas. A ideia do determinismo, em que a economia determina todo o resto, é comum na academia. Mas o marxismo nunca negou o papel da consciência. Tentar explicar a história sem considerar o papel das ideias e da luta política, nos daria uma visão falsa e unilateral. Mas explicar apenas a forma sem o conteúdo, por si, também não explica nada.

Contrariando argumentos de Guidens, Holroyd demonstrou em seu informe como a história da humanidade é a história da luta de classes, das relações de produção. E abordando a questão do progresso, afirmou que:

“A filosofia marxista vê todo o curso do trabalho e desenvolvimento da matéria como parte de um processo interminável. Entretanto, isso não tem nada a ver com o darwinismo social, que pretende justificar a dominação da burguesia como seres superiores. O que Darwin demonstrou foi que todas as espécies, até a nossa, nem sempre existiu. Não são produtos de nenhum plano especial, mas resultado de milhões de anos de seleção natural. Um produto da história. Darwin nos colocou em nosso lugar, biologicamente. E Marx nos colocou em nosso lugar, socialmente. Ele demonstrou que toda a forma de sociedade existente não é o produto de um plano ordenado, mas o produto de milhares de anos de evolução. Mostrou, tanto na sociedade como na natureza, que tudo que existe merece perecer. Essa evolução social não é determinada pela biologia, mas pelo desenvolvimento das forças produtivas, que mediam nossa relação com a natureza”. 

O debate abordou também o que é o progresso, e como a lei dialética do oposto que se transforma no seu contrário tem relação com a evolução. E seguiu explicando que isso é um processo não linear, de longos período de estagnação intercalados por saltos gigantescos em qualidade.

Contrariamente à concepção liberal de progresso, que vê a história como um progresso gradual e linear, o marxismo vê o progresso como contraditório e constituído por saltos revolucionários. As formas de uma sociedade que promovem o desenvolvimento, em determinado ponto se transformam em seu oposto. Segundo Marx, quando as forças produtivas entram em contradição com as relações de produção, então começa a era de revolução social. O que leva, cedo ou tarde, à transformação da superestrutura. Hoje, nenhuma tecnologia e desenvolvimento de forças produtivas traz progresso para a maioria da população. Na sociedade de classes, não há progresso sem a luta de classes e sem a revolução. Hoje, para milhões de pessoas, é impossível viver no sistema atual, e querem achar uma saída. É uma noção inconsciente de querer progresso.

Josh destacou que o materialismo histórico é um instrumento de combate prático para a transformação da realidade, e continuou com a seguinte explicação:

“O que Marx nos oferece, apesar de não podermos prever o futuro, é que a possibilidade concreta do socialismo é nada mais que o desenvolvimento inevitável do capitalismo. O crescimento da exploração da classe operária a leva a lutar. Os homens fazem suas próprias histórias, mas não fazem nas circunstâncias em que eles mesmo escolhem. O marxismo é uma filosofia de ação. O materialismo histórico exige que ajamos. Há muito tempo, Marx disse que os filósofos sempre interpretaram o mundo, mas a questão é mais que isso, é transformá-lo.” 

E concluiu dizendo que as forças das ideias se realizam somente quando ganham as mentes das massas e funcionam como motor da luta de classes. E que essa é nossa arma principal pela revolução:

“Nossa espécie é resultado de milhões de anos de evolução. E o capitalismo é o resultado de milhares de anos de evoluções sociais. O que Friedrich Engels mostrou é que essas duas ideias estão dialeticamente entrelaçadas com o modo de produção, que é a base da vida inteira dos seres humanos. E essa base sempre estará mudando, porque sempre estamos mudando. Camaradas, temos as ideias corretas, isso eu creio. Mas as ideias só têm efeito material se elas aderem as massas. O materialismo histórico nos mostra o caminho. Avante ao socialismo!”

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