Foto: Hugo Arce

O coronavírus, a economia real e sua expressão financeira – Parte 1: Bolsas e Ações

Para muitos jovens e trabalhadores, o que se passa no mercado financeiro é praticamente um mistério. Quando ouvimos falar que as “bolsas do mundo estão despencando”, como aconteceu na última semana devido ao coronavírus, isso não parece ter conexão nenhuma com a economia real e com as nossas vidas. Ledo engano. Compreender o sistema financeiro está na ordem do dia entre as tarefas da classe trabalhadora, para o controle e planificação da economia sob seus interesses. 

A queda nas bolsas de valores

O que dizem os jornais a esse respeito? Nas últimas semanas, houve quedas em diversas bolsas em diversos países. Isso foi provocado pelo alastramento do novo coronavírus (Covid-19), que alcançou um total de 349 mil infectados e mais de 15 mil mortos no mundo inteiro. Diante desse quadro e o agravamento da curva de crescimento do vírus no Brasil, o Ibovespa, índice da B3 (que é a única bolsa a operar no Brasil), já registrou uma queda de 42% no ano, pior resultado entre as Bolsas mais relevantes do mundo. As empresas listadas na Bolsa paulista já perderam R$1,746 trilhão em valor de mercado.   Entre os índices que estão com as piores quedas acumuladas no ano, temos o da Rússia (RTISI) -38%; Bolsa das Filipinas -38%; o principal índice da bolsa da Hungria -36%, o da Itália (FTSE MIB) -33%. Mas, de maneira geral, a maior parte das principais bolsas somaram quedas importantes no ano, como mostra o gráfico abaixo. 

Como funcionam as bolsas?

A concentração e centralização são dois mecanismos de expansão do capital e que expressam o desenvolvimento capitalista, explicados por Marx em seus estudos econômicos. Enquanto a concentração de capital expressa o crescimento da acumulação de pequenos capitais individuais, a centralização é a expropriação desses capitais individuais por um único e grande capitalista, é uma concentração de capitais já formados que resulta na transformação de um grande número de pequenos capitais em um pequeno número de grandes capitais. Quando um capital pretende se concentrar em uma grande escala ou reúne as condições para centralizar outros capitais menores, em geral, ele tem seu capital social aberto. As maiores empresas, públicas ou privadas, negociadas nas bolsas de valores são, em geral, empresas de capital aberto, como as S.A. (Sociedade Anônima). Essas empresas, em algum momento, repartiram seu capital social, isto é, seu valor de mercado, em parcelas, a menor parcela do capital social é a ação, que tem sua expressão financeira, uma vez que o sócio acionário torna-se dono de uma parte da empresa e divide com ela os lucros e prejuízos. 

Quando o capital social é aberto, as ações são colocadas em um mercado, que é a bolsa de valores. Toda bolsa de valores tem um índice que é calculado com base do desempenho médio de todas as ações das empresas negociadas em um determinado período. Portanto, quando os jornais dizem que o índice Ibovespa caiu significa dizer que a maioria das ações das empresas negociadas nela estão em queda. Mas isso não somente aconteceu no Brasil, mas nas principais bolsas no mundo inteiro. 

No mercado financeiro, também é comum e regulamentado (!) pelo Estado burguês o movimento especulativo dos investidores. O preço das ações, uma vez negociadas no mercado secundário, é basicamente formado pela oferta e procura. Quando mais pessoas demandam uma mesma ação, seu preço cai, quando menos pessoas a demandam, seu preço sobe. A regra de ouro da burguesia é vender quando o preço está alto e comprar quando o preço está baixo. É isso que chamamos de especulação e, para a burguesia, essa é a regra e vale em qualquer momento, mesmo quando temos uma pandemia mundial. Vale, inclusive, se valer de sua posição estratégica no Estado para aplicá-la. Em reportagem do jornal The Washington Post, é denunciado que os relatórios de inteligência artificial dos EUA de janeiro e fevereiro já alertavam sobre uma provável pandemia e as autoridades nada fizeram nesse período. 

Esperaram aguardar para vender suas ações no melhor momento. O responsável pelo Comitê de Inteligência do Senado, Richard Burr, decidiu vender suas ações no valor entre US$ 628.033 e US$ 1,72 milhão quando os relatórios começaram a aumentar. Na situação atual, fica evidente o cinismo sem escrúpulos da burguesia para com milhares de vidas! 

Qual a relação das ações e bolsas com a economia real?

No Capital, Marx explica que a taxa de lucro do capitalista é uma relação entre a mais-valia extraída das horas de trabalho não pago e o montante de capital investido. O capitalista está sempre buscando aumentar a taxa de lucro, portanto, sempre buscando uma maneira de aumentar a extração de mais-valia. As crises de superprodução, como a que vivemos agora, são períodos em que a taxa de lucro começa a cair e necessita de uma reação dos capitalistas. Essa reação é também expressa na busca pelo aumento da produtividade dos trabalhadores, isto é, que se produza mais com o mesmo dispêndio de força de trabalho. O aumento da produtividade contém a queda da taxa de lucro e, ao mesmo tempo, contribui para aumentar o volume de lucro do capitalista. 

Uma ação é avaliada com base no lucro da empresa. O Lucro Por Ação (LPA) é calculado pela relação entre lucro líquido e base acionária. Portanto, quanto maior for o lucro líquido da empresa, diante da mesma base acionária, o LPA é maior e mais valiosa é a ação. Dessa maneira, podemos relacionar o mercado acionário com a economia real. A expectativa de lucro de uma empresa depende em primeiro lugar da expectativa de investimento que ela planeja fazer; e, num cenário como o atual, de pandemia, com redução da atividade econômica nas principais economias, a burguesia tem uma perspectiva real e concreta de ver seus lucros despencarem este ano. Essa expectativa de redução dos lucros é expressa no índice das bolsas que, de maneira geral, têm uma relação de causalidade com a atividade econômica. O índice Ibovespa, por exemplo, é um indicador da atividade econômica e antecipa o movimento do PIB em cerca de três meses. Naturalmente, essa relação não é idêntica e proporcional, mas um indicador. 

Voltando à matéria do jornal, onde vemos uma redução drástica de vários índices de bolsas de valores pelo mundo, isso só demonstra o tamanho da recessão a que o capitalismo está levando a humanidade. Mesmo antes do surgimento do coronavírus, as projeções da economia mundial não eram favoráveis e previa-se um crescimento mundial de 2,5% (Banco Mundial, out/2019). 

No entanto, as previsões mais otimistas vão para o ralo e a perspectiva é que o crescimento mundial fique em 1,5% (OCDE, mar/2020). A OIT (Organização Internacional do Trabalho) estima que a pandemia, na verdade, a própria crise do capitalismo agravada pelas medidas de isolamento necessárias ao combate da pandemia, pode levar a perda de 24,7  milhões de empregos no mundo, o cenário é pior que a crise de 2008, quando foram destruídos 22 milhões de empregos e isso só confirma as análises marxistas de que a próxima crise do capitalismo seria ainda pior e mais profunda que a crise de 2008, demonstrando como a ciência revolucionária do proletariado é superior a qualquer outra para analisar a vida real, ainda que distorcida pelas “forças do mercado”.

PARTE 2

 

Referências:

B3 registra maior queda entre as Bolsas globais. Estadão, 2020. Disponível em <https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,b3-registra-maior-queda-entre-bolsas-globais,70003242944>. Acesso em: 24/03/2020

 Corona vírus pode derrubar pela metade crescimento mundial, prevê OCDE. El país, 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/economia/2020-03-02/coronavirus-pode-derrubar-pela-metade-crescimento-mundial-preve-ocde.html>. Acesso em: 24/03/2020

 Corona Vírus pode tirar emprego de até 25 milhões no mundo, calcula OIT. Folha de São Paulo, 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/coronavirus-pode-tirar-emprego-de-ate-25-milhoes-no-mundo-calcula-oit.shtml>. Acesso em: 24/03/2020

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