Liberdade através da luta: Marxismo x teoria queer

Durantes os quatro dias da Universidade Marxistas Internacional 2020 os militantes da Esquerda Marxista, seção brasileira da Corrente Marxista Internacional (CMI) estão empenhados em disponibilizar em nossa página breves relatos dos 16 temas tratados na Escola. O objetivo é estimular nossos leitores a aprofundar o conhecimento sobre nossas posições e a juntarem-se a nós na construção da CMI. Para sua localização procure pelo dia e o tema que deseja fazer a leitura.

No debate “Liberdade através da luta: marxismo x teoria queer”, Yola Kipcak, da seção austríaca da Corrente Marxista Internacional (CMI), explicou que precisamos compreender as origens e como podemos acabar com as chamadas opressões. Isso implica conhecer a teoria queer, que surgiu nos EUA por volta dos anos 1990 nos círculos acadêmicos, mas continua presente e atrai jovens de todos os lugares. 

O idealismo da teoria queer

Os princípios da teoria queer centram-se na questão da identidade individual, em particular identidade sexual, gênero e orientação sexual. A sexualidade é vista como crucial para a compreensão de toda a sociedade, ignorando as questões concretas e biológicas dos seres.  Os defensores dessa teoria trazem a ideia de que o centro da discussão é o poder e o indivíduo. O pai da teoria queer, o filósofo pós-moderno Michel Foucault, diz que: 

“o poder está em todo o lugar, não é porque ele abraça tudo, mas porque ele vem de todos os lugares, não é uma instituição ou uma estrutura é uma certa força que somos colocados 

(…)”. 

Essa ideia de poder torna um indivíduo culpado pela opressão do outro, ainda que ambos sejam oprimidos pela burguesia e seu regime, por exemplo. Por fim, a teoria queer tem uma base filosófica idealista, que diz que sexo e gênero são construções culturais que são continuamente “realizadas”.

Marxismo x teoria queer

Nós, marxistas, rejeitamos a teoria queer, mas não deixamos de lado nenhuma pessoa que se identifica queer.  Nossa defesa é pelo direito de que todos vivam suas vidas como desejam, independente da sua sexualidade ou identidade de gênero. Cabe aos marxistas explicar pacientemente por que essa luta é prejudicial e por que os oprimidos precisam se unir e não culpar uns aos outros.

Yola exemplificou como teria sido fatal ao movimento Black Lives Matter se dissessem para todos brancos irem para casa durante as manifestações nos Estados Unidos. O movimento não teria a força que teve e que se espalhou pelo mundo. Um dos perigos da teoria queer é se alimentar da diferença, criando uma culpa permanente e não apresentando nenhuma perspectiva de união dos oprimidos, de união da classe ou de emancipação coletiva.

Além do informe de Yola, outros camaradas   contribuíram com a discussão. Alessio Marconi, da seção italiana da CMI, falou: “honestamente mal chamaria isso de teoria e sim uma confusão de ideias misturadas, características das ideias pós-modernas. Teoria que não chama para ação, mas desarma para a ação. Não é uma surpresa que a classe dominante não tenha medo dessa teoria, ao ponto de financiar todo seu discurso dentro das universidades”

O camarada ainda retomou os avanços, quanto a igualdade de direitos, que a revolução russa de 1917 trouxe para as mulheres e homens. Com o triunfo da revolução bolchevique, a orientação de cada pessoa passou a uma questão da vida privada. A abolição da punição à homossexualidade foi um avanço de séculos para a época, pois em países capitalistas ainda era crime gostar de pessoas do mesmo sexo. As mulheres foram libertadas das responsabilidades da família e puderam participar da vida política de forma plena, construindo o partido e a revolução.

Os teóricos queer, como Judith Butler, ridicularizam Engels por explicar o papel da família e suas bases históricas. Para a teoria queer, o problema está no indivíduo e não no sistema, ignorando questões materiais concretas e não apresentando, não trazendo perspectiva para aqueles jovens que são cooptados por eles. Com limitações na teoria e na prática, essa é a face dos seus teóricos.

Essa teoria dialoga com várias vertentes da pós-modernidade que criaram raízes no movimento feminista, o feminismo queer. Em sua intervenção, o camarada Sam falou um pouco sobre os aspectos de como funciona essa vertente e seus perigos, principalmente na defesa da prostituição como expressão de liberdade das mulheres. Para exemplificar, relatou a história de um vilarejo em Bangladesh, na Índia, onde comunidades tribais pobres colocavam  suas filhas de 12 a 14 anos para trabalhar em minas ilegais devido à miséria, e os patrões só concordavam em pagar os salários dessas meninas se elas também se  prostituíssem. Certamente, o caminho não é a legalização da prostituição, mas sim a destruição desse sistema que permite que meninas sejam escravizadas e exploradas. 

O combate às teorias identitárias, como a teoria queer, além de um combate contra a burguesia e as ideias alheias da classe trabalhadora, é também o combate em defesa das futuras gerações. A juventude, infectada por essas ideias, se coloca em um ciclo de sofrimento gerado pelas opressões, frutos do sistema capitalista. Precisamos nos organizar e explicar que há perspectiva, mas ela é fora do sistema capitalista e que as opressões existem e são fruto de um sistema que explora todos os trabalhadores e jovens do mundo, dividindo para conquistar pelas ideias que reluzem como ouro, mas não passam de fraude, de uma alquimia moderna. 

A luta pela libertação de todas essas amarras é a luta contra a exploração do homem pelo homem, com a tomada do poder pela classe trabalhadora, por uma sociedade com a planificação da economia e onde todos os oprimidos estejam juntos, ombro a ombro. Por um mundo sem opressões, organize-se com a Esquerda Marxista! 

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