Foto: Kenny Holston, Flickr

Derrota, desmoralização e dissidência: a crise do imperialismo norte-americano

A retirada dos EUA do Afeganistão tornou-se uma humilhação total para o imperialismo dos EUA. Não apenas expôs um relativo declínio militar e econômico, mas também um crescente sentimento de cansaço pela guerra em casa. Os trabalhadores nos EUA estão fartos das infindáveis aventuras militares da classe dominante, enquanto as necessidades básicas dos cidadãos americanos em casa não são atendidas. Este artigo foi escrito há duas semana, antes que o Talibã tivesse tomado Cabul. Clique aqui  para uma análise aprofundada dos últimos desenvolvimentos.

A retirada das tropas americanas do Afeganistão encerrou oficialmente duas décadas de ocupação na região. A decisão de sair deste conflito desastroso tem amplo apoio entre o público dos EUA, com 58% de aprovação, de acordo com uma pesquisa YouGov/Economist, demonstrando um profundo cansaço de guerra entre os americanos. Hoje, apenas uma minoria de americanos (39%) acha que a “Guerra ao Terror” valeu a pena. Esses números são ainda mais surpreendentes quando comparados ao apoio de 88% que a invasão teve em seu início em 2001.

Esse cansaço da guerra também se estende às fileiras do Exército dos Estados Unidos. Um número cada vez maior de soldados americanos questiona o propósito de arriscar suas vidas em aventuras militares que não levam a nada. Voltando para casa, eles ficam com um legado de traumas físicos e mentais. Os mesmos governos que poderiam encontrar os meios materiais para enviá-los para lutar em terras distantes parecem não conseguir encontrar os recursos para apoiar veteranos que sofrem com problemas de saúde mental, desemprego e falta de moradia.

Um número crescente de americanos comuns está rejeitando o envolvimento dos EUA em conflitos caros e inúteis no exterior, especialmente quando há pobreza e desigualdade galopantes em casa. A classe dominante americana, em todas as linhas partidárias, está tendo que engolir o fato de que o declínio relativo de seu poder juntamente com o crescente descontentamento em casa significa que ela não pode mais desempenhar o papel que costumava desempenhar.

Os limites do poderio militar dos EUA

Como potência imperialista predominante, nas décadas passadas os EUA usaram seu poderio militar para defender seus mercados e proteger suas esferas de interesse em todo o mundo. Na segunda metade do século 20, os Estados Unidos se envolveram em centenas de conflitos armados internacionalmente.

Mas a retirada do Afeganistão tornou-se apenas o último desastre humilhante a sublinhar que o imperialismo dos EUA atingiu um limite. Em 2008, diante de uma demonstração de força de uma Rússia ressurgente que se afirmava em um conflito com a Geórgia pela Ossétia do Sul, os EUA não puderam fazer nada além de esbravejar nos bastidores. E quando, em 2014, a Crimeia se juntou à Rússia após um referendo, a classe dominante dos EUA não pôde fazer nada além de se contorcer e expressar sua raiva em palavras.

No Iraque, apesar de 4.500 soldados americanos terem sido mortos e mais de 30 mil feridos, e de uma conta que chega aos trilhões de dólares, nenhum dos objetivos estabelecidos pelo imperialismo estadunidense foi alcançado. E, apesar da afirmação ridícula de que a Guerra do Iraque fazia parte da “Guerra ao Terror”, foi somente depois da invasão liderada pelos EUA que a Al-Qaeda estabeleceu uma posição no país, recrutando jovens radicalizados pelas atrocidades dos EUA em Fallujah e em outros lugares. Enquanto isso, nenhuma quantidade de tropas americanas poderia evitar que o Iraque caísse cada vez mais sob a influência iraniana.

Apesar de ter perdido milhares de tropas e ter gasto trilhões de dólares nas guerras do Iraque e do Afeganistão, o imperialismo dos EUA não atingiu nenhum dos seus objetivos declarados e deixou um rastro de destruição – Foto: Exército dos EUA, Flickr
Nos anos de Obama, os EUA lutaram até mesmo para obter apoio doméstico para ataques aéreos militares limitados na Líbia e na Síria, sendo forçados a se apoiar cada vez mais em intermediários não confiáveis ​​em terra. No final, Obama foi forçado efetivamente a entregar as rédeas à Rússia na Síria. Os EUA foram reduzidos a um mero espectador quando seus representantes islâmicos “moderados” foram derrotados pelo exército sírio, aliado às forças terrestres iranianas e ao apoio aéreo russo.

Enquanto isso, apesar dos rumores nos EUA sobre ações militares no Irã, Coréia do Norte e Venezuela, em todos os casos, essas ameaças não valeram de nada. Acima de tudo, as massas têm pouco entusiasmo por novas aventuras sangrentas e estão cada vez mais indiferentes ao chauvinismo militarista. Como tal, a classe dominante dos EUA tem se limitado cada vez mais a usar seu poderio econômico para esmagar seus inimigos por meio de sanções.

Donald Trump capitalizou esse cansaço crescente da guerra em sua campanha presidencial de 2016 como parte de sua agenda “América Primeiro”, que prometia criar empregos e prosperidade em casa, em vez de desperdiçar dinheiro em “guerras sem fim”.

A retirada da América do Afeganistão, iniciada por Trump, é mais uma demonstração da incapacidade da classe dominante dos EUA de impor sua autoridade em qualquer lugar, da maneira que costumava fazer.

Duas décadas de guerra não levaram a nada, a não ser à destruição de centenas de milhares de vidas, ao estabelecimento de um governo fantoche em ruínas em Cabul e ao Talibã terminando mais forte hoje do que em qualquer momento desde o início da guerra em 2001. Todos os objetivos militares da América estão em frangalhos.

Um público cansado da guerra

Apenas 9% do público americano apoiou a intervenção militar na Síria. E a sugestão de Trump de que os EUA interviriam militarmente para remover o presidente Maduro do poder na Venezuela obteve um escasso apoio de 20%.

Vendo quão pouco foi ganho com a beligerância sem fim, não é de admirar que a maioria das massas americanas queira lavar as mãos da catástrofe no Afeganistão e se oponha a que sua classe dominante as envolva em novas aventuras. Mas a rejeição geral do conflito também é explicada pela crise econômica em casa, que destacou o desperdício das “guerras eternas” da América. Em última análise, o declínio do poder militar dos EUA decorre do declínio do seu poder econômico.

Uma década de austeridade e uma pandemia global contínua (da qual os EUA têm o maior número de mortos confirmados no mundo) tiveram um efeito devastador na vida das pessoas. Isso contribuiu para uma mudança de consciência entre as massas em relação ao militarismo e ao excepcionalismo dos Estados Unidos em geral.

De acordo com uma pesquisa da Fundação Ronald Reagan, apenas 11% dos americanos acha que os gastos militares deveriam ser a maior prioridade de seu governo. Os programas de saúde e educação estão no topo dessa lista.

A mesma pesquisa descobriu que, enquanto em 2011 apenas 8% dos americanos acreditava que havia países melhores do que os EUA, esse número é de 21% hoje. É ainda maior entre os jovens, 36%.

A rejeição do establishment político, evidente em movimentos como os protestos Black Lives Matter no ano passado, e até mesmo a eleição de Trump em 2016 (embora de forma distorcida), mostra o ressentimento das massas em relação a um status quo que não oferece futuro, enquanto os políticos desperdiçam fortunas perdendo guerras no exterior.

O sonho americano se transformou em um pesadelo. Os US$ 2 trilhões que foram gastos no desastre humilhante no Afeganistão poderiam ter resolvido muitas das necessidades urgentes dos trabalhadores e jovens dos EUA. Mais e mais pessoas estão chegando à conclusão de que o inimigo está em casa, não no exterior.

Isso é naturalmente preocupante para a classe dominante, que entende o risco de provocar mais convulsões sociais ao se envolver em conflitos intermináveis ​​e onerosos, enquanto tantos trabalhadores americanos comuns lutam para manter a cabeça acima da água.

O mesmo clima de insatisfação que está infectando milhões de americanos também está se infiltrando nas fileiras das forças armadas. Isso não é surpreendente. Só a guerra no Afeganistão custou a vida de 2.448 soldados, com mais 20.700 feridos, enquanto as tropas sofriam uma enxurrada de cortes de salários e de benefícios nos últimos anos.

A “Guerra ao Terror” deixou sequelas em milhares de soldados – Foto: ScifoRobert, wikimedia commons
Como resultado da participação na “Guerra ao Terror”, 155 mil soldados sofrem de depressão crônica e de transtornos de estresse pós-traumático, alimentando ainda mais uma crise de saúde mental que afeta toda a sociedade dos EUA.

Um número chocante de 45 mil militares dos EUA suicidaram-se desde 2013 e há 67 mil veteranos de guerra desabrigados nas ruas americanas devido à falta de oportunidades, de alternativas de emprego e de apoio adequado para os danos mentais e psicológicos que sofreram.

Apesar de toda a sua barulheira chauvinista sobre “apoiar as tropas”, a classe dominante dos EUA mostra total desprezo por seus ex-soldados, abandonando-os a um destino miserável em casa.

Todos esses fatores, combinados com a experiência da derrota e a crença de que vidas estão sendo desperdiçadas em conflitos inúteis, estão afetando gravemente o moral dos soldados e sua confiança no alto comando. Por exemplo, uma pesquisa de 2015 descobriu que 55% das tropas dos EUA são “pessimistas sobre seu futuro nas forças armadas”, enquanto apenas 27% “achavam que [sua] liderança agasalhava os melhores interesses no coração”.

Uma recente investigação do Financial Times sobre a retirada do Afeganistão lançou uma luz clara sobre esta crise do moral. Um veterano confessou: “Fui criado na crença de que sempre somos os mocinhos […] Não acredito mais neste conto nacional de ninar”.

Outro comentou: “A ideia de que estamos andando por aí com um grande porrete nas mãos há 20 anos limpando merda – realmente, o que isso construiu, além de uma tremenda pilha de dívidas? E de mortes também”.

Em geral, o relatório do FT identifica um sentimento crescente entre as bases de que as “forças armadas não estão sendo conduzidas de forma adequada para o futuro”.

Como um ex-fuzileiro naval explicou ao jornalista do FT:

Se você acha que as missões que seu país continua enviando são inúteis ou impossíveis […], então não é o Talibã, a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico que estão tentando matá-lo, é a América.

A redução da lealdade e da confiança em sua liderança prejudicará a eficácia do exército e enfraquecerá a classe dominante.

Todo exército necessariamente reflete a sociedade da qual surge. A falta de confiança na liderança militar é um reflexo do declínio da legitimidade do establishment e é um produto da crise do capitalismo. A desilusão nas fileiras se traduz em um aumento do risco de insubordinação e divisão entre as tropas: um cenário muito perigoso para a classe dominante.

Um exemplo recente desse clima insubordinado que veio à tona ocorreu em março passado, quando o capitão do porta-aviões norte-americano Theodore Roosevelt decidiu evacuar o navio para evitar a propagação da Covid-19, desafiando as ordens do alto escalão. A decisão do capitão o levou a ser dispensado do cargo, mas ganhou a simpatia da tripulação, cuja saúde estava sendo posta em risco pelo insensível Almirantado.

Essas fissuras no exército são precursores potenciais de uma crise de confiança muito mais séria na classe dominante, entre a classe trabalhadora como um todo, e entre o órgão de homens armados do capitalismo em particular.

Imperialismo dos EUA em crise

Em termos absolutos, os EUA ainda são indiscutivelmente a maior superpotência econômica e militar do mundo. Seus gastos militares anuais são aproximadamente iguais aos dos outros 10 principais países combinados. Em escala mundial, nenhuma potência é capaz de desafiar sua posição, mas em nível regional não pode mais reivindicar ser a potência mais forte em todos os lugares. No Leste Asiático, a China é a potência militar mais forte hoje. Na Síria, a Rússia e o Irã conseguiram derrotar a intervenção dos EUA. E, cada vez mais, veremos que as potências regionais se tornarão um desafio para o imperialismo dos EUA e restringirão ainda mais sua capacidade de manobra.

Embora o declínio econômico relativo tenha se traduzido em profundo descontentamento interno, tendências protecionistas crescentes e antagonismos nacionais estão tornando cada vez mais difícil para os EUA manter uma frente única com seus aliados – como Biden está descobrindo às suas custas.

O declínio relativo do imperialismo dos Estados Unidos e o crescente cansaço da população americana não porão automaticamente um fim ao conflito global. O imperialismo dos EUA ainda tem o poder de espalhar as sementes da barbárie em grande parte do mundo. Em última análise, o imperialismo é uma consequência do próprio sistema capitalista. Como tal, mesmo quando o poder dos EUA está em crise, isso simplesmente criará um vácuo que as potências menores tentarão preencher. Isso criará as condições para novas guerras por procuração no Afeganistão, no Oriente Médio e em outros lugares. Somente confinando o capitalismo à lata de lixo da história é que esse pesadelo pode ser interrompido.

Assim como o imperialismo dos EUA é a força mais reacionária do planeta, a poderosa classe trabalhadora dos EUA tem um imenso potencial revolucionário, possuindo em suas mãos o poder de parar em suas trilhas a maior máquina de guerra que o mundo já conheceu.

Os trabalhadores e jovens da América estão cada vez mais sendo forçados a comparar suas ilusões em um “interesse nacional” comum com a realidade das políticas assassinas de sua classe dominante. Seus olhos estão se abrindo para o fato de que têm muito mais em comum com os trabalhadores de Karachi ou Pequim do que com gente como Zuckerberg e Bezos. Eles encontrarão uma causa comum com seus irmãos e irmãs de classe ao redor do mundo – esta é a causa da revolução socialista mundial e, nessa luta, os trabalhadores dos Estados Unidos têm um papel fundamental a desempenhar.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.
PUBLICADO EM MARXIST.COM

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