Crise do reformismo foi pauta no segundo dia da Universidade Marxista Internacional

Durantes os quatro dias da Universidade Marxistas Internacional 2020 os militantes da Esquerda Marxista, seção brasileira da Corrente Marxista Internacional (CMI) estão empenhados em disponibilizar em nossa página breves relatos dos 16 temas tratados na Escola. O objetivo é estimular nossos leitores a aprofundar o conhecimento sobre nossas posições e a juntarem-se a nós na construção da CMI. Para sua localização procure pelo dia e o tema que deseja fazer a leitura.

O informe “Colaboração de classes, adaptação e a crise do reformismo”, deste domingo (26/07), coube ao camarada Niklas Albin Svensson, da Inglaterra. Inicialmente, ele explicou a relevância do debate neste momento para compreender as mudanças características que aconteceram nos últimos anos em fenômenos como o de Corbyn, na Inglaterra, Syriza, na Grécia, e Sanders, nos Estados Unidos. Todos eles têm em comum terem entrado numa crise parcial ou profunda. 

Para introduzir a questão, é preciso ter claro o que os reformistas defendem. Eles se opõem a uma ruptura com o capitalismo e querem resolver os problemas da classe trabalhadora introduzindo uma série de reformas no sistema. 

Os marxistas não são opostos às reformas, mas explicam porque elas não são suficientes e nem mesmo possíveis sob o capitalismo: mantendo-se a economia nas mãos da burguesia ela fará qualquer coisa para sabotar as reformas. O mercado capitalista não se deixa submeter por leis e regulações. 

Niklas apresentou o informe sobre colaboração de classes, adaptação e a crise do reformismo

Hostilidade pela teoria

Citando o debate que Rosa Luxemburgo trava com Eduard Bernstein no livro “Reforma ou Revolução”, Niklas apontou que esses erros são conhecidos e combatidos há cerca de 120 anos. Uma das características que Rosa aponta sobre os reformistas é a hostilidade pela teoria. Isso ocorre porque os princípios do socialismo científico colocam limitações à atividade prática. É natural que as pessoas queiram resultados imediatos, mas na luta de classes não há atalhos e, basicamente, o marxismo coloca obstáculos aos negócios que os reformistas querem fazer com a burguesia. 

Já os marxistas tiram conclusões baseadas em uma experiência de aproximadamente 200 anos da classe trabalhadora, assim como das revoluções burguesas que vieram antes. E as conclusões que os marxistas tiram desses eventos se opõem ao reformismo principalmente sobre a natureza do Estado. 

É de Marx e Engels a conclusão de que os trabalhadores não podem simplesmente pegar a estrutura do Estado burguês e colocá-la a seu favor. Isso foi mostrado na Comuna de Paris e muitas vezes desde então. Ignorar essa lição causou estragos desastrosos em muitas experiências da classe operária dirigidas pelos reformistas. 

No entanto, explicou o camarada Niklas, ao refutar a história da luta de classes, o espaço é preenchido por ideias burguesas ou pequeno-burguesas. Como em toda filosofia e ciência burguesa os reformistas erram por causa do empiricismo. Ou seja, eles veem apenas o que está a sua frente e não conseguem compreender a realidade. É por isso que eles têm uma tendência à euforia quando a luta de classes está em ascenso e à depressão quando está em declínio. Mas a luta de classes é um processo longo que não pode ser resolvido em semanas e meses. 

O reformismo procura escolher tarefas que podem (ou, pelo menos, eles pensam que podem) ser conseguidas sob o capitalismo e o socialismo vira uma questão para o futuro. 

Niklas recorre a uma metáfora para explicar: “O reformismo é como um construtor muito ruim. Quando você pergunta quanto custa para consertar um buraco na sua parede ele diz ‘bem baratinho, só precisa de tinta e vou pintar por cima’. Os marxistas são como um construtor mais sério, que vai procurar a fonte do buraco e te diz que talvez você precise construir novas fundações.” Para a classe trabalhadora, que está sob constante pressão da vida diária sob o capitalismo, o reformismo pode parecer mais fácil e ela vai experimentá-lo antes do caminho difícil. 

Há, porém, uma etapa seguinte inevitável do pensamento reformista. Para além de dizer que a revolução socialista é impossível, eles passam a explicar que ela não é algo de que gostaríamos. Isso porque, no seu entendimento limitado, a violência, a convulsão e a disrupção – intrínsecas às revoluções – são essencialmente negativas. 

Assim, quando a revolução chega, eles são completamente opostos a ela, ainda que sejam colocados no poder. Eles têm medo da pressão que recebem da classe trabalhadora. A conclusão inevitável é que se você teme a classe operária no poder, precisa aceitar o poder da classe capitalista. Dessa forma, eles tentam de todas as maneiras negociar achar algum tipo de acomodação com os capitalistas. 

Eles tentarão criar melhores condições de exploração dos trabalhadores, mas um sistema em crise não paga por reformas, o dinheiro tem que vir do próprio trabalho não pago. Com isso, o passo seguinte é ajudar a garantir o lucro das grandes companhias. Greves e reivindicações por salários são opostos a isso. O reformismo chega, assim, à conclusão de que seu papel é salvar o capitalismo e eles são os especialistas em mediar a relação entre capital e trabalho. 

Abrindo espaço à direita

Nos últimos anos o mundo viu uma movimentação à esquerda, principalmente de partidos europeus e não é a primeira vez que isso acontece na história. O Partido Trabalhista Inglês viveu um processo parecido em 1920, que foi analisado por Trotsky. Foi o resultado de uma movimentação à esquerda da classe trabalhadora britânica e foi nesse momento que o partido adotou uma cláusula sobre o objetivo da transformação socialista da sociedade. 

Mas as ideias confusas da direção, representada na época por James MacDonald, deram espaço à direita. Essa história tem uma forte conexão com o que aconteceu com Jeremy Corbyn no último período. Niklas explicou que, embora tenha chegado ao poder como um político de esquerda e apresentado um programa bastante radical, Corbyn nunca foi um revolucionário marxista. Ele é um pacifista, não entende a natureza do Estado nem da guerra, e tentou conviver com a ala direita do partido. Como é normal na história “os reformistas de esquerda sempre correm atrás dos reformistas de direita e os reformistas de direita correm atrás dos liberais, conservados e partidos burgueses”, ressaltou o informante. 

As concessões à ala direita do partido, sobretudo na questão do Brexit, foram o calcanhar de Aquiles de Corbyn Foto: Kevin Walsh

O que Corbyn não entendeu é que a ala direita representava os interesses da classe dominante dentro do partido e que ela não tinha a intenção de deixá-lo ser o primeiro-ministro. Ele fez concessões à direita, como na questão da permanência ou não do Brexit, e esse acordo foi a grande fraqueza do movimento. 

Bernie Sanders, nos Estados Unidos, por sua vez, achou que podia controlar o Partido Democrata com suas próprias regras e perdeu. Passou, então, a defender o “mal menor”, apoiando primeiro Hillary Clinton e, agora, Joe Biden. Sua atitude levou à queda de todo o entusiasmo que ele reunira em torno de si.

Na Grécia, o Syriza foi levado ao poder pelas massas, mas tentou ser o gerente da economia burguesa grega. Ele traiu o voto “Não” do povo e acabou fechando um acordo muito pior com União Europeia. Isso porque a Grécia precisava ser punida e usada de exemplo para a classe trabalhadora da Itália, da Espanha etc. 

Da mesma forma, o Podemos, que nem chegou ao governo, está agora governando ao lado da Esquerda Unida. Ele começou fazendo barulhos radicais e em alguns períodos fez movimentações bem à esquerda, mas quando a oportunidade chegou, rapidamente se moveu à direita. O Podemos praticamente abandonou os catalães na questão da sua independência e aceitar a unidade da Espanha, com a história desse país, significa aceitar um grande compromisso com a classe dominante reacionária. 

Reformismo sem reformas?

A esquerda reformista está em uma crise ao mesmo tempo em que o capitalismo está em crise. Isso parece contraditório, mas há uma conexão. Em uma crise o capitalismo não pode pagar pelas reformas. “E o que é o reformismo sem reformas?”, questionou Niklas. 

É preciso compreender que os trabalhadores farão a experiência com todas essas opções. Como os problemas não se resolverão, é normal que haja certa desilusão e confusão. Marx explicou que o caminho da revolução proletária tem altos e baixos e testa todas as tendências do movimento. A classe está o tempo todo aprendendo. 

A atitude dos marxistas nesse fenômeno deve ser de continuar explicando com paciência que as reformas são impossíveis no capitalismo. Algumas parcelas da classe trabalhadora compreendem isso mais rápido, não é um processo uniforme. Esse é o método certo para chegar às massas que ainda não sacaram conclusões revolucionárias, mas sobretudo a tarefa dos marxistas é organizar as parcelas mais conscientes na Corrente Marxista Internacional. 

Vários camaradas contribuíram com o debate trazendo experiências da Suécia, Itália, Colômbia, Alemanha e Argentina. “Independente de quem governe ou que medidas tomem, independentemente se é um governo liberal ou reformista nacional e popular, existe uma mesma realidade: o capitalismo está em crise e só pode impor retrocessos a nossas condições de vida. Não dizemos, como os ultraesquerdistas, que todos os governos são iguais, mas que todos sucumbem a mesma lógica do capitalismo, porque eles não têm outra alternativa a oferecer”, disse o camarada Garcia, da Argentina. 

Niklas encerrou concordando com os camaradas que falaram e ressaltando que o reformismo já é, na realidade, coisa do passado. Pois há muito tempo as reformas não são mais possíveis neste sistema. “Nosso papel é o de construir o partido e a organização agora […], nos concentrar na parte da classe que chega às conclusões revolucionárias mais rápido e manter nossa crítica paciente aos centristas e reformistas”, concluiu. 

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