Foto: Isac Nóbrega/PR

Bolsonaro e as mentiras sobre o coronavírus

No último dia 21, Bolsonaro anunciou em suas redes sociais que decidiu, em reunião com o ministro da Defesa, que o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército iria ampliar a produção da cloroquina, medicamento que está sendo testado como tratamento para o novo coronavírus. Essa ação de Bolsonaro diverge da posição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que informou não recomendar a utilização da substância em pacientes infectados, e nem mesmo como forma de prevenção à Covid-19. Segundo a Anvisa, em nota divulgada na última sexta-feira, não há estudos conclusivos quanto ao uso de medicamentos que contêm as substâncias hidroxicloroquina e cloroquina para o tratamento do novo coronavírus.

A postura de Bolsonaro tem relação direta com suas ações nas últimas semanas, ao mostrar a total incapacidade de seu governo em dar uma resposta efetiva diante da crise provocada pelo coronavírus, chegando a entrar ao vivo em rede nacional para mentir sobre o atual quadro da pandemia. Bolsonaro em diversos momentos minimizou a pandemia, afirmando repetidamente que se tratava de uma “gripezinha” e que as preocupações quanto à sua transmissão seriam “exageradas”. Exibindo sua crença nas opiniões de Bolsonaro, um dos principais apoiadores do presidente, o empresário Luciano Hang, manteve suas lojas abertas o máximo que pôde, mesmo diante das ações de órgãos governamentais que visavam reduzir a circulação de pessoas para conter a proliferação do vírus. Outro apoiador do presidente, Junior Durski, dono da rede de restaurantes Madero, em vídeo que circulou amplamente pela internet, mostrou-se indiferente diante das “5 a 7 mil mortes” que podem vir a ser provocadas pelo coronavírus. Isso mostra que, tanto para Bolsonaro como para seus principais e mais endinheirados apoiadores, as vidas dos trabalhadores não têm importância.

No mesmo governo, mas aparentemente em uma realidade paralela, o Ministério da Saúde parece levar a sério a pandemia, realizando algumas tímidas ações. As iniciativas do Ministério da Saúde, contudo, não vão muito além de indicar o isolamento social e propor algumas medidas para o tratamento das pessoas contaminas. Considerando sua quase inércia, parece que o ministro está esperando que venha o pior da pandemia, que os leitos hospitalares lotem e que uma vacina caia do céu.

O imobilismo do Ministério da saúde em relação ao combate ao coronavírus tem relação direta com a EC 95. Em dezembro foram extintos exatos 22.476 cargos do Ministério da Saúde, dos quais 10.661 eram destinados a Agentes de Saúde Pública. As universidades, onde são desenvolvidas as principais pesquisas voltadas para a saúde, sofrem cortes após cortes, tendo iniciado este ano com o limite de 60% do orçamento aprovado, em paralelo a todas as calúnias difundidas por Bolsonaro e seus ministros. Curiosamente, na mesma semana em que o coronavírus teve seu principal avanço, a CAPES, presidida por um difusor da teoria criacionista, mudou as regras na distribuição de bolsas de pós-graduação, levando universidades, inclusive os programas de pós-graduação com as avaliações mais elevadas, a perderem dezenas ou mesmo centenas de bolsas, até então ocupadas por pesquisadores que poderiam ser de extrema importância para o combate à Covid-19.

Em um cenário no qual se tem informações limitadas sobre o coronavírus, as pessoas acabam levando a sério informações não comprovadas cientificamente, muitas das quais difundidas por meio de correntes em redes sociais, e algumas reforçadas pelo próprio presidente da república. O caso da cloroquina, utilizada no tratamento da malária, ganhou notoriedade pelo fato de Donald Trump ter exigido que a FDA, agência que regulamenta os medicamentos nos EUA, agilizasse a liberação do uso desta substância para enfrentar a epidemia. Contudo, o referido medicamente não foi efetivamente testado para combater o coronavírus, mas usado como parte de um coquetel, com outros medicamentos, no tratamento de pessoas infectadas que estavam em estado grave e não respondiam aos demais tratamentos. Outra substância que supostamente teria eficácia no tratamento dos sintomas da doença seria o ibuprofeno, o que não tem sido recomendado pela ANVISA, pois até então os testes realizados não foram conclusivos.

Nada substitui a pesquisa rigorosa e a ciência no combate à ignorância pregada por Trump e Bolsonaro, ou difundida de forma irresponsável nas redes sociais ou mesmo ao vivo na televisão. Mas o acesso da população ao conhecimento científico está cada vez mais limitado, à medida em que são difundidas notícias falsas nas redes sociais, dificultando ainda mais o combate à proliferação da Covid-19. Isso poderia ser evitado com uma massiva campanha de esclarecimento por parte do governo federal, usando toda a tecnologia a seu dispor. Contudo, o que se tem é o contrário, pois o presidente minimiza os impactos na saúde, empresários usam as redes sociais para lamentar sua perda de lucro e intimidar os trabalhadores, e áreas estratégicas como educação e saúde há anos vem sofrendo com o sucateamento. Por isso, qualquer medida emergencial passa pela revogação da EC 95, que impõe o “teto de gastos”, visando garantir mais verba para educação e saúde, ampliação da estrutura de saúde, aumento salarial e defesa do emprego para os trabalhadores e massiva ampliação de verbas para pesquisa e inovação.

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