As frentes de conciliação e a hipocrisia das direções reformistas

Artigo publicado no jornal Foice&Martelo Especial nº 16, de 1º de outubro de 2020. CONFIRA A EDIÇÃO COMPLETA.

As eleições se aproximam e os reformistas reafirmam seu caráter com maior intensidade, cumprindo uma função de freio para os trabalhadores na luta contra o capitalismo e o Estado. Nos últimos meses, antes de iniciarem os acertos eleitorais, partidos como o PT, o PCdoB, a direção do PSOL e o PCB, além de suas expressões sindicais e estudantis, foram obrigados a adotar a palavra de ordem Fora Bolsonaro, pois tornou-se impossível calar as ruas e os panelaços.

Contudo, quando passaram a repetir o Fora Bolsonaro, impulsionado desde o início de 2019 pela Esquerda Marxista e Liberdade e Luta, usaram a palavra de ordem para defender as instituições e a Constituição burguesas, buscando enquadrá-la nos limites do Estado burguês e impedir que a manifestação dos trabalhadores e da juventude derrubasse efetivamente o governo.

Após isso, no atual período, as convenções partidárias confirmaram coligações e compromissos de conciliação que expõem a hipocrisia e evidenciam a real face desses partidos. Pelo processo eleitoral, tais direções seguem a marcha em defesa não apenas do Estado burguês, mas também do próprio governo Bolsonaro. Não bastassem as votações no Congresso Nacional que atacam os direitos dos trabalhadores e da juventude, esses partidos apostam em frentes amplas para uma aparente luta contra o “fascismo”. E não podemos negar, são coligações realmente amplas.

Em Florianópolis (SC), a direção do PSOL liderou a formação de uma frente nesses moldes. Estão reunidos em um mesmo programa “progressista”, além do PT e do PCdoB, partidos burgueses como PDT, PSB e REDE, conjuntamente à Unidade Popular, aos prestistas do PCLCP e o partido dos ciclistas, a UCB. Outra capital com exemplo de frente ampla feita pelo PSOL é Belém (PA), igualmente aliado ao PT, PCdoB, PCB, REDE, PDT e UP.

Já na capital carioca vemos esse cenário com alguns incrementos, não menos nocivos à organização do PSOL. No Rio de Janeiro não terá uma Frente Ampla, o que fez Marcelo Freixo recusar ser candidato a prefeito. Aparentemente isso deveria ser uma vitória para os socialistas, contudo, a direção carioca decidiu colocar como candidato a vice-prefeito um coronel reformado da Polícia Militar. Tal escolha é um aval à repressão contra nossa classe, indo na contramão da luta pelo fim da PM e impedindo, na prática, que os setores mais proletarizados e oprimidos façam adesão ao partido.

Infelizmente, essas cidades não são casos isolados, mas somente alguns exemplos de grandes capitais onde o PSOL poderia crescer com um programa contra o sistema. Outros locais seguem a mesma marcha que pode levar nosso partido à bancarrota política.

Porém, o que demonstra a atuação dessas direções defendendo mais o governo Bolsonaro que o “Fora Bolsonaro” são as coligações do PT, que conseguiu aprofundar sua traição política à classe trabalhadora. Em pelo menos seis municípios pelo país, o PT se coloca nas eleições lado a lado com o PSL: Belford Roxo (RJ), Francisco Morato (SP), Ilha Solteira (SP), Palmeira dos Índios (AL), São Cristóvão (SE) e Trindade (PE). Seus dirigentes, junto aos do PCdoB, justificam as coligações com a extrema-direita pela chamada “dinâmica local”. Ou seja, a velha tática do pragmatismo eleitoreiro. Esses partidos, embora construídos com base operária, hoje são completamente adaptados ao sistema.

Além desses casos, há um ainda mais constrangedor, colocando toda a submissão petista à ordem burguesa. No interior de São Paulo, em Itapirapuã Paulista, o PT lançou sua candidatura à prefeitura com um policial militar do PSL no posto de vice-prefeito. Contudo, já com a campanha visual preparada e falas de conciliação, a coligação foi rompida. Pelo Partido dos Trabalhadores? Não, pelo PSL! Quando a direção estadual do antigo partido de Bolsonaro soube da aliança, exigiu o rompimento, enquanto a direção do PT permaneceu em silêncio.

Ao mesmo tempo, não podemos esquecer o PCB. Em toda a sua história, é conhecida sua conciliação de classes a partir das teses de unidade com as “forças progressistas” e com a burguesia nacional, a defesa de uma revolução democrático-popular. Na atualidade, essa política é reafirmada pelas alianças que o partido faz nas eleições, compondo essas mesmas frentes, seja diretamente ou com “apoio crítico”.

Com isso indagamos à direção do PSOL: como defender, permitir e realizar alianças com partidos que não apenas votam contra o povo trabalhador no Congresso, mas, como no exemplo do PT e do PCdoB, também se alinham a partidos como PSL, PP, Patriotas e MDB Brasil afora?

Deixamos clara nossa denúncia às coligações com esses partidos, cumprindo o papel dos marxistas nas eleições burguesas. Em Joinville (SC), demos o exemplo de colocar em movimento candidaturas independentes, socialistas e revolucionárias com a militância conseguindo barrar na convenção municipal a proposta de Frente Ampla. Nessa cidade, o período de campanha será utilizado com o único objetivo de dizer a verdade para a população. São candidaturas contra o sistema e que apontam para a única arma que os trabalhadores e a juventude possuem: a organização revolucionária pelo socialismo.

Essa deveria ser a posição da esquerda perante as eleições, denunciando a crise histórica do capitalismo. Por isso combatemos frontalmente tais coligações e frisamos a luta pelo “Fora Bolsonaro, por um governo dos trabalhadores, sem patrões nem generais!” como o caminho para a superação desse governo, sem nos perdermos em promessas eleitorais, para abrir o caminho à construção do socialismo.

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