Algumas notas sobre a crise nos EUA e no Brasil

Editorial do jornal Foice&Martelo Especial nº 16, de 1º de outubro de 2020. Confira outros editoriais aqui. Você também pode conhecer nosso jornal eletrônico quinzenal e assinar por este link.

O debate entre os candidatos

“Palhaço”, “mentiroso”, dispara Biden contra Trump no debate das eleições dos EUA. Este responde que Biden é “pai de drogado” e “corrupto”. Um analista do Partido Republicano (partido de Trump) disse que o debate serviu para afastar os eleitores das urnas. Na verdade, o nível do debate é uma amostra da crise do capitalismo e da falta de perspectiva em que a burguesia se vê metida.

Em termos políticos, Biden declarou que é a favor da “lei e da ordem”, desde que com justiça, e contra o corte de verbas para a polícia. Trump chamou Biden de socialista. Poderíamos acusar Trump de míope político? Provavelmente não, porque a maioria dos autodeclarados socialistas hoje defendem o Estado burguês até o fim e todos os planos de reestruturação e destruição dos direitos dos trabalhadores.

Devemos admitir, apesar da gritaria de Trump, que Biden assentou golpes bem abaixo da cintura: “cãozinho de Putin”, “cala a boca”. Ou pelo menos assim a mídia burguesa divulgou o debate. Eles já escolheram seu candidato e ele não é Trump.

Uma afirmação de Biden, entretanto, merece ser notada. “Lei e ordem” com justiça? Trump nomeou uma série de juízes de direita nos EUA e no Brasil a situação só não é igual porque é pior.

Racismo

Além do caso da juíza racista, tivemos esta semana a absolvição de um jovem negro que foi acusado de roubo com base numa fotografia de redes sociais de 10 anos atrás. A pressão popular conseguiu a vitória. Sim, é uma vitória e o jovem Danilo Felix foi solto após 55 dias preso.

Imediatamente após a soltura, o jovem negro descobriu mais dois inquéritos baseados na mesma fotografia, fazendo o seu indiciamento por outros roubos! A polícia, procurada pela imprensa, não comenta os casos. Sim, “lei e ordem” com justiça e uma justiça e aparelho policial racistas. Essa é a realidade dos jovens negros proletários em todo o Brasil.

Nos EUA, as ruas continuam a se manifestar contra as mortes repetidas de jovens negros pela polícia. Os setores mais radicais já chegaram à conclusão da necessidade de extinguir a polícia, em vez de “democratizá-la” como propõe Biden. De certa forma, é isso que está no fundo da palavra de ordem gritada pelos jovens no Brasil “pelo fim da Polícia Militar”.

Economia

Ao lado da repressão, a questão econômica (como jogar a crise nas costas dos trabalhadores) está no fundo do debate. Mas isso pouco foi tocado no debate presidencial dos EUA. No Brasil, pelo contrário, o debate começa a esquentar com a imprensa dando uma “versão” que não corresponde aos fatos.

Bolsonaro, depois de declarar que a renda cidadã não seria feita às custas dos que já são pobres, propõe tirar dos aposentados o dinheiro da tal “renda cidadã”, “Bolsa Brasil” ou qualquer outro nome que se invente.

A imprensa e seus analistas gritam que Bolsonaro quer dar calote na dívida para pagar o benefício. Se este fosse o caso, algo de novo estaria acontecendo no reino da Dinamarca. Mas a proposta fica muito longe disto.

O que se propõe, com o aval de Paulo Guedes, é adiar o pagamento dos precatórios, ações vencidas contra o Estado. E a maioria destas ações é de aposentados do serviço público e da previdência social contra o governo que não paga as aposentadorias e direitos previdenciários devidos. Portanto, em vez do “calote” na dívida apregoado pela imprensa, pelos “investidores” e pelos deputados, temos o calote nos aposentados, nos velhinhos e nos doentes. A verdadeira natureza do governo se mostra nesta simples proposta.

Covid-19

Enquanto isso, no Brasil e nos EUA a epidemia de Covid-19 volta a crescer. O estado do Amazonas mostra o resultado da abertura das escolas sem a vacina. No estado de Nova York (EUA) a “segunda onda” da epidemia já chegou. E no Rio de Janeiro, o show de desrespeito às normas sanitárias e a simples regras de convivência social beiram o ridículo. Os bares cheios no Leblon, bairro burguês da Zona Sul carioca, com seus shows de desrespeito e brigas ridículas entre os “riquinhos”, mostram como a burguesia encara a situação.

Afinal, eles sabem que se pegarem a doença a chance de morte diminuiu muito, sobretudo se você tiver dinheiro e um bom hospital. Por outro lado, em suas vidas vazias, um pouco de “roleta russa” com a saúde não vai de todo mal.

E os trabalhadores, garçons e outros, além de aguentar o trabalho duro de pé, tentando sobreviver de alguma forma e ganhar algum dinheiro porque o preço do arroz e da comida só fazem aumentar, são espectadores deste verdadeiro show de horrores.

No Rio de Janeiro, os hospitais voltam a uma situação de emergência e a morte de um idoso que não conseguiu leito de UTI a tempo é relatada nos jornais. O tempo da burguesia já está passando tanto no Brasil como nos EUA e no mundo inteiro.

Para saber mais sobre a situação atual: resolução do Comitê Central da Esquerda Marxista.

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