Foto: Patrick Semansky

Trump, Biden e a “democracia” nos EUA

Deus os abençoe. E que Deus proteja nossas tropas.
Biden, frase final do discurso da vitória (7/11/2020)

Trump: cadê os apoiadores?

O chefe bretão Breno, que invadiu Roma no século 4 d.C., pronunciou uma frase que ficou na história, ao ouvir reclamações dos romanos: “Ai dos Vencidos”. Trump, que tem um certo orgulho de sua ignorância, parece não conhecer a frase. Os seus seguidores, quando chamados a ir às ruas para protestar contra os resultados, podem não conhecer história, mas seguem o figurino direitinho.

Trump explicou, no sábado (7/11) à noite, em nota no Twitter, a sua posição:

“Observadores não puderam entrar nos locais de contagem. Eu ganhei a eleição, tive 71 milhões de votos. Coisas ruins aconteceram, que nossos observadores não tiveram autorização para ver. Isso nunca aconteceu antes. Milhões de cédulas por correio foram enviadas para pessoas que nunca pediram por elas!”.

Se os seguidores de Trump, aparentemente, concordam com ele, mobilizar-se para defendê-lo é outra história:

Centenas de apoiadores do presidente Donald Trump se reuniram hoje em um protesto em frente ao Capitólio do Estado do Arizona, contra a vitória de Joe Biden nas eleições americanas. Segundo a imprensa americana, entre os manifestantes estavam homens armados O jornal The New York Times informou que havia pelo menos uma dúzia de homens armados com rifles estilo militar. Em diversos momentos, os manifestantes gritaram frases contra a imprensa, incluindo a Fox News, rede americana que tende a apoiar Trump.” (Do UOL, em São Paulo 07/11/2020, 20h53)

Para alguém que se orgulha em ter tido uma votação recorde de 71 milhões, em 50 estados dos EUA, ter conseguido somente reunir “centenas”, entre os quais “uma dúzia” armados, é um fracasso. Quando Kerenski foi deposto pela revolução de outubro de 1917 em Petrogrado, Trotsky escreveu que um partido que não consegue reunir um destacamento de homens armados para defender seu governante não merece governar.
Trump, na situação atual, pode continuar seus comunicados histéricos pela Twitter, mas isso não vai mudar a situação. A burguesia dos EUA, que detém o poder real, já decidiu.

As redes de TV, inclusive a maior apoiadora do Partido Republicano (a Fox News), já “proclamaram” Biden vencedor. O Serviço Secreto (o aparato de Estado que protege o presidente dos EUA) já cortou a internet em volta da casa de Biden e isolou o espaço aéreo em torno do seu bairro. Em outras palavras, o Estado tem outro governante. E o “pato manco” (descrição do presidente dos EUA quando já não tem mais poder) só pode mesmo usar o telefone, o Twitter e fazer ações judiciais, contestando a vitória de Biden.

Usando uma analogia de um direitista conhecido do Brasil, em 20 de janeiro, se não sair por conta própria, “um cabo e dois soldados” vão escoltá-lo para fora da Casa Branca. O rei está morto, viva o rei (grito no enterro dos reis franceses, para recepcionar o novo rei).

Biden, Kamala, a democracia e os trabalhadores

Há muito tempo que os sindicatos de trabalhadores nos EUA fazem campanha para o Partido Democrata e seus candidatos. A vitória de Trump, há quatro anos, assim como sua votação de hoje, mostra que os sindicatos estão cada vez mais desacreditados na cena política dos EUA.

E isso por um motivo simples: os seus dirigentes, reformistas vendidos até a medula, há muito que fazem “acordos”, que levaram à situação atual: o de baixo desce e o de cima sobe (canção popular brasileira). Em outras palavras, enquanto os EUA se tornam mais ricos, a burguesia ganha trilhões de dólares e os trabalhadores perdem, com salários e direitos cada vez menores.

Kamala Harris /Foto: Gage Skidmore

Esta é a história que Trump prometeu romper. E, como todo bom político burguês, não mudou nada. A crise econômica levou a mudanças, inclusive com a burguesia americana transplantando fábricas para os estados do Sul, onde os direitos trabalhistas são menores, os sindicatos e seus acordos (ainda que rebaixados) quase inexistentes e há uma mão de obra “importada” que prefere não reclamar de nada, receosa da retórica “anti-imigrante” de Trump.

Assim, ao lado de operários que desobedeceram aos sindicatos, temos uma pequena burguesia imigrante (os “latinos”) que votam pela direita. Apesar disso tudo, Trump perdeu nas grandes cidades e só ganhou nos “EUA profundo”, nas pequenas cidades.

A maré virou com a revolta contra o racismo que explodiu nos EUA neste ano e também com a pandemia. E quando se perdem as grandes cidades, o partido já perdeu, independente dos resultados dos campos. Sejamos claros, os trabalhadores e jovens foram votar contra Trump, não “a favor” de Biden. E isto só será resolvido quando for construído um partido dos trabalhadores, um partido socialista nos EUA. Para isso, trabalha a nossa seção nos EUA da CMI.

A burguesia, ao escolher Biden, sabe muito bem de quem está com medo: da fúria dos trabalhadores e dos jovens, que incendiou as ruas dos EUA. Por isso, colocam o mais alto possível a vice, Kamala Harris.

Claro que há um “pequeno problema” – Kamala era promotora de justiça e “combatente” do crime. Ela ajudava de forma bem ativa a política de encarceramento dos negros nos EUA. Para resolver isso, a história é reescrita, Kamala é descrita como “defensora dos direitos humanos”, que apoia o movimento “Black Lives Matter” e é a única a citar trabalhadores no discurso de posse (Biden só vai falar em “classe média”):

“Não importa em quem você votou, vou me esforçar para ser a vice-presidente que Joe foi para o presidente Obama. Serei leal, honesta e preparada, acordando todos os dias pensando em você e em sua família. Porque agora é quando o verdadeiro trabalho começa.

O trabalho duro. O trabalho necessário. O bom trabalho. O trabalho essencial para salvar vidas e vencer esta pandemia. Para reconstruir nossa economia, para que ela funcione para os trabalhadores. Para erradicar o racismo sistêmico em nosso sistema de justiça e sociedade. Para combater a crise climática. Para unir nosso país e curar a alma de nossa nação.

O caminho à frente não será fácil. Mas os Estados Unidos estão prontos. E Joe e eu também. Elegemos um presidente que representa o que há de melhor em nós. Um líder que o mundo respeitará e que nossos filhos podem admirar. Um comandante em chefe que respeitará nossas tropas e manterá nosso país seguro. E será um presidente para todos os americanos.” (Negritos nossos)

Sim, Kamala tem bastante claro o que deve fazer: acenar para os trabalhadores, para os negros (a parcela mais oprimida da sociedade) e explicar que a política de segurança continuará a mesma (“nossas tropas”, “país seguro”). Isto não é um aviso para o “resto do mundo”, mas é um aviso bem claro para os trabalhadores e jovens. Não é à toa que Biden termina seu discurso “rezando” – “E Deus proteja nossas tropas”.

A burguesia dos EUA tem medo e, por isso, ela resolveu defenestrar Trump, que não conseguiu debelar a revolta e quase abriu uma revolução nos EUA. A tarefa dos comunistas, dos marxistas, é de explicar tudo o que aconteceu e organizar os trabalhadores para os próximos tempos. E só depositar a sua confiança em um sujeito: “A emancipação dos trabalhadores será obra deles próprios” (Marx).

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