Rio de Janeiro - Operação feita pelas polícias Civil e Militar, com o apoio das Forças Armadas, da Força Nacional de Segurança e da Polícia Federal, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, zona norte do Rio. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Quando a polícia sobe o morro, o sangue escorre: guerra contra as drogas ou contra o proletariado negro?

Artigo publicado no jornal Foice&Martelo Especial nº 15, de 17 de setembro de 2020. CONFIRA A EDIÇÃO COMPLETA.

Todos os dias ouvimos notícias de operações policiais que alegam combater o narcotráfico e garantir paz para os moradores das favelas. Contudo, sempre que há operações vemos relatos de abusos policias e inocentes sendo mortos. Ao passo que o tráfico segue a todo vapor, cada dia lucrando mais e controlando mais áreas nos bairros operários da cidade e do campo.

A verdade é que a chamada Guerra às Drogas nunca existiu, ela sempre foi um pretexto para a classe dominante impor o terror sobre a classe trabalhadora e ter carta branca para matar pretos, bastando alegar “auto de resistência”.

Mesmo pessoas de esquerda que antes reproduziam esse termo agora caíram na real e afirmam que essa guerra não objetiva acabar com o tráfico de drogas, é uma guerra contra os pobres. Contudo, para estes, a solução está em legalizar e regulamentar os entorpecentes que hoje se encontram ilegais. Ou seja, uma contradição permanece. Afinal, se há uma guerra declarada contra os pobres, fundamentada no racismo, por que alguns têm a ilusão de que a legalização irá resolver o problema?

A verdade é que há muitos anos a justificativa de combate ao crime é um método que garante ao Estado o direito de oprimir a classe trabalhadora no mundo todo, chegando até a impor a pena de morte sem sequer necessitar de julgamento. Nos EUA, nos anos 1960, o presidente Nixon acirrou a política de “Law and Order” (Lei e ordem) para justamente ter o direito de acusar, prender e matar trabalhadores. O resultado não foi a diminuição do tráfico, muito pelo contrário, o mercado das drogas cada dia cresce mais, junto ao mercado das armas, e o consumo só cresce, aumentando a quantidade de dependentes químicos.

Esse mercado não é lucrativo apenas para a indústria das drogas e armas, como também para empresários que usam o trabalho da população carcerária como mão de obra semiescrava, visto que os presos perdem seus direitos civis. Não é à toa que a população carcerária nos EUA hoje é a maior do mundo. O Brasil segue o mesmo caminho, ocupando o terceiro lugar desse triste pódio.

Aqui as coisas não são muito diferentes, mas como país semicolonial a polícia tem muitas formas espúrias de atuação, incluindo as milícias e até alianças com o narcotráfico, como apontou a Operação Calabar em 2017. Ou seja, a verdade é que há servidores do Estado envolvidos com o tráfico até o pescoço. Não é possível haver tráfico de drogas sem que haja um forte aparato institucional aliado, incluindo os bancos e grandes empresas, que é onde os bilhões de dólares do tráfico de drogas e armas são lavados. O dinheiro do tráfico precisa ser guardado em algum lugar, logo, os banqueiros coadunam com essa prática muito lucrativa.

Quem tem ilusões de que com a legalização essa situação irá melhorar se engana, afinal, o buraco é muito mais profundo. A questão é, antes de tudo, política. E quando falamos política, estamos nos referindo à luta de classes, à guerra que há entre os interesses da classe dominante e os interesses da classe dominada. As drogas estão nos bairros operários propositalmente para que o Estado tenha controle sobre a classe trabalhadora, para que vivamos sob o medo e o terror.  Quanto mais medo temos, mais tempo eles conseguem se manter no poder. Se as drogas não foram legalizadas aqui é porque ainda é mais lucrativo para eles fazerem da forma atual.

Há séculos que nós, negros e trabalhadores, somos perseguidos. No passado, éramos criminalizados pelo simples fato de jogar capoeira, ou mesmo porque estávamos tocando samba, ou ainda porque não estávamos com a carteira de trabalho. Éramos acusados de “vadios” quando na verdade somos trabalhadores. Os verdadeiros “vadios” são a burguesia parasita que vive de explorar nosso suor, e ainda insiste em querer nos “chicotear em praça pública” como medida “disciplinar”, mesmo após termos derrotado os tempos da escravidão através de muita luta e organização.

Se estamos nessa guerra, é preciso aprendermos a nos defender. Devemos nos inspirar em experiências como a do Partido dos Panteras Negras e com o que ocorre hoje nos EUA contra as ações racistas da polícia, que nos asfixiam e nos alvejam pelas costas, como ocorrido com George Floyd e Jacob Blake. Da mesma forma que devemos nos organizar para impedir que mais jovens negros inocentes sejam assassinados dentro de casa, como foi o caso de João Pedro no Rio de Janeiro.

Essa luta passa por nos organizarmos e derrotarmos todos os políticos que defendem essa lógica de militarização que trata a nós, negros, como culpados antes do direito à defesa. Bem como lutando pelo fim das policias do Estado e pela construção de uma defesa decidida pelos trabalhadores.

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