Qual escola os marxistas defendem?

Apresentamos aqui o informe escrito para o 2º Seminário Em Defesa da Educação Pública, Gratuita e Para Todos, ocorrido no dia 17 de abril. O informe foi apresentado na Mesa 1: A experiência e conquistas da educação soviética. Você pode conferir a apresentação de slides utilizada aqui.

“Sem que se aprenda, não há como consertar nem um sapato velho.” (Clara Zetkin)

A primeira mesa do 2º Seminário em Defesa da Educação Pública, Gratuita e Para Todos, organizado pela Esquerda Marxista e Liberdade e Luta, discutiu os avanços, as transformações na educação que a Rússia, um país de maioria analfabeta, tornou possível desde que passou o poder aos soviets.

Ainda de maneira mais abrangente, a mesa também discutiu a educação que os marxistas defendem. Isso porque, na União Soviética, a experiência e a teoria, não só na educação, mas em todos os campos do conhecimento, arte, psicologia, ciências em geral, se deu de maneira abrangente.

Os avanços econômicos e tecnológicos trazidos pela revolução de 1917 são notórios. O programa espacial é um exemplo disso. Enquanto os EUA estavam matando gente em suas experiências de conquista ao espaço, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) evitava a morte de cães no seu programa. O voo de Yuri Gagarin, que completou 60 anos em 12 de abril de 2021, foi lembrado na apresentação que deu início ao debate.

Avanços que passam, em primeiro lugar, pelo controle total de toda a sociedade pelos trabalhadores, pela planificação da economia. Obviamente que, se há uma transformação radical na sociedade, tinha que haver também uma transformação radical na escola.

A escola que temos hoje, no capitalismo, não nos serve. Como explicava o principal dirigente da Revolução Russa, Lenin, no Congresso da Juventude Comunista, em 1920:

“a velha escola era uma escola de estudo livresco, uma escola de amestramento, uma escola de aprendizagem de cor […] obrigava as pessoas a assimilar uma quantidade de conhecimentos inúteis, supérfluos, mortos, que atulhavam a cabeça e transformavam a jovem geração num exército de funcionários talhados todos pela mesma medida.”¹

Esse discurso coloca de maneira muito sucinta o quanto os marxistas rejeitam por completo a educação como ela é hoje. Mas não são só os marxistas que criticam esse modelo. A partir da constatação da ineficiência da educação atual, outros grupos têm outros objetivos, soluções diferentes.

Nas escolas hoje, principalmente após a Reforma do Ensino Médio, o discurso de conhecimentos úteis, de “estimular habilidades e competências”, de preparar para o mercado e para a vida é também utilizado pelos governos, como a justificativa socialmente aceita para privatizar a educação pública.

A obra de Paulo Freire também entra nessa discussão. Apresentada nos cursos de licenciatura, aparece como a mais progressista. Mas é preciso discutir que tipo de transformação é proposta por Freire. Há também os movimentos por uma educação popular, outro grupo que apesar de também fazer a crítica à educação sob o capitalismo, apresenta outras soluções.

Três premissas são importantes para os marxistas sobre a educação:

  1. é impossível, no capitalismo, transformar a escola e é extremamente nocivo vender qualquer ilusão nesse sentido;
  2. enquanto estamos sob o capitalismo, é necessário defender o acesso de todos à educação pública, gratuita e para todos;
  3. a transformação da escola, no socialismo, não passa por descartar por completo o acúmulo de conhecimentos até a sociedade burguesa.

É como explicou Lenin:

“É preciso saber distinguir aquilo que a velha escola tinha de mau daquilo que tinha de útil para nós, é preciso saber escolher dela aquilo que é necessário para o comunismo.

Se tentásseis tirar a conclusão de que se pode ser comunista sem ter assimilado os conhecimentos acumulados pela humanidade cometeríeis um enorme erro. Seria errado pensar que basta assimilar as palavras de ordem comunistas, as conclusões da ciência comunista, sem assimilar a soma de conhecimentos de que o comunismo é consequência.

Por que é que a doutrina de Marx pôde conquistar milhões e dezenas de milhões de corações na classe mais revolucionária?

Isto aconteceu porque Marx se apoiava na sólida base dos conhecimentos humanos adquiridos sob o capitalismo.”²

Lenin tem excelentes textos sobre a educação (ele era filho de um pedagogo, tinha alta consideração pelo papel do professor e acompanhou muito de perto a tarefa da organização das escolas públicas). Mas foi a obra da companheira dele, Nadezhda Konstantinovna Krupskaya que norteou toda a exposição feita por mim. Lunacharsky, o responsável geral da educação na União Soviética, dizia que Krupskaya era a “alma do Narkompros”, o Comissariado do Povo para Educação.

A produção teórica, o incentivo à pesquisa e ao debate em alto nível fez produzir muitas vertentes e ideias sobre a educação naquele contexto. Outros nomes também são importantes e, talvez, mais conhecidos: Vygotsky (cuja teoria sobre aprendizagem é amplamente difundida nos cursos de licenciatura, cobrada em concursos públicos) e Pistrak (que deu uma importante contribuição com seus experimentos na educação de jovens em conflito com a lei).

A formação daqueles que lutam em defesa da educação pública deve focar em conhecer a história e entender por que alguns teóricos são difundidos e outros não. Na coletânea de textos da Krupskaya, A construção da pedagogia socialista, o primeiro texto é de 1899. “A mulher e a educação das crianças” compunha a brochura “A mulher operária” e dá um quadro da situação da educação pré-revolução.

Nele, a marxista afirma que as mulheres não eram responsáveis pela educação de seus filhos, mas pela manutenção, pela sobrevivência deles. Mesmo essa tarefa acabava recaindo sobre alguma mulher idosa ou crianças mais velhas, pois a mulher precisava trabalhar. No campo:

“A criança de colo é amamentada com mingau azedo (…) sacudida no berço até perder a consciência (…) casa sufocante”³

É frequente que uma criança de 6 a 8 anos esteja responsável pelo cuidado dos menores e os deixem cair, queimem. A própria mãe não tem nenhuma ideia de como o corpo humano é construído, o que é necessário para cuidar de um bebê. Por isso, metade das crianças morre nas aldeias antes de completar 5 anos. Não há escola e a alfabetização ocorre ao acaso. Quando há, as crianças não podem ir porque são necessárias em casa e porque não têm roupas.

Aquelas que vão mal aprendem a ler, escrever e contar. Os professores são proibidos de ensinar algo além da alfabetização.

“É preferível para o governo manter o povo na ignorância e, dessa forma, nas escolas é proibido falar às crianças e dar-lhes livros para ler sobre como outros povos conquistaram sua liberdade, quais são suas leis e regulamentos; proíbem explicar por que algumas nações têm determinadas leis; e outras nações leis diferentes, e por que algumas pessoas são pobres e outras ricas.”4

Ela pondera que as próprias mães não podem ensinar seus filhos porque também não sabem sobre quase nada. A mulher em casa é uma escrava e essa situação de dependência imprime uma marca nela. Ele é uma criatura impotente, oprimida. A situação não é diferente nas fábricas:

“Operárias de fábricas de fósforos (mulheres e crianças constituem a maioria) ao casarem são geradoras, assim como elas mesmas, de uma geração fraca, semimorta, sobrecarregada por uma série de doenças que levam a uma morte prematura”5

Há um trecho pesado, que explica que as operárias acabavam dopando seus filhos. “Alguma vizinha aconselha a dar papoula para a criança, pois ela dorme tranquilamente e a mãe fica feliz”6, ela não tem ideia de que está envenenando seu filho com um derivado do ópio, que pode desenvolver doenças mentais no futuro.

Na Rússia também havia as “fábricas de anjos”. Assim como em Os miseráveis, uma mulher cobrava para cuidar de crianças de colo enquanto as mães trabalhavam. O pagamento só podia ser insuficiente para alimentar as crianças, que também passavam fome, eram envenenadas e morriam. Essa era a produção de anjos. Lembra também das empregadas domésticas que, se tivessem filhos, não eram mais contratadas.

Apresentando esse quadro, assim como Marx e Engels fizeram no Manifesto do Partido Comunista, ela rebate a acusação da burguesia: “Estes socialistas terríveis querem destruir a família, tirar as crianças de seus pais!7

Propõe a luta pela educação pública, que inexistia na Rússia naquele momento. Com ela o “Cuidado com a manutenção das crianças será tirado dos pais e a sociedade garantirá para a criança não apenas os meios para sua existência, mas garantirá também que a criança tenha todo o necessário para que ela possa ter um desenvolvimento pleno e multilateral”.8

Estudo sobre o que a burguesia estava desenvolvendo

Retomando aquela ideia já apresentada anteriormente no trecho do discurso de Lenin, de que é necessário se apropriar do conjunto de conhecimentos acumulado pela humanidade até a sociedade burguesa, Krupskaya se debruça sobre o que estava sendo estudado e desenvolvido nos países capitalistas ao redor do mundo.

Nos países ocidentais da Europa existem os chamados ‘jardim de infância’. As mães podem trabalhar tranquilamente, muitas professoras cuidam das crianças, as quais tratam-nas com amor. Risos e vozes infantis enfeitam a casa e o jardim.

“À primeira vista pode até parecer que no jardim de infância não há nenhuma ordem, mas é só impressão. Cumpre-se um plano rigoroso. As crianças são divididas em grupos, e cada grupo realiza sua tarefa. No jardim as crianças estão cavando terreno, regam, limpam hortas, na cozinha elas descascam vegetais, lavam pratos (…) Cada jogo, cada lição ensina algo, e o mais importante, a criança aprende a trabalhar, aprende o que é ordem, recebe orientações para não brigar com seus amigos e ceder.”9

Aqui já aparece a preocupação com a ligação da escola-trabalho que é central na obra de Krupskaya. Na época, havia poucos jardins de infância na Europa Ocidental. Mas, se bons jardins eram possíveis, explica que muito melhores seriam em uma sociedade socialista, pois neles serão educados os filhos de todos os membros, portanto todos se interessarão em que a educação ali seja a melhor. A burguesia pode oferecer aos seus filhos o melhor. Eles podiam se indignar com a educação pública, mas a mulher operária não.

O economista inglês John Bellers foi o primeiro a propor a necessidade de unir educação e trabalho, no século 17. Já nos séculos 18 e 19, essa ideia ganhou adeptos em toda a Europa: Rousseau; a Convenção da Revolução Francesa (1792-1795) procurou colocar em prática; Marx e Engels, em 1850, desenvolveram e fundamentaram cientificamente essa ideia.

No entanto, foi rapidamente esquecida, porque o capital só exigiu trabalho simples. As escolas públicas cresceram, mas eram escolas de ensino, onde o trabalho estava totalmente excluído. Era ensinado leitura, escrita e aritmética, assim procuravam formar operários obedientes e cumpridores dos seus deveres.

No século 20, o progresso tecnológico fez surgir, nos EUA e na Alemanha, escolas profissionais, cursos noturnos, os cursos técnicos que temos no Brasil hoje. Em 1915, Krupskaya comparou a escola pública da Europa e dos EUA. A escola europeia ampliou o número de anos obrigatórios, mas se consolidou como escola do ensino, que embota a capacidade de trabalho da criança. O pedagogo alemão Georg Kerschensteiner explica que entre 3 e 14 anos, as crianças têm predisposições especialmente fortes e atração para o trabalho manual. A escola do ensino não apenas não desenvolve, como abafa essa atração.

Nos EUA, onde as escolas tinham uma ligação maior com o trabalho, a escolha profissional era mais fácil do que na Europa. Os empresários americanos adotaram essa tática para, como dizia a expressão popular na época, colocar o homem certo no lugar certo.

Nos Estados Unidos, o filho de Roosevelt estudava com o filho do operário. Na Alemanha, havia uma segregação – escolas populares (onde estudavam os filhos dos trabalhadores) e escolas médias (para a burguesia e pequena burguesia). As médias imitavam o que se desenvolvia nos EUA.

“Na atualidade, a grande maioria é obrigada a procurar trabalho não de acordo com seus gostos e inclinações, mas pela possibilidade de conseguir este ou aquele emprego.”10

Em seguida, analisa os internatos, que cobravam 1.500 a 2 mil francos por ano, e ficavam longe do barulho da cidade, perto da natureza, ao ar livre.

Os livros que mostram como eram essas escolas são cheios de fotografias que mostram salas separadas para cada estudante, salas de leitura, enfim, tudo era organizado de modo rico, racional e confortável. Enorme atenção era dada à educação física, para fortalecer o organismo dos estudantes. Havia trabalho físico ao ar livre e nas oficinas: jardinagem, horticultura, colheita, construção de pavilhões. Essas crianças respiravam saúde.

O desenvolvimento mental também recebia grande preocupação: não se decorava conteúdos inúteis, o foco era na auto-organização, criatividade. O disciplinamento, reduzido ao mínimo. O desenvolvimento multilateral da personalidade acontecia fortalecendo a habilidade de viver e trabalhar em conjunto.

Apesar de podermos aprender algumas coisas com esse modelo, Krupskaya explicava que ele não é o que a classe operária quer, precisa. É um estilo de vida completamente burguês. Isola o estudante da vida real.

“Internatos rurais (…) atendem às necessidades específicas de alguns setores da burguesia. A democracia operária vai aproveitar sua experiência pedagógica, mas vai construir suas próprias escola de uma forma diferente”11

Outra comparação importante que ela faz é entre a Inglaterra e a Alemanha, onde havia uma segregação dos jovens por classe social. As escolas médias eram proibidas para os filhos das cozinheiras, que deviam estudar nas escolas populares. Já na Inglaterra, eram oferecidas muitas bolsas de estudo. Isso porque, se os mais talentosos jovens da classe operária deixam sua classe, é vantajoso para a burguesia. A classe operária está perdendo seus líderes.

Organização política dos professores

O primeiro congresso de Toda a Rússia para a Educação Pública aconteceu em 1913, São Petersburgo. No mesmo ano, Lenin escreveu um rascunho para o discurso que Badaev faria na Duma do Estado (congresso), sobre o orçamento do ministério da educação, cheio de indignação, acalorado. Esse discurso mostra a importância que Lenin dava à luta, sob o capitalismo, em defesa de todos os recursos para a educação pública. Essa luta era a preparação para o momento em que o poder passaria para as mãos da classe operária. Nesse momento era necessário que a frente da educação estivesse preparada.

Em vários textos escritos antes da revolução, há uma ação da censura. O livro “Educação pública e democracia”, escrito em 1915 e que vendeu 40 mil exemplares, deveria se chamar “Educação pública e classe operária”, foi o que ela explicou em 1920.

Depois da revolução, foi no campo da educação pública que mais se viu o atraso econômico da Rússia, refletido no baixo nível cultural. Então, ainda que se tenha convertido a educação em escolas do trabalho, os professores disponíveis eram semianalfabetos, testemunhas inconscientes do grande momento histórico. Portanto, era preciso um grande trabalho para transformar o professor num grande líder na escola do trabalho.

“Para a escola do ensino não é preciso saber muita coisa: a disciplina é ‘daqui – até aqui’ e só isso”12

Na educação politécnica, o professor tem que saber muito, saber fazer – estudar, estudar e estudar. Sobre as dificuldades de implementar essa transformação, em 1920 ela diz que ainda eram poucas as boas escolas, mas isso não queria dizer que se deveria voltar ao antigo modelo. Em 1921, explicou que a guerra e a destruição atrapalharam a resolução desse problema.

Ligação escola-trabalho: educação politécnica

“Se uma característica do sistema capitalista era o gasto inútil da força de trabalho, o excesso de trabalho de alguns e a ociosidade forçada de outros, uma característica do sistema socialista deve ser a distribuição racional, planejada, o mais razoável possível do trabalho entre todas as pessoas, a transformação do trabalho de servidão em trabalho voluntário”13

Na sociedade dividida em classes há um divórcio entre teoria e prática, entre trabalho braçal e intelectual. Os marxistas rompem com isso. O programa defendido pelo partido bolchevique na direção da república dos soviets previa:

1. Educação geral, gratuita e obrigatória, para todas as crianças de ambos os sexos, com duração até os 16 anos de idade; além disso, a escola deve propiciar às crianças o desenvolvimento físico mais amplo e multilateral (requisito obrigatório para isso é o fornecimento de alimentação saudável e roupas para as crianças); do trabalho (na base do qual está a participação das crianças no trabalho produtivo, desde a idade precoce (…) com o início no jardim de infância durando até a escola superior; mental, que prepara as crianças para o trabalho intelectual independente; social;

2. Escola laica;

3. Organização democrática e não burocrática do trabalho escolar;

4. Garantia plena de liberdade de opinião e direito de associação aos professores;

5. Direito da população de receber educação em sua língua nativa (autodeterminação).

Sobre esse programa, “o proletariado está vitalmente interessado e defende, pois as crianças são o seu futuro14. A escola do trabalho requer o desenvolvimento da independência, da personalidade do estudante, não repressão e disciplinamento. Por isso há uma transformação do papel do professor, o controle mútuo dos estudantes e uma ampla colaboração da população com a escola “ligada por milhares de fios com a vida e a realidade”.15

“A escola do trabalho supõe uma estreita ligação do ensino com a produção, e isso não é viável sem o envolvimento da população trabalhadora nesta tarefa, representada pelas suas organizações.”16

Em 1919, Krupskaya foi visitar uma aldeia de atividades exclusivamente agrícolas e os professores contaram que, no segundo grau, estudavam economia política e a história da cultura por exigência unânime dos estudantes.

“Somente uma democracia da classe operária pode fazer da escola do trabalho uma ‘ferramenta de transformação da sociedade moderna’”17

Em maio de 1917, Krupskaya propôs uma revisão do programa do partido, trocando o termo educação “profissional” por “politécnica”:

“A escola politécnica deve fornecer um panorama da economia do país, familiarizar os estudantes com a indústria agrícola, com a mineração, com a manufatura e seus principais ramos de processamento de metal, têxtil, químico. Esta familiarização deve ser fornecida por meio de livros didáticos, ilustrações, cinema, visitas a museus, exposições, fábricas, usinas, e por meio da participação na produção. O último elemento é o mais importante.”18

Não é preparar especialistas estreitos, mas capazes de executar todo tipo de trabalho, que entendam toda a interligação dos diferentes ramos da produção.

“preparar uma pessoa que saiba o que e por que algo deve ser feito em cada momento, em uma palavra, preparar o dono da produção, no sentido verdadeiro desta palavra.”19

Na pedagogia burguesa, o trabalho produtivo é usado, mas não tem seriedade. Já na URSS a linha era de obrigar o trabalho com acompanhamento da escola, mas proibir o assalariamento dos jovens. Ou seja, nada tem a ver com a exploração do trabalho infantil que acontecia na época e que acontece ainda hoje no capitalismo. É importante lembrar que, enquanto a organização da escola permanecer longe da influência da classe operária, a escola do trabalho será uma ferramenta dirigida contra seus interesses. É o que podemos ver com a reforma do ensino, as pesquisas em universidades públicas alinhadas com o mercado capitalista, por exemplo.

Quando defende que a escola forneça comida, roupas e material escolar, Krupskaya defende que essa seria uma política de Estado para todos. Nada de censos que verificam “quem precisa, quem não precisa”, como estamos acostumados no capitalismo. Explica:

“A separação das crianças dentro da escola entre pobres e ricos é totalmente inaceitável.”20

Em primeiro lugar, era preciso fortalecer a saúde e a força da geração mais jovem. Independente da situação econômica dos pais, teriam alimentação saudável, bom sono, roupas confortáveis e quentes (isso é muito importante no frio russo!), aprenderiam cuidados de higiene com o corpo, respirariam ar fresco e limpo e realizariam uma quantidade suficiente de exercícios.

No verão, a escola deveria ser transferida para o campo para fortalecer e desenvolver os sentidos: visão, audição, tato (pedagogos como Fröebel já falavam da importância disso) e exercitarem-se constantemente.

Krupskaya já defende que nas escolas deveria haver brinquedos Montessori, para que os estudantes não aprendessem somente com as palavras, mas com o concreto. Argila, lápis, papel, todo tipo de material para a construção, para estimular por todos os meios a criatividade da criança.

“A arte e a linguagem são um poderoso instrumento de aproximação entre as pessoas e são meios para compreender os outros e a si mesmo.”21

As escolas precisavam ser espaços para desenvolver a individualidade da criança, não quartéis. Entre 7 e 12 anos, a coisa mais interessante para uma criança é outra pessoa. A imitação do outro é uma forma especial de criatividade. As relações humanas estão no centro da atenção dessas crianças. Por isso é nesse momento que:

“a escola deve revelar para ela que o trabalho é a base da sociedade humana, ensinar-lhe a alegria do trabalho produtivo e criativo, fazê-la sentir-se como parte da sociedade, um membro útil”22

É necessário ensinar a criança a trabalhar, num trabalho de natureza coletiva. O trabalho a protege da superestimação e da subestimação.

“É importante que os estudantes não só comecem a notar a lama e as poças que existem no meio da aldeia, mas que eles fiquem agitados com o fato de que a sua aldeia está suja, que há poças nas suas estradas, que esta sujeira não as deixe tranquilas, mas as agite. Uma escola é boa quando ela é capaz de educar as crianças de tal maneira que elas se importem com tudo que é público. A velha escola não se importava com nada. Para a escola soviética, tudo é de sua responsabilidade.”23

Sobre a avaliação:

“A verificação pela vida, pelos resultados alcançados, e não um relatório formal para o coletivo ou professor. Os meninos vêem uma bomba danificada no sistema de combate ao incêndio. Isso os agita. Eles se lançam ao trabalho. A avaliação é a bomba consertada, funcionando.”24

A escola moderna, de ensino, não presta qualquer atenção nas brincadeiras das crianças. Afasta as crianças da vida, dos adultos, desacostuma à organização.

“Pessoas preparadas na teoria e na prática para todos os tipos de trabalho, tanto físico quanto mental; pessoas capazes de construir uma vida social racional, cheia de conteúdo, bonita e alegre. Essas pessoas são necessárias à sociedade socialista, sem elas o socialismo não pode se realizar plenamente.”25

Então, os socialista podem se reunir e fazer uma escola socialista? Como talvez possa se pensar a partir da leitura de Freire, do método Waldorf26:

“o que a torna socialista não é o fato de ser liderada pelos socialistas, mas sim que suas metas correspondam às necessidades da sociedade socialista”27

“sob o sistema capitalista, tais escolas poderiam ser apenas fenômenos isolados, pouco vitais. Formado nessa escola o jovem cai, saindo da escola, em uma atmosfera que minimizaria muito rapidamente todos os benefícios dessa educação.”28

“Lutadores podem ser criados na escola socialista, mas no estado capitalista somente em casos excepcionais, pois um lutador deve passar pela dura escola da vida, e a escola socialista embutida no sistema burguês não poderia ser nada mais que uma planta exótica, uma instituição separada da vida. E como a escola socialista não pode ser, sob o sistema capitalista, uma instituição da vida, no melhor dos casos, ela seria apenas uma experiência educacional interessante.”29

Arte proletária?

“Os marxistas sabem que a escola tem a possibilidade de influenciar sistemática e organizadamente a visão de mundo, os sentimentos da juventude. E aquele que tem em mãos a condução da escola, certamente, vai influenciá-la na direção desejada. Portanto, o determinante é em mãos de quem fica a escola, quem determina o programa, a natureza do ensino, quem escolhe os professores, quem os fiscaliza etc.”30

É evidente que a ideologia do proletariado diferente da de outras classes. Mas disso não decorre que a ditadura do proletariado deve fechar-se em si mesma e construir órgãos de cultura sectariamente. Na noção da ideologia entra arte, moral, ciência. A arte carrega um forte caráter de classe.

“o camarada Pletnev está correto quando diz que o mundo não pode ser vencido somente pelas armas e pela força, e que para ganhá-lo ideologicamente, é necessário superar a velha cultura burguesa (…)

Você pode ser um forte defensor de todas essas ideias e ao mesmo tempo ser um inimigo da cultura proletária”31

O Proletkult, movimento que surgiu na URSS e depois foi uma das bases ideológicas do stalinismo, estava correto em abrir o caminho para todos os operários em relação à arte. Era preciso dominar música, teatro, saber pintar, esculpir. Mas não é porque o criador da obra de arte é um proletário que ela será uma arte proletária. Até porque, às vezes, a consciência que esse operário tem está imbuída  da ideologia burguesa. Krupskaya explica que:

“A arte pode crescer somente da vida”32

E a defesa dos membros do Proletkult era de que:

“Precisamos nos isolar de todos os elementos não proletários, nos fechar, criar para nós próprios uma cultura puramente proletária”33

A tarefa da revolução socialista é eliminar a sociedade de classes. Então, assim como Trotsky explica brilhantemente em Literatura e Revolução, a marxista explica que não faz nenhum sentido lutar por uma “arte proletária”.

Apesar do enfoque da mesa ter sido a obra de Krupskaya, mais centrada na educação básica, é importante lembrar também que a ciência, a pesquisa e o ensino superior tiveram grandes avanços na URSS. Um exemplo é Sabina Spielrein e seu estudo de psicanálise, que pode ser conhecido através da sua biografia.

Stalinismo e perdas

A morte de Lenin, o desenvolvimento da burocracia e a ascensão de Stalin ao poder, fez a União Soviética regredir em todas as áreas em que teve avanços, a ciência, a educação, o direito das mulheres e da juventude. A posição de Krupskaya foi de combate ao stalinismo. Antes da morte de Lenin, ela foi insultada por Stalin por ajudar Trotsky e outros a se comunicarem com o companheiro. O embalsamento de Lenin, por exemplo, não teve sua aprovação. Nem o culto à personalidade, do qual também foi alvo.

Apesar de não ter se unido à Oposição de Esquerda e ter ficado na Rússia, em 1926, em reunião da Oposição Unificada, declarou que:

“Se Vladmir Ilitch estivesse vivo hoje, estaria em uma das prisões de Stalin.”34

E, em 1930, quando Trotsky já estava exilado na Turquia, escreveu em Recordações de Lenin relatos da boa relação que os dois tinham.

Sobre Krupskaya e Lenin

Dois textos muito importantes dessa obra não puderam ser falados durante a mesa por conta do tempo, por isso coloco aqui. O primeiro é sobre as mulheres, tema que, ainda que não seja central para Nadezhda, aparece com uma bonita sutileza em seu olhar. Em “As operárias e camponesas nos conselhos”, ela explica que só depois que a guerra civil terminou, foi possível concentrar toda a atenção no trabalho de construção do conselhos, colocando a necessidade da participação das mulheres. É famosa a frase de Lenin de que “cada cozinheira deve aprender a governar o Estado”. Mas em dezembro de 1920, a participação das mulheres nos conselhos ainda estava baixa.

Nos conselhos rurais, cerca de um décimo dos membros eram mulheres. Nas cidades, um quinto. Os conselhos rurais representavam uma população de 1,3 mi. Mas após a guerra, a participação aumenta: 1922 – 1%, 1923 -2,2%, 1927 – 11,8%! Nas cidades, em 1927, 21,4% das mulheres já participavam dos conselhos. Mais que os números, emociona a descrição dos fatos. No item “O crescimento das camponesas”, conta sobre o Congresso das operárias e camponesas:

“uma camponesa sobe ao pódio e apresenta a ordem do dia. Todo mundo quer falar. (…) Se inscreveram mais de 200 pessoas. (…)

O Congresso é muito colorido. Mulheres de várias localidades nacionais vieram em seus trajes locais (…) Um monte de lenços vermelhos. As camponesas ouvem com atenção o discurso, com suas mão calejadas escrevem algo em seus cadernos, falando, olham em suas agendas. Alguém que conheceu antes a camponesa pré-revolucionária se surpreenderia antes de tudo pelo seu discurso. Ela diz com uma linguagem literária correta: ‘falando desta tribuna’, ‘resumindo o trabalho feito’ (…)”35

Outro texto marcante é Dias de Lenin. Foi proferido na conferência do Instituto de Pedagogia Marxista, quando ela contava sobre muitos aspectos de seu camarada e companheiro de vida:

“Ilitch gostava, por vezes, de olhar para o horizonte e sonhar com o futuro.”36

“Lembro-me de uma conversa com ele quando se encontrava doente. Eu cheguei e disse que tinha lido em uma revista americana que os americanos planejavam eliminar o analfabetismo em tal ano. E que não sabemos quando nós vamos conseguir eliminar o nosso. Ele falou: ‘Nós podemos eliminar o analfabetismo nesta mesma data somente sob a condição de que as massas conduzam esta tarefa.’ Este ‘se as massas conduzam’ é típico da visão de Vladimir Ilitich.”37

Em certo ponto, os operários solicitam à Krupskaya que conte suas lembranças sobre Lenin. Ela conta quando se conheceram, que naquela época (1894) ele estudava O capital com círculos de trabalhadores, pois achava que nada devia ser simplificado à classe, pois tinham a capacidade de compreender a ciência completa. Na outra metade do tempo da reunião, ele perguntava sobre suas condições de trabalho e vida. “Suávamos, com tantas perguntas que ele lançava”, lembrava um operário. Seu companheiro de vida ouvia com muita atenção tudo que os operários diziam e como diziam. E soube ensinar vários camaradas a fazer o mesmo.

Durante a vida de Lenin, os escritos de Krupskaya são estritamente sobre educação e tudo que ela envolve (as mulheres trabalhadoras, a sociedade, a cultura). Depois de sua morte, talvez para lidar com a saudade, talvez para reavivar o que Lenin ensinou ao partido bolchevique, o marxismo, em combate à degeneração stalinista, escrevia muito sobre ele.

Construir o partido revolucionário para transformar a educação

Em síntese, as conquistas da Revolução Russa para a educação:

  • Universalização da educação pública, gratuita, laica e única;
  • Erradicação do analfabetismo, educação inclusive para os adultos;
  • Formação imediata dos professores;
  • Educação como um processo criativo, não meramente instrutivo;
  • Autodireção local;
  • Atendimento imediato das demandas trabalhistas dos professores;
  • Ensino gratuito, presença obrigatória e custeio de todo material escolar, vestimenta e calçados para os estudantes;
  • Eliminação de qualquer divisão entre os professores;
  • Máximo de 25 estudantes por sala de aula;
  • Proibição de qualquer tipo de punição na escola;
  • Cancelamento de todos os exames;
  • Todas as escolas com supervisão médica regular;
  • Conselho escolar composto por professores e estudantes;

Os avanços que a União Soviética realizou na educação só foram possíveis porque os trabalhadores tomaram o poder após a revolução de 1917. Ao mesmo tempo, a condição necessária para que uma revolução seja vitoriosa é o partido. Krupskaya, Lenin e milhares de outros militantes dedicaram a vida para construir o partido bolchevique. Convidamos você a fazer o mesmo! Ingresse e ajude a construir a Esquerda Marxista, sessão brasileira da Corrente Marxista Internacional.

Lista de referências e livros indicados

Sabina Spielrein – de Jung a Freud, Sabine Richebächer

Literatura e Revolução, Leon Trotsky

Notas:

1- As tarefas revolucionárias da juventude, Lenin – https://www.marxists.org/portugues/lenin/1920/10/02.htm

2- ibidem

3- A construção da pedagogia socialista, N. K. Krupskaya, Expressão Popular – p. 21

4 – ibidem – p. 23

5 – ibidem – p. 24-25

6 – ibidem – p. 26

7 – ibidem – p. 28

8 – ibidem

9 – ibidem – p. 28-29

10 – ibidem – p. 45

11 – ibidem – p. 57

12 – ibidem – p. 39

13 – ibidem – p. 78

14 – ibidem – p. 34

15 – ibidem – p. 76

16 – ibidem

17 – ibidem – p. 39

18 – ibidem – p. 85

19 – ibidem – p. 86

20 – ibidem – p. 63

21 – ibidem – p. 71

22 – ibidem

23 – ibidem – p. 132-133

24 – ibidem – p. 134

25 – ibidem – p. 70

26 – A Pedagogia Waldorf é uma abordagem pedagógica baseada na filosofia da educação do filósofo austríaco Rudolf Steiner, fundador da antroposofia. A pedagogia procura integrar de maneira holística o desenvolvimento físico, espiritual, intelectual e artístico dos alunos. Na educação Waldorf, os professores não utilizam livro didático ou caderno pautado, não há boletins, nem computadores ou aparelhos eletrônicos. As cadeiras não são enfileiradas, não há lousa e, na educação infantil, o ambiente escolar é semelhante a uma casa, com cozinha e sala.

27 – ibidem – p. 76

28 – ibidem – p. 76-77

29 – ibidem – p. 77

30 – ibidem

31 – ibidem – p. 99

32 – ibidem – p. 102

33 – ibidem – p. 102

34 – Comunistas contra Stalin: o massacre de uma geração, Alan Woods – https://www.marxismo.org.br/comunistas-contra-stalin-o-massacre-de-uma-geracao/

35 – ibidem – p. 146-147

36 – ibidem – p. 156

37 – ibidem – p. 163-164

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