Porto Rico: Brutalidade policial no protesto contra a empresa elétrica privatizada LUMA

Na quinta-feira, 25 de agosto, a velha San Juan foi engolida por gases lacrimogêneos enquanto unidades antidistúrbios da polícia de Porto Rico voltavam a reprimir com brutalidade uma manifestação em frente ao palácio do governador. O protesto tinha por principal objetivo o cancelamento do contrato através do qual se privatizou o sistema de transmissão e distribuição de energia elétrica. A ira da população contra a empresa privatizadora LUMA chegou ao ponto de ebulição nesta semana, depois de uma série de acontecimentos que confirmaram a incapacidade da subsidiária das multinacionais Quanta Services e ATCO para administrar efetivamente a infraestrutura elétrica.

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Apenas durante o mês passado, pequenas avarias obrigaram vários hospitais a depender durante horas de geradores de emergência, provocando o cancelamento de consultas e procedimentos cirúrgicos. A frequência dos cortes de energia é de tal ordem que vários geradores em um hospital de San Juan entraram em colapso com o uso excessivo e deixaram sem energia os departamentos de pediatria e neonatal. Nesta mesma semana revelou-se que LUMA não registra as queixas recebidas por seu departamento de atendimento ao cliente e que manipula as estatísticas de interrupções do serviço. Isso, segundo empregados atuais e ex-empregados, os quais também alegaram terem sido hostilizados por tentarem dar apoio adequado aos clientes.

Desde a transferência da rede elétrica à corporação privada em junho de 2021, sua gestão desastrosa ficou evidenciada por explosões e incêndios em subestações elétricas por todo o arquipélago, por variações arriscadas na tensão recebida pelos clientes e pelas avarias cada vez mais frequentes e demoradas. Os problemas foram atribuídos à falta de experiência dos empregados contratados por LUMA, muitos são estrangeiros com altos salários, e ao fato de a força de trabalho ser muito menor que a mantida pela corporação quando era pública. Além disso, a própria Autoridade de Energia Elétrica (AEE) advertiu à LUMA que ela não está cumprindo com o seu dever de proporcionar manutenção às linhas elétricas.

Como resposta, na quarta-feira, 24 de agosto, o principal gerente executivo de Quanta Services, o texano Duke Austin, se apresentou ante o país pedindo desculpas, substituindo o detestado presidente de LUMA, o canadense Wayne Stensby. A fracassada estratégia de relações públicas tinha o objetivo de deter a onda de indignação que exige o cancelamento do contrato e que já encontra eco nas colunas de comentaristas influentes e que está colocando em risco a reeleição de funcionários do partido governante, o Partido Novo Progressista (PNP). No entanto, as promessas ambíguas e vazias de Austin ficaram muito longe de serem convincentes. Pior ainda, o truque de se rodear de empregados felizes resultou contraproducente, visto que logo se soube que muitos deles são ativistas do PNP que costumavam trabalhar na AEE, mas que obtiveram melhores salários em LUMA, em cargos para os quais não estão qualificados.

Nesse contexto, no início da tarde de quinta-feira, gente de todo o país começou a chegar à velha San Juan com o lema “Fora LUMA”, para exigir do governador Pedro Pierlusi que cancele o contrato. A convocação de uma concentração às 5 horas da tarde diante de La Fortaleza foi adotada por vários partidos políticos de oposição, por organizações de esquerda, sindicatos, grupos de cidadãos e até por associações profissionais, como o Colégio de Médicos. Apesar da amplitude ideológica da ação, a presença de políticos do Partido Popular Democrático, partido majoritário no legislativo e aliado do PNP em suas políticas de austeridade e de complacência com a Junta de Controle Fiscal, foi rejeitada pela multidão. Porta-vozes das organizações e dos cidadãos lançavam mensagens utilizando um sistema de som localizado em uma camioneta. Com a chegada da noite, o ambientalista Alberto de Jesús, conhecido como Tito Kayak, cruzou a barricada mantida pela polícia a alguns quarteirões do palácio e foi imediatamente detido. Mesmo quando terminada a atividade planejada, centenas de pessoas se mantiveram cantando lemas e fazendo soar suas caçarolas.

A natureza pacífica da manifestação mudou perto das 9 horas da noite quando os policiais regulares estacionados na barricada foram substituídos por unidades especializadas com equipamento de proteção dos pés à cabeça e portando armas antidistúrbios. Sua presença ameaçadora era respondida esporadicamente com o voo de um ovo podre ou com o odor desagradável de uma bomba fedorenta. Às 21h30 da noite, já muito molestada a sensibilidade dos efetivos militarizados, começou a soar o apito que anuncia a repressão. De início se sentiu o ardor do gás de pimenta dirigido ao rosto das pessoas em frente à barricada, entre eles, membros da imprensa e observadores credenciados. Quando isso só provocou que a multidão se afastasse alguns metros, foram ativadas as escopetas de gás lacrimogêneo.

Em meio à confusão, vários esquadrões de botas negras saíram de trás da barricada e se formaram para realizar o despejo. Quase toda a velha San Juan de paralelepípedos se converteu mais uma vez em cenário de uma luta de rua entre manifestantes que resistiam à ordem de dispersar e os agentes da força de choque que disparavam balas de borracha à queima roupa, pisoteavam e pateavam os que caíam no chão e gaseificavam pessoas que ainda não tinham se recuperado da investida anterior. Outras três pessoas foram violentamente detidas e deverão comparecer diante de um juiz em setembro para a apresentação de acusações criminais. Outras dezenas resultaram feridas, incluindo um trompetista de 70 anos e uma jovem mulher trans, que tiveram de ser levados ao hospital para a remoção de perdigões incrustados na pele.

No dia seguinte, o chefe da polícia, que permanece sob supervisão de uma corte dos EUA devido ao padrão de violações dos direitos civis, justificou a investida violenta alegando que seus agentes haviam sido agredidos com ovos, pedras e até uma pá, que resultou fazer parte dos adereços de um ator que se apresentou no protesto em seu personagem de Pateco, o coveiro. Uma nova convocação para a noite do sábado está circulando anonimamente nas redes sociais.          

Tradução de Fabiano Leite

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