O trotskismo e Cuba hoje

No dia 19 de agosto foi realizado um debate on-line sobre o tema “Os trotskismos e Cuba Hoje”, do qual participou Jorge Martin, dirigente da Corrente Marxista Internacional (CMI). Publicamos sua participação a seguir. Essa atividade fez parte do Simpósio Homenagem 80 anos Leon Trotsky, organizado pelo blog de esquerda cubano Comunistas e pela Libreria de la Paz. O mencionado debate pode ser visto de forma completa no vídeo aqui.

Esse debate, como se mencionou no início, é muito importante. Cuba não é importante somente em Cuba, é importante para a esquerda, para o movimento operário, para o movimento revolucionário marxista em todo o mundo, e é importante dispor de uma análise factual sobre esta questão.

A palestra se intitula “Trotskismo e Cuba Hoje” e tenho uma pequena emenda a fazer a respeito, porque, na realidade, em nome do trotskismo, foram ditas muitas barbaridades com relação a Cuba e vou defender um ponto de vista que, creio, é a continuação da tradição e do legado das ideias de Leon Trotsky. Mas, muitas vezes, por exemplo, na discussão com companheiros cubanos, nós apresentamos A Revolução Traída, de Trotsky, na Feira do Livro de Havana, há alguns anos, em uma sala totalmente cheia e muito interessada, e, às vezes, fujo do rótulo de trotskismo precisamente por isso, porque houve muita distorção a respeito.

Creio que é importante dar uma olhada à história revolucionária de Cuba porque na realidade se pode ver que há duas tradições que permeiam toda essa história revolucionária. Uma história revolucionária que se remonta à época da luta pela independência contra o império espanhol, a qual aconteceu, como não podia ser de outra forma em um país como Cuba, que é um país que chegou muito tarde à sua independência nacional; de fato, foi praticamente a última colônia a ganhar sua independência na América Latina. Restavam algumas colônias remanescentes, mas a última que conseguiu sua independência foi Cuba e a conseguiu em um momento em que já existia em Cuba uma classe operária com certo desenvolvimento com os operários do açúcar, do tabaco etc. Então, sempre houve um vínculo muito estreito entre a luta pela libertação nacional e [a luta] pela participação na mesma dos trabalhadores com suas próprias reivindicações, isto é, a luta pela libertação social. Isto se pode ver até mesmo, por exemplo, no Partido Revolucionário Cubano dirigido por Martí, cuja base principal, financeira e militante estava nos trabalhadores do tabaco de Tampa, em Florida, que proporcionavam as finanças, a força militante desse partido e havia sempre uma relação entre as duas coisas.

Essa relação também pode ser vista na fundação do Partido Comunista de Cuba e, sobretudo, na figura de Julio Antonio Mella, visto que foi ele quem propôs claramente, como estratégia para a Revolução Cubana, uma estratégia de Revolução Permanente; isso não quer dizer que ele tivesse lido Trotsky e sua análise de 1905, o que quer dizer é que naquela época, no início dos anos 1920, a estratégia justamente da Internacional Comunista era uma estratégia que combinava a Libertação Nacional com a Revolução Socialista, que afirmava que, nos países de desenvolvimento capitalista tardio, atrasados, a burguesia não podia desempenhar um papel independente. Mella dizia: “o ladrão Nacional diante do ladrão estrangeiro”, finalmente o ladrão Nacional, a burguesia nacional termina se aliando ao ladrão estrangeiro contra o próprio povo, a classe trabalhadora e os camponeses. Mella dizia que foi o fundador do Partido Comunista de Cuba e que tinha de Trotsky uma opinião favorável.

Também podemos ver essa vinculação entre a Libertação Nacional, a Luta pela Independência Nacional, a libertação da subjugação do imperialismo e a luta pela Libertação Social em outro personagem dos anos 1930, muito importante para a história revolucionária de Cuba, Antonio Guiteras. Era uma pessoa que provinha justamente do campo da Libertação Nacional, ao qual foi dotando gradativamente, embora de forma confusa, com ideias socialistas e há outra tradição em Cuba, que rejeitamos, que é a tradição stalinista, sobretudo a partir dos anos 1930. Uma tradição que, nos anos 1930, adota uma posição totalmente ultra-esquerdista e sectária com relação ao governo dos 100 dias, com relação a Guiteras e que desempenha um papel importante ao fazer fracassar a Greve Geral de 1933 e o processo revolucionário que nesse momento estava ocorrendo.

Posteriormente, adota uma posição totalmente traidora e oportunista quando se alia a Batista em 1942, com base na ideia de que o conflito é entre democracia e fascismo, no contexto da Segunda Guerra Mundial e que, portanto, como os Estados Unidos representavam a “democracia”, contra o fascismo, e Batista estava do lado dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial, então havia que se fazer uma aliança com Batista. Posteriormente, esta tradição stalinista adota uma posição abstencionista e contrária durante os primeiros embates da Guerra Revolucionária de 1956 e é justamente este fato, o fato da existência desta tradição stalinista, que tinha um apoio importante no Movimento Operário Cubano, o que faz com que os jovens de classe média, médicos, advogados, profissionais liberais, no começo da luta contra a ditadura de Batista, não se sintam atraídos pelo comunismo  porque o comunismo naquele momento estava representado justamente por esse partido que havia pactuado com a ditadura de Batista.

Então, há que se dizer que nós partimos da defesa da Revolução Cubana e de suas conquistas. A direção da Revolução Cubana não tinha uma perspectiva socialista, seu programa era um programa democrático, nacional, avançado, progressista, anti-imperialista, mas não era um programa socialista sob nenhum ponto de vista, como se pode ver ao se ler os documentos daquele momento. Ao chegar a guerrilha ao poder, em 1 de janeiro de 1959, quando se produz o fato fundamental naquele momento ante a fuga de Batista e a tentativa de substituição do regime, é a Greve Geral que paralisa Havana durante uma semana e que destrói o aparato do Estado até o momento em que a guerrilha entra em Havana. Quando a direção guerrilheira do Movimento 26 de Julho, Fidel e Raul Castro, Che, Camilo Cienfuegos, entre outros, chegam ao poder ao contrário de outras ocasiões, eles se mantêm consistentes na hora de realizar completamente o seu próprio programa, um programa Democrático Nacional.

Os primeiros enfrentamentos que se produzem em Cuba entre os democratas burgueses e a direção revolucionária o foram justamente à raiz da aplicação da reforma agrária, porque a reforma agrária em Cuba, como explica a teoria da Revolução Permanente, não atinge apenas aos proprietários agrícolas, mas estes proprietários agrícolas em muitos casos tinham ligações com o imperialismo. Eles tinham laços com a burguesia nacional, laços com a burguesia internacional e, à medida que se vai avançando nessa direção, os representantes da burguesia progressista desaparecem, se demitem do governo, enfrentam a revolução e a revolução continua avançando e, no período de 1959-1962, se produz uma série de expropriações, cada vez mais amplas até o final de 1962; o capitalismo já não existe em Cuba, foi abolido. Todas as propriedades da burguesia nacional e da burguesia estrangeira, especialmente a norte-americana e canadense também, foram expropriadas: bancos, grandes empresas do setor público, do setor privado, manufatureiros, agrícolas etc. É a primeira vez no hemisfério ocidental que se produz a abolição do capitalismo e a criação de um Estado que não é capitalista e é sobre essa base material que se assentam todas as conquistas da Revolução Cubana, que não são poucas. Se se descreve Cuba como um país capitalista, não se pode explicar de onde saíram essas conquistas. A reforma agrária, a alfabetização, todos os avanços tão extraordinários que a Revolução Cubana logrou no terreno da educação, da saúde, do saneamento, de seus habitantes, da moradia, por exemplo, se produz a abolição dos aluguéis, a proibição dos despejos etc.

Tudo isso são conquistas cuja base material é justamente a abolição do capitalismo. Conquistas que continuam existindo até hoje, é certo que agora estão em erosão, estão debilitadas, mas de uma forma ou de outra continuam existindo e o ponto de partida, para nós, como creio, tem que ser a defesa dessas conquistas, a discussão de como se pode defender essas conquistas. Além disso, creio que há a adicionar que a Revolução Cubana é uma confirmação digamos negativa da teoria da Revolução Permanente. Uma das coisas que afirma a teoria da Revolução Permanente é que a burguesia nacional de países capitalistas dominados não pode levar à frente, é incapaz de levar à frente nenhuma dessas tarefas da revolução democrática nacional que possam estar pendentes, e nesse caso isso se confirmou. A burguesia nacional não foi capaz de levar à frente nenhuma dessas tarefas e foi contra a burguesia nacional que foram realizadas. Além disso, é uma confirmação de uma perspectiva que Trotsky havia traçado no Programa de Transição onde ele diz, embora não fosse a perspectiva mais provável, que, em alguns casos, direções pequeno-burguesas, em determinadas condições, podem se ver obrigadas a ir mais além de suas próprias intenções e completar a tarefa da abolição do capitalismo. Então, obviamente, a Revolução Cubana significou uma ruptura frontal de 180o, partindo de uma linha de 90o com a linha que apoiava a União Soviética, que era a linha da coexistência pacífica, e a liderança cubana se propôs a necessidade de estender a revolução a outros países e se travou uma batalha muito forte durante o início da década de 1960 nesse sentido: uma batalha que era contra a burocracia soviética. Essa batalha fracassou, a Revolução Cubana ficou isolada e Che Guevara, que quiçá representava mais claramente essa perspectiva, morreu na tentativa e a Revolução Cubana ficou isolada. Também a levou a uma aproximação muito mais estreita com a União Soviética, a uma dependência econômica, política e, em todos os aspectos, que solidificou uma série de deformações burocráticas que existem em Cuba, que são o resultado do isolamento da revolução. A vinculação com a União Soviética e também o próprio modo como se conquistou o poder, através de um grupo guerrilheiro, que obviamente era um grupo sem disciplina militar, hierarquizado de cima para baixo e sem a existência de autênticas organizações de democracia operária e de expressão própria da classe trabalhadora por baixo. A revolução tinha o apoio de massas, mas não era uma participação genuína nem uma verdadeira democracia operária.

Quando caiu a União Soviética, com a qual obviamente Cuba tinha relações econômicas muito estreitas que eram muito favoráveis a Cuba, Cuba sobreviveu e isso em certa medida nos confirma a vitalidade própria que a Revolução Cubana tinha. A liderança cubana que se encontrava no poder em 1989-1990 era a mesma que havia levado à frente a Revolução, tinha um vínculo direto com a Revolução de 1959, à diferença da liderança soviética de 1989, que não tinha nenhum vínculo, que estava separada por um rio de sangue da liderança que havia liderado durante a Revolução em 1917. A queda da União Soviética gerou uma série de debates muito importantes dentro de Cuba do que se passou com a União Soviética etc.

Também as implicações que isso teve para Cuba, disse antes que nesses debates se expressaram numa multidão de aspectos, mas um deles foi, por exemplo, o fato de que nós estivemos na Feira do Livro de Havana apresentando publicamente e de forma oficial o livro A Revolução Traída de Trotsky, e as pessoas que se encontravam nesse ato não estavam somente pensando no que se passou na União Soviética, mas estavam pensando em Cuba, e esse livro é fundamental para se entender o caráter da burocracia.

Hoje, a Revolução Cubana está ameaçada, está ameaçada em primeiro lugar, e suas conquistas estão ameaçada em primeiro lugar pelo imperialismo, sobretudo dos Estados Unidos, que durante 60 anos tratou de asfixiar, enforcar e destruir a Revolução Cubana porque representa uma ameaça o fato de que exista um país que não esteja submetido ao imperialismo onde as multinacionais capitalistas não estão à vontade e onde o capitalismo foi abolido a 90 milhas da potência imperialista mais importante do mundo; isso é algo bastante significativo. Também que o imperialismo estadunidense tratou de impedir por todos os meios ao seu alcance. Também está ameaçada por outra estratégia do imperialismo, o imperialismo canadense e europeu, que tratam de destruir a Revolução Cubana através de investimentos, através da penetração do mercado mundial do capitalismo dentro das estruturas da débil e maltratada economia cubana. Ambas são uma ameaça e, na realidade, mesmo dentro dos Estados Unidos se poderia dizer que estão representadas pela política seguida por Trump, a política que seguiu os Estados Unidos antes, e, ao contrário, a política que tratou de seguir Obama durante certo período de tempo, a abertura de relações, a abertura de negócios, de investimentos etc. É uma outra forma de destruir a Revolução Cubana, em vez do bastão, da polícia, do golpe forte, é o abraço de urso do capitalismo mundial.

Mas também a Revolução Cubana e suas conquistas estão ameaçadas por aqueles que na liderança cubana defendem a via chinesa, ou, melhor dizendo, como se diz normalmente em Cuba, a via vietnamita. Ou seja, a restauração do capitalismo, da dominação do capitalismo na ilha de forma plena, via esta em que já se avançou até certo ponto. Enquanto isto, essa restauração estava sendo realizada pelo partido comunista continuando no poder, isto é, a via chinesa ou a via vietnamita, a restauração capitalista controlada por cima que já começou a ser realizada.

Finalmente, diante desta situação, queremos dizer que nós, a Corrente Marxista Internacional, estamos em primeiro lugar pela defesa incondicional da Revolução Cubana contra esses perigos: tanto o perigo do imperialismo como o perigo da restauração capitalista interna, e que a saída, na medida em que os problemas enfrentados pela Revolução Cubana provêm principalmente de seu isolamento, do isolamento da revolução em um país pequeno, atrasado, a 90 milhas dos Estados Unidos, é, em primeiro lugar, a democracia operária para acabar com a burocracia que atrapalha os meios de produção nacionalizados, e a Revolução Internacional, isto é, o processo revolucionário em outros países, que termine com o capitalismo e venha em ajuda da Revolução Cubana e ambas as coisas, a luta pela democracia operária autêntica e a luta pela Revolução Internacional, no caso da defesa da Revolução Cubana, estão intrinsecamente ligadas uma com a outra.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM MARXISMO.MX

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