O racismo enquanto mecanismo de divisão

Os preconceitos ou ressentimentos em relação a um “estranho” e ao menosprezo por ele são tão antigos quanto a própria sociedade de classes. Assim, já na Grécia antiga aqueles que não falavam grego eram chamados de “bárbaros” (como os persas, os macedônios, os celtas etc.). Em escritos, peças de teatro e discursos públicos, eles eram classificados como violentos, totalmente despóticos e espiritualmente inferiores em relação aos gregos. Os romanos, que se definiam como os herdeiros da cultura grega, adotaram o topos “bárbaro”. Na Idade Média europeia e cristã, os não-cristãos, principalmente os judeus e muçulmanos, eram vilipendiados como “diabólicos” e “não civilizados”. Eles eram acusados de todo tipo de atrocidade. Mas isso não era tudo. A primeira cruzada, em 1096, anunciou uma série de terríveis pogroms contra os judeus no leste da França, no vale do Reno e em outras localidades. Séculos marcados por terríveis perseguições e expulsões de não-cristãos da Europa tiveram início. Um dos momentos mais lúgubres foi a Reconquista, a “retomada” cristã da Península Ibérica durante a Idade Média e no início da Idade Moderna. No processo de expulsão dos governantes muçulmanos, os judeus e muçulmanos foram sistematicamente expulsos ou obrigados a aceitar o cristianismo.

Origem e definição

Diante desses fatos, alguns universitários como o antropólogo político e social Cedric Robinson afirmam que o racismo é um fenômeno particular europeu de origem pré-capitalista. Existem até psicólogos como Juliane Degner que chegam à “constatação” de que isso é inerente à própria “natureza humana” e que isso está intimamente associado ao desenvolvimento de uma identidade individual.

No entanto, essas afirmações não resistem a uma análise mais aprofundada. Por exemplo, o historiador Frank M. Snowden Jr. observa que a interação social entre negros e brancos ou pessoas de pele clara e pele escura de acordo com os gregos e romanos não resultou em preconceitos fundamentados em características biológicas como em certas sociedades ocidentais posteriores. Eles não desenvolveram teorias acerca da superioridade dos brancos. O exemplo mais notável é o caso do púnico (nome romano para os fenícios semitas) Septímio Severo, imperador romano entre 193 e 211 d.C., que quase certamente tinha uma pele muito escura. Uma das principais características da antiguidade romana era o esforço por parte das elites sociais para integrar os aristocratas locais a uma classe imperial dirigente que compartilhava uma cultura que consistia na fusão de tradições gregas e romanas. Um outro exemplo dessas sínteses culturais da Europa antiga é o helenismo, a fusão das culturas grega e oriental, em especial a cultura persa, com o início do reinado de Alexandre, o Grande (336 a.C.) É verdade que os “bárbaros” foram diversas vezes desacreditados pelas elites gregas e romanas com o intuito de mobilizar as classes social e politicamente desfavorecidas para campanhas de guerra ou para legitimar sua própria dominação. Contudo, historiadores da Grécia antiga como Heródoto (século X a.C) ressaltavam a dependência da Grécia no tocante a influências africanas e asiáticas. Embora eles muitas vezes insultassem os persas, por exemplo, eles, em princípio, os respeitavam. Heródoto os considerava até mesmo capazes de pensar como os gregos.

As perseguições, os abusos e a discriminação contra os não-cristãos, principalmente judeus e muçulmanos, na Idade Média europeia também não se trata de racismo. Esses acontecimentos eram expressões de uma opressão religiosa da qual, ao contrário da opressão racista, é possível escapar ao mudar de crença. O que era realmente surpreendente nas antigas sociedades escravagistas e feudais da Europa pré-capitalista é que não havia uma ideologia como o racismo, que sistematicamente excluía ou subjugava um grupo em especial por conta de sua posição social inferior. Isso nem mesmo é necessário em uma sociedade rigorosamente hierarquizada, na qual as pessoas são divididas (geralmente desde o nascimento) em pessoas livres e escravos, ou em categorias e castas. A desigualdade e a exploração associadas a isso são profundamente ancoradas no direito e na cultura cotidiana. Isso era visto claramente como a norma por todos. Uma sociedade baseada na exploração do trabalho não-livre, seja na forma de escravidão ou servidão, não precisa de racismo. Ela não precisa de uma ideologia que alega que a humanidade é dividida em raças com base em características biológicas e psicológicas, o que resulta em uma hierarquia racial e legítima, legitimando, portanto, a exploração de “raças dominadas e subdesenvolvidas” por “raças dominantes e altamente desenvolvidas”.

Racismo e capitalismo

Na verdade, o surgimento do racismo está intimamente associado à implantação do modo de produção capitalista. Ele surgiu no decorrer de uma fase de extrema importância do desenvolvimento do capitalismo no modo de produção globalmente dominante, uma fase que nós, marxistas, chamamos de “acumulação primitiva”.

A fim de estabelecer plantations coloniais no Novo Mundo a partir do século XVII, escravos negros vindos da África eram explorados com o intuito de produzir bens de consumo como tabaco e açúcar, além de matérias-primas industriais como algodão e tinturas para o mercado mundial. O racismo surgiu pela primeira vez na tradição oral em Barbados no século XVII, tendo sido cristalizado na imprensa escrita na Grã-Bretanha no século XVIII como a ideologia da aristocracia das plantations, a classe de proprietários de terras e comerciantes de escravos que dominavam as colônias caribenhas do Império.  Então, o racismo se espalhou por outros poderes coloniais europeus como a França. Na França, como na Grã-Bretanha, o racismo se tornou a ideologia da classe dominante. Assim, David Hume, célebre filósofo escocês do Iluminismo, escreveu que ele estava inclinado a “suspeitar que os negros e, em geral, todos os outros tipos de homens são naturalmente inferiores aos brancos”. Voltaire, um dos filósofos mais influentes do Iluminismo, afirmou ainda que “a raça negra (…) não é apenas diferente da nossa (a raça branca), sendo bastante inferior”. Portanto, o racismo é a consequência da escravidão moderna. Isso, no entanto, levanta a questão por que ele não foi criado pelos escravistas da Antiguidade.

A resposta é: a produção capitalista, ao contrário da produção pré-capitalista, é baseada na exploração do trabalho (assalariado) livre. Os trabalhadores assalariados são, como afirma Karl Marx, “livres em um duplo sentido, livres das antigas relações de dependência, de restrições e escravidão, e – em segundo lugar – livres de todo tipo de posse em qualquer aspecto objetivo e material, livres de toda propriedade”. Não é a subordinação legal e política dos trabalhadores aos capitalistas o elemento fundamental da exploração capitalista, mas sua exclusão dos meios de produção e da venda da força de trabalho resultante disso. Assim, ambos encaram o mercado de trabalho como adversários legalmente em igualdade. Os trabalhadores são livres para não venderem sua força de trabalho. O fato é que eles são economicamente compelidos a fazê-lo para adquirir um meio de subsistência, para poder comprar qualquer coisa para comer, beber, vestir, viver etc. Essa contradição entre a igualdade formal e a desigualdade material entre o capitalista e o operário é a característica fundamental da sociedade burguesa. Dessa forma, os iluministas e as grandes revoluções burguesas a eles associadas, que eliminaram os obstáculos no caminho para a supremacia do modo de produção capitalista, mobilizaram as massas sob a bandeira da “liberdade e igualdade”. Entretanto, o capitalismo simultaneamente se beneficiou da escravidão colonial. Essa relação continuou durante a época da Revolução Industrial, como na indústria têxtil inglesa, que comprava algodão das plantations de proprietários de escravos.

A escravidão ainda existe em algumas regiões do mundo. Contudo, com o desenvolvimento do capitalismo e da sociedade burguesa a ele associada, o trabalho servil se tornou cada vez mais uma exceção contraditória, que precisa de uma explicação. Dessa forma, impôs-se a ideia de que os negros (ou pessoas de outras “raças”) eram “sub-humanos” (ou pessoas não reais), não merecendo, portanto, o mesmo status de homem livre, que era cada vez mais reconhecido como um direito humano.

O racismo serviu principalmente para deslegitimar os levantes dos escravos coloniais. O exemplo mais conhecido é a Revolução Haitiana. Ela teve início em 1791 com uma revolta de escravos na colônia francesa do Haiti, que invocou o conceito de direitos humanos da Revolução Francesa.

As funções sociais

A proibição da escravidão (como na Grã-Bretanha em 1807 e na França em 1848) não pôs fim ao racismo. Ele até se desenvolveu cada vez mais. Entre 1840 e 1940, houve uma verdadeira explosão jornalística de uma mitologia racial nos Estados-nação imperialistas. Essa mitologia foi incorporada a uma biologia racial pseudocientífica, que era uma versão vulgar da seleção natural de Darwin. Enquanto o racismo servia, em sua origem, para legitimar a escravidão em um contexto capitalista emergente, sua abolição oficial teve a função de justificar a dominação imperialista ocidental sobre o mundo enquanto produto da “superioridade inerente” da “raça branca”. O motivo central era a ideia de que a constituição biológica e psicológica de africanos, asiáticos e povos nativos de outros continentes exigia que eles fossem governados pelos brancos, cujo dever era governar o mundo em nome de seus súditos. Dessa forma, o racismo legitimou relações de trabalho extremamente explosivas e o roubo de matérias-primas e de terras nas colônias em nome do capital.

No contexto da concorrência entre os grandes poderes, o racismo se misturou ao nacionalismo imperialista, com os teóricos de raça reivindicando a “pureza racial” de suas próprias nações. Assim, o aristocrata e diplomata francês Arthur de Gobineau, um dos fundadores da mitologia racial moderna, afirmou que a “raça ariana”, a “raça branca primitiva culturalmente produtiva” havia sido preservada, preservada, especialmente na aristocracia francesa e nas classes médias altas. Houston Stewart Chamberlain, admirador de Wagner e da Alemanha, cuja obra influenciou consideravelmente Adolf Hitler e Alfred Rosenberg, líder ideológico nazista, afirmou o mesmo em relação aos alemães.

Hoje em dia, o imperialismo não utiliza mais o racismo biológico abertamente. As investidas imperialistas mundiais são agora justificadas pela “exportação da democracia, do Estado de direito e dos valores europeus do Iluminismo” para sociedades ainda não tão “desenvolvidas”. As culturas “subdesenvolvidas”, principalmente muçulmanas, devem ser “civilizadas” e “libertas” do terrorismo islâmico. As intervenções dos Estados Unidos e de seus aliados no Iraque e Afeganistão, ambos extremamente ricos em termos de matérias-primas, foram notadamente justificadas por esta propaganda.

Porém, o racismo não é somente utilizado para justificar a dominação mundial (seja real ou exigida) das frações nacionais do capital das várias potências imperialistas. Ele também possui uma função estabilizadora. Karl Marx foi o primeiro a reconhecer isso, tomando como exemplo a Inglaterra:

“O essencial é que todos os centros industriais e comerciais da Inglaterra têm agora uma classe operária dividida em dois campos inimigos: proletários ingleses e proletários irlandeses. O operário inglês comum detesta o operário irlandês como um concorrente que rebaixa seu nível de vida. Em relação ao operário irlandês, ele se sente como membro de uma nação dominante e se torna, desta forma, um instrumento de seus aristocratas e capitalistas contra a Irlanda.

Assim, ele consolida seu poder sobre si próprio. Ele abriga preconceitos religiosos, sociais e nacionais contra o operário irlandês. Ele se comporta em relação a ele mais ou menos como os brancos pobres contra os negros nos antigos estados escravistas dos Estados Unidos. O irlandês lhe paga na mesma moeda. Ele vê no operário inglês simultaneamente o cúmplice e o instrumento cego da dominação inglesa na Irlanda. Este antagonismo é mantido artificialmente e atiçado pela imprensa, pelos sermões, revistas humorísticas, enfim, por todos os meios de que dispõem as classes no poder. Este antagonismo constitui o segredo da impotência da classe operária inglesa, a despeito de sua organização. É também o segredo da força persistente da classe capitalista, que disto se dá conta perfeitamente” (Karl Marx, Carta a Sigfrid Meyer e August Vogt, 9 de abril de 1870).

Aqui, Marx se refere à competição econômica dos trabalhadores na luta diária por salários, pão e empregos como a base material do racismo. No capitalismo, existem modelos específicos de acumulação do capital, ou seja, diferentes ramos e fases de produção com uma intensidade de trabalho distinta e diferentes níveis de qualificação exigidos da força de trabalho. Isso exige uma adaptação específica dos trabalhadores, que se traduz no mercado de trabalho por diferentes níveis de renda. Especialmente em períodos de renovação do capital, quando uma parte da força de trabalho é rebaixada, os capitalistas tendem a substituir trabalhadores qualificados por trabalhadores não-qualificados e, portanto, mais baratos. Frequentemente, os trabalhadores estrangeiros altamente qualificados e, portanto, mais caros são também considerados como subqualificados pelas autoridades estatais, tornando sua exploração por empresários mais lucrativa. Os complicados procedimentos de reconhecimento de diploma exigidos, por exemplo, na Áustria para reconhecimento de qualificações obtidas no exterior constituem um exemplo particularmente notável deste processo. Em suma, por conta de trabalhadores bem pagos, socialmente seguros e, portanto, mais caros, o capital também precisa de trabalhadores que trabalhem duro, sejam mal pagos, mal segurados socialmente e mal vistos que, principalmente em tempos de crise, possam ser instrumentalizados como meio de pressão para impor um dumping salarial geral e cortes sociais. Eles nem sempre são recrutados por vias legais. Os inúmeros trabalhadores estrangeiros não declarados na indústria austríaca de construção civil ou os refugiados sírios que trabalham ilegalmente em fábricas têxteis turcas, ambos desprovidos de seguridade social e sem proteção de direitos trabalhistas, que é onerosa para o capital, são apenas dois exemplos entre muitos outros. A discriminação estrutural contra os negros nos Estados Unidos ou contra os roma na Europa Oriental evidencia que os estrangeiros não são necessariamente indispensáveis a esses processos de exploração. Basta ter uma cor de pele distinta da maioria.

Quando esses dois grupos de trabalhadores, os bem pagos e os mal pagos, são de nacionalidades e/ou têm cor de pele diferentes, falando talvez línguas diferentes, existe o potencial para um desenvolvimento de divisões raciais entre eles. Isso não significa que o racismo seja simplesmente adquirido e acumulado, como se alguns poucos propagandistas fossem suficientes para atrair racistas. Em vez disso, ele é imposto aos trabalhadores todos os dias. A competição e a diferenciação entre trabalhadores prevalecem nas fábricas e na procura por trabalho, assim como um medo constante de uma possível deterioração das condições materiais de vida. Isso incentiva o racismo.

Embora o capitalismo, com sua concorrência salarial, forneça a base material do racismo entre os trabalhadores, é preciso ressaltar que isso não se trata de um produto do próprio movimento operário. Todos os teóricos racistas eram aristocratas ou (pequenos) burgueses com um ponto de vista de classe claramente antiproletariado. Eles ainda o são, como o ex-banqueiro Thilo Sarrazin, o editor e publicitário Götz Kubitschek ou então o ex-diplomata e professor universitário Tomislav Sunic. Os partidos revolucionários do movimento operário, em particular, tomaram uma posição clara contra qualquer divisão da classe trabalhadora desde seu início. Mesmo Marx reconheceu que a classe dirigente utiliza conscientemente o racismo para dividir os trabalhadores, enfraquecendo-os nas lutas de classes do capitalismo e tornando-os mais controláveis politicamente. Entretanto, isso não ocorre como parte de uma conspiração oculta e secreta, mas como uma organização ostensiva e ativa das relações de poder capitalistas. Pois existe um contexto socioeconômico objetivo no qual ocorrem essas divisões racialmente motivadas.

Contudo, o racismo é extremamente atraente para a classe operária. Ele oferece aos trabalhadores da “raça” ou “cultura” opressora uma compensação imaginária pela exploração e humilhação por eles engendrada no cotidiano do capitalismo. Ele constrói um imaginário de pertencimento à parte “iluminada” e “civilizada” da sociedade. Isso cria uma identidade de trabalhadores e capitalistas “racialmente” ou “culturalmente igual”, sugerindo interesses comuns a essas duas classes, tendo, portanto, um efeito estabilizante sobre o sistema. Em lugar da luta de classes, o racismo propaga uma neutralidade de classe, uma comunidade de “nacionais”, “honestos”, “trabalhadores” e “contribuintes”. Não é o patrão, banqueiro ou representante da classe dirigente que deve ser culpado pelas más condições de trabalho, diminuição de salários, cortes sociais e perdas de emprego, mas o “estrangeiro”, o “solicitante de asilo” e o “parasita social”. Isso permite a implantação de cortes gerais no sistema público de saúde e social à custa das massas. Diante da diminuição ou estagnação dos salários reais, mais e mais trabalhadores não querem financiar tais “parasitas” e “estrangeiros” com seus impostos e contribuições.

Assim, esquece-se facilmente que, dada a grave crise sistêmica e seu crescente desemprego maciço, mais cedo ou mais tarde isso também poderá afetar você. O debate atual acerca da seguridade mínima é um bom exemplo. Enquanto o ÖVP (partido nacionalista de Kurz) e o FPÖ (segundo partido nacionalista) inicialmente exigiam “apenas” uma redução da seguridade mínima para os refugiados, sua redução geral está agora sendo colocada em discussão: auxílio por outros meios em vez de subsídios pecuniários e com um limite máximo de 1.500 euros para famílias, nacionais e estrangeiras, principalmente devido à “crise dos refugiados”. Mas o ponto principal é que os bilhões em créditos hipotecários serão oferecidos pelo governo federal.

Portanto, não é surpreendente que o racismo esteja em alta, especialmente em tempos de crise. Desde o início da mais grave crise do capitalismo em 2007, houve uma verdadeira explosão dessa ideologia em alguns países, especialmente onde há falta de alternativas políticas de esquerda. Porém, esse novo racismo, cujas raízes se encontram na década de 1970, não contesta a superioridade biológica de certas raças, mas as diferenças culturais de grupos étnicos. Com relação ao terror nazista, o Holocausto e a refutação científica acerca da existência de raças humanas por parte da genética e biologia molecular abertamente tornaram o racismo biológico moralmente indiscutível e politicamente inaceitável. Mas essa mudança não deve ser superestimada.

Primeiramente, o racismo biológico ainda existe, como nas tentativas sociobiológicas de explicar biologicamente as desigualdades sociais ou na opinião segundo a qual o fraco desempenho dos negros americanos em testes de inteligência era um reflexo das diferenças hereditárias entre eles e os brancos. Em segundo lugar, a ideia de que nos negros são intrinsecamente subordinados aos brancos ainda faz parte de um racismo muito popular. Portanto, a ideia de diferença cultural tende a ser uma roupagem convencional. Consequentemente, a utilização de palavras aparentemente inofensivas em declarações públicas significa um apelo tácito e codificado para atitudes racistas maliciosas. Por exemplo, termos atualmente utilizados como “onda de refugiados”, “influxo de refugiados” ou “jorrada de refugiados” sugere que as pessoas que fogem de perseguições, da morte e da fome são uma catástrofe natural e – portanto – um perigo. Em terceiro lugar, as “identidades culturais” ou “étnicas” que substituem o termo “raça” em debates “amigáveis” abarcam cada vez mais características maléficas e estereotipadas do racismo à antiga.

A “moral” e a “cultura” são vistas como um destino do qual as pessoas não podem escapar. Embora elas sejam reconhecidas como um produto da história, elas não podem mais ser alteradas pela ação humana, ou até podem, mas apenas com certa dificuldade: Na prática, elas se tornaram parte da natureza. Se há espaço para modificação, isso só poderia ocorrer (parcialmente) por meio de uma “educação”, “formação” e “ensino de valores europeus” coerentes, sob a liderança do “Ocidente civilizado”. A ideia de que é impossível para europeus e não europeus viverem juntos na mesma sociedade está se tornando cada vez mais dominante, e não apenas entre os neofascistas ou extremistas de direita. Assim, além do FPÖ, os partidos no poder na Áustria, o SPÖ e o ÖVP exigem com grande clamor a fixação de limites máximos, asilos temporários, segurança militar nas fronteiras e repatriamento de refugiados, principalmente daqueles que vêm da Síria, Iraque, Afeganistão e focos de agitação na África, para evitar “dificuldades de integração” e uma “invasão pacífica”. No linguajar liberal, isso significa “interromper a infiltração estrangeira”. O objetivo é o mesmo: tornar mais difícil ou impedir a imigração de pessoas com base em sua origem. Essa suposta incompatibilidade de culturas é sustentada por crimes, muitos dos quais exagerados e muitas vezes até mesmo inventados. O Islã em especial funciona como uma tela de projeção para todos os males deste mundo. No Ocidente, o racismo ou a islamofobia substituíram quase que por completo o antissemitismo, que hoje é abertamente propagado apenas por nazistas incorrigíveis e marginais de extrema direita. Esses dois exemplos são formas de racismo e têm uma função estabilizadora para o sistema.

O antissemitismo, que floresceu durante as graves crises econômicas de 1873 a 1890, principalmente na Alemanha e na Áustria, e que atingiu seu cruel apogeu sob a forma nazista, serviu ao capitalismo estagnado ao colocar o capital “de interesse judeu” contra o capital “de produção alemão”. Assim, o “bom” dono da fábrica, “pé no chão” e “alemão” foi isentado de qualquer responsabilidade pela exploração e crise do sistema, enquanto o capitalismo financeiro “judeu”, “ganancioso” e “sanguessuga”, sob a forma de “plutocrata” e “usurário”, era o responsável por tudo. Portanto, a crise do capitalismo foi construída a partir de um problema sistêmico e culminou em uma conspiração contra um grupo de pessoas “estrangeiras”. A solução para o problema consistia em eliminar esse grupo de pessoas, mantendo, ao mesmo tempo, as relações de propriedade capitalistas.

Hoje em dia, o Islã e os muçulmanos servem de bode expiatório para toda a barbárie de condições predominantes. Assim, em face do terrorismo islâmico, que emana de uma pequena, porém ruidosa, minoria reacionária do Islã, a revista de notícias austríaca “Profil”, que há muito deixou de ser liberal de esquerda, publicou a seguinte manchete: “O que torna o Islã perigoso”. Tratava-se principalmente de acontecimentos em Colônia e algumas agressões sexuais contra mulheres por parte de refugiados (como em Salzburgo), ou então o caso de um iraquiano que havia estuprado um menino de dez anos de idade em uma piscina coberta em Viena-Meidling, no contexto de um ataque midiático e de uma propaganda política da classe dirigente, que transformam a imagem de muçulmanos e árabes de terroristas para sexistas e estupradores. Na Áustria, destaca-se a fação mais reacionária da burguesia, o FPÖ. Assim, Herbert Kickl, secretário-geral liberal, membro do Conselho Nacional e diretor-geral do Neue Freie Zeitung disse:

“Para aqueles que ainda não perceberam que não é uma boa ideia deixar dezenas de milhares de jovens homens de estados árabes entrarem no país sem controle, espera-se que o assunto já tenha sido esclarecido”.

A organização de extrema direita PEGIDA também avançou. Ela publicou o seguinte no Facebook: “Manter uma pequena distância não nos protege de ataques sexuais e de outros tipos, mas uma distância mediterrânea sim”. Os autoproclamados defensores dos direitos da mulher estão transformando o sexismo e a opressão das mulheres em um problema importado. Porém, a violência sexualizada contra as mulheres não é um privilégio apenas dos imigrantes. Por exemplo, na Áustria (mas não apenas), quase 75% das mulheres são vítimas de assédio sexual. Uma em cada três mulheres sofre violência sexual, e uma em cada quatro destas é estuprada. Isso significa que 7% das mulheres são estupradas pelo menos uma vez na vida. Em 80% dos casos de violência sexual, o perpetrador é alguém conhecido da mulher e, no caso de assédio sexual, a mulher conhece o perpetrador em 60% dos casos. A maior parte das violências sexuais ocorrem, portanto, dentro da família ou círculo de amigos. Podemos constatar o quão séria a direita realmente é com relação aos direitos da mulher quando ela culpa mais uma vez os abrigos para mulheres agredidas pelo fracasso de casamentos, ao mesmo tempo em que minimiza apalpadas inapropriadas, fala com nostalgia sobre os “bons velhos tempos” quando “os homens ainda podiam ser homens”, agride mulheres de esquerda e incita críticos a estuprá-las.

A esquerda e o antirracismo

Em diversos partidos de esquerda, a visão liberal tradicional (de esquerda), segundo a qual o racismo é uma questão de atitude, está firmemente estabelecida. Eles tentam lutar contra isso através de apelos morais. A opinião segundo a qual o racismo é um problema de educação está estritamente associada a essa questão. Ambas estão erradas. Por um lado, cada vez mais camadas de trabalhadores “comuns” tomam consciência de que “os que estão acima” são seus inimigos, principalmente nesse período de crise sistêmica e com a ofensiva cada vez maior do capital contra o padrão de vida das massas assalariadas. Contudo, ao mesmo tempo, existem preconceitos racistas na classe operária.

Entretanto, eles são repudiados quando os conflitos sociais se desenvolvem. As greves e as manifestações ocorridas nos últimos anos na Espanha, Grécia, Portugal ou Itália, nas quais trabalhadores nacionais e estrangeiros, de pele clara ou escura, tomaram em conjunto as ruas e lutaram lado a lado nas fábricas, são exemplos mais recentes disso. Por outro lado, um nível elevado de educação formal ou de estudos universitários não constitui garantia de que alguém é antirracista.

Recentemente, por exemplo, uma pesquisa anônima realizada na Universidade de Colônia, segundo a qual mais de 50% dos alunos expressaram opiniões racistas, e um concerto da Filarmônica de Colônia, que teve que ser cancelado por conta de reprimendas racistas dos espectadores direcionadas contra o cravista iraniano Mahan Esfahani, chocaram o público. O pertencimento à classe média (educada) não leva ao antirracismo; isso apenas leva ao fato de que preconceitos racistas podem ser formulados de forma mais eloquente, mais conclusiva e mais argumentada.

Dessa forma, o racismo não é uma “coisa da cabeça”, uma questão de ideias ou uma questão de educação. Ressaltar sua característica não científica ou o trabalho educacional realizado para reduzir preconceitos pode ser útil para lidar com preconceitos, mas não é suficiente para superá-los. Para alcançar este objetivo, devemos identificar suas reais origens e suas funções sociais, além de combatê-las. O racismo serve para oprimir e ao mesmo tempo dividir os oprimidos. O racismo é um produto do capitalismo com sua estrutura social de exploração e suas desigualdades sistemáticas na distribuição de riquezas e oportunidades de vida. O racismo está enraizado e estreitamente associado a ele. As pessoas permanecem ou se tornam racistas desde que obtenham benefícios materiais ou sejam convencidas a fazê-lo. Portanto, ele floresce principalmente na crise do sistema e no aumento das lutas dele decorrentes.

Uma esquerda que quer ser antirracista de maneira contínua deve então compreender que o racismo só pode ser vencido com a abolição do capitalismo. É importante ressaltar que não se trata de uma “contradição secundária” que desaparecerá com o fim da “contradição principal”, isto é, o modo de produção capitalista.

Marx já reconhecia que o socialismo, a “primeira fase” do comunismo, “ainda é econômica, moral e espiritualmente afligido pelas marcas de nascença da velha sociedade”.  Todavia, a superação da sociedade capitalista de exploração e concorrência fornece a base material para erradicar completamente o flagelo do racismo. Pois em um sistema em que a base material da vida está nas mãos da sociedade, em que os frutos do trabalho beneficiam a todos, em que todas as questões econômicas e sociais são decididas de maneira democrática, não há mais exploradores e explorados, tampouco opressores e oprimidos. As lutas entre indivíduos ou grupos deixam de existir. Em um sistema como esse, os preconceitos e o racismo não poderiam sobreviver. Por conseguinte, um antirracismo duradouro deve estar ao mesmo tempo associado à luta pelo socialismo.

TRADUÇÃO DE MARCUS VINÍCIUS BRANCO.

PUBLICADO EM DERFUNKE.CH

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