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O Oscar e o cinema em meio à pandemia

Na noite deste domingo (27/03), ocorreu mais uma cerimônia do Oscar. Neste ano, a premiação foi realizada de forma presencial, passados pouco mais de dois anos desde o início da pandemia da Covid-19. O principal prêmio da noite, de melhor filme, foi entregue à produção distribuída no Brasil com o título “No ritmo do coração” (o nome original do filme é CODA, abreviação em inglês de child of deaf adults, “filho de adultos surdos”). Troy Kotsur, indicado pela atuação no filme, foi o primeiro ator surdo a vencer nessa categoria.

Pela primeira vez na história do Oscar o prêmio de melhor filme foi entregue a uma produção de streaming, distribuída internacionalmente pela Apple+ e no Brasil pelo Amazon Prime. Esse elemento e o fato de que nas últimas premiações do Oscar houve uma grande presença dos streamings pode levar à conclusão precipitada de que há uma mudança na estrutura econômica que comanda Hollywood, mas não é esse o caso.

A marcante presença dos filmes de streaming tem relação direta com os impactos provocados pela pandemia. No Oscar do ano passado, a Netflix liderou tanto o número de indicações (35 no total) como o de prêmios (recebeu 7). Seu principal concorrente entre os streamings na época, o Amazon Prime, recebeu 12 indicações e venceu 2 dos prêmios. O filme vencedor do ano passado, Nomadland, além da exibição no circuito cinematográfico, paralelamente foi disponibilizado no streaming Hulu, controlado pela Disney. No Oscar de 2021, os diferentes streamings tiveram um total de 53 indicações e venceram em 16 categorias.

Em 2021 o Oscar permitiu a participação de filmes distribuídos apenas por meio de streaming. Essa mudança temporária expressava a necessidade dos grandes estúdios de garantir a distribuição de seus filmes – alguns dos quais filmados ou mesmo quase totalmente finalizados antes da pandemia – de tal forma a não terem mais prejuízos com os impactos pelo fechamento das salas de cinema ou da proliferação da Covid-19. Essa situação excepcional atingiu alguns filmes produzidos pelos grandes estúdios que não estavam previstos para os streamings. Nesse situação se enquadram, além de Normaland, produzido Searchlight Pictures (que pertence à Disney) e distribuído pelo Hulu, também Judas e o Messias Negro, produzida pela Warner e distribuído por meio do Hbo Max, e Soul, produzida pela Pixar (outra produtora vinculada à Disney) e distribuído por meio de seu streaming Disney+.

Em 2022 o cenário esteve diferente e mostrou a força dos grandes estúdios, que não apenas se adaptaram à situação da pandemia, como conseguiram avançar em um mercado até então dominado pela Netflix. Na cerimônia do Oscar de ontem, embora o filme Ataque de cães, da Netflix, tenha dominado as indicações (12 no total), foi Duna, do tradicional estúdio Warner, quem saiu com um maior número de premiações (6 no total). O filme da Netflix conseguiu apenas um prêmio, de melhor direção, entregue à experiente Jane Campion. Outros filmes que se destacaram, por indicações ou por prêmios, foram Belfast, da Focus (ligada à NBC Universal), Amor, sublime amor, da antiga Fox (comprado pela Disney há alguns anos), King Richard (da Warner), e Os Olhos de Tammy Faye, distribuído pela Searchlight Pictures.

Portanto, o que se tem é uma retomada do controle das premiações pelos grandes estúdios. Estes, além da forma de distribuição tradicional, vem trabalhando com o mecanismo de lançar seus filmes em formato on line logo após saírem das salas de cinema ou os alugando enquanto ainda permanecem em exibição nas salas de cinema ou mesmo lançando em paralelo nos cinemas e nos streamings. Com isso, streamings relativamente novos vêm crescendo rapidamente no mercado. Segundo dados de janeiro, nos Estados Unidos, a Netflix continuava a liderar o mercado dos streamings, com 25%, mas o Star+ estavam com 19%, Hulu e Disney+ com 13% cada e o HBO Max com 12%. Um dado a se considerar é que 3 desses serviços pertencem à mesma empresa, ou seja, a Disney, considerando todos os seus serviços, já controla 45% do mercado de streaming nos Estados Unidos.

Os streamings HBO Max e Star+ foram lançados durante a pandemia, respectivamente em maio de 2020 e janeiro de 2021, ou seja, pode-se considerar que são os que mais rapidamente vêm crescendo nesse mercado. Nessa questão, não importa que já fossem projetos planejados antes da pandemia. Os grupos econômicos que os controlam apostaram no lançamento dessas novas plataformas ou no fortalecimento de streamings já existentes para, a partir da pandemia, buscar novas formas de distribuir as produções, equilibrando a exibição nos cinemas com o acesso doméstico para os seus usuários. Por outro lado, os streamings da Warner e da Disney são espaços prioritários para que sejam disponibilizados os filmes dos estúdios aos quais são ligados, esvaziando a concorrência, em particular da Netflix, que, nos últimos anos, perdeu principalmente produções da antiga Fox, da Disney e, mais recentemente, as séries que produziram em parceria com a Marvel. A Amazon, diante da movimentação dos grandes estúdios, adaptou seu streaming à nova situação, ao criar um espaço para aluguel tanto de filmes clássicos como de lançamentos de outras produtoras, e consolidou a compra da MGM, um dos grandes estúdios de Hollywood.

Portanto, o que se tem é uma reorganização de parte do processo de distribuição de filmes, sob controla dos grandes grupos econômicos. Esses grupos, principalmente a Disney e a Warner, mas também a CBS Paramount e a NBC Universal, por meio de suas subsidiárias e das empresas que controlam, garantem por completo o processo que vai da produção dos filmes até sua distribuição nos cinemas e sua exibição em canais de televisão. Nos últimos anos, é possível ver que essas empresas, as quais possuem alguns dos mais poderosos canais de televisão do mundo, ganhando peso também na disponibilização on line de filmes e de outros produtos. Se na edição anterior do Oscar, diante do fechamento das salas de cinema e do atraso nas produções, a Netflix e outras empresas conseguiram algum destaque, em 2022 o Oscar viu a situação quase normalizada em termos de força dos grupos econômicos que sempre comandaram essa premiação. Esse fato se mostra inclusive se considerar que, mesmo diante do crescimento da presença dos streamings no cotidiano das pessoas, as produções dos grandes estúdios voltaram a alcançar impressionantes recordes de bilheteria nos últimos meses.

Sobre essa base material, em que as grandes produtoras de Hollywood vão se recuperando de sua crise, é que se deu a cerimônia de ontem, marcada pela politização superficial de sempre e pela predominância do discurso de “amor e família”. Essa defesa da família, inclusive, é o que teria justificado a agressão de Will Smith, um dos premiados da noite, contra Chris Rock, conforme esclareceu o vencedor do Oscar de melhor ator em seu discurso de premiação. Rock fez uma piada em referência a um problema de saúde da atriz Jada Pinkett, esposa de Smith.

No geral, na cerimônia, viu-se o tradicional discurso identitário – dos imigrantes, de mulheres, dos negros. Uma dessas falas foi trazida logo no início da cerimônia na entrega do prêmio de melhor atriz coadjuvante, por Ariana DeBose, que fez questão de destacar sua condição de afro-latina, mulher e queer.

Um dos poucos temas políticos mais sérios acabou ficando por conta das apresentadoras da cerimônia Wanda Sykes, Amy Schumer e Regina Hall, que, quando brevemente se referiram ao debate sobre igualdade salarial para as mulheres, ironizaram: “Este ano, a Academia [que organiza o Oscar] contratou três mulheres para apresentar porque é mais barato do que contratar um homem”. O tema da guerra foi tratado de forma bastante rápida, em alguns poucos momentos, como na fala da atriz ucraniana Mila Kunis. Por outro lado, a organização do evento não levou a cabo a ideia esdrúxula da participação na cerimônia do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskya. Além disso, diferente de cerimônias realizadas durante a gestão de Donald Trump, a política mais geral foi pouco mencionada, talvez porque, naquele mesmo palco, foram prometidas mudanças que não se realizaram e provavelmente não se realizarão na gestão Biden.

Portanto, a primeira cerimônia presencial do Oscar desde o início da pandemia mostrou, por um lado, a recuperação dos grandes estúdios, que continuam a dominar o mercado cinematográfico, ainda que não tenham ganhado o principal prêmio da noite. Por outro, que a política continua a se diluir no identitarismo raso e em discursos superficiais, ao mesmo tempo em ajuda a esconder a crise do governo Biden

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