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O mundo no limite: a revolução iminente

Este documento foi aprovado pelo órgão dirigente da Corrente Marxista Internacional (CMI) após uma discussão em 12-13 de setembro de 2020. Ele atualiza nossas perspectivas sobre a explosiva situação mundial.

Estamos vivendo uma virada decisiva na história. Nessas ocasiões, é natural buscar pontos de referência ou paralelos históricos. Mas nada parece realmente se adequar ao que estamos experimentando.

O Banco da Inglaterra disse que esta será a crise mais profunda em 300 anos, mas mesmo isso é insuficiente. Na realidade, a situação que vivemos é única.

Para encontrar algo remotamente semelhante, teríamos que voltar à Peste Negra do século XIV, que exterminou entre um terço e metade da população da Europa.

As pessoas pensaram que era o fim do mundo. Na realidade, não era o fim do mundo que se aproximava, mas o fim de um sistema socioeconômico específico chamado feudalismo. Ele marcou a ascensão de uma nova classe revolucionária, a burguesia nascente, e o início da revolução burguesa na Holanda e na Inglaterra. A atual pandemia, é verdade, ainda não atingiu níveis tão dramáticos. Mas, no final, será ainda mais devastador.

A doença continua seu avanço implacável, causando estragos nos países pobres que não têm como combatê-la. A pandemia está fora de controle, especialmente na África, Ásia e América Latina, mas também nos Estados Unidos. Ainda não resultou em um número tão grande de mortes como a Peste Negra. Mas o número global de mortos chegará a mais de um milhão no final de setembro. No momento em que este artigo foi escrito, o número total de casos confirmados de coronavírus era superior a 24 milhões em todo o mundo.

Apesar dos alvoroços encorajadores de alguns governos, a eficácia das vacinas ainda não foi comprovada. Como sempre, são os pobres que mais sofrem. Ao expor a incapacidade da economia de mercado de oferecer quaisquer soluções para o que é um problema de vida ou morte para milhões de pessoas, o sistema capitalista está sendo cada vez mais questionado.

É importante destacar que essa pandemia não é a causa da atual crise econômica. Isso começou muito antes desse coronavírus ser detectado. Mas a pandemia sem dúvida complicou toda a situação e aprofundou a crise. Dialeticamente, a causa se torna efeito, e o efeito, por sua vez, se torna causa.

Processos acelerados

Engels destacou que houve períodos na história em que 20 anos se passaram como um só dia. Mas ele acrescentou que há outros períodos em que a história de 20 anos pode se resumir em 24 horas.

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Essa observação expressa com precisão a natureza da situação atual, cuja principal característica é a velocidade com que os eventos estão se movendo. Curvas bruscas e repentinas estão implícitas em toda a situação.

Se alguém tivesse previsto em janeiro o que aconteceria nos seis meses seguintes, ninguém teria acreditado. Na verdade, pensariam que ele ou ela estariam completamente insanos.

Em primeiro lugar, a velocidade do colapso econômico é surpreendente. O choque da Covid-19 para a economia global foi muito mais rápido e severo do que a crise financeira de 2008 e até do que a Grande Depressão.

O colapso econômico nos EUA é tão grave quanto durante a Grande Depressão. Mas, enquanto a contração depois de 1929 se estendeu por um período de quatro anos, a implosão do coronavírus se desenvolveu no transcurso de quatro meses.

Após a quebra de Wall Street de 1929, os mercados de ações entraram em um colapso de 50% ou mais, os mercados de crédito congelaram, levando a falências massivas, e o desemprego disparou, enquanto o PIB se contraiu acentuadamente. Mas tudo isso levou cerca de três anos para se desenvolver.

Na crise atual, um colapso econômico e financeiro semelhante ocorreu no espaço de três semanas. Demorou apenas 15 dias para o mercado de ações dos Estados Unidos cair 20% de seu pico – o declínio mais rápido já visto. E, em poucos meses ou semanas, o desemprego nos EUA chegou a 40 milhões. Consumo, gastos de capital e exportações estão experimentando uma queda livre sem precedentes. Para citar as palavras de Nouriel Roubini:

“Nem mesmo durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial a maior parte da atividade econômica foi literalmente encerrada, como aconteceu na China, nos Estados Unidos e na Europa hoje”.

Uma crise global

Esta é uma crise global do capitalismo em todos os sentidos da palavra.

A política de Trump é “America First”, e ele a seguiu agressivamente. Ele quer tornar a América grande novamente, mas se esqueceu de acrescentar: às custas do resto do mundo. O nacionalismo econômico é a soma total de seu pensamento, supondo-se que ele pensa. Ele ousadamente proclama que uma guerra comercial é “boa”. Isso só vai intensificar a crise.

Seus ataques ferozes à China ameaçam destruir o frágil tecido do comércio mundial e da globalização. Isso, no entanto, é apenas um sintoma desse fenômeno. Ele também impôs tarifas contra vários outros países, incluindo supostos aliados como a UE, o Canadá e o Japão. A pandemia piorou as coisas, gerando uma nova rodada de protecionismo, bem como uma queda estimada de 13% no comércio mundial.

Isso significa que estamos caminhando para uma depressão profunda. Lembremos que o que causou a Grande Depressão entre as duas guerras mundiais não foi o crash de 1929, mas a subsequente onda de protecionismo, desvalorizações competitivas e políticas de “empobrecer o vizinho”, que tentavam exportar o desemprego para outros países.

Doações colossais

Para evitar um colapso imediato, os governos despejaram trilhões de dólares na economia. Poucos dias após a paralisação, o Congresso dos EUA concordou com um pacote de estímulo que é de longe o maior na história dos Estados Unidos em tempos de paz. As mesmas políticas foram adotadas em todo o mundo. No final de junho, os governos do G20 anunciaram pacotes de estímulo no valor total de 10 trilhões de dólares, ou o equivalente a 12% da economia mundial. Mas, desde então, a UE aprovou outro pacote de 850 bilhões de dólares, e o Congresso dos EUA vai aprovar pelo menos outro trilhão de dólares em estímulos.

Para conter o choque épico da paralisação, o Federal Reserve (FED) mobilizou uma imensa quantidade de liquidez. Nos sete anos que se seguiram ao crash de 2008, o Fed comprou, em várias rodadas, cerca de 3,5 trilhões de dólares em ativos. Agora, em apenas três meses da crise, o banco central comprou 3 trilhões de dólares. Metade disso foi usado para comprar dívidas do governo para facilitar os pacotes de estímulo, metade foi gasta nos mercados de títulos corporativos e hipotecas.

As colossais doações que estão sendo entregues às grandes empresas, a fim de amortecer os efeitos, são historicamente sem precedentes. Mas mesmo essas assombrosas somas – que fazem o Plano Marshall parecer insignificante em comparação – claramente não serão suficientes para deter a queda da economia.

O fato é que a economia capitalista só pode existir atualmente graças a enormes injeções de fundos por parte dos governos. Tudo isso tem o efeito de acumular uma montanha de dívidas e, mais cedo ou mais tarde, elas devem ser pagas.

Haverá uma recuperação?

Como consolo, os economistas preveem uma forte recuperação. Isso é uma ilusão. A verdade é que, para evitar um colapso imediato, os governos, como vimos, despejaram trilhões de dólares na economia.

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Em 9 de abril de 2020, o Foreignpolicy.com publicou alguns comentários interessantes sobre a crise. Dizia:

“Essa enorme e imediata ação de contrapeso evitou até agora um colapso financeiro global imediato, mas agora enfrentamos um período prolongado em que a queda do consumo e do investimento levam a uma contração ainda maior.”

Nouriel Roubini, da Stern School of Business da New York University, escreve:

“Apenas os governos centrais têm balanços grandes e fortes o suficiente para evitar o colapso do setor privado”.

Mas logo ele acrescenta:

“Mas essas intervenções financiadas pelo déficit devem ser totalmente monetizadas. Se forem financiadas por meio da dívida governamental padrão, as taxas de juros subiriam drasticamente e a recuperação seria sufocada em seu berço”.

Ou seja, o banco central deve continuar imprimindo dinheiro para financiar os gastos do governo.

Roubini despreza as previsões excessivamente confiantes sobre a chamada recuperação em forma de V:

“A contração que agora está ocorrendo parece não ter a forma de V, nem de U, nem de L (uma queda acentuada seguida de estagnação). Em vez disso, parece um I: uma linha vertical que representa os mercados financeiros e a economia real em queda livre. ”

Esta é a perspectiva, mesmo sem um novo surto de pandemia, que não está de todo excluído. Em vez da prometida recuperação econômica, as massas em todos os países enfrentarão décadas de cortes profundos nos padrões de vida, desemprego e austeridade.

Quem vai pagar?

Quem vai pagar? Essa é a pergunta que ninguém deseja fazer, muito menos responder. Martin Wolf, economista-chefe do Financial Times, escreve:

“A pandemia forçou gastos fiscais muito maiores, mesmo em comparação com a crise financeira. Isso agora levanta a questão de como essa dívida será administrada e de quem vai pagar” (FT, 7/5/20).

Mas a resposta é clara. Todo o peso da crise recairá sobre os ombros dos menos capazes de pagar: os pobres, os velhos, os doentes, os desempregados e a classe trabalhadora em geral. Mas a classe média também não sairá ilesa.

Alguns reformistas de esquerda (por exemplo, PODEMOS na Espanha) chegaram à tola conclusão de que as grandes quantias dadas às empresas, para pagar os trabalhadores dispensados ​​com fundos públicos, significam uma mudança fundamental na natureza do capitalismo. Eles veem isso como o fim do “modelo neoliberal” e um retorno muito bem-vindo ao capitalismo com um rosto sorridente (keynesiano).

E essas damas e cavalheiros têm a audácia de acusar os marxistas de serem utópicos! Eles estarão cantando outra canção quando os governos, que gastaram grandes somas de dinheiro que não possuíam, procederão a extraí-lo do povo por meio de aumentos de impostos e de cortes profundos nos gastos públicos.

A imensa carga financeira será sentida por anos – talvez por décadas à frente – o que evitará qualquer possibilidade de uma recuperação séria. E, mais cedo ou mais tarde, déficits maciços produzirão inflação alta, aperto no crédito, contração maciça no endividamento e um novo colapso. Essa é a perspectiva real para o futuro previsível. É uma receita pronta e acabada para a luta de classes em todos os países.

Isso é compreendido pelos representantes mais perspicazes da classe dominante, como vimos no Financial Times, que assinalou no dia 9 de março:

“Pagar pela pandemia levantará todas as mesmas questões. Um retorno à austeridade seria uma loucura – um convite para uma agitação social generalizada, se não uma revolução, e uma dádiva de Deus para os populistas. Com o tempo – muito tempo – as faturas fiscais terão que ser pagas. A democracia liberal, no entanto, sobreviverá a este segundo grande choque econômico apenas se os ajustes forem feitos no contexto de um novo contrato social que reconheça o bem-estar da maioria sobre os interesses dos privilegiados” (FT, 03/09/20).

O Financial Times não explica como esse milagre será realizado. Mas essas linhas são muito reveladoras. Mostram que os estrategistas do capital estão chegando à mesma conclusão que os marxistas. A burguesia está nas cordas. Eles entendem que a revolução está implícita na situação atual. E não estão enganados.

Escorregando para o desastre

Em 1938, Leon Trotsky referiu-se à classe dominante do mundo como “escorregando para o desastre com os olhos fechados“. Essas linhas poderiam ter sido escritas hoje. A reação da burguesia e de seus políticos a soldo à pandemia do coronavírus é de pânico cego.

No passado, mesmo em momentos de crise profunda e guerra, as pessoas achavam que o governo, se não exatamente no controle da situação, pelo menos tinha algum tipo de plano para sair da crise.

Hoje, esse não é mais o caso. Os estrategistas do capital perderam completamente o equilíbrio. Os editoriais da imprensa burguesa séria refletem um estado de perplexidade e alarme, que está próximo do desespero.

O mundo está em seu colapso econômico mais acentuado da história – e os velhos livros de economia são rapidamente jogados na lata de lixo. As empresas não podem prever o futuro, os investimentos estão entrando em colapso e a economia sofreu uma crise muito pior e se instalou muito mais rápido do que na década de 1930. As previsões econômicas do FMI e do Banco Mundial são totalmente inúteis, uma vez que ninguém pode prever o resultado da atual pandemia de coronavírus.

A situação é ainda pior quando falamos dos líderes políticos. Há um velho ditado que diz que as pessoas têm o governo que merecem. Isso não é rigorosamente correto. Mas é perfeitamente verdadeiro que a classe dominante na crise atual tem o governo que merece.

Donald Trump nos EUA, Boris Johnson na Grã-Bretanha e Bolsonaro no Brasil representam a personificação da falência intelectual e moral da burguesia em seu estágio de decadência senil. Eles alegremente conduzem suas nações à beira do abismo e as lançam nele. A má liderança torna uma situação ruim mil vezes pior. A burguesia arranca os cabelos e reclama ruidosamente da situação, mas nada pode fazer a respeito.

Os Estados Unidos da América

A expressão mais gráfica disso está nos EUA, ou seja, no país mais rico do mundo.

Dizem que o imperador Nero tocava sua lira enquanto Roma queimava. Hoje, o imperador Trump está imitando seu notório predecessor romano, embora finalmente tenha concordado em colocar uma máscara facial de proteção – o que já é pelo menos uma melhoria.

Milhões de norte-americanos foram demitidos ou licenciados. Trabalhadores de fast-food e caixas de supermercado estão arriscando suas vidas por um salário-mínimo, enquanto a pandemia continua fora de controle, submetendo milhões de pessoas a sofrimento e morte desnecessários.

Os novos pedidos de subsídio de desemprego nos EUA atingiram níveis nunca vistos antes, indicando um elevado número de demissões e um mercado de trabalho em rápida contração.

A rapidez do colapso foi um choque para milhões de trabalhadores norte-americanos. Distribuições de dinheiro do governo aliviaram temporariamente a situação. Mas o número de vítimas do surto de coronavírus continuou aumentando inexoravelmente.

E irrompeu com mais força nas áreas carentes habitadas principalmente por negros e outras minorias étnicas, tornando as desigualdades raciais de longa data ainda mais gritantes do que antes.

Um movimento insurrecional

O descontentamento e a raiva latentes de milhões de pessoas pobres nos EUA, especialmente negros, finalmente explodiram com o assassinato de George Floyd. Esse movimento não veio do nada. Foi o resultado de décadas de exploração, opressão, pobreza, moradia precária, racismo e violência policial.

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O historiador e professor da Rice University, Douglas Brinkley, expressou a situação com admirável clareza: “Os fios de nossa vida cívica podem começar a se desfazer, porque todo mundo está vivendo em um barril de pólvora“.

Inúmeros assassinatos desse tipo ocorreram ao longo de muitas décadas, sem provocar protestos nessa escala, mas, para milhões de pessoas pobres nos EUA, o assassinato de George Floyd foi a gota d’água que fez o vaso transbordar. As imagens chocantes da violência policial caíram como um fósforo aceso em um barril de pólvora.

Em Minneapolis, onde o movimento começou, a polícia teve que fugir de uma multidão de manifestantes furiosos, que incendiaram uma delegacia de polícia. Foram cenas de caráter insurrecional. Mas o que é ainda mais significativo é a velocidade vertiginosa com que os eventos se desdobraram.

Como se guiados por alguma mão invisível, irromperam protestos em massa de costa a costa, engolfando uma cidade após a outra. Pelo menos 10% da população participou dos protestos e muitos mais os apoiaram. Surpreendentemente, a maioria dos norte-americanos (54%) disse que o incêndio do prédio da delegacia de polícia de Minneapolis era justificado. De significado potencial ainda maior foi o fato de que 29 portos entraram em greve de solidariedade, enquanto em algumas cidades os motoristas de ônibus se recusaram a transportar a polícia antimotim.

O Estado então reprimiu com extrema brutalidade, e toques de recolher foram impostos em 200 cidades. Mesmo assim, os protestos continuaram por semanas. Isso foi uma indicação das coisas que estão para chegar, uma espécie de ensaio geral para a revolução nos Estados Unidos.

Eventos desse tipo realmente não têm precedentes na história norte-americana recente. Este movimento é a resposta final a todos os céticos e covardes que argumentaram que a classe trabalhadora nunca se moveria, e muito menos nos Estados Unidos.

Divisões na classe dominante

As divisões na classe dominante são a primeira indicação de uma situação revolucionária em desenvolvimento. Trump queria usar o exército para esmagar a revolta. Mas isso provocou uma rebelião por parte dos chefes do exército e até mesmo dos republicanos.

A CNN citou funcionários do Ministério da Defesa que afirmaram que havia “profundo e crescente desconforto” entre alguns no Pentágono antes mesmo de o presidente anunciar que estava pronto para enviar militares para impor a ordem nas cidades dos EUA. O Wall Street Journal (WSJ) publicou a manchete: “Não Chame as Tropas”. Dizia:

No momento atual, a visão de tropas nas ruas dos Estados Unidos teria mais probabilidade de inflamar do que de acalmar …

Mais tarde, Trump enviou tropas da Segurança Interna para suprimir as manifestações em Portland. Assim como previu o WSJ, o efeito foi criar um movimento ainda maior e mais violento. Tornou-se quase como uma guerra civil nas ruas. Dessa forma, Donald Trump tem feito o trabalho da revolução de forma muito eficaz!

Isso mostra as limitações dos poderes do Estado. Mostra-nos a forma das coisas que estão para acontecer.

Limites da espontaneidade

Em 1938, Leon Trotsky escreveu que a crise da humanidade poderia ser reduzida à crise de direção do proletariado. Devemos pensar cuidadosamente sobre o que essas palavras significam. Nem é preciso dizer que o movimento das massas é sempre o principal motor da revolução. Sobre isso, concordamos com os anarquistas. Mas a conclusão deles termina onde começam os verdadeiros problemas da revolução.

O que mostram os eventos nos Estados Unidos? Eles revelam o enorme poder potencial das massas. Eles nos mostram que existe um poder na sociedade que é mais forte do que até mesmo o mais forte Estado, exército ou força policial. Sim, isso é perfeitamente verdade. O movimento espontâneo das massas é a condição prévia para a revolução socialista. Mas, por si só, não é suficiente para garantir o sucesso.

Da mesma forma, o vapor também é um poder enorme. É o poder que impulsionou a Revolução Industrial e continua a impulsionar a vida econômica até hoje. Mas o vapor só é uma potência quando se concentra em um único ponto, uma caixa de pistão, que centraliza sua potência e a aumenta mil vezes. Sem isso, o vapor simplesmente se dissiparia inutilmente no ar.

É o mesmo com a revolução. Sem a organização e a direção necessárias, o enorme poder da classe trabalhadora permaneceria apenas um potencial, não um poder real.

A história da guerra nos dá muitos exemplos em que um grande exército de bravos soldados foi derrotado por uma força muito menor de tropas disciplinadas lideradas por oficiais experientes. E a guerra entre as classes tem muitos pontos de semelhança com a guerra entre as nações.

O que vimos nos EUA mostra as limitações dos poderes do Estado perante uma revolta de massas, como a que vimos naquele país. Este movimento espontâneo das massas é a condição prévia para a revolução socialista. Mas, por si só, não é suficiente para garantir o sucesso. Faltava algo e esse algo é uma organização e uma direção capaz de mostrar um caminho a seguir.

Sem a organização e a direção necessárias, os protestos estariam fadados a diminuir mais cedo ou mais tarde. O surpreendente é que duraram tanto tempo. Isso foi uma revolução? É claro que ainda não foi uma revolução. Mas certamente pode ser visto como o ensaio geral para a revolução no futuro.

Nada será como antes

Há uma grande mudança de consciência nos EUA. As pesquisas mostram um aumento no apoio ao socialismo. 67% dos jovens votariam em um presidente socialista. Ainda mais surpreendente, 30% dos maiores de 65 anos fariam o mesmo, se tivessem a chance. Mas eles não tiveram a chance.

Bernie Sanders, depois de despertar a esperança de milhões de pessoas, recusou-se a se apresentar como socialista, embora houvesse grande apoio a um novo partido. Em vez disso, ele escolheu apoiar Joe Biden como o candidato do Partido Democrata, usando o argumento da necessidade de se derrotar Trump. Sem dúvida, esse argumento terá algum peso para muitas pessoas desesperadas por se livrar dele. Mas muitas outras se afastarão desgostosas.

As eleições ocorrerão em novembro e muitas coisas podem acontecer até lá, mas a campanha eleitoral já começou. Trump tentou jogar a carta da “Lei e Ordem”, mas o tiro saiu pela culatra. Agora ele está constantemente repetindo que a eleição será fraudada por causa do voto por correspondência. Esse fato é uma indicação clara de que ele espera perder. As pesquisas mostram, de fato, que ele está perdendo terreno. Isso, no entanto, não significa necessariamente que ele perderá.

Muitas pessoas chegaram à conclusão correta de que a escolha entre democratas e republicanos não é escolha alguma. E há um crescimento correlato no interesse pelas ideias socialistas e mesmo comunistas. Isso é demonstrado pelos rápidos avanços feitos por nossa seção dos EUA, mas também pelo aumento do número de membros do Socialistas Democráticos da América (DAS) nos municípios em todo o país. Estima-se que 10.000 pessoas aderiram desde março, elevando o número total de membros do grupo para cerca de 66.000, de acordo com dados internos.

Uma coisa é certa. Não importa quem ocupe a Casa Branca no próximo ano, nada será igual novamente. Tempos turbulentos estão por vir para os EUA. Haverá vitórias e haverá derrotas. Mas, durante todo o período, o pêndulo oscilará bruscamente para a esquerda.

A necessidade da dialética

Somente o conhecimento do método dialético marxista pode permitir olhar para além da superfície (dos “fatos”) e penetrar nos processos reais que estão amadurecendo lentamente abaixo da superfície.

Os empíricos superficiais e os observadores impressionistas foram pegos de surpresa por esses movimentos, que pareciam surgir do nada, como um raio vindo de um céu azul claro. Mas as atuais convulsões não vêm do nada. Foram preparadas durante todo o período anterior.

A falta de pensamento dialético é o que explica a total impotência dos estrategistas do capital, que não sabem explicar a crise atual, nem encontrar uma solução para ela. Também se aplica à classe média e à intelligentsia, que estão dominadas pelo desespero, refletido na influência do pós-modernismo, que nega a possibilidade de progresso em geral, simplesmente porque o progresso sob o capitalismo está paralisado.

Dialeticamente, tudo, mais cedo ou mais tarde, se transforma em seu oposto. A consciência da classe trabalhadora não se desenvolve em linha reta. Por muito tempo, pode ficar para trás em relação aos eventos. Mas, mais cedo ou mais tarde, ela se recupera com um explosão. Isso é precisamente o que é uma revolução. Agora vemos esse processo se desenrolando diante de nossos olhos.

Devemos ter em mente que os levantes revolucionários começaram já no ano passado, no Sudão, Líbano, Iraque, Equador, Chile, etc. Acima de tudo, a radicalização se reflete em uma rápida mudança na consciência das massas.

Como a consciência muda

O atraso na consciência, que comentamos no passado, é agora substituído por violentas explosões por parte das massas. Para onde quer que olhemos, vemos crescente descontentamento, raiva, fúria e ódio à ordem existente.

Isso se expressa de maneiras diferentes em diferentes países. Mas em todos os lugares vemos que as massas, os trabalhadores e os jovens, estão começando a se mover, para desafiar a velha ordem e lutar contra ela. É suficiente mencionar os eventos que estão ocorrendo agora.

Tomemos dois exemplos altamente significativos: Israel e Líbano. Se havia um país no mundo onde muitas pessoas pensavam que a luta de classes havia terminado, esse país era Israel. Parecia para a maioria das pessoas que Netanyahu tinha controle total da situação. Mas agora a crise atingiu Israel, os padrões de vida estão caindo e o desemprego está crescendo. E as massas foram às ruas para exigir a derrubada do governo de Netanyahu.

No Líbano, temos um exemplo ainda mais notável. Seguindo o movimento revolucionário que varreu o país no final do ano passado, a explosão no porto de Beirute, que devastou a cidade e deixou 300.000 desabrigados, deu início a um novo e ainda mais determinado movimento revolucionário. Não muito tempo atrás, parecia que tal movimento era impossível, por causa das agudas divisões sectárias na sociedade libanesa. No entanto, agora vemos um aumento colossal na revolução, com todos os setores da classe trabalhadora se unindo na luta.

Essas explosões de raiva popular não caíram das nuvens. Eles foram preparados ao longo de todo o período anterior, especialmente nos últimos dez anos de austeridade.

Bielorrússia e Rússia

Uma mudança dramática semelhante está se desenrolando diante de nossos olhos na Bielorrússia, onde um movimento de protesto contra Lukashenko assumiu um caráter massivo. É verdade que esse movimento é de natureza confusa e contraditória.

A direção pequeno-burguesa deseja acelerar o processo de privatização e estabelecer relações mais estreitas com a UE. Mas a emergência da classe trabalhadora como uma força chave, caminhando na direção de uma greve geral, tornou-se um elemento importante na equação. Os trabalhadores nas indústrias estatais não compartilharão do entusiasmo dos liberais pela privatização e pela economia de mercado.

A situação não é a mesma da Ucrânia, onde o movimento foi dominado por elementos nacionalistas extremamente reacionários e abertamente fascistas. Na Bielorrússia, não existe o mesmo sentimento anti-russo na população. A Bielorrússia está tão intimamente integrada com a Rússia de forma econômica, linguística e histórica, que é difícil vê-la rompendo com Moscou e se voltando para o Ocidente.

Não é possível dizer como terminará o movimento atual. Putin observará esses eventos com crescente alarme. Mas as opções de Putin na Bielorrússia são limitadas. Uma intervenção armada seria uma loucura. Isso iria antagonizar o povo e criar o tipo de sentimento anti-russo que os empurraria para o Ocidente. Em todo caso, Putin não tem nenhum interesse particular em salvar Lukashenko. Muito pelo contrário, na verdade.

A camarilha do Kremlin sem dúvida está intrigando com os principais burocratas de Minsk para encontrar uma figura “reformista” adequada para substituir o desacreditado Lukashenko e chegar a um acordo com Moscou. O sucesso dessa manobra depende da evolução futura do próprio movimento de massa.

O movimento na Bielorrússia terá graves repercussões na Rússia. Putin teme, com razão, que um movimento semelhante possa explodir na Rússia. Os acontecimentos em Khabarovsk indicam que esses temores não são infundados. O envenenamento do oposicionista liberal Navalni pode ter sido uma reação de pânico. Em qualquer caso, as contradições na Rússia apontam para o amadurecimento de uma situação explosiva.

Europa

O nacionalismo, e não a cooperação internacional, é a característica dominante do período atual. Ameaça todo o frágil sistema de comércio internacional que foi dolorosamente montado pela burguesia nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

A guerra comercial entre EUA e China é apenas um sintoma desse fenômeno. Mas também há uma guerra comercial entre os EUA e a Europa. E mesmo entre as nações europeias, fissuras perigosas estão surgindo o tempo todo.

Há muito assinalávamos que a burguesia europeia poderia manter um certo grau de integração por algum tempo, mas, em caso de recessão profunda, o processo seria revertido. Agora é claramente o caso.

Alemanha

A Alemanha foi a principal força motriz da economia europeia, mas foi duramente atingida pela crise. Sua principal força residia na capacidade de exportação. Mas essa força agora se revela sua principal fraqueza. A desaceleração na China e a crise no resto da Europa causaram uma queda acentuada nas exportações, especialmente no principal setor, o automotivo.

Já no último trimestre de 2019, o PIB da Alemanha estava caindo. Agora o PIB da Alemanha deve cair mais do que o dos Estados Unidos, arrastado por sua dependência das exportações. Há superprodução de carros, levando ao fechamento de fábricas, demissões e destruição de empregos na maior parte da economia. Existem pelo menos três milhões de desempregados. E isso não inclui os autônomos ou os estudantes.

Tudo isso expôs todas as linhas de ruptura que estão separando a UE.

A UE dividida

Há uma divisão crescente com os Estados membros do Leste Europeu. Muitos em Bruxelas acham que países como a Polônia e a Hungria só deveriam receber dinheiro se abandonassem as políticas de reforma judicial vistas por seus críticos como ataques ao Estado de Direito.

No entanto, a principal divisão agora é entre os países mais afetados pelo vírus – como Itália e Espanha – e alguns membros da UE que buscam aferrar-se ao seu dinheiro. A Itália, em particular, foi um dos primeiros países europeus a sofrer um surto e registrou 35.000 mortes – uma das taxas mais altas do mundo. Essas tensões ficaram expostas na recente reunião em que os líderes da UE lutaram para negociar o pacote de estímulo para ajudar os países a se recuperarem da pandemia, ao mesmo tempo da negociação do orçamento do bloco d e 1 trilhão de euros para sete anos.

A Suécia, a Dinamarca, a Áustria e os Países Baixos, juntamente com a Finlândia, recusaram-se obstinadamente a permitir que 500 bilhões de euros fossem oferecidos sob a forma de subvenções aos países mais duramente atingidos pelos efeitos da Covid-19. Eles argumentaram que o pacote proposto era muito generoso e, de qualquer forma, não deveria ser uma esmola, mas empréstimos reembolsáveis. Esses líderes supostamente civilizados, em sua maioria social-democratas, discutiam como negociantes de cavalos em algum mercado medieval.

No final de uma reunião longa e turbulenta, com líderes da UE se insultando mutuamente e Macron batendo na mesa e ameaçando sair, um acordo difícil foi fechado. Eles não tiveram escolha a não ser concordar com um acordo de compromisso. Mas o ideal da solidariedade europeia foi jogado pela janela no processo.

Itália

No centro dessa briga estava a questão italiana. O fracasso em chegar a um acordo poderia ter levado ao colapso do governo de coalizão na Itália e à possibilidade de um renascimento de Salvini e da Liga anti-europeia.

O centro da crise da UE mudou-se da Grécia para a Itália, que agora é o doente da Europa. É o elo mais fraco da cadeia do capitalismo europeu. A crise na Itália representa uma ameaça muito maior para o futuro da UE do que a Grécia. Afinal, a Grécia é uma nação relativamente pequena. Mas a Itália é uma grande economia, que responde por 11% do PIB da União Europeia. A enorme dívida da Itália de 2.500 bilhões de euros pode fazer desabar as finanças da UE e o colapso da Itália pode levar à destruição da própria UE. É isso que explica a atitude cautelosa de Merkel. Era impossível para ela seguir a mesma linha dura com a Itália que teve com a Grécia. Ela foi parcialmente obrigada a mudar de tom. Isso também explica em parte as explosões de raiva do presidente francês na recente cúpula de líderes da UE.

A crise do coronavírus expôs a extrema fraqueza do capitalismo italiano e a corrupção e a incompetência no coração de seu governo. O norte da Itália foi duramente atingido pela crise do coronavírus. É responsável por 50% do PIB italiano. No entanto, esta região próspera testemunhou cenas de morte e destruição que normalmente se associam a países do Terceiro Mundo.

A forma como o governo lidou com a crise da Covid-19 causou ódio e indignação. Os trabalhadores tinham que trabalhar de 12 a 14 horas sem remuneração extra, mesmo aos sábados, principalmente os trabalhadores da saúde que arriscavam suas vidas. Isso expressa o cruel desrespeito pela vida e saúde dos trabalhadores por parte dos patrões.

Mudanças repentinas e bruscas na consciência são evidentes. Professores e alunos se radicalizaram e estão prontos para lutar. Houve uma onda de greves não-oficiais, espontaneamente convocadas pela base, mas os reformistas e os dirigentes sindicais fizeram o possível para conter o movimento. Os patrões estão na ofensiva, mas os dirigentes sindicais buscam um pacto social, embora não haja condições para isso.

Essa contradição está levando a uma rápida perda de autoridade da direção sindical, o que prepara o caminho para explosões ainda maiores no próximo período. O cenário está montado para uma explosão da luta de classes como não se via desde os anos 1970. Isso tem sérias implicações para toda a Europa.

França – o próximo da fila

Embora o problema mais imediato seja a crise na Itália, a própria França não fica muito atrás. Isso explica a reação de Emmanuel Macron à teimosia dos europeus do norte. Ele teria batido com a mão na mesa e ameaçado sair das negociações, acusando os “quatro frugais” de colocar o projeto europeu em risco.

O presidente francês disse que “não havia escolha” a não ser criar um fundo que “pudesse emitir dívida comum com uma garantia comum” para financiar os Estados membros de acordo com suas necessidades e não com o tamanho de suas economias. Mas esta é uma ideia à qual a Alemanha e a Holanda se opuseram.

Bruno Le Maire, ministro das finanças da França, colocou o desafio com firmeza:

“Ou a zona do euro responde de maneira unida à crise econômica e emerge mais forte, ou fica entre seis e sete e corre o risco de desaparecer” (FT, 23/3/20).

Mas a Europa não está respondendo de maneira unida. Ao contrário, a crise econômica exacerbou enormemente as diferenças nacionais e levou a classe dominante de diferentes países em diferentes direções. O Brexit foi apenas o início de um processo de desintegração que está longe de terminar e que vai causar uma crise convulsiva após a outra.

Grã-Bretanha

O efeito imediato do Brexit será desastroso para a Europa e catastrófico para a Grã-Bretanha. Tendo deixado a União Europeia, a burguesia britânica se encontrará no pior dos mundos.

Todas as ilusões chauvinistas estúpidas serão cruelmente expostas pela fraude que sempre foram. A Grã-Bretanha se verá reduzida ao papel de uma pequena ilha sem importância na costa da Europa. A tão alardeada “relação especial” da Grã-Bretanha com a América ficará exposta como a relação humilhante entre senhor e servo. O prestígio de que gozava no mundo no passado entrará em colapso da noite para o dia como um castelo de cartas.

Martin Wolf previu em uma avaliação sombria no Financial Times:

“Uma ‘Grã-Bretanha global’ não vai emergir, mas vai buscar migalhas das mesas de potências comerciais mais poderosas, elas próprias engajadas em disputas violentas” (FT, 21/5/20).

As contradições nacionais que dilaceram o tecido do Reino Unido já estão vindo à tona. O apoio à independência na Escócia está agora liderando as pesquisas de opinião por 7 a 9 pontos percentuais, à medida que o ódio e o ressentimento contra o governo conservador aumentam.

Boris Johnson pode muito bem se considerar o primeiro-ministro, não da Grã-Bretanha, mas da Pequena Inglaterra.

China

A China foi uma das principais forças motrizes da economia mundial no último período. Mas agora, dialeticamente, tudo se transforma em seu oposto. A China não é mais vista como parte da solução, mas como parte do problema.

A China construiu uma formidável base industrial com uma enorme capacidade produtiva. Mas a demanda interna não consegue absorver esse potencial produtivo colossal. A China deve exportar para sobreviver. Mas seu sucesso no campo das exportações não provocou só uma reação furiosa de seus concorrentes, principalmente os EUA, mas também na Europa.

Mesmo antes da crise atual, a economia chinesa estava desacelerando a um ritmo alarmante, mas a crise levou a economia ao limite. No primeiro trimestre, o JPMorgan Chase previa uma queda de 40% no produto interno bruto chinês em relação aos três meses anteriores, a maior contração em pelo menos 50 anos.

Os últimos números oficiais mostram o desemprego na China em 5,9%, o maior número desde o início dos registros na década de 1990. Mas esse número é claramente uma subestimação grosseira da crise na China, já que os trabalhadores migrantes não são incluídos nas estatísticas.

Isso explica por que Xi Jinping está tomando medidas para fortalecer seus poderes ditatoriais e esmagar o movimento em Hong Kong. É uma preparação para uma futura explosão da luta de classes na China, que agora está se formando.

“Horror sem fim”

Lenin disse uma vez que o capitalismo é um horror sem fim. Agora podemos ver a verdade literal da declaração. O Programa Mundial de Alimentos da ONU advertiu recentemente que mais de 265 milhões de pessoas estão ameaçadas de fome. As consequências sociais da pandemia do coronavírus nos países capitalistas avançados são ruins o suficiente, mas os países pobres enfrentam uma catástrofe absoluta.

Mesmo nos países mais ricos, como os Estados Unidos, a pandemia teve efeitos terríveis entre as camadas mais pobres da sociedade. Mas, para a maior parte da humanidade, essa crise está em um nível totalmente diferente.

A pandemia de coronavírus expõe duramente os níveis brutais de desigualdade no mundo. Uma em cada duas pessoas no planeta luta diariamente para sobreviver. Metade da população mundial não tem acesso a cuidados básicos de saúde. Para as pessoas que vivem na pobreza, a doença pode ser uma sentença de morte. Globalmente, dois bilhões de pessoas trabalham no setor informal sem acesso a auxílio-doença, a maioria em países pobres.

O impacto do vírus recai mais pesadamente sobre os pobres, sobre os diaristas e os trabalhadores informais, muitos dos quais são mulheres, sem proteção financeira e social. Milhões de pessoas são forçadas a trabalhar e enfrentar a morte por causa do vírus assassino porque não conseguem lidar com a perda de rendimentos e o aumento dos preços dos alimentos e outros itens essenciais. Em países pobres, muitas pessoas vivem em assentamentos urbanos informais ou favelas, onde geralmente há superlotação e saneamento precário. Quando até 250 pessoas compartilham uma torneira com água, como se pode falar em distanciamento social, lavar as mãos e rastrear casos para impedir que o vírus se espalhe ainda mais?

No entanto, em vez de investir em seus sistemas de saúde para se defender contra o ataque do vírus, esses países precisam usar seus preciosos recursos para pagar suas dívidas. Os pagamentos da dívida externa dos 77 países mais pobres devem ser de pelo menos 40 bilhões de dólares somente em 2020. Assim, mesmo enquanto metade do mundo é devastado por uma terrível pandemia e milhões enfrentam a morte por doença ou fome, os vampiros imperialistas continuam a drenar o sangue de suas veias.

África

A África do Sul, que teve um dos maiores aumentos de casos em um único dia, tem o maior número de infecções confirmadas no continente africano. O Egito viu o número de casos aumentar rapidamente desde meados de maio. Lesoto e Namíbia também viram aumentos acentuados de casos nos últimos dias.

Há uma preocupação crescente com o que está acontecendo na Nigéria, que é a terceira em termos de total de casos registrados até agora no continente. As cinco primeiras taxas de mortalidade são Chade, Sudão, Níger, Libéria e Burkina Faso. No Malaui, existem apenas 25 leitos de terapia intensiva e 16 ventiladores para mais de 18 milhões de pessoas. Na Zâmbia, há um médico para 12.000 pessoas.

Em muitos países, os mercados foram desorganizados e as quarentenas comunitárias resultaram em perdas de receita. Milhões de trabalhadores já foram mandados para casa sem remuneração. Outros, nos empregos mais mal pagos e mais inseguros, não conseguem se isolar do vírus mortal. A ONU avisa que metade de todos os empregos na África estão em risco.

Índia e Paquistão

A pandemia de coronavírus teve um efeito devastador no Paquistão, mas a situação atingiu níveis mais dramáticos na Índia. A verdadeira extensão do contágio e das mortes causadas pela Covid-19 está apenas começando a ser entendida. Os números oficiais indicam que mais de dois milhões de pessoas foram infectadas. Isso é quase certamente uma subestimativa.

Os cientistas também alertaram que a Índia ainda pode estar a meses do pico de seu surto – apesar de já ter o terceiro maior número de casos confirmados. Hospitais nas cidades mais afetadas, incluindo Mumbai e Bangalore, estão lotados de pacientes. Narendra Modi tentou “resolver” a pandemia expulsando milhões de pessoas pobres que vivem nas ruas de Délhi, Mumbai e outras cidades. Isso só serviu para espalhar a pandemia para as aldeias e províncias, que carecem dos recursos de saúde mais elementares. As consequências humanas serão verdadeiramente assustadoras.

Da força de trabalho da Índia de 471 milhões, apenas 9% estão cobertos pela segurança social, 90% não têm contrato de trabalho formal e 139 milhões são trabalhadores migrantes. Muitos deles foram enviados em um voo precipitado de volta às suas aldeias. Não houve nada parecido desde a Partição em 1947.[1]

Modi e sua quadrilha chauvinista Hindu estão tentando desviar a atenção da crise, avivando as chamas do chauvinismo e do comunalismo hindu, trazendo ainda mais miséria e violência para as massas sofredoras da Índia. Não satisfeito em realizar uma violenta repressão na Caxemira, e assim provocar um conflito com o Paquistão, ele agora começou a se envolver em uma guerra de fronteira com a China, da qual sairá com o nariz sangrando.

América Latina

Na América Latina, o coronavírus já assumiu sua expressão mais virulenta. Em países como Brasil, Chile, Equador e Peru, está saindo do controle. Em algumas cidades do Equador, os cemitérios estão cheios e os cadáveres são deixados nas ruas.

Os governos de direita mostraram-se completamente incapazes de lidar com esta ameaça à vida das pessoas. Pelo contrário, com sua conduta cruel e irresponsável, agravaram a crise um milhão de vezes. Mas o estado de ânimo na América Latina foi enormemente encorajado pelos acontecimentos nos Estados Unidos.

Os protestos em massa e o movimento Black Lives Matter levantaram o ânimo das pessoas ao sul do Rio Grande, a maioria das quais nunca acreditou que tais coisas fossem possíveis no coração do imperialismo. As massas estão preparadas para lutar. Mas, mais uma vez, temos o problema da direção.

Brasil e Chile

No Brasil, apesar da estúpida histeria da chamada esquerda e das seitas, que imaginavam que o fascismo havia triunfado com a vitória eleitoral de Bolsonaro, sua base encolheu e seu partido se dividiu.

No país, já são quase quatro milhões de pessoas infectadas pelo coronavírus, incluindo o presidente, por quem nenhuma lágrima será derramada. Ele terá os melhores médicos. Mas para muitos pobres no Brasil, isso será uma sentença de morte.

A crise do coronavírus está temporariamente freando o movimento. Mas, por baixo da superfície, há uma raiva tremenda contra o governo e, no momento em que o bloqueio diminuir, isso se expressará em uma onda revolucionária massiva.

O caso do Brasil é bem conhecido. Mas a conduta das autoridades no Chile não é muito melhor. O governo de direita de Piñera está presidindo um desastre nacional.

O Chile testemunhou protestos insurrecionais em massa no outono de 2019, e há o início de um novo movimento de protesto dirigido principalmente contra o serviço de previdência privatizado – herdado da ditadura de Pinochet. Pessoas desesperadas por dinheiro para sobreviver estão exigindo o direito de retirar seu dinheiro da AFP [sistema de pensões do Chile] privatizada.

O governo está resistindo, mas sofreu duas derrotas no Parlamento. Um novo movimento poderia facilmente derrubá-lo. Recentemente, houve uma greve de estivadores que protestavam contra o escândalo. Agora os mineiros ameaçam fazer greve.

O governo Piñera foi forçado a fazer uma concessão à AFP, permitindo que as pessoas retirassem 10% de seu dinheiro. Isso mostra o quão fraco é seu governo. O governo só permanece no poder por causa da atitude comprometedora da esquerda parlamentar e dos líderes sindicais. Mas nada de fundamental foi resolvido e uma nova explosão social está sendo preparada.

A crise do reformismo

Possibilidades revolucionárias estão implícitas em toda a situação. Este fato é evidenciado pela crescente radicalização de uma camada da sociedade, principalmente a juventude. Essa tendência foi observada com alarme pelos estrategistas do capital. O Financial Times comentou:

“A crise financeira moldou a visão da geração do milênio de uma forma que já está impulsionando a política em ambos os lados do Atlântico, incluindo uma maior disposição dos jovens de se referir a si próprios como socialistas.

“Os Millenials elevaram Jeremy Corbyn à liderança do Partido Trabalhista e Bernie Sanders à beira da indicação presidencial Democrata. O coronavírus provavelmente aguçará muitas dessas opiniões”.

Este é um artigo muito revelador que mostra como os estrategistas sérios do capital chegam a conclusões semelhantes às dos marxistas. Eles também entendem que, em primeira instância, as camadas recém-despertadas se voltarão para os reformistas de esquerda. Tal desenvolvimento é inteiramente previsível nas condições atuais.

Reformismo de esquerda

Por causa da debilidade das forças do marxismo genuíno, em primeiro lugar, essas camadas radicalizadas se voltarão para os políticos reformistas de esquerda, que parecem oferecer uma saída para a crise.

Refletindo a pressão das massas, eles podem adotar uma retórica que soa muito radical. Mas, em última análise, eles não têm perspectiva de abolir o capitalismo.

Eles acreditam que o capitalismo pode ser reformado, tornado mais humano, mais democrático e assim por diante. Essas ilusões serão cruelmente desmascaradas com o curso dos acontecimentos, como já vimos no caso de Tsipras na Grécia.

Para os reformistas, a revolução está sempre fora de questão, não apenas para os reformistas de direita, mas em particular para os reformistas de esquerda. Eles sempre encontrarão mil e um argumentos sobre porque a revolução é impossível, utópica e assim por diante.

As massas estão finalmente sendo forçadas a enfrentar a realidade. Elas estão lentamente começando a tirar conclusões. Essa é a nossa grande força e a grande fraqueza do capitalismo e do reformismo. Isso levará tempo, mas, mais cedo ou mais tarde, as velhas ilusões serão gradualmente apagadas da consciência da classe trabalhadora.

Um grande número de trabalhadores e jovens radicalizados passaram pela escola de Tsipras, Sanders e Jeremy Corbyn. Os melhores elementos aprenderam lições valiosas dessa escola. Tendo se formado, eles agora passaram para um nível superior e estão buscando mais esclarecimentos na escola do marxismo revolucionário. Devemos ajudá-los a fazer essa transição. Mas como fazer isso? Dois erros são possíveis aqui.

Os oportunistas não criticam os esquerdistas e se transformam em uma espécie de fã-clube. No outro extremo, os sectários estúpidos, que pensam que são grandes revolucionários porque leram algumas linhas de Trotsky, sem entender uma única palavra, declaram em voz alta que este ou aquele líder de esquerda trairá. Não há espaço nas fileiras da CMI para nenhum desses desvios. É difícil dizer qual dos dois prejudica mais a causa do marxismo genuíno.

Ao lidar com os reformistas de esquerda, devemos ter o cuidado de combinar habilmente a firmeza de princípios com a flexibilidade e tato necessários na maneira como fazemos nossas críticas. Para citar as palavras de Marx, devemos ser “suaves nas maneiras e ousados no conteúdo”. Só assim podemos conquistar o melhor dos trabalhadores e jovens que têm ilusões honestas nas esquerdas.

Devemos responder aos reformistas de esquerda, não com denúncias estridentes, mas com uma explicação paciente. Através da experiência, as pessoas que estão se movendo em uma direção revolucionária compreenderão as limitações, não apenas dos reformistas de direita, mas também dos esquerdistas.

A agonia da morte do capitalismo

Para onde quer que olhemos, vemos um quadro de colapso das forças produtivas, aumento do desemprego, aumento da pobreza e sofrimento, guerras, crises, doenças e morte. Mas essas são apenas as manifestações externas de uma doença subjacente. E, como um bom médico, devemos ser capazes de analisar os sintomas para explicar a causa subjacente.

Pessoas que carecem de uma compreensão científica marxista da história naturalmente tiram conclusões pessimistas. Mas já vimos os sintomas antes na história.

O declínio do Império Romano ocorreu durante séculos e foi acompanhado pela mais terrível degeneração econômica, social, moral e filosófica. Esse longo período de declínio, no entanto, não foi em linha reta. Houve períodos de recuperação, assim como um moribundo às vezes parece apresentar todos os sintomas de recuperação, que são apenas o prelúdio de um colapso ulterior e irrevogável.

Esses períodos de recuperação não estão de forma alguma excluídos para o capitalismo. Mas a linha geral é claramente de declínio. Nenhuma solução duradoura é possível. Para usar uma frase famosa de Trotsky, esta é a agonia da morte do capitalismo. E esta agonia de morte ameaça toda a raça humana.

A força da inércia

Ao analisar os fenômenos, os marxistas devem ter o cuidado de examiná-los de todos os pontos de vista, levando em consideração as forças contraditórias que estão puxando em diferentes direções.

Entramos no período mais turbulento da história humana. A atual crise econômica, social e política não pode encontrar uma solução duradoura com base no sistema atual. Isso não significa, é claro, que, em certos momentos, um certo grau de equilíbrio instável não possa ser restabelecido. Pelo contrário, os períodos de recuperação temporária são inevitáveis. Mas serão de curta duração e serão apenas o prelúdio de um colapso novo e ainda mais acentuado.

A situação atual representa um paralelogramo complicado de forças. Por um lado, as massas estão procurando desesperadamente encontrar uma saída para a crise. Elas estão prontas para seguir o caminho revolucionário, mas carecem de um programa claro e de uma perspectiva para o caminho a seguir.

Consequentemente, os surtos espontâneos de rebelião não podem resolver os problemas colocados. Portanto, em um determinado estágio, eles retrocedem, como as ondas do oceano que se chocam contra a rocha sólida, e eventualmente são subjugadas.

A ordem existente possui uma resistividade poderosa. Isso dá confiança a alguns dos estrategistas da burguesia. O historiador norte-americano Eric Foner fez recentemente a seguinte declaração:

“Parece haver uma inércia muito poderosa nos empurrando de volta ao normal. Não acredito em quem acha que esse coronavírus vai mudar tudo”.

É necessário que consideremos essas observações com muito cuidado, pois elas contêm um importante núcleo de verdade.

É claro que atribuímos enorme importância à atual onda de lutas nos Estados Unidos e em outros países. Saudamos isso e o abraçamos com todo o entusiasmo possível. Mas também entendemos que são sintomas que representam uma expressão embrionária de grandes eventos que estão sendo preparados.

Para elaborar a perspectiva e as táticas corretas, devemos entender o outro lado da questão. O poder da inércia é um dado elementar bem conhecido e simples na mecânica. Mas mesmo a inércia mais poderosa pode ser superada por uma aplicação suficiente de força.

A inércia mais poderosa de todas é a força do hábito, dos costumes e da tradição que pesam sobre a consciência humana. Os instintos herdados de um passado muito distante tornam as pessoas resistentes à mudança e com medo dela. Para dar um salto é preciso superar essa barreira. Mas isso só pode acontecer por meio das mais poderosas catástrofes sociais e econômicas, que obrigam homens e mulheres a questionar coisas que até agora consideravam fixas e imutáveis.

A tarefa dos revolucionários

O sistema capitalista está na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Agora depende exclusivamente das doações colossais do Estado. Mas, de acordo com as teorias da economia de mercado, o Estado não deve desempenhar nenhum papel na vida econômica.

A pergunta deve, portanto, ser feita: se o sistema capitalista não pode sobreviver a menos que seja sustentado pelas muletas do Estado, por que não o abolir completamente e deixar o Estado assumir o controle total da economia para salvá-la de cair em completa e absoluta falência?

A situação atual é uma condenação completa do sistema capitalista, que sobreviveu ao seu papel histórico e só pode ser descartado na lata de lixo da história. Mas sabemos que o capitalismo não entrará em colapso simplesmente sob o peso de suas próprias contradições. Pode sair até mesmo da crise mais profunda e também emergirá da presente. A questão, entretanto, é: como ela emergirá e a que custo para a humanidade?

Embora os períodos de recuperação parcial e temporária não sejam de forma alguma excluídos, a linha geral é claramente de declínio. A próxima recuperação será apenas temporária, o prelúdio de um colapso ainda mais profundo das forças produtivas. Sob o capitalismo, nenhuma solução duradoura é possível.

O capitalismo hoje se assemelha a um monstro que está morrendo de pé, doente terminal, decrépito e decadente. Mas se recusa a morrer. E as consequências desse prolongamento para a humanidade são terríveis ao extremo. No entanto, esse é apenas um lado da imagem. Sob os sintomas da decadência terminal, uma nova sociedade luta para nascer.

É nosso dever fazer tudo ao nosso alcance para encurtar esta agonia de morte, e trazer o nascimento do novo sistema, para auxiliar esse nascimento, de forma que ele ocorra o mais rápido possível, e com o mínimo de dor e sofrimento possível.

Determinismo não é fatalismo

O marxismo é baseado na concepção materialista da história. Rejeitamos a concepção pós-modernista (idealista) da história como uma mera repetição de acidentes sem sentido. A história tem suas próprias leis, que devemos entender.

Somos deterministas históricos, no sentido de que entendemos que os processos gerais da história funcionam de acordo com leis definidas. Mas determinismo não é a mesma coisa que fatalismo. Marx explicou muitas vezes que homens e mulheres fazem sua própria história. Quando um sistema socioeconômico entra em um estágio de declínio, a revolução social é colocada na ordem do dia.

Mas o sucesso ou fracasso dessa revolução depende do envolvimento ativo do fator subjetivo: em termos modernos, o partido revolucionário e sua direção.

No século XVII, na Inglaterra, a primeira revolução burguesa foi travada sob a bandeira da religião. Os puritanos acreditavam que o fim do mundo se aproximava e que o reino de Deus estava próximo. Eles acreditavam que isso era inevitável.

Os calvinistas acreditavam fervorosamente na predestinação. Tudo foi predeterminado pela vontade de Deus, que era muito maior do que a vontade de cada homem ou mulher. Mas esta convicção não enfraqueceu em nenhum sentido seu fervor revolucionário e determinação de trazer este novo mundo o mais rápido possível.

Pelo contrário, estimulou-os a grandes feitos de bravura e audácia revolucionárias. Exatamente a mesma tarefa enfrenta os revolucionários hoje. E vamos abordá-lo exatamente com o mesmo espírito de determinação revolucionária. A diferença é que, ao contrário deles, estaremos armados com as teorias científicas do marxismo revolucionário.

Revolução mundial

Qual é o real significado da situação atual? É um período preparatório para a revolução. A globalização e a consequente intensificação da divisão internacional do trabalho aumentaram as interconexões internacionais a um grau desconhecido no passado.

Até recentemente, a globalização serviu para impulsionar o desenvolvimento do capitalismo a novas alturas. Agora, a mesma coisa servirá para espalhar a revolução em escala mundial.

No decorrer desses eventos, a classe trabalhadora terá muitas oportunidades de tomar o poder em suas mãos. Mais cedo ou mais tarde, em um país ou outro, o avanço virá. Isso vai transformar a situação em escala mundial.

É impossível dizer onde ocorrerá a ruptura. Pode ser no Brasil, Itália, Líbano, Grécia, Rússia ou China – ou mesmo, muito possivelmente, nos próprios Estados Unidos. Mas, uma vez que tenha ocorrido, as repercussões se espalharão pelo mundo muito mais rapidamente do que em qualquer outro momento da história.

As revoluções de 1848-49 ficaram confinadas à Europa, com apenas um eco limitado no resto do mundo. A grande Revolução de Outubro de 1917 causou ondas não só na Europa, mas também na Ásia, onde marcou o verdadeiro início das lutas dos povos coloniais escravizados pela liberdade. Mas agora vemos movimentos revolucionários em todos os lugares: da França ao Líbano, da Bielorrússia à Tailândia, dos EUA ao Chile. Em outras palavras, já estamos vendo os contornos da revolução mundial.

Paciência revolucionária

No passado, as situações pré-revolucionárias não duravam muito. A crise era resolvida, muitas vezes, em questão de meses, com a vitória da revolução, ou então da contrarrevolução seja sob um aspecto fascista ou bonapartista. Mas a atual correlação de forças de classe não admite uma solução tão rápida. A redução da base social da reação de massa (o campesinato, etc.) significa que a classe dominante na maioria dos países não pode recorrer imediatamente à reação fascista ou bonapartista.

Por outro lado, a classe trabalhadora é impedida de tomar o poder pelos líderes de suas próprias organizações de massa. Por essas razões, a crise do capitalismo pode continuar a se arrastar por algum tempo – anos, talvez décadas, com altos e baixos.

Este período será caracterizado por violentas oscilações da opinião pública – tanto para a esquerda quanto para a direita, expressando a busca desesperada das massas por uma saída da crise. Uma coalizão instável se seguirá a outra. Todos os partidos e líderes existentes serão colocados à prova. As massas tentarão uma opção após a outra, descartando primeiro um partido, depois outro, antes de finalmente chegar a conclusões revolucionárias.

Este processo, sem dúvida, começou. Esse é um fato muito importante. Mas o início de um processo é apenas isso. Para que esse processo amadureça e se desenvolva em sua plenitude, será necessário passar por uma série de experiências, pois só com a experiência as massas podem aprender. E elas vão aprender. O resultado final ainda não está à vista.

Os marxistas são pessoas pacientes. Não nos importamos se o processo demorar um pouco mais, pela simples razão de que ainda não estamos prontos. As pessoas agora estão mais abertas às nossas idéias do que em qualquer outro momento. Há um sentimento claramente anticapitalista se desenvolvendo em toda parte. Nossas ideias são consideradas relevantes porque refletem com precisão a situação real.

As condições objetivas para a revolução socialista mundial, como Trotsky apontou, não estão apenas maduras, mas apodreceram. Mas, além das condições objetivas, o fator subjetivo também é necessário. Nossa tarefa é construir esse fator.

Construir a CMI!

Por razões que fogem ao escopo do presente documento, as forças do marxismo genuíno foram repelidas por todo um período histórico. É esta fraqueza da tendência marxista revolucionária em escala mundial que torna impossível para as massas se unirem imediatamente às nossas fileiras.

Neste estágio, nossa audiência estará restrita às camadas mais avançadas dos trabalhadores e da juventude, pela simples razão de que ainda não acumulamos forças suficientes para atingir as massas diretamente. Mas é justamente por meio dessa camada que podemos atingir as massas. Não há realmente outra forma.

Claro, onde grandes oportunidades se apresentam, devemos estar preparados para tomar iniciativas ousadas. Muitas vezes, uma intervenção audaciosa de apenas um de nossos camaradas em uma reunião de massa pode determinar se uma greve ocorre ou não. É possível que uma iniciativa ousada nos impulsione para a direção de movimentos de massa importantes. Desnecessário dizer que devemos agarrar essas possibilidades com as duas mãos. Mas, em todos os momentos, é necessário manter um senso de proporção. Não devemos ter uma visão exagerada de nossas forças e devemos entender o que é possível e o que não é possível em determinado momento.

Lênin frequentemente enfatizava a necessidade de paciência revolucionária. Não podemos pular sobre as cabeças da classe trabalhadora. Não podemos gritar mais alto do que a força de nossa própria garganta. Trotsky advertiu seus seguidores de que não se pode colher onde não se semeou. Não existem atalhos para o sucesso. Buscar atalhos é receita certa para desvios, sejam oportunistas ou ultra-esquerdistas. Ambos são igualmente desastrosos.

Vamos dar um passo de cada vez, estabelecendo metas ambiciosas, mas realizáveis, e depois verificar se elas são cumpridas. A construção de uma organização revolucionária consiste em toda uma série de pequenos passos. Mas pequenos avanços preparam o caminho para coisas muito maiores no futuro.

A CMI está realizando um progresso constante. Isso é reconhecido tanto por nossos amigos quanto por nossos inimigos. Nossa recente Escola Mundial mostrou que nossas idéias já estão alcançando milhares de trabalhadores e jovens mais avançados que procuram o caminho revolucionário.

Foi um grande passo em frente, mas é apenas o começo. Os milhares serão transformados em dezenas de milhares e, em última análise, nos permitirão chegar aos milhões. Não é a mesma coisa entrar em uma nova etapa da revolução mundial com um grupo de 20 ou com uma organização de mil. Essa é uma tarefa bastante difícil, mas inevitável.

A tarefa mais difícil é passar do primeiro punhado para os primeiros cem. Dos primeiros cem aos primeiros mil também não é simples, mas é muito mais fácil. Mas passar de mil para dez mil é mais fácil ainda. E passar de dez mil para cem mil é apenas um passo.

Para pegar emprestado uma frase da física, precisamos atingir a massa crítica – aquele ponto onde o CMI pode realmente entrar como fator decisivo na situação. Acima de tudo, devemos estar atentos à educação dos quadros. Partimos da qualidade, que a certa altura se transforma em quantidade que, por sua vez, se transforma em qualidade.

Essa é a tarefa diante de nós. Somente assim, será possível acabar com o pesadelo do capitalismo e abrir o caminho para um mundo novo e melhor sob o socialismo.

[1] Processo que levou à criação, como resultado da independência da Índia britânica em relação ao Reino Unido, do Domínio do Paquistão e da União Indiana.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM MARXIST.COM

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