Os marxistas enfatizam a necessidade da unidade da classe trabalhadora como a única força que pode acabar com a exploração e opressão - Foto: fair use

Marxismo vs Teoria Queer (parte 3)

Confira a última parte do artigo de  Yola Kipcak, da seção austríaca da Corrente Marxista Internacional (CMI), sobre a Teoria Queer.

PARTE 1 | PARTE 2

Pela unidade da classe trabalhadora!

Para os marxistas, a unidade na luta não se baseia na cultura ou na identidade, nem é uma questão moral. Em vez disso, enfatizamos a necessidade da unidade da classe trabalhadora como a única força que pode acabar com a exploração e a opressão, devido ao seu papel no processo produtivo do capitalismo.

Nossa sociedade é fundamentalmente definida pela forma como produzimos, porque a produção de alimentos, casas, energia – tudo de que precisamos para viver – é a base de como podemos levar nossa vida. Há comida suficiente para permitir o desenvolvimento da ciência e da cultura além da mera sobrevivência? A ciência pode desenvolver nossos meios de produção de modo que a quantidade de trabalho possa ser reduzida e o tempo possa ser liberado para pesquisa, educação e assim por diante? A base econômica determina como trabalhamos e vivemos em nossa sociedade e, como consequência, quais morais, leis ou valores são dominantes (embora essa relação não seja mecânica, como os críticos de Marx gostam de afirmar, mas dialética).

Nossa sociedade é dividida em classes que não são definidas culturalmente pelo fato de alguém ser rico ou pobre (ao contrário, isso é uma consequência da classe a que alguém pertence). As classes são determinadas pelo papel que desempenham no processo de produção. No capitalismo, as classes principais são os capitalistas, que possuem os meios de produção, como fábricas e terras, e a classe trabalhadora, que tem que vender sua força de trabalho para sobreviver dos salários recebidos. A contradição está no fato de que a maioria das pessoas produz socialmente em fábricas e empresas em uma divisão mundial do trabalho, enquanto os frutos de seu trabalho são apropriados privadamente por uma minoria. Como esta minoria de capitalistas produz competindo entre si, sob a anarquia do mercado mundial e apenas para seus próprios lucros, isso leva a crises periódicas, e é a razão pela qual os recursos de nossa sociedade não podem ser usados ​​para garantir uma vida decente para toda humanidade. Essa exploração é a base decisiva para a opressão e a discriminação. Socialismo significa resolver a contradição da produção social / propriedade privada tomando a produção em nossas próprias mãos, sob o controle da sociedade, ou seja, expropriando a minoria parasitária dos capitalistas.

Disto, segue-se que a unidade da classe trabalhadora está enraizada nas condições atuais. Uma boa vida para a classe trabalhadora – salários mais altos, jornada de trabalho mais curta, um sistema de bem-estar de alta qualidade – só pode ser realizada contra o interesse dos capitalistas, porque isso reduziria diretamente seus lucros. Os marxistas vêem como sua tarefa tornar esse interesse comum da classe trabalhadora o mais visível possível para fortalecer nossa unidade, porque somente juntos podemos derrubar esse sistema explorador. É por isso que os marxistas lutam decisivamente contra qualquer tipo de divisão; isto é, contra o racismo, preconceitos sexistas e outras formas de discriminação, independentemente do proponente ser um político, um capitalista ou um colega de trabalho. Somos contra qualquer forma de discriminação, mas, em contraste com a política identitária, não entendemos os interesses dos diferentes gêneros, orientações sexuais, etc., como fundamentalmente opostos uns aos outros. Por outro lado, os diferentes interesses de classe o são (ou seja, um deve perder se o outro ganhar).

Objetivamente, há riqueza suficiente em nossa sociedade para tornar possível uma vida confortável para todos. Há comida suficiente e temos tecnologia para reduzir drasticamente a jornada de trabalho e ainda cumprir todas as tarefas da sociedade. Preenchemos também todos os pré-requisitos para a socialização do trabalho doméstico (limpar, cozinhar, educar os filhos, cuidar dos idosos…), que hoje é em grande parte feito dentro da instituição da família. Isso poderia ser alcançado abrindo cozinhas comunitárias e jardins de infância públicos, e investindo em um bom sistema de bem-estar e saúde. Essas medidas eliminariam a base material da família capitalista, que aprisiona as mulheres em uma jaula opressora e é a base para a discriminação pautada no gênero e na sexualidade. Sem pressão e dependência materiais, as relações humanas poderiam evoluir para associações verdadeiramente livres, o que seria um passo a frente para todas as mulheres e homens. Ciência, educação, cultura e linguagem seriam libertadas da motivação do lucro e dos interesses da classe dominante, que está constantemente nos dividindo e nos mantendo por baixo. A cultura humana poderia atingir alturas inimagináveis. Em comparação, as modestas demandas dos teóricos queer por um novo vocabulário e espaços livres mostram como eles estão limitados dentro dos limites estreitos do capitalismo.

Isso, é claro, não significa que as conquistas culturais acontecerão “automaticamente” ou “por si mesmas” simplesmente pela expropriação das grandes corporações e bancos. Mas devemos compreender a relação real entre base material e cultura, entre revolução e linguagem, concretamente.

O ato da revolução significa a entrada das massas no palco da história. É o processo em que as massas tomam seu destino em suas próprias mãos e não mais permitem que suas vidas sejam ditadas por outros. Em todas as revoluções históricas, as massas trabalhadoras desencadearam uma criatividade incrível e começaram a remover o lixo da velha sociedade.

Em seu texto É Preciso Lutar por uma Linguagem Polida, Trotsky descreve como, após a Revolução Russa, foi travada a luta contra a linguagem abusiva e o xingamento. Em um país extremamente atrasado que apenas começava a assumir a tarefa de revolucionar a sociedade, numa época em que “filosofia da linguagem” ainda nem era um termo, os trabalhadores de uma fábrica de calçados chamada “Comuna de Paris” decidiram em uma assembleia geral para erradicar a linguagem imprópria em seu local de trabalho e impor punições se essa decisão fosse violada. Trotsky escreve:

“A revolução é, antes e acima de tudo, o despertar da humanidade, sua marcha para a frente, e é marcada por um respeito crescente pela dignidade pessoal de cada indivíduo com uma preocupação cada vez maior com aqueles que são fracos … E como se poderia criar dia a dia, mesmo que aos poucos, uma nova vida baseada na consideração mútua, no respeito próprio, na igualdade real das mulheres, vistas como colegas de trabalho, no cuidado eficiente dos filhos – em uma atmosfera envenenada com o vociferante, repetido, ecoante e retumbante praguejar de senhores e escravos, esse praguejar que não poupa ninguém e nada para? A luta contra a ‘linguagem imprópria’ é uma condição da cultura intelectual, assim como a luta contra a sujeira e os vermes é uma condição da cultura física.” (Leon Trotsky: The Struggle for Cultured Speech.) [título em português, É Preciso Lutar por uma Linguagem Polida]

Essa luta não é linear, nem fácil, porque a consciência se desenvolve de forma contraditória. Como Trotsky apontou no mesmo texto:

“Um homem é um comunista convicto e dedicado à causa, mas as mulheres são para ele apenas ‘mulheres’, que não devem ser levadas a sério de forma alguma. Ou acontece que um comunista sob outros aspectos confiável, ao discutir questões nacionalistas, começa a falar coisas irremediavelmente reacionárias. Para explicar isso, devemos lembrar que diferentes partes da consciência humana não mudam e se desenvolvem simultaneamente e em linhas paralelas. Existe uma certa economia no processo. A psicologia humana é muito conservadora por natureza, e a mudança devido às demandas e ao impulso da vida afeta em primeiro lugar as partes da mente que estão diretamente envolvidas no caso.” (Op. cit.)

A luta por uma cultura humana, de companheirismo, portanto, não acabou simplesmente depois de uma revolução. No entanto, a revolução cria as condições nas quais a luta unida e comum por tal cultura pode ser desenvolvida livremente e verdadeiramente autodeterminada. Isso foi ativamente apoiado após a Revolução Russa, quando mulheres revolucionárias foram enviadas a todo o país e promoveram programas educacionais maciços e esforços organizacionais. Esse movimento Zhenotdel foi posteriormente encerrado por Stalin em 1930. Trotsky disse, sobre o papel das mulheres revolucionárias, que elas devem ser o aríete moral nas mãos de uma sociedade socialista que rompe o conservadorismo e velhos preconceitos.

“Mas aí, novamente, o problema é extremamente complicado e não poderia ser resolvido apenas pelo ensino escolar e pelos livros: as raízes das contradições e das inconsistências psicológicas estão na desorganização e na confusão das condições em que as pessoas vivem. Afinal, a psicologia é determinada pela vida. Mas a dependência não é puramente mecânica e automática: é ativa e recíproca. O problema em conseqüência deve ser abordado de muitas maneiras diferentes – a dos homens da fábrica “Comuna de Paris” é uma delas. Desejamos a eles todo o sucesso possível.” (Op. cit.)

Existe um enorme abismo entre as campanhas LGBT tokenizadas e sancionadas pelo sistema de hoje, onde a exploração de classe e a alienação psicológica de nós mesmos ainda são mantidas, e a campanha organizada pelos trabalhadores da fábrica de calçados “Comuna de Paris”, que tinham controle total sobre suas próprias condições de trabalho – incluindo a cultura linguística! Não é difícil imaginar qual desses dois criaria raízes mais profundas e funcionaria mais completamente.

O objetivo de alcançar uma cultura e uma linguagem humanas é compreensível e correto, mas a orientação política de criar uma nova linguagem de igualdade sem também enfrentar a real desigualdade social é uma ilusão perigosa e, no final, um impasse. Uma cultura verdadeiramente humana e livre nascerá da luta comum pela emancipação da classe trabalhadora, que moldará nossa consciência, rompendo gerações de preconceitos e lançará a atual e monstruosa discriminação: racismo, sexismo, violência e degradação da mulher e das minorias na lata de lixo da história.

Por último, mas não menos importante: devemos nos denominar marxistas-queer?

O que explicamos acima mostrou que, começando com uma compreensão do que o mundo realmente é, de como (ou se) podemos mudá-lo e como as conclusões práticas que decorrem disso, a Teoria Queer e o marxismo são teorias irreconciliáveis. Ainda assim, vez ou outra, tentativas são feitas para combiná-las e retratá-las como mutuamente compatíveis.

Raramente esses esforços são mais do que um esforço desajeitado para se apropriar do rótulo de marxismo para dar a si mesmo um grau de credibilidade radical, enquanto distorce completamente sua essência no processo. Há, no entanto, alguns na esquerda, sem dúvida com intenções honestas, que argumentam que devemos adotar o rótulo de “marxismo queer”.

O argumento mais comum levantado por essas pessoas é que há “algo faltando” no marxismo, ou seja, que é incapaz de compreender a opressão específica das sexualidades. Deve ser óbvio a partir do presente artigo que fornecemos argumentos suficientes para confrontar essas alegações.

No entanto, outro argumento popular tem a ver com a tática, que é mais ou menos assim: deve-se sustentar uma base marxista firme, mas para tornar o marxismo mais atraente para pessoas de todas as identidades, e por causa de sua má reputação, chamar a si mesmo de marxista-queer pode enviar um sinal claro de inclusão. E que mal poderia fazer se não funcionar imediatamente? Se não ajudar, não atrapalha, diz o argumento.

Uma demonstração relativamente extensa dessa maneira de pensar é fornecida por Holly Lewis em seu livro The politics of everybody (2016) [sem tradução para o português], do qual, portanto, trataremos brevemente aqui.

Em seu livro, Lewis se refere de forma bastante autoconsciente à “abordagem antiga e fora de moda do materialismo de Marx“, incluindo sua orientação para a classe trabalhadora a fim de mudar o mundo (Holly Lewis: The politics of everybody, p. 91.) Ela escreveu seu livro supostamente para tornar o marxismo tentador para ativistas queer e feministas e, inversamente, para familiarizar os marxistas com a política e as origens da política feminista, queer e trans. (Ibidem, p. 14)

Na superfície, o marxismo-queer pode parecer para alguns uma boa maneira de ganhar pessoas queer para o marxismo e integrá-los na luta contra o capitalismo. Mas afirmar que precisamos de um “marxismo-queer” inevitavelmente leva ao caminho de diferenciá-lo do “marxismo clássico”, precisamente para justificar porquê deve haver um “marxismo queer” em primeiro lugar. Isso cria uma fissura entre os dois e abre a porta pela qual se infiltram idéias alheias à classe trabalhadora e concessões ideológicas.

Depois de passar um bom terço de seu livro tentando explicar os fundamentos do marxismo, Holly Lewis chega exatamente a esse ponto. Como uma feminista-marxista-queer, ela deseja incorporar as perspectivas internacionais queer, trans e intersexo na análise materialista e marxista de sexo e gênero. (Ibidem, p.107.)

E quais são essas perspectivas particulares que, em sua opinião, podem explicar as formas específicas de opressão melhor do que o marxismo “tediosamente normal”? Aqui, todos os velhos argumentos são desempacotados, como Marx e Engels sendo filhos de seu tempo e, portanto, é claro, sexistas, com Engels sendo um pouco mais sexista do que Marx. Em seguida, ela constrói, como os revisionistas costumam fazer, uma alegada contradição entre Marx e Engels, com este último supostamente não compreendendo corretamente a natureza da opressão das mulheres, o que seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado aparentemente confirma. Ela rejeita a compreensão marxista do papel da família no capitalismo e gradualmente enfraquece os próprios fundamentos do marxismo, incluindo sua análise materialista histórica. No que diz respeito à questão de gênero, ela finalmente chega ao ponto de formulações vagas e pouco claras sobre a suposta (in-)existência de gêneros.

No entanto, mesmo nessa base filosófica confusa, é quase impossível para ela empregar qualquer aspecto da Teoria Queer de maneira positiva. Mas ela encontra algo ao qual se agarrar: o conceito de performance, que postula que os papéis de gênero são internalizados por meio de ações repetitivas.

“Longe de ser incompatível com a análise materialista, a intervenção de Butler se encaixa perfeitamente na concepção de ideologia de Fields3 como uma repetição de ações originadas nas relações sociais, mas ações que continuam a ser normalizadas pelo hábito, pela experiência e pela lógica organizacional de uma dada sociedade.” (Ibidem, p. 199.)

E, assim, o marxismo e a teoria queer são apresentados, não como mutuamente exclusivos e servindo a interesses de classe divergentes, mas como coexistindo pacificamente, podendo-se pegar emprestados pedaços individuais e misturá-los ao acaso.

Precisamos ser claros aqui. O marxismo é baseado em um conjunto de leis derivadas da natureza e, portanto, quanto mais visão científica tivermos da natureza, mais poderemos desenvolver essas leis gerais. É necessário testar constantemente as próprias análises com a realidade e, se necessário, adaptá-la, bem como explorar novos fenômenos profunda e completamente. No entanto, isso é completamente diferente de capitular às ideologias burguesas e se comprometer com o idealismo.

O maior erro de Lewis não é explicar que as ideologias são endurecidas na mente das pessoas por meio de rituais e performances (o que é uma observação verdadeira, embora mundana), mas que, a partir desse detalhe, ela faz a Teoria Queer parecer uma “aliada”. Em última análise, o cerne da questão é que ela não tem uma compreensão das consequências das ideologias burguesas para a classe trabalhadora, e do papel dos líderes burocráticos e intelectuais, que assumem essas ideologias dentro do movimento e das organizações do classe trabalhadora.

A classe dominante tem muitas maneiras de corromper a liderança do movimento dos trabalhadores e de apoiar aqueles indivíduos dentro do movimento que defendem e espalham ideologias (pequeno-) burguesas. Há empregos no governo e no aparelho de Estado a serem doados, há a chamada “parceria social” entre capital e trabalho, por meio da qual burocratas sindicais e partidos de trabalhadores se encontram cara a cara com a burguesia. Em vez de defender os interesses da classe trabalhadora, para eles, os trabalhadores são simplesmente peões que podem ser movidos para defender suas próprias posições burocráticas. Eles querem ligar e desligar as lutas dos trabalhadores como água da torneira, a fim de fortalecer seu poder de barganha. Ideologias pequeno-burguesas, como o feminismo, que desviam a atenção da luta de classes, mas têm uma “imagem de esquerda”, são entusiasticamente assumidas pelos burocratas por servirem bem aos seus próprios interesses. Os intelectuais das universidades que defendem seus financiamentos, cargos e instituições de pesquisa desenvolvem essas ideologias para justificar sua prática e, sabendo ou não, jogam areia nos olhos de ativistas em busca de respostas.

Em resumo, Lewis concorda que a Teoria Queer & Cia. pode, de fato, ser usada de maneira reacionária e que é uma expressão de uma pequena burguesia economicamente insegura. No entanto, ela silencia sobre o papel concreto que essas ideologias desempenham nos movimentos sociais. Ela, assim, acaba servindo de folha de figueira de esquerda para o reformismo e a burocracia. Isso se torna óbvio sempre que ela escreve sobre eventos históricos concretos, por exemplo, a traição da Segunda Internacional.

Em 1914, a maioria dos partidos de trabalhadores da Europa, que estavam então unidos na Segunda Internacional, votaram em seus respectivos parlamentos nacionais a favor dos créditos de guerra para a Primeira Guerra Mundial. Assim, sancionaram uma guerra imperialista no interesse dos capitalistas. Apenas um punhado de revolucionários, incluindo Lenin e Rosa Luxemburgo, resistiu a essa onda de chauvinismo. Como Lewis explica essa traição histórica da liderança social-democrata?

Segundo ela, os representantes dos partidos social-democratas concordaram com a Primeira Guerra Mundial e capitularam ao chauvinismo nacional porque Eduard Bernstein e Karl Kautsky, em seus escritos como o Programa de Erfurt, popularizaram uma compreensão superficial das ideias de Karl Marx, e “tais distorções acabaram levando os membros da Segunda Internacional a votarem que os partidos socialistas deveriam apoiar suas respectivas nações na Primeira Guerra Mundial.” (Ibidem, p. 63)

Essa representação, no entanto, vira a realidade de ponta-cabeça, porque ignora o contexto em que as distorções do marxismo surgiram naquela época. Antes da Primeira Guerra Mundial, uma camada de burocratas havia se acostumado com suas vidas bastante confortáveis ​​como parlamentares e, em face de um longo período de boom econômico, declarou a revolução desnecessária. A traição deles não foi um simples mal-entendido dos ensinamentos “puros” do Capital, não apenas uma batalha ideológica em terreno igual, mas uma expressão de uma camada burocrática dentro dos partidos dos trabalhadores que preferiam suas posições confortáveis ​​a duros conflitos de classes, incluindo a guerra revolucionária contra “seus próprios” capitalistas nacionais. O resultado não foi apenas um desvio ideológico, mas se traduziu em apoio concreto ao massacre em massa de trabalhadores na guerra e à traição de numerosos movimentos revolucionários nos anos após a guerra: na Alemanha, Áustria, Hungria e assim por diante. Foi assim que a oportunidade de vencer a batalha pelo socialismo internacional, que estava ao nosso alcance, foi afogada em sangue e, por fim, levou ao surgimento do fascismo na Europa.

A descrição de Lewis dos sindicatos nos EUA nas décadas de 1980 e 1990 vai na mesma direção, ocultando o papel negativo da burocracia dentro do movimento. Procurando explicar por que as organizações tradicionais da classe trabalhadora organizam tão poucas pessoas “queer e trans”, ela escreve:

“No entanto, o fracasso pode não estar nas políticas ou hábitos dos sindicatos e organizações, mas no fato de que as próprias organizações trabalhistas e socialistas têm influência decrescente sobre a classe trabalhadora sob o neoliberalismo. Ironicamente, as pessoas queer e trans da classe trabalhadora podem transformar a política da classe trabalhadora ao fortalecer as estruturas em deterioração do poder da classe trabalhadora” (Ibidem, p. 165.)

E:

“O offshoring de empregos causou um declínio contínuo da filiação sindical durante as décadas de 1980 e 1990 … Apesar de todas as inadequações dos sindicatos de negócios americanos, seria necessário um forte movimento sindical internacional para desafiar o neoliberalismo.” (Ibidem, pp. 208-9.)

Então, segundo ela, quais são as razões para o declínio da filiação sindical? Para ela, isso se deu por causa do “neoliberalismo”, que pressionou os sindicatos com ameaças de offshoring. A segunda razão séria que ela dá é a fraqueza do movimento sindical internacional, e só depois desses fatores ela vê que é de alguma forma também relevante que os sindicatos tenham uma postura pró-negócios.

Essa representação na verdade acaba argumentando que qualquer luta naquela época era inútil para começo de conversa. Também encobre o papel da burocracia sindical de direita que observava em silêncio uma série de grandes ataques por parte dos patrões e do governo. Por exemplo, quando o presidente Reagan escandalosamente quebrou a greve dos controladores de tráfego aéreo da PATCO em 1981 usando fura-greves militares e posteriormente proibiu 19.000 trabalhadores de trabalhar neste setor novamente, os líderes da AFL-CIO nem sequer pensaram em organizar greves de solidariedade em defesa dos trabalhadores da PATCO. Em 1995, a direção da AFL-CIO fechou seu departamento internacional e o substituiu por um “centro de solidariedade”, que recebeu noventa por cento de seu orçamento do Estado e, por exemplo, apoiou o golpe de 2002 contra o presidente venezuelano Hugo Chávez. Assim, contribuíram diretamente para o mau estado em que se encontrava o movimento internacional dos trabalhadores! Mais dinheiro sindical foi usado para financiar a máquina partidária dos democratas do que para organizar campanhas pelos direitos dos trabalhadores. E a lista continua. Isso mostra claramente que qualquer linha de argumento que ignore o papel específico da burocracia acaba inevitavelmente por encobrir sua postura traiçoeira.

A falta de compreensão de como os movimentos reais e suas lideranças progridem e de como as ideologias (pequeno) burguesas atuam pelos interesses contra-revolucionários dentro do movimento, leva à conclusão errônea de que a questão “Teoria Queer vs. Marxismo” é uma competição justa entre duas idéias igualmente válidas.

Mas os capitalistas não pressionam apenas as minorias e camadas oprimidas da sociedade, mas também os revolucionários. Nos sindicatos, delegados sindicais críticos são isolados, nos partidos de massa dos trabalhadores, os marxistas são difamados ou expulsos e, no mercado de trabalho, geralmente não é a melhor credencial ser membro de qualquer organização revolucionária.

É de vital necessidade defender com firmeza as ideias do marxismo se quisermos alcançar revoluções vitoriosas, sendo a alternativa a derrota. No entanto, temos que levar em conta o fato de que a classe dominante e seus fantoches sempre tentarão tornar isso o mais difícil possível. Acadêmicos que tentam roubar o conteúdo revolucionário do marxismo em nome de algumas idéias novas ou da moda não servem simplesmente aos interesses da classe dominante diretamente, assumindo o que podem parecer “idéias inofensivas”, mas são fundamentalmente pequeno-burguesas – como o feminismo, com todas as suas ideias sobre culpar os homens como um todo pela opressão das mulheres, em vez de ver essa opressão como fluindo da divisão da sociedade em classes. Os líderes reformistas dos sindicatos e partidos dos trabalhadores também aperfeiçoaram suas habilidades em fazer discursos radicais em reuniões internas, apenas para servir como os mais fiéis apoiadores do capital na sociedade como um todo.

A luta unida é a arma mais importante que a classe trabalhadora possui e que pode nos libertar. O marxismo defende essa unidade de forma consistente até o fim. O marxismo, portanto, luta pela inclusão de todas as pessoas, independentemente de suas origens étnicas, gênero, identidade, religião, etc., na luta contra a classe dominante, o sistema capitalista e todas as formas de opressão que vêm com ele. Rejeitamos qualquer ideologia que conduza a uma prática que bloqueie, retarde ou impossibilite essa luta, por mais “moderna” ou radical que pareça. Isso também inclui a Teoria Queer. O chamado “aprimoramento” do marxismo com complementos queer ou feministas significa o enfraquecimento ideológico do marxismo. Em última análise, esse enfraquecimento não serve para conquistar pessoas de diferentes identidades e orientações sexuais para o nosso movimento. Ao contrário, é usado como um meio pelo qual os carreiristas (pequeno) burgueses podem se esconder atrás do que parece ser uma posição radical enquanto usam o movimento operário e suas organizações para promover seus próprios interesses pessoais. Portanto, embaçar a linha divisória entre o marxismo e a Teoria Queer é um obstáculo em nossa luta pela emancipação da humanidade de todas as formas de exploração e opressão.

Somente se rompermos com a burguesia em todos os níveis (tanto o ideológico quanto a prática da colaboração de classes e da corrupção por meio do dinheiro do Estado e dos cargos que dele emanam) poderemos derrubar o capitalismo e tomar nosso destino em nossas próprias mãos. Convidamos todos os anti-capitalistas a se juntarem a nós nesta luta.

Nota:

3 Barbara Fields, cientista social, pesquisadora sobre o racismo.

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TRADUZIDO DO INGLÊS POR TAISA LEONARDO.
PUBLICADO EM MARXIST.COM

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