Lênin e o leninismo: em defesa de suas lições

“Há ocasiões na história nas quais os ensinamentos dos grandes revolucionários são distorcidos após suas mortes. Os homens fazem deles ícones inofensivos e, enquanto honram seus nomes, eles amaldiçoam o aspecto revolucionário de seus ensinamentos.” (Nadezhda Krupskaya, revolucionária e companheira de Lênin)

O marxismo é uma ciência. Dialética, em movimento. Essa ferramenta de compreensão totalizante da vida é desenvolvida historicamente por revolucionários que se prestaram, não somente a interpretar o mundo de diferentes maneiras, mas a transformá-lo.

A ciência proletária não serve para construir mitos e ícones inofensivos. Ao contrário das adulterações feitas pela camarilha de Stalin, Vladimir Ilyich Ulyanov, o Lênin, não foi um quadro na parede, mas um dos arquitetos mais brilhantes do materialismo histórico-dialético, capaz de demonstrar a possibilidade da produção de um novo mundo, baseado no comunismo internacional.

Como explicou Plekhanov – homem responsável por introduzir o marxismo na Rússia e à Lênin -, “o grande humano assim se torna pela capacidade de servir às necessidades sociais de sua época, surgidas sob a influência das causas gerais e particulares de seu tempo”, e foi isso que moldou Lênin.

Nascido em 22 de abril de 1870, em Simbirsk, cidade central da Rússia europeia, às margens do rio Volga, o mais longo de todo o continente, inspiração do imaginário popular e fundamental para a indústria russa, vivenciou as agitações políticas em seu país no final do século XIX. Um Estado despótico, absolutista, que organizava uma sociedade atrasada e semifeudal teve como resposta a formação de revolucionários imbuídos da necessidade de soterrar o czarismo.

Esse contexto influenciou-o dentro de casa, pois pôde presenciar a militância de seu irmão mais velho, Alexander, contra seu inimigo homônimo, o Czar Alexander III. Inclusive, podemos ousar dizer que o exemplo de seu irmão contribuiu para o entendimento da organização coletiva da classe explorada contra os dominantes como a única arma efetiva de combate, e não por métodos terroristas de grupos conspiratórios. O resultado disso foi o enforcamento do velho Alexander Ulyanov, o Sasha, como era conhecido, após uma frustrada tentativa terrorista de assassinar o absolutista russo, em 1887.

Por sua verve militante, Lênin foi expulso da Universidade Imperial de Kazan, a qual ingressou para cursar Direito, após a morte do irmão. Sua atuação política e vontade de aprender todo o acúmulo desenvolvido pela humanidade o levou aos círculos de estudo marxista, recém-inaugurados na Rússia.

De “O Capital” ao “Anti-Duhring”, de Marx a Engels, eram os estudos incansáveis desse jovem, que já se organizava no Grupo de Emancipação do Trabalho, fundado em 1883 e dirigido pelo já mencionado George Plekhanov. Nesse coletivo, cumpriu sua primeira grande tarefa, a de estendê-lo para São Petersburgo.

A Rússia passava pelo incremento industrial, a formação do proletariado, ainda que pequeno, pelo financiamento estrangeiro das forças produtivas capitalistas. Era, naturalmente por essas condições, o momento em que se consolidariam as ideias marxistas. Por isso, Lênin foi preso e exilado em 1895, período em que se casou com Krupskaya.

Por volta de 1900, deu vida ao Iskra, jornal revolucionário que seria a faísca para colocar fogo na luta de classes na Rússia. A tentativa buscava defender o marxismo como a principal ideia na esquerda do país. E teve sucesso ao unir os círculos de estudo rumo a um partido nacional com sólidas bases teóricas e políticas, o Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR), expressão socialista da classe trabalhadora.

Em “Que fazer?” (1902), Lênin sintetizou a necessidade de um partido formado por militantes profissionais e centralizados, capazes de organizar a luta contra o czarismo. Então, no ano seguinte, no 2º Congresso do POSDR, os militantes de Lênin, que compunham a ala do jornal Iskra, conquistaram a direção ideológica do partido.

Entretanto, a cisão entre os dois editores do jornal, Lênin e Martov, separou o partido em Bolcheviques e Mencheviques. Mesmo com o esforço de Lênin pela unidade, esse racha antecipou as profundas diferenças entre as duas frações, onde a maioria defenderia a revolução socialista e o poder operário apoiado pelos camponeses, enquanto a minoria de Martov se agarraria às ilusões pequeno-burguesas da democracia liberal.

Motivada pela miséria e a guerra russo-japonesa, a revolução russa de 1905 comprovou que somente a classe trabalhadora poderia dirigir a transformação social. Construíram-se, então, os sovietes, embriões do governo dos trabalhadores. Mas a reação das forças absolutistas conseguiu derrotar a revolução. Foi o período de construção independente dos bolcheviques para formar seu Partido, conformado a partir de 1912.

A capitulação da 2º Internacional ao militarismo-nacionalista, em agosto de 1914, bloqueou o crescimento da organização revolucionária e das ideias de Lênin entre as massas trabalhadoras. Mas o reagrupamento das forças antiguerra e pelo comunismo internacional foi realizado com a Conferência de Zimmerwald, em 1915.

O papel dirigente de Lênin para impulsionar a reconstrução da internacional proletária, que se daria em 1919, foi crucial. Dos meses que retiraram os revolucionários da desesperança, devido à conjuntura da guerra mundial, ao maior assalto aos céus que a humanidade já conquistou até o momento.

Após a revolução de fevereiro de 1917 pôr abaixo o czarismo, foi Lênin o responsável por orientar, direto do exílio, a posição dos bolcheviques, quando da traição de Socialistas Revolucionários (SR) e Mencheviques, que entregaram o governo provisório ao monarquista Príncipe Lvov. Em 7 de março do ano revolucionário, escreveu:

“A nossa revolução é burguesa, dizemos nós marxistas, por isso os trabalhadores devem abrir os olhos do povo para a fraude praticada pelos políticos burgueses, ensiná-los a não confiar em palavras, depender unicamente de sua própria força, sua própria organização, sua própria unidade, e suas próprias armas… Vocês devem realizar milagres de organizações, organização do proletariado e de todo o povo para preparar o caminho de sua vitória na segunda parte da revolução.” (Cartas de Longe)

Para Lênin, a transformação da revolução burguesa em proletária na Rússia era o prólogo da revolução comunista internacional. Não existiria socialismo num só país.

Em as “Teses de Abril”, publicadas no dia 7, apresentou as tarefas socialistas que os bolcheviques deveriam cumprir para dirigir os trabalhadores na segunda revolução. Era a revolução permanente descrita por Trotsky, mas nas palavras de Lênin.

As teses pressionavam os mencheviques e os SRs a romper com os ministros capitalistas para a tomada do poder. Mas logo as palavras de ordem por Pão, Paz e Terra e Todo Poder aos Soviets coadunaram as forças renovadas dos bolcheviques internacionalistas e as fileiras operárias e camponesas, pois expressavam suas necessidades imediatas a partir de um programa socialista. Por isso foram reprimidas por Kerensky – o líder burguês do governo liberal -, em julho, levando à prisão Trotsky, Kollontai e outros dirigentes.

A reação fascista do general Kornilov provocou a soltura dos bolcheviques, únicos capazes de organizar as forças operárias contra essa tentativa. E os liberais sabiam disso. A reputação social dos revolucionários cresceu, levando-os às eleições dos sovietes de Moscou e Petrogrado, alçando Trotsky à direção do maior conselho operário do país.

Mas, novamente, Lênin foi decisivo para que o Comitê Central bolchevique, às vésperas da Revolução de Outubro, votasse em favor das ações que realizassem a segunda revolução. Evento esse, organizado rapidamente por Trotsky em 25 de outubro, para uma tranquila transferência de poder, sem sangue para o anúncio da construção da ordem socialista, proferida por Lênin, no II Congresso de Todos os Sovietes Russos, no dia 26. Conclamados pelos operários, o partido de Lênin estabelecia o novo governo soviético, sem patrões nem generais.

O leninismo orientou a conquista de paz à nação, terra aos camponeses, direito à autodeterminação dos povos, direito à revogação de mandatos de todos os representantes, igualdade jurídico-social entre homens e mulheres, separação do Estado e igreja e controle da produção pelos operários. Nada seria como antes.

E não foi, pois o Terror Branco de 21 exércitos estrangeiros e imperialistas bloquearam a vida da revolução durante a Guerra Civil (1918-1921). Perseguições, sabotagens, assassinatos sádicos, febre tifóide e cólera. Milhões morreram na Rússia soviética pela reação burguesa, com apoio de SRs e mencheviques. Lênin declarou, em 24 de agosto de 1919, que a indústria havia parado e a comida e o combustível tinham acabado. Ainda assim, Lênin apoiava e impulsionava a classe trabalhadora à vitória.

Sob a direção de Trotsky e Lênin, o poder soviético persistiu, arrancando da história seu lugar de direito. Entretanto, venceu, diante de um país em destroços, sendo necessário o recuo a partir da Nova Política Econômica (NEP), abrindo o mercado privado no país, especialmente para a comercialização de grãos.

Não havia segredos: ou a revolução triunfaria internacionalmente ou os funcionários burocratas do Estado – muitos deles ainda da estrutura czarista – e o ressurgimento de relações capitalistas afogariam a revolução. Lênin defendia exatamente isso, daí a urgência de consolidar a escola do bolchevismo, a 3º Internacional, a Internacional Comunista responsável por espalhar a revolução.

Porém, as derrotas proletárias na Europa e na China e as traições socialdemocratas esmagaram a revolução permanente nesse período. Na URSS, Lênin, com sua saúde debilitada, ia se tornando ícone com a ascensão de Stalin como representante do recrudescimento do Estado soviético.

Enquanto, para Lênin, como aprendemos em “O Estado e a Revolução” (1917), essa estrutura deveria definhar, ao ponto de desaparecer, a partir da proliferação dos poderes soviéticos pelo mundo, e não continuar existindo como o novo órgão opressor da sociedade. Agora, sob o controle de uma casta burocrática que apropriou-se da história revolucionária e dos símbolos de nossa classe, o socialismo se limitava do oceano Pacífico ao mar Negro, do Turcomenistão à Chukotka, no extremo nordeste oriental russo.

Por isso é sempre importante relembrar os últimos escritos de Lênin, como o famoso “Testamento”, de dezembro de 1922, ou “Melhor pouco, porém bom”, publicado no jornal Pravda em 6 de fevereiro de 1923, onde expressou sua ruptura pessoal e política com Stalin, denunciando os métodos e tendências ao abuso de poder da camarilha burocrática.

Infelizmente, a partir de março de 1923 e até sua morte, Lênin tornou-se praticamente incapaz de qualquer orientação política. Lutava por sua vida, que já passara por atentados de toda ordem. O derrame cerebral, a paralisia de sua circulação arterial, suprimiu suas forças em 21 de janeiro de 1924.

Com a vitória da contrarrevolução burocrática na União Soviética, a burguesia e seus porta-vozes não se cansam de esbravejar que o stalinismo nada mais fora que a continuidade do leninismo. Isso não passa de uma falsificação grotesca. As ideias e métodos de Lênin eram internacionalistas e democráticos, opostas às práticas de Stalin, que possuía, como eixo de toda sua política, a teoria do socialismo em um só país.

Todo o restante produzido por essa casta burocrática não passa de subproduto da negação ao leninismo. A teoria do partido único, o culto à personalidade, a substituição do internacionalismo proletário pelo patriotismo-nacionalismo e os zigue-zagues de conveniência para a burocracia somente orbitam em torno da principal teoria stalinista, que camuflou-se sob o nome de “marxismo-leninismo”.

Em combate a isso, estiveram milhões de camaradas, e seguimos nós da Corrente Marxista Internacional, em defesa do bolchevismo-leninismo com legado de outro gigante, Leon Trotsky, que em 22 de janeiro de 1924, dia seguinte do desaparecimento de Lênin, escreveu uma emocionada carta alertando que:

“Lênin já não existe, mas temos o leninismo! O que havia de imortal em Lênin, os seus ensinamentos, o seu trabalho, os seus métodos, o seu exemplo – vive em nós, neste Partido que criou, neste primeiro Estado operário à cabeça do qual se encontrou e que ele dirigiu. […] O nosso Partido deve ser o leninismo em ação; o nosso Partido deve ser o guia coletivo dos trabalhadores. […] Lembremo-nos que a nossa responsabilidade é agora muito maior.”

Portanto, sejamos dignos das lições de Lênin. A tarefa dos comunistas em nosso tempo é construir as forças do comunismo internacional, analisando e atuando na luta de classes a partir de suas ideias revolucionárias e não da caricatura de seu mausoléu.