Foto: Andrea Tedone

Itália: os trabalhadores contra-atacam

Em 9 de julho, 422 trabalhadores da fábrica Campi Bisenzio da GKN (Indústria Aeroespacial britânica – NDT), perto de Florença, receberam uma mensagem de texto que veio da gestão da multinacional britânica. A mensagem comunicava que os trabalhadores haviam sido demitidos de forma imediata e coletiva. No entanto, a fábrica não está em crise. Existe mercado para a produção de motores e outros componentes para o setor automotivo que a fábrica é capaz de produzir. Então, por que as demissões?

A resposta está no fato de que a Melrose Industries PLC comprou a GKN em 2018. Em seu site a empresa declara que “a Melrose compra bons negócios de manufatura com fundamentos sólidos, cujo desempenho pode ser melhorado”. Logo, eles próprios admitem que a GKN é um “bom negócio de manufatura”. Mas eles não se limitam a “melhorar o desempenho”. Como eles mesmos explicam, “a Melrose financia suas aquisições usando um baixo nível de alavancagem, melhora os negócios por meio de uma mistura de investimento significativo e foco de gestão alterada, vende-os e retorna o produto aos acionistas”.

Isso significa que Melrose está planejando retirar ativos da fábrica em Florença, reduzir os recursos humanos – ou seja, despedir a força de trabalho – e transferir a produção para outro lugar, onde os custos trabalhistas são mais baixos, a fim de maximizar os lucros para os patrões, ou como dizem, “devolver o produto aos acionistas”. Até o final de 2020, o grupo Melrose se orgulhava de ter devolvido 4,7 bilhões de euros aos acionistas desde a sua criação. Para alcançar esse resultado, eles não tiveram a menor preocupação com as centenas de famílias que sofrem significativamente com o fechamento de fábricas e a perda de empregos.

A Melrose também encontrou um amigo no governo italiano: o primeiro-ministro Draghi, ex-governador do Banco Central Europeu. Quando a pandemia atingiu a Itália, milhões de trabalhadores corriam o risco de perder seus empregos. Havia um clima de muita raiva entre os trabalhadores de todo o país. Isso era particularmente evidente entre os trabalhadores da indústria da engenharia. Sob essa pressão, o então governo Conte introduziu o congelamento nas demissões. Os patrões tiveram que aceitar isso com relutância. Mais tarde, porém, Draghi veio em socorro da burguesia.

O grupo multinacional Melrose foi, então, ajudado pelo novo governo Draghi, que assumiu o cargo em fevereiro de 2021. Em apenas alguns meses, ele removeu o congelamento das demissões, que estava em vigor desde março de 2020, quando começou a emergência da Covid. O que temos aqui é um exemplo de “ordem dos patrões e obediência e execução do governo Draghi”. Esta tem sido a situação na Itália nos últimos meses.

O caso da GKN não é isolado. Vimos a mesma coisa se repetindo na Whirlpool, Timken, Gianetti Ruote, Elica, Blutec, Riello, que são apenas algumas das fábricas que enfrentam fechamento iminente. Mas os patrões encontraram um problema: os trabalhadores em todos os lugares têm lutado contra os fechamentos. A reação na fábrica da GKN em Florença e na fábrica da Whirlpool em Nápoles tem sido particularmente militante.

Os trabalhadores da GKN temiam que a greve por si só não fosse suficiente. Eles temiam que os novos proprietários se organizassem para que as máquinas fossem retiradas da fábrica. Assim, os trabalhadores tomaram a decisão de ocupar a fábrica. Poucos dias após o anúncio das demissões na GKN, houve uma greve geral em toda Florença e uma manifestação de mais de 10 mil pessoas que encheram a praça Santa Croce na cidade. Duas semanas depois, uma grande manifestação com números semelhantes marchou pelos bairros industriais e operários no entorno da fábrica.

Agosto é geralmente um mês em que pouco acontece na Itália, pois é o período tradicional de férias. Apesar disso, a luta não parou e cerca de 5 mil pessoas ocuparam as ruas do centro da cidade de Florença em 11 de agosto (dia da libertação de Florença da ocupação nazista em 1944), em solidariedade à luta dos trabalhadores da GKN. Os delegados sindicais da GKN e o comitê de ação da fábrica (o núcleo dos trabalhadores mais ativos) têm sido muito bons em mobilizar o apoio da cidade e dos subúrbios. Seu slogan “Insorgiamo” (levantemo-nos) se tornou muito popular, não apenas em Florença.

O prazo final para a implementação das demissões, 22 de setembro, aproximava-se rapidamente. A administração estava determinada a levar adiante sua decisão. Enquanto isso, o governo estava fazendo promessas vagas. Os líderes sindicais, no entanto, falharam completamente em promover uma frente única de todas as fábricas em crise.

A classe trabalhadora italiana está fazendo sua voz ser ouvida novamente. E embora seja verdade que ainda não estamos vendo um movimento generalizado, podemos ver que, abaixo da superfície, existe uma raiva enorme que pode explodir a qualquer momento. O que a está segurando, por enquanto, é a falta de uma direção sindical combativa.

Apesar da total falta de direção dos líderes sindicais nacionais, em 18 de setembro, uma grande manifestação de pelo menos 25 mil trabalhadores e jovens inundou o centro da cidade de Florença mais uma vez. Foi uma manifestação muito animada e militante – provavelmente uma das maiores vistas em qualquer outro lugar na Itália desde o fim do isolamento.

Palavras de ordem foram entoadas durante a marcha, convocando uma greve e pedindo solidariedade. Enquanto a manifestação transcorria, houve um enorme aplauso das pessoas nas sacadas de seus apartamentos assistindo à manifestação. A luta de classes marcou seu dia em uma das cidades turísticas mais famosas do mundo. No final da manifestação, um dos líderes do comitê sindical fez um apelo à Confederação Geral dos Trabalhadores Italianos (CGIL) para unir as várias disputas e convocar uma greve geral. O público respondeu com uma grande aclamação.

O que se seguiu mostra o quanto compensa a ação organizada dos trabalhadores. Os trabalhadores da fábrica têm pressionado e espalhado sua influência entre a população em geral. Na segunda-feira, 20 de setembro, isso forçou os juízes a decretar que Melrose era culpada de comportamento antissindical, violando o artigo 28 do Estatuto dos Trabalhadores, uma lei aprovada em 1970 que dá aos trabalhadores um certo grau de proteção contra demissões injustificadas.

Esta foi uma vitória para os trabalhadores da GKN em Florença e levantou a moral dos trabalhadores em greve. No entanto, a decisão do juiz não resolve a questão de uma vez por todas. Embora tenha suspendido as demissões por enquanto, ao mesmo tempo reafirmou o direito da empresa de fechar a fábrica, e apenas ressaltou que o fechamento e as consequentes demissões terão que ser negociados com os sindicatos. Novamente, vemos como a lei não é igual para todos – no final das contas, ela defende os interesses dos patrões.

Os dirigentes sindicais apelaram ao governo para que intervenha na disputa. Mas o governo não é imparcial. Draghi afirmou claramente que, para sair da crise, algumas fábricas (as “mais fracas”, as “menos competitivas”) terão de ser encerradas. Os sindicatos estão pedindo ao governo que introduza uma lei para impedir as realocações. Orlando, o ministro do Trabalho, está prestes a apresentar ao parlamento um projeto de lei solicitando que as multinacionais que desejam despedir deem pelo menos seis meses de antecedência para que as negociações possam ocorrer e para dar tempo à empresa para repensar seus planos ou encontrar um novo comprador. Mas é claro que não há penalidades ou multas para as empresas que se mudam, e nenhuma exigência de devolução de quaisquer empréstimos do governo que essas empresas possam ter recebido no passado.

Desde o início, a direção sindical deu a Draghi um cheque em branco e os trabalhadores até agora pagam o preço por isso. É evidente que, por sua própria vontade, o governo não fará quaisquer concessões reais aos trabalhadores. Cada vitória deve ser imposta pela ação de greve militante. Não há outra maneira de se forçar um capitalista a ficar e manter aberta uma fábrica se ele achar que ela não é mais lucrativa.

A única resposta real para a situação atual é a nacionalização sob controle dos trabalhadores, começando com a GKN e, em seguida, adicionando todas as outras fábricas que estão prestes a fechar. A nacionalização é a única forma de se defender os ativos industriais e os empregos, e o controle dos trabalhadores é a única garantia de que a fábrica não funcionará apenas com o interesse do lucro.

Os trabalhadores das fábricas sob ataque precisam impulsionar, com um programa claro, um comitê de ação coordenado com o objetivo de organizar um encontro nacional de representantes dos trabalhadores das empresas em crise. Esse comitê de coordenação também deveria ter a tarefa de controlar os dirigentes sindicais envolvidos nas negociações e garantir que eles atendam às demandas da força de trabalho como um todo. Muitas vezes vimos greves muito militantes e corajosas literalmente traídas pelos líderes sindicais, que assinaram acordos podres e diluídos, ou que simplesmente se curvaram às pressões dos patrões.

Os dirigentes sindicais em nível nacional devem assumir sua responsabilidade e convocar agora uma greve geral para defender os empregos e impedir o fechamento de fábricas. A decisão judicial disponibilizou algum tempo, mas esse tempo não deve ser desperdiçado. A imensa e generalizada solidariedade que existe entre a classe trabalhadora mais ampla para com os trabalhadores da GKN deve ser usada em um grande confronto com o Melrose Fund.

Agora também sabemos sobre os últimos desenvolvimentos na Grã-Bretanha, onde a Melrose está planejando fechar a fábrica da GKN Erdington em Birmingham, onde deixará mais de 500 trabalhadores sem emprego. Os trabalhadores da GKN em Florença e em Birmingham estão enfrentando o mesmo chefe implacável: Melrose. Eles compartilham os mesmos interesses. O que é necessário é uma greve coordenada para impedir que os patrões destruam as vidas de centenas de trabalhadores na Itália e na Grã-Bretanha.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.
PUBLICADO EM MARXIST.COM

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