Indústria 4.0: seu significado à luz do marxismo e seus impactos na luta de classes (parte 2)

O que é a Indústria 4.0 ou a assim chamada “Quarta Revolução Industrial”, seu significado teórico a partir da perspectiva marxista e seus impactos na luta de classes? A Industria 4.0 representa um desenvolvimento das forças produtivas? Ou ainda, pode uma tecnologia disruptiva significar avanço das forças produtivas? Esperamos que esse texto ajude a esclarecer a questão.

PARTE 1

Os impactos da Indústria 4.0

Entre as consequências da implantação de novas tecnologias, o aumento da produtividade do trabalho é um dos fatores mais importantes e que mais preocupa os entusiastas e estudiosos da Indústria 4.0. Isso porque o aumento massivo de investimentos em capital constante abre possibilidades para a produção em escala ainda maior com quantidade relativamente menor de força de trabalho. A eliminação direta de postos de trabalho, a criação de novos postos que exigem maior qualificação e que por isso mesmo excluem uma parcela importante da população economicamente ativa fazem o contraponto das maravilhas anunciadas com a chamada Quarta Revolução Industrial.

Os benefícios da aplicação da Indústria 4.0, tal como a redução ou a eliminação do trabalho repetitivo e desgastante, a redução da presença física possibilitada através do controle remoto ou mesmo a integração de trabalhadores com limitações físicas devido à compensação por sistemas de assistência etc. são equilibrados negativamente pelo empobrecimento do trabalho, tornando o ser humano um assistente da máquina, uma espécie de taylorismo digital onde os princípios fundamentais sejam a especialização, a padronização das tarefas, a divisão do trabalho em tarefas simples que não exijam conhecimento qualificado, perda do conhecimento tácito, advindo da experiência, uma vez que os seres humanos terão reduzido o papel de supervisão dos processos automatizados e o próprio risco de substituição.

A substituição, a criação de um enorme exército industrial de reserva, não é somente uma possibilidade longínqua, mas uma realidade palpável.

Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford, publicaram um trabalho científico em 2013 que envolveu a análise de mais de setecentas ocupações de trabalho no Reino Unido e a probabilidade de serem automatizadas nos próximos vinte anos, ou seja, quais as chances dos trabalhadores que atuam nessas profissões serem substituídos por máquinas inteligentes. O estudo apontou que 35% dos trabalhadores do Reino Unido estão em risco de serem substituídos por máquinas nos próximos vinte anos. Com base neste mesmo estudo, há previsões de que metade dos empregos da União Europeia esteja ameaçada. (…) As estimativas para os EUA sugerem que 47% da força de trabalho estejam em risco. (…) Em relação aos empregos de baixa remuneração, 63% estão classificados na categoria de alto risco de substituição. (Marcelo Gráglia, 2018. p. 164-166)

Esse fato aponta para uma perspectiva onde os salários de maneira geral serão rebaixados, inclusive os de alta qualificação, por uma pressão exercida pelo exército industrial de reserva. O rebaixamento geral dos salários não é somente uma possibilidade teórica, mas faz parte da estratégia geral do capital, exercida através dos processos de flexibilização do trabalho e reforma trabalhista, com o objetivo de aumentar a extração de mais-valia.

Entre as profissões com maior probabilidade de automação, segundo dados do Fórum Econômico Mundial, estão: analista de crédito (98%), recepcionista (96%), assistentes jurídicos (94%), vendedor de varejo (92%), motorista de taxi (89%), seguranças (84%), funcionários de redes de fast food (81%), bartenders (77%) e consultores financeiros (58%).

Nesses dados não aparecem os postos de trabalho com possibilidade de automação na indústria de transformação, os estudos sobre isso são raríssimos e faltam dados sobre o impacto direto da Indústria 4.0 na redução de postos de trabalho. No entanto, a automação e os sistemas inteligentes são cada vez mais aplicados no setor automobilístico, por exemplo. Vejamos como.

O modelo de Henry Ford, das linhas de produção por esteiras, continua, mas incrementado pelo conceito de células de produção flexíveis.

A chegada da Indústria 4.0, Internet das coisas (IoT) e análise de dados (DDS – Data Driven Services) trouxe um novo conceito de manufatura para a Indústria automotiva, baseado não mais em linhas de produção, mas em células de manufatura flexíveis. Em uma fábrica com células inteligentes, um produto poderia ficar mais tempo em uma determinada estação de trabalho, enquanto outro poderia simplesmente avançar para duas ou três estações de trabalho adiante, seguindo então com seu processo de montagem. Nessa perspectiva, a linha de produção será baseada em postos de trabalhos espalhados por toda a fábrica, com produtos se deslocando de um posto ao outro através de seus AGVs (veículos guiados automaticamente). Tudo isso controlado por meio de softwares de gestão e dos dados retirados do processo em tempo real.1

Um exemplo da implantação de conceitos da Indústria 4.0 no setor automobilístico brasileiro aconteceu em 2018 na planta de São Bernardo do Campo da Mercedes-Benz, que produz caminhões e ônibus. Com um investimento de R$500 milhões, um novo prédio foi construído e totalmente modificado para as definições da Indústria 4.0.2

A nova linha de montagem de caminhões já traz, inclusive, ganhos para a empresa. “Ela é 15% mais eficiente em termos de produção do que a anterior”, diz Philipp Schiemer. “Além disso, alcançaremos 20% de ganho de eficiência logística graças a exemplos como a redução de armazéns de peças de 53 para 6, ao aumento do percentual de entrega de peças diretas na linha de 20% para 45% e à redução do armazenamento de componentes de 10 dias para no máximo 3 dias. Tudo isso se traduz em maior agilidade, eficiência e produtividade e nos deixa muito entusiasmados frente a muitos outros ganhos que ainda temos a somar com a evolução constante dessa nova fábrica. (…) Todos os dados gerados pelo aplicativo e por equipamentos como as apertadeiras eletrônicas e os AGVs (Automatic Guided Vehicle ou Veículos Guiados Automaticamente) estão sendo armazenados na nuvem com a inteligência do Big Data. Através desses dados, utilizando de recursos Analytics, podemos monitorar a qualidade de todos os nossos produtos, detectar qualquer falha e até casar as informações de vendas com nossos sistemas de produção para flexibilizar cada vez mais nosso mix de produtos”, explica Carlos Santiago, vice-presidente de Operações da Mercedes-Benz do Brasil. (…) A nova fábrica traz ganhos importantes para o meio ambiente, contribuindo para uma operação mais sustentável. A economia de energia é um bom exemplo. Houve redução de 56% no consumo de energia com a adoção de lâmpadas LED em 100% da linha de montagem final de caminhões.3

Para buscar uma relação com o impacto dessa aplicação na planta, já que dados diretos sobre essa relação são praticamente inexistentes, buscamos nos artigos sobre demissões nessa empresa, ocorridas entre o período que se inicia a construção da nova planta e sua entrega, algum indício dessa relação.

Em agosto de 2015 houve um corte de 1.400 funcionários4, esse corte foi explicado pela queda no mercado de caminhões no Brasil desde 2013. Em maio de 2018 houve demissão de 340 pessoas da área administrativa da Mercedes em São Bernardo do Campo5. Essa planta atingiu em 2018 mais de 10 mil funcionários, sendo que seu patamar em 2013 era de 14 mil.

A Mercedes-Benz se prepara para um ciclo mais intenso de expansão do mercado interno de caminhões. A companhia anunciou na terça-feira, 4, que vai reabrir o terceiro turno de produção na linha de montagem de agregados, que incluem motores, câmbios e eixos, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Com isso, a área é a primeira da fábrica a voltar a operar nesse ritmo, algo que não acontecia desde 2013. Em paralelo, a companhia vai adotar o segundo turno de trabalho na montagem de caminhões depois de quatro anos de produção em apenas um turno – ou até menos do que isso em momentos mais agudos da crise.

Para dar suporte ao novo momento, a Mercedes-Benz vai contratar 600 colaboradores para suas operações em 2019. Em janeiro começam 400 novos funcionários e, em abril, chegam outros 200 trabalhadores. Deste total, 40 atuarão na fábrica da companhia em Juiz de Fora (MG) e o restante ocupará posições na unidade de São Bernardo. Com a expansão, a empresa voltará a ter mais de 10 mil funcionários no País – antes da crise, em 2013, eram 14 mil colaboradores, número que Philipp Schiemer, presidente da empresa no Brasil, não espera atingir outra vez já que, desde então, o avanço da indústria 4.0 trouxe mais eficiência às operações. ‘Estávamos inchados. Hoje conseguimos elevar os volumes sem precisar de tantos trabalhadores’, admite. Os novos contratos são temporários, de um ano, mas podem ser estendidos depois disso. Schiemer garante que a intenção é justamente essa.6 (Destaque meu)

Dessa forma, verificamos que o impacto da implantação dos conceitos da Indústria 4.0 levou a uma redução de cerca de 4 mil postos de trabalho somente em uma planta da Mercedes-Benz num período de cinco anos (2013 a 2018).

Uma aplicação da Indústria 4.0 muito presente na vida das pessoas, através da Internet das Coisas e dos Serviços, está na economia compartilhada e no desenvolvimento de aplicativos com base num sistema de integração de pessoas, produtos e serviços. A presença é tamanha que Uber, 99, iFood e Rappi juntos se tornaram o maior “empregador” do Brasil. A notícia foi publicada na revista Exame e aponta que quase 4 milhões de trabalhadores autônomos estão “empregados” por uma dessas empresas e juntas elas formam uma folha de pagamento que seria 35 vezes mais longa que a dos Correios, por exemplo.7

Essa economia de compartilhamento, apesar do nome sugestivamente reluzente, esconde atrás de si milhões de trabalhadores que formam o moderno exército industrial de reserva, uma massa de desempregados, assim como aqueles demitidos na Mercedes-Benz ou mais recentemente na fábrica da Ford em São Bernardo do Campo que, sem encontrar trabalho formal, sobrevivem como motoristas e entregadores, sem direitos trabalhistas ou previdenciários.  Os dados recentes do IBGE mostram que 41,4% da população ocupada ou 38,8 milhões de pessoas estão em trabalhos informais, ou seja, sem direitos trabalhistas de nenhum tipo, ganhando por produção (por entrega, por corrida etc.)8. Esse cenário só é possível no Brasil pela reestruturação produtiva em nível internacional que deslocou o capital constante daqui para países onde tecnologias de ponta podem ser empregadas com menos custos de produção; pelo baixo custo de aplicativos de economia compartilhada; pela Reforma Trabalhista de 2017 e pela enorme crise econômica mundial que atingiu o Brasil, marcadamente a partir de 2014.

Essa inovação aparece no contexto da crise mais profunda do imperialismo, aparece como uma tentativa do capital de se renovar, de se revolucionar. No entanto, a revolução do capital – no sentido de sua renovação – nada significa para a classe operária. Dentro dos limites da propriedade privada e do Estado-nação, a Indústria 4.0 é uma arma da burguesia em sua disputa por uma parcela cada vez maior da mais-valia e, portanto, da taxa de lucro. Isso é feito através da elevação do grau de exploração do trabalho, neste caso, pela intensificação da jornada, pelo barateamento dos elementos do capital constante que sua aplicação trará e está trazendo nos setores em que é aplicada, o aumento da superpopulação relativa ou a massa de desempregados.

Esses são traços das chamadas Causas Contrariantes de Marx que explicamos antes. Sob as leis da propriedade privada, é uma arma para a própria manutenção das atuais relações de produção e por isso mesmo atua como força oposta à lei da queda tendencial da taxa de lucro que o imperialismo em sua crise mais aguda está buscando recorrer. Ao mesmo tempo, sua aplicação está esbarrada, controlada, subordinada, limitada, acorrentada pelos interesses dos grandes capitalistas e de seus representantes no parlamento e estes, ao mesmo tempo que precisam desesperadamente encontrar uma saída para a crise mais profunda do sistema, sentam-se em cima dos investimentos e decidem retardá-lo. Como Marx explicou, a barreira efetiva da produção capitalista é o próprio capital.

Todas as suas aplicações, que podem se tornar importantíssimas para a satisfação das necessidades humanas, ou estão travadas pelas barreiras do capital, ou são aplicadas para fins de ampliação do controle, intensificação da jornada, informalidade e deslocamento do trabalho, como já tem sido feito, por exemplo, com a precarização e informalidade do trabalho via aplicativos de economia compartilhada que são operados por sistemas de Internet dos Serviços. Na saúde, por exemplo, a aplicação da Inteligência Artificial e do “aprendizado da máquina” levou à criação de um modelo de detecção do câncer de mama com precisão até 31% do alto risco, superando os 18% dos modelos anteriores. A base do modelo são mais de 90 mil mamografias, o que o tornou capaz de identificar padrões mais sutis do tecido mamário que o olho humano. O resultado é que o câncer de mama pode ser previsto com até cinco anos de antecedência, reduzindo as necessidades de um tratamento mais agressivo e do aumento de sobreviventes desse tipo de câncer. Isso mostra o enorme potencial desse tipo de tecnologia para a liberação da humanidade do “reino da necessidade”, no entanto, quando será acessível para todos? Sabe-se que as mulheres negras têm 42% chances a mais do que as mulheres brancas de morrer por câncer de mama, entre outros fatores, pelas diferenças no tempo de detecção do câncer e do acesso a cuidados de saúde. Quando todas as mulheres, de qualquer cor de pele, poderão acessar esse tipo de tecnologia por igual? Só podemos concluir que isso se dará quando os serviços de detecção e tratamento sejam públicos, gratuitos e para todas. Poderia o capitalismo fazer isso? A resposta é negativa. Novamente esbarramos na propriedade privada e no lucro, quem detém essa tecnologia hoje é a Google Health. E esse é só um exemplo. É nítido que as aplicações são de uma transformação incrível na forma como vivemos, daí seu caráter revolucionário, mas o sentido dessa “revolução” só pode ser, dentro dos limites do capitalismo, para ampliar e aperfeiçoar o processo de valorização do capital. Ainda que tecnologias extraordinárias possam ser desenvolvidas sob o capitalismo, se não forem acessíveis à humanidade para serem aplicadas na satisfação das necessidades do conjunto da humanidade elas não podem ser consideradas como parte do desenvolvimento das forças produtivas.

A contribuição do método de Marx para a teoria econômica consiste precisamente no fato de ter conseguido desvendar as leis de funcionamento desse modo de produção e o ter reconciliado com a história, a despeito daqueles que pretendem fazer do modo de produção capitalista uma afirmação universal, incontestável e absolutamente verdadeira. Aplicando as leis da dialética ao estudo histórico e econômico, Marx compreendeu que não só o modo de produção capitalista, mas também os modos de produzir a vida material que o precederam, esbarram em uma contradição. Chega um ponto de seu desenvolvimento em que as forças produtivas desenvolvidas por determinado modo de produção entram em contradição com as relações de produção, isto é, com a divisão do trabalho e a sua expressão jurídica, as relações de propriedade. Ele sintetiza seus estudos da maneira que segue:

O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de guia para meus estudos pode ser formulado, resumidamente, assim: na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se então uma época de revolução social. (…)

Do mesmo modo que não se julga o indivíduo pela ideia que de si mesmo faz, tampouco se pode julgar uma tal época de transformações pela consciência que ela tem de si mesma. É preciso, ao contrário, explicar essa consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha sociedade. (Contribuição à crítica da economia política, Karl Marx. 2008. p. 47-48)

O modo de produção capitalista chegou a uma determinada fase de seu desenvolvimento onde criou as bases para atender as necessidades de uma população de bilhões de seres humanos, criou o mercado mundial e no curso de seu desenvolvimento criou as bases para que a produção da vida material dependesse cada vez menos do esforço dos ossos e músculos humanos. Contudo, mesmo produzindo enormes pilhas de riqueza e novas tecnologias, com capacidades cada vez mais complexas e inteligentes, ainda temos uma enorme massa de miseráveis. Esse problema de ordem econômica e social tem sua explicação desvendada pelas contribuições de Marx no campo da teoria econômica, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. A Indústria 4.0 e suas implicações na vida material representa uma busca do capital para superar os limites de suas próprias contradições, isto é, de aumentar a taxa de lucro. No entanto, à medida que supera esses limites, novamente se defronta com eles, em escala ainda maior. Nesse sentido, transforma o enorme potencial para o desenvolvimento das forças produtivas a partir das bases criadas na Indústria 4.0 em forças destrutivas, forças que objetivamente destroem a classe operária, fonte criadora da riqueza, pela substituição da força de trabalho por máquinas e sistemas integrados e conectados de inteligência artificial. No entanto, o modo de produção capitalista já operou essa substituição desde a primeira Revolução Industrial e nem por isso deixou de produzir um desenvolvimento sem igual das forças produtivas. Por que haveria de ser diferente agora, já que a Indústria 4.0 vai ainda mais longe nesse propósito? Se assumimos como pressuposto as conclusões de Marx e assim o fazemos, compreendemos que em determinada fase do desenvolvimento as forças produtivas entram em contradição com as relações de produção e, de formas evolutivas das forças produtivas, tornam-se entraves. As relações de produção, isto é, as relações de propriedade assentadas na propriedade privada dos grandes meios de produção são os entraves da próxima forma evolutiva do desenvolvimento das forças produtivas, isto é, do desenvolvimento de um modo de produzir a vida material, assentado na liberação da necessidade do trabalho humano, que tem como expressão mais bem acabada os conceitos e aplicações da Indústria 4.0.

Essa fase do desenvolvimento do modo de produção capitalista ocorreu com a transformação qualitativa do capitalismo em imperialismo, no início do século XIX.  O período imperialista agudiza as contradições do capitalismo em geral pela criação dos monopólios que estão em constante luta para retardar os progressos técnicos. Isso porque os preços monopolistas com lucros extraordinários desestimulam, ainda que temporariamente, o incentivo para novas tecnologias. Nesta fase, o capital é capaz de acumular de maneira muito mais veloz e maior do que na fase anterior. Isso explica a elevação da produtividade que continua ocorrendo no modo de produção capitalista. Por outro lado, a acumulação acelerada conduz às crises de superprodução. Para se proteger delas, o capital centraliza-se e concentra-se, gerando nova acumulação em volume, embora com a taxa de lucro reduzida. Isso significa que a produtividade continua se desenvolvendo mesmo que em contexto de crise, na verdade, seu desenvolvimento torna-se uma chave para a acumulação, embora negando a própria acumulação em seu processo de desenvolvimento. Nesta fase, o capital continua desenvolvendo tecnologias e produtividade, assim como no capitalismo característico da Revolução Industrial, mas o processo que se descreve aqui não produz desenvolvimento de forças produtivas porque as finalidades do modo de produção capitalista que serviam aos propósitos de liberação da necessidade do trabalho humano já foram há muito alcançados (produção em larga escala, mercado mundial e substituição da força de trabalho pela máquina), convertendo-se em forças de destruição, onde são aperfeiçoadas pelo capital com o propósito que mencionamos anteriormente: uma das armas mais poderosas do capital para conter greves e destruir a classe operária em classe em si e para si. Permanece o sentido reacionário do desenvolvimento da produtividade e de novas tecnologias para a classe operária em si e para si, sem que o progresso permitido por elas seja comparável ao que foi antes do imperialismo aparecer e se consolidar. O objetivo do capital não é nada além de sua própria valorização. De modo que o desenvolvimento de forças produtivas até a fase imperialista só se deu como uma consequência indesejada do processo de adequação dos meios de produção e da força de trabalho ao modo específico de produção capitalista. O aperfeiçoamento do modo de produção capitalista – com novos processos de adequação dos meios de produção e da força de trabalho, tais como o fordismo, o taylorismo e agora a Indústria 4.0 – e o desenvolvimento da técnica e de novas tecnologias não são nada mais que produto indireto e não o objeto central da produção capitalista. Ao mesmo tempo, somente interessa ao capitalista aumentar a produtividade do trabalho, pelo aumento do capital constante, quando este aumento lhe proporciona economia em trabalho vivo pago, isto é, somente interessa ao capitalista desenvolver massivamente a Indústria 4.0 justamente se com isso puder se ver livre da força de trabalho que ele emprega.

O modo capitalista de produção revela aí nova contradição. Sua missão histórica é o desenvolvimento implacável, em progressão geométrica, da produtividade do trabalho humano. Trai essa missão quando, como nesse caso, estorva o desenvolvimento da produtividade. Assim, de novo demonstra que se torna senil, sendo cada vez mais superado pelo tempo.  (O Capital, Karl Marx. 1984, p. 197. Destaque meu)

As relações de produção capitalistas tornaram-se entraves para o desenvolvimento das forças produtivas e vivemos uma época de revolução social. Isto está plenamente demonstrado com o bloqueio atual do desenvolvimento da Indústria 4.0 em toda sua potencialidade, mas não só por isso, como também pela impossibilidade de, sob o capitalismo, colher os frutos de qualquer tipo de seu desenvolvimento para melhorar as condições da vida material, liberar tempo de trabalho e permitir o desenvolvimento da cultura de liberdade, verdadeiramente humana. Ao contrário, as relações de produção capitalistas, convertem novas tecnologias, invenções e o aumento da produtividade do trabalho em armas para melhor escravizar a uma cultura de sofrimento, exploração e dificuldades para as massas de trabalhadores.

A produção capitalista procura sempre ultrapassar esses limites imanentes, mas ultrapassa-os apenas com meios que de novo lhe opõem esses mesmos limites, em escala mais potente. A barreira efetiva da produção capitalista é o próprio capital: o capital e sua autoexpansão se patenteiam ponto de partida e meta, móvel e fim da produção; a produção existe para o capital, ao invés de os meios de produção serem apenas meios de acelerar continuamente o desenvolvimento do processo vital para a sociedade dos produtores. Os limites intransponíveis em que se podem mover a manutenção e a expansão do valor-capital, a qual se baseia na expropriação e no empobrecimento da grande massa dos produtores, colidem constantemente com os métodos de produção que o capital tem de empregar para atingir seu objetivo e que visam ao aumento ilimitado da produção, à produção como fim em si mesma, ao desenvolvimento incondicionado das forças produtivas sociais do trabalho. O meio – desenvolvimento ilimitado das forças produtivas sociais -, em caráter permanente, conflita com o objetivo limitado, a valorização do capital existente. Por conseguinte, se o modo capitalista de produção é um meio histórico para desenvolver a força produtiva social e criar o mercado mundial apropriado, é ele ao mesmo tempo a contradição permanente entre essa tarefa histórica e as relações sociais de produção que lhe correspondem.” (O Capital, Karl Marx. 1984, p. 189)

A humanidade, por sua vez, já se colocou há muito tempo a tarefa de resolver essa contradição e busca, por diferentes maneiras, encontrar um meio para livrar suas forças produtivas da camisa de força das relações de produção capitalistas. As condições materiais para resolver essa contradição não só existem, mas começam a apodrecer.

Notas e Referências:

1  Um novo modelo para a Indústria Automotiva, Fábricas Inteligentes. Disponível em: https://fabricasinteligentes.atlascopco.com.br/industria-automotiva/. Acesso em: 18 mai, 2020

2  Mercedes-Benz inaugura nova linha e entra na era da indústria 4.0, Editora Naboleia, 29 mar, 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=y81Q3yc4n0M. Acesso em: 18 mai, 2020.

3 Mercedes-Benz inaugura fábrica do futuro, AutoView, 17 abri, 2018. Disponível em: http://www.autoreview.com.br/mercedes-benz-inaugura-fabrica-do-futuro/. Acesso em: 18 mai, 2020.

4 Mercedes Benz inicia demissão em massa em São Paulo, Opinião e Notícia, 16 ago, 2016. Disponível em:  http://opiniaoenoticia.com.br/brasil/mercedes-benz-inicia-demissao-em-massa-em-sao-paulo/. Acesso em: 18 mai, 2020.

5 Trabalhadores da Mercedes entram em greve por reajuste salarial e demissões, Estadão, 14 maio 2018. Disponível em:  https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,trabalhadores-da-mercedes-entram-em-greve-por-reajuste-salarial-e-demissoes,70002308213. Acesso em: 18 mai, 2020.

6 Depois de 5 anos, Mercedes-Benz reabre 3º turno em São Bernardo, Revista Ferramental, 10 dezembro 2018. Disponível em: https://www.revistaferramental.com.br/?cod=noticia/depois-5-anos-mercedes-benz-reabre-3-turno-sao-bernardo/. Acesso em: 18 mai, 2020

7 Apps como Uber e iFood se tornam “maior empregador” do Brasil, Exame, 28 abril de 2019. Disponível em:

https://exame.abril.com.br/economia/apps-como-uber-e-ifood-sao-fonte-de-renda-de-quase-4-milhoes-de-pessoas/. Acesso em: 18 mai, 2020.

8 Desemprego cai para 11,9% na média de 2019; informalidade é a maior em 4 anos, Agência de Notícias IBGE, 31 janeiro de 2020. Disponível em:  https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/26741-desemprego-cai-para-11-9-na-media-de-2019-informalidade-e-a-maior-em-4-anos. Acesso em: 18 mai, 2020.

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