Manifestação contra a guerra do Vietnã: o poder da classe trabalhadora em casa pode impedir o militarismo imperialista no exterior / Imagem: Domínio público

Guerra, paz e luta de classes: marxismo versus pacifismo (parte 2)

PARTE 1

A luta pela paz é a luta pelo socialismo

Este é o programa do marxismo. Mas devemos conectar isso com o humor das massas em qualquer momento, que é inacabado, confuso e contraditório.

Na maioria dos casos, o desejo de paz entre os trabalhadores é saudável, não é um pacifismo reacionário. É uma reação contra o imperialismo e a hipocrisia burguesa. Nosso papel é apontar a hipocrisia dos capitalistas quando falam sobre a paz e explicar que a classe capitalista nunca foi um fiador da paz, porque a competição capitalista entre camarilhas burguesas nacionais inevitavelmente leva à guerra. Também queremos a paz, mas só um Estado operário, em nosso próprio país e em todos os outros, pode garanti-la.

Isso requer a luta de classes, em torno de demandas como gastos do Estado com obras públicas em vez de armas, a nacionalização sob o controle operário da indústria de armamentos, ou das bases militares para serem colocadas sob o controle democrático da classe trabalhadora.

Só porque os trabalhadores desejam a paz, isso não os torna pacifistas reacionários. Da mesma forma, o desejo dos trabalhadores de lutar nem sempre é reacionário, como o humor entre os trabalhadores para lutar contra Hitler na Segunda Guerra Mundial, ou o humor entre as massas de uma nação oprimida para lutar pela autodeterminação.

Em tais situações, a Política Militar Proletária descrita anteriormente deve ser aplicada. Isso também requer a luta de classes em torno de demandas específicas, como a greve contra os aproveitadores da guerra, e requer que separemos as fileiras do exército de seus oficiais burgueses ou pequeno-burgueses.

Em todos os casos, seja o ânimo das massas pela paz ou pela guerra, e levando em consideração todas as peculiaridades históricas e locais, devemos ter como objetivo quebrar o militarismo capitalista e destacar a necessidade da classe trabalhadora seguir uma política independente dos interesses de sua própria classe capitalista.

Onde isso acontece, mesmo de forma limitada, pode ter um grande efeito. Em 2019, um navio saudita atracou no porto italiano de Gênova para carregar armas para utilização em sua guerra imperialista contra o Iêmen. Os estivadores entraram em greve e se recusaram a carregar as armas. A confederação sindical italiana apoiou a greve, tornando outros portos italianos também proibidos para o navio saudita. O navio ficou vazio. A luta de classes deu um golpe maior contra a guerra imperialista do que qualquer ONG pacifista liberal tinha sido capaz de fazer.

Os imperialistas entendem esse poder da classe trabalhadora. Foi o medo burguês do descontentamento doméstico em massa que impediu uma invasão terrestre de Kosovo em 1999 e o bombardeio da Síria pelo Reino Unido em 2013. Uma das razões por trás das relações mais pacíficas entre os EUA e a União Soviética no final dos anos 1980 foi o medo de um surto revolucionário nos países ex-coloniais superexplorados.

A Guerra do Vietnã foi perdida para os Estados Unidos, não apenas no Vietnã, mas nos próprios Estados Unidos quando a maioria das pessoas se voltou contra ela. Este é o poder da luta da classe trabalhadora para interromper os planos imperialistas.

Violência como questão tática

Os marxistas consideram as guerras para libertar nações e classes oprimidas como historicamente justificadas. Não temos oposição moral abstrata à violência. Mas isso não significa que todos os métodos de travar essas guerras sejam aceitáveis para os marxistas.

Por exemplo, o terrorismo individual e a luta de guerrilha, isoladamente e desconectados de um movimento de massas, não fortalecem a luta de classes. Eles substituem a ação coletiva da luta de classes pelas ações de uma minoria, ou mesmo apenas de um indivíduo. Não fortalece a confiança das massas em si mesmas como a única força que pode derrubar a sociedade de classes.

Na verdade, tais métodos tendem a fortalecer o aparato repressivo do Estado, que adota métodos mais duros para lidar com os chamados “terroristas”. Na verdade, esses métodos apenas fortalecem as forças da violência burguesa.

Nossa abordagem a esses métodos de luta não é uma questão moralista, mas tática. Somente aquelas táticas que tornam a classe trabalhadora consciente de seu papel na mudança da sociedade devem ser usadas.

Durante décadas, a terrível violência do estado israelense contra a Palestina foi enfrentada por atos de terrorismo individual, mas estes não conseguiram destruir ou mesmo enfraquecer o estado de Israel.

Um apelo em massa aos trabalhadores de Israel por uma liderança palestina revolucionária teria um efeito muito maior. Houve enormes protestos em Israel nos últimos anos. O país não é uma massa reacionária, está dividido em classes. O serviço nacional em Israel tem o potencial de ser uma correia de transmissão do humor da juventude israelense no exército.

Mas em vez de se basear em métodos de luta de massas, a liderança palestina muitas vezes se baseia no terror. A primeira Intifada, que começou em 1987, teve um caráter de massas, mas ocorreu acima das cabeças dos líderes da OLP. Além de mobilizar as massas palestinas, teve até algum efeito, limitado, na própria Israel. Isso levou a resultados reais com os Acordos de Oslo (embora eles não resolvessem nada de fundamental). Essa é a maneira de lutar.

Mas, em vez desses métodos, o foco no terrorismo aumentou a distância entre os palestinos e os trabalhadores e jovens israelenses que poderiam ter sido conquistados. Hoje, a ideia de dividir o exército israelense está muito distante, senão impossível. No futuro, isso pode mudar. Mas esse é o legado da violência terrorista individual, desconectada de um movimento de massas organizado, que enfraqueceu a luta palestina.

Armando a classe trabalhadora

Opomo-nos à palavra de ordem pacifista do desarmamento e ao terrorismo individual ou guerrilheirismo. Contra esses contrapomos armar as massas e dividir o exército, ganhando as fileiras do exército para a luta da classe trabalhadora.

Os bolcheviques organizaram os trabalhadores em Guardas Vermelhos para defender a revolução / Imagem: Domínio público

Os pequeno-burgueses e os reformistas dizem que isso não é realista. Mas isso aconteceu, repetidamente, em situações revolucionárias em todo o mundo e ao longo da história.

Em 2002, uma tentativa de golpe contra o presidente venezuelano Hugo Chávez foi frustrada quando as fileiras do exército romperam com seus oficiais, sob pressão do movimento de massas, e se aliaram a elas.

Na Itália, houve ocupações de fábricas por trabalhadores em 1920. Um jornal relatou: “os trabalhadores contam com ex-pilotos militares em suas fileiras que ontem colocaram aeronaves em ação”. Um funcionário do Estado relatou na época: “parece que os ocupantes têm metralhadoras. Eles afirmam ter armado um tanque, construído na fábrica da Fiat”.

Esses guardas vermelhos não eram simplesmente indivíduos armados. Eles formavam grupos organizados de trabalhadores sob o controle democrático das organizações de trabalhadores que ocupavam as fábricas, por meio de um comitê militar eleito.

Outro exemplo é de 1956, quando houve uma revolução na Hungria contra o stalinismo e por uma verdadeira democracia operária. A União Soviética invadiu a Hungria para acabar com a revolução. Este é o relato de uma testemunha ocular, o chefe da polícia em Budapeste:

“Vimos uma multidão imensa chegar à rua.”

“Vimos três grandes tanques soviéticos vindos da direção oposta, direto sobre a multidão.”

“Foi como um pesadelo. Os tanques chegaram à rua. Os soldados viram a multidão e a multidão viu os tanques.”

“Os tanques pararam e permaneceram no lugar, os motores ainda funcionando. A multidão não conseguia parar; continuou chegando, fervilhando ao redor dos tanques.”

“Um menino abriu caminho através da multidão até o primeiro tanque e empurrou algo pela brecha. Não era uma granada, mas uma folha de papel. Foi seguido por outros.”

“Essas folhas eram anotações em russo, que começavam com uma citação de Marx: ‘Um povo que oprime outro não pode ser livre’.”

“Contamos os minutos. Nada aconteceu.”

“Então a parte superior do tanque abriu um pouco e o comandante emergiu lentamente. Então ele abriu a torre e sentou-se no topo de seu tanque.”

“Imediatamente, mãos se estenderam para ele. Os jovens pularam no tanque. A multidão explodiu em aplausos frenéticos. A multidão cantou o hino nacional húngaro. E, a todo pulmão, gritaram ‘Viva o Exército Soviético!’”

“No entanto, essas eram as mesmas pessoas que, quinze minutos antes, haviam gritado resolutamente ‘Russos, voltem para casa’.”

“Meu policial e eu trocamos olhares. Embora fôssemos soldados, a teoria do nosso movimento passava por alto as questões de castas, nacionalidades, interesses pessoais e preconceitos. Uma palavra de Marx, passada por uma brecha, foi mais forte do que um tanque dirigido contra uma multidão.”

Jamais devemos permitir que os pacifistas nos digam que não somos realistas quando exigimos o armamento da classe trabalhadora e a divisão do exército. Isso foi feito e pode ser feito novamente. Está provado ser a única maneira de lutar contra os métodos imperialistas de guerra.

Mas devemos também enfatizar que a divisão do exército não é um drama de um só ato. Deve ser buscada como uma política consciente e não deixada puramente à espontaneidade das massas, que só pode ter um efeito temporário, como aconteceu na Venezuela, Itália e Hungria.

A luta para quebrar as forças repressivas da classe burguesa requer organização e estratégia contínuas, nas esferas política, industrial e militar, e isso inclui comitês de soldados eleitos, por exemplo, para solidificar e ampliar a ruptura entre as fileiras e os oficiais.

Tal política foi seguida pelos bolcheviques em 1917, que agitavam as trincheiras e os quartéis. Dessa forma, eles criaram uma barreira entre as fileiras do exército e os oficiais, destruindo a capacidade da classe dominante russa de lutar na Primeira Guerra Mundial imperialista ou de esmagar a revolução.

Armas nucleares

As armas nucleares mudam a abordagem marxista da paz e da guerra? Por que ganhar os soldados e armar os trabalhadores, por exemplo, quando uma terceira guerra mundial nuclear poderia ser iniciada por um punhado de generais?

Devemos lembrar que a guerra é travada para ganho material. A guerra nuclear não trará ganhos econômicos, apenas destruição total. Não conquista novos mercados – os destrói. Não houve uma terceira guerra mundial, não porque os imperialistas se tenham convencido do pacifismo, nem porque as contradições do capitalismo foram superadas, mas porque não é do seu interesse econômico travá-la.

O maior obstáculo à guerra nuclear mundial é a luta da classe trabalhadora. Essa guerra global e destrutiva provocaria a reação mais poderosa dos trabalhadores do mundo que já vimos. A Primeira Guerra Mundial provocou a revolução proletária em vários países contra os imperialistas e suas guerras. Hoje, a classe trabalhadora internacional é maior e muito mais experiente do que há 100 anos. O equilíbrio das forças de classe está mais a nosso favor do que em qualquer outro momento da história.

Isso não significa que guerras pequenas e bárbaras por procuração, como a da Ucrânia em 2014 ou da Síria desde 2011, não ocorrerão. Enquanto o capitalismo existir, suas contradições levarão à guerra. Os beligerantes podem não ser potências imperialistas, nem ter interesses econômicos diretamente concorrentes. Mas as potências imperialistas estão por trás desses combatentes e, por meio deles, perseguem seus interesses.

Um confronto direto entre as grandes potências está atualmente descartado, mas isso só vai intensificar a barbárie das guerras por procuração entre as nações, e das guerras de classes dentro das nações e contra grupos oprimidos e nacionalidades oprimidas como os curdos, por exemplo.

Um confronto direto entre potências imperialistas não está descartado para sempre. Mas antes que tal possibilidade pudesse surgir, ocorrerão lutas de classes titânicas. A classe trabalhadora terá a oportunidade de tomar o poder muitas vezes antes que possa ser esmagada a ponto de não representar um freio à guerra imperialista.

A revolução é necessariamente violenta?

A força pode desempenhar um papel revolucionário na história. É por meio do choque e da contradição que a sociedade se desenvolve, ou seja, por meio da guerra e da revolução.

A tomada do Palácio de Inverno na Revolução Russa de 1917 foi quase sem derramamento de sangue, graças à força avassaladora da classe trabalhadora / Imagem: Domínio público

Nenhuma classe dominante na história desistiu de sua posição sem lutar. A sociedade capitalista é baseada, fundamentalmente, na força e na coerção. Será necessária força para removê-la.

Mas a força significa necessariamente violência? O antigo estrategista militar chinês Sun Tzu escreveu, em seu livro A Arte da Guerra, que “aqueles que deixam outros exércitos sem defesa e sem lutar são os melhores de todos”.

Em outras palavras, é possível, e preferível, vencer a luta com uma demonstração de força avassaladora desde o início, para tornar a burguesia totalmente incapaz de lutar. Isso requer o uso de nossa superioridade no equilíbrio de forças de classe. Requer dividir as fileiras do exército dos oficiais e armar a classe trabalhadora.

Mas esta política requer um expurgo absoluto do pacifismo do movimento revolucionário. Devemos estar dispostos a lutar até o fim para defender nossa revolução. Esperamos que a violência não seja necessária, mas se a classe capitalista contra-atacar com violência, como aconteceu no Sudão em 2019, não sacrificaremos nossa revolução a ideais pacifistas abstratos. Nosso lema é o do movimento cartista do século 19 na Grã-Bretanha – “Pacificamente se pudermos, forçosamente se precisarmos“.

Uma moralidade revolucionária

A guerra e a violência entre classes e entre nações são uma parte inerente do sistema capitalista. Petições, debates, as Nações Unidas, tratados etc., não podem impedir o funcionamento do sistema capitalista e, portanto, não podem impedir a guerra. Só a revolução socialista proletária pode fazer isso.

A moralidade pacifista é vazia e venenosa para o movimento revolucionário. A nossa é uma moralidade superior baseada na marcha do progresso histórico. A única guerra justa é a guerra de classes. Os únicos meios justos de travá-la são aqueles que realmente conduzem à libertação da humanidade.

Esta não é uma questão abstrata, nem se limita ao Sudão ou à Palestina. A necessidade de força revolucionária surgiu no recente movimento insurrecional no Chile e no movimento Black Lives Matter dos EUA. Ela surgirá em todos os países no próximo período e devemos estar ideologicamente preparados para enfrentá-la.

TRADUÇÃO DE FAABIANO LEITE.
PUBLICADO EM MARXIST.COM

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