Filosofia, ciência e misticismo (Filosofia da História – parte 1)

Artigo publicado no jornal Foice&Martelo Especial nº 15, de 17 de setembro de 2020. CONFIRA A EDIÇÃO COMPLETA.

A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes (Marx & Engels, Manifesto do Partido Comunista, 1848).

Hegel explicou que a Filosofia da história é a própria filosofia. Em outras palavras, o conjunto do saber humano está concentrado na sua história. Mas ele enxergava isso de forma idealista. Para ele, existia um ser em constante evolução que se diferenciava de si mesmo ao adquirir novos conhecimentos através da história e se reencontrava em si ao fazer a síntese do seu eu anterior com o seu eu atual. Marx inverteu este desenvolvimento dialético idealista ao colocar a história como sendo a história feita pela humanidade em seu desenvolvimento.

Assim, uma sociedade, ao construir uma classe social que a questionava, negava a si mesma. Ao fazer um revolução e construir uma nova sociedade que representasse essa nova classe, ela fazia uma nova síntese, um desenvolvimento real e concreto, e não um desenvolvimento ideal que só existiria em sua cabeça.

Hegel viveu em um momento de mudanças reais na sociedade com a revolução francesa, na qual a burguesia questionou toda a forma de vida e compreensão que antes existia sob o feudalismo. Mas só refletiu sobre isso de uma forma idealista. A história, como ele próprio explicou, é sua própria filosofia, sua própria compreensão. Os homens, em diferentes períodos da humanidade, enxergaram a história de forma diferente, e a essas diferentes formas de entender a história chamamos de filosofia da história.

Os primeiros historiadores compreendiam a história como a história dos grandes homens. Esses, através de suas ações, decidiam a vida e morte de pessoas e de sociedades inteiras. Assim era a história feita por Heródoto (considerado o “pai da história”) ou por Tucídides. 500 anos depois de Heródoto, Suetônio, ao escrever os Doze Césares, repetia o mesmo método.

A Bíblia (Antigo Testamento), ao retratar a vida do povo hebreu (não entramos aqui no mérito sobre as falsificações da história contidas nesse texto), utiliza o mesmo método – a vida de um povo inteiro depende de seus profetas, seus juízes, seus reis. Mas existe uma diferença fundamental entre esse texto e os outros aqui mencionados.

Enquanto gregos e romanos partiam de um ponto de vista materialista, a bíblia o fazia de um ponto vista idealista. Deus determinava a ação de profetas, juízes e reis.

Enquanto isso, os deuses retratados por Homero, ao invés de determinarem a ação dos homens, comportavam-se como homens, com suas paixões e ações nada “divinas”.

Santo Agostinho (que já citamos anteriormente ao falar de tempo) no século V após Cristo, mostra a inversão filosófica ocorrida após a vitória do cristianismo na Europa. A história agora é decididamente a história feita por Deus. Por que um povo é vitorioso em uma guerra? Porque Deus assim o quis. Por que um povo morre de uma peste ou sofre com a fome? Porque Deus assim o quis.

A história descrita em Cidade de Deus é feita desse jeito. Antes de tudo, podemos dizer que essa explicação é chata. Já sabemos o resultado antes da investigação histórica, e a história deixa de ser uma ciência para ser uma mera crônica dos acontecimentos.

A mudança na história teria então que esperar a ascensão da burguesia para começar a mudar. E a ascensão da burguesia não foi “tranquila” ou composta somente por vitórias. Passou por várias fases e a explicação que foi procurada levou a um novo desenvolvimento da história.

No próximo artigo trataremos um pouco da história da França e da Inglaterra, de como a burguesia chegou a ser vitoriosa  e como isso se expressou na filosofia da história. Trataremos brevemente também da história chinesa.

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