Esquerda Marxista realiza vitoriosa Escola de Quadros: a teoria como guia para a ação

Editorial da 19ª Edição do jornal Tempo de Revolução. Assine agora o jornal impresso e, além de acessar a edição digital, receba em sua casa. Para assinar somente a versão digital, clique aqui.

Realizada nos dias 4 e 5 de junho, a Escola de Quadros Nacional da Esquerda Marxista abordou questões teóricas fundamentais para a ação marxista na luta de classes. Os ricos debates abordaram a tática da frente única, o imperialismo segundo Lênin, o materialismo dialético e o combate dos marxistas ao pós-modernismo.

Como esse debate se conecta com a nossa realidade

Na discussão sobre a frente única, Serge Goulart argumentou que se trata de uma tática aplicada no movimento operário e que deriva da própria situação objetiva da classe trabalhadora no capitalismo. O proletariado está em permanente combate para se transformar de “classe em si” em “classe para si” e assim realizar a sua principal tarefa, isto é, a conquista do poder político pelos trabalhadores.

A partir dessa compreensão, os marxistas devem entender que a tática de frete única não é um truque para desmascarar as organizações oportunistas e traidoras, mesmo que essa possa ser uma consequência da aplicação correta da tática, nem para lutar apenas por melhorias. As reformas são importantes e a conquista de melhorias sob o capitalismo podem ajudar a fortalecer e elevar o moral do conjunto da classe operária, mas isso não é de forma alguma o principal objetivo da luta dos trabalhadores e do partido revolucionário. O principal objetivo da tática da frente única é unificar a maioria do proletariado em luta por seus interesses de classe.

O princípio desta tática, segundo Serge, foi apresentado no Manifesto Comunista, escrito em 1848 por Marx e Engels:

“Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários.
Não têm interesses diferentes dos interesses do proletariado em geral.
Não proclamam princípios particulares, segundo os quais pretendam moldar o movimento operário.
Os comunistas se distinguem dos outros partidos operários somente em dois pontos: 1) Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns do proletariado, independentemente da nacionalidade; 2) Nas diferentes fases de desenvolvimento por que passa a luta entre proletários e burgueses, representam, sempre em toda parte, os interesses do movimento em seu conjunto.
Na prática, os comunistas constituem a fração mais resoluta dos partidos operários de cada país­, a fração que impulsiona as demais”.

É preciso, no entanto, compreender as transformações que ocorreram desde a época de Marx e Engels para a aplicação correta da frente única atualmente. Em primeiro lugar, a falência da Segunda Internacional, no início do século XX, deu início a uma nova etapa política na luta do proletariado pelo poder. A partir desse momento, a batalha da construção de um partido proletário e da unidade da classe passa a enfrentar o aparato burguês no interior do movimento operário.

Foi a compreensão de Lênin e Trotsky sobre a traição da social-democracia que os levou a aplicar corretamente a tática de frente única durante a Revolução Russa de 1917. O Partido Bolchevique, sob a orientação de Lênin (isso após seu retorno à Rússia em abril do mesmo ano), consegue propor a ruptura com o governo provisório, formado por uma coalizão de esquerda com a burguesia, e apresenta a palavra de ordem que melhor expressou a frente única naquele momento: “Todo Poder aos Sovietes”. Mas esse combate passou por diferentes etapas durante o ano de 1917, começando com o slogan “Pão, Paz e Terra” e passando por consignas como “Abaixo os Dez Ministros Capitalistas” como forma de dialogar com as massas e expor os limites do governo provisório ao mesmo tempo.

Como a questão da frente única se traduz hoje? No atual momento, as direções da classe trabalhadora alimentam a ilusão de que o processo eleitoral irá resolver todos os problemas atuais (inflação, desemprego etc.). Apesar do desenvolvimento de algumas lutas econômicas, as massas se lançam nesse caminho e a candidatura de Lula, em aliança com Alckmin, é a que aparece como viável. Nesse processo vemos duas correntes da “esquerda”: uma ala que capitula­­ ao programa capitaneado pelo PT e decide apoiá-lo acriticamente, como é o caso do PSOL, e a outra que, a partir de um comportamento sectário, se nega inclusive a votar criticamente na candidatura de Lula, ou seja, se nega a combater Bolsonaro na arena eleitoral.

Enquanto era possível, nós defendemos uma candidatura própria do PSOL para combater o governo Bolsonaro nas eleições, mas com um programa que expressasse as posições da classe trabalhadora. Diante da recusa e das manobras da direção do PSOL para impedir uma candidatura do partido, defendemos que, neste momento em que as massas se voltam para as eleições, o voto crítico em Lula é necessário. No entanto, compreendemos que as eleições não irão resolver aquilo que prometem as direções e um possível governo Lula/Alckmin será um governo submisso à burguesia e de ataque aos trabalhadores. Continuamos a explicar a necessidade de utilizar as eleições burguesas para remover Bolsonaro, mas continuar o combate de classe contra o novo governo de colaboração de classes. Esse é o caminho que pode abrir um diálogo com a vanguarda e que futuramente pode abrir a possibilidade de diálogo com as massas.

Em defesa do marxismo

No debate sobre o imperialismo, foram discutidas as principais características do capitalismo em sua fase superior e como isso se reflete na luta classes (para aprofundar o assunto indicamos a leitura do artigo nas páginas 08 e 09). Além disso, Caio Dezorzi analisou características da fase imperialista do capitalismo que ainda não estavam presentes na obra de Lênin escrita em 1916: o sistema da dívida pública nos países dominados, usado pelo capital financeiro internacional para apropriar-se de maiores fatias da massa global de mais-valia; e a transferência de valores dos países dominados aos países imperialistas através das “reservas internacionais”, que são “aplicadas” em títulos públicos dos países dominantes a juros próximos de zero para serem convertidos através do sistema de crédito e voltar a atuar como capital a partir desses países.

Já no debate sobre o materialismo dialético, a filosofia do marxismo, apresentado por Alex Minoru, foi realizado um resgate da história do desenvolvimento do pensamento materialista e da dialética. Alex tratou desde o “renascimento” do materialismo a partir da formação da sociedade burguesa, e todas as revoluções que permearam esse período, até o salto de qualidade que se dá a partir da fusão do materialismo com a dialética hegeliana. O materialismo dialético, em resumo, é um método que nos permite compreender o desenvolvimento e a transformação da natureza, da sociedade e do pensamento partindo da base material para as abstrações (leia mais nas páginas 10 e 11).

O elemento que unifica todos esses assuntos deu nome à última mesa de discussão, “Em Defesa do Marxismo”, que expôs a origem da filosofia pós-moderna e as consequências da aplicação dessa teoria antimarxista na prática.

Desenvolvido ao longo do século XX, o pós-modernismo vai encontrar os seus fundamentos na teoria de Friedrich Nietzsche e, posteriormente, nas obras Foucault, Deleuze, Derrida, Baudrillard, Lyotard, entre outros que, sem apresentar uma linha completamente homogênea, compartilham das ideias filosóficas fundamentais que hoje dominam a corrente pós-moderna.

Se para o marxismo a história da humanidade é a história da luta de classes, para a pós-modernidade não há um fio condutor e leis que nos permitem compreender seu processo como um todo, há apenas o caos. Essa teoria cria uma nova roupagem para a velha concepção idealista da história e busca atomizar os trabalhadores substituindo a luta de classes pela suposta luta contra as opressões:

“Em vez de unir todas as camadas exploradas e oprimidas da população em uma luta comum contra o sistema capitalista, eles fragmentam a luta em uma miríade de ‘lutas’ específicas a cada opressão e estritamente reservadas às suas vítimas diretas. De fato, eles explicam, os brancos ‘não conseguem entender’ a opressão que os negros sofrem; os homens, a opressão que as mulheres sofrem; os heterossexuais, a opressão que os homossexuais sofrem – e assim por diante ad nauseam, de modo que apenas ‘alianças’ pontuais entre categorias oprimidas seriam possíveis. Tudo isso equivale a excluir a possibilidade de uma luta comum e unitária das massas exploradas e oprimidas contra a burguesia” (A miséria da filosofia pós-moderna, Jérôme Métellus).

O pós-modernismo é a teoria da época da decadência do capitalismo, completamente reacionária e que busca combater o marxismo acima de tudo, negando a possibilidade de tomada do poder pelo proletariado.

Antes de encerrar o debate, Johannes Halter informou que além da revista América Socialista – Em Defesa do Marxismo e dos artigos já publicados em marxismo.org.br, o combate teórico pela defesa das ideias marxistas seguirá por meio da publicação do livro “História de Filosofia”, de Alan Woods, que já está sendo traduzido para o português e que será lançado em 2023.

Ao fim da Escola de Quadros, militantes e ativistas próximos da Esquerda Marxista relataram seu entusiasmo com os debates, demonstrando o interesse em aprofundar cada um dos temas apresentados e ânimo para seguir nos combates do próximo período. Os temas da escola serão retomados em discussões locais em cada Comitê Regional.

Além disso, segue a preparação para a Conferência da Esquerda Marxista, que ocorrerá nos dias 2 e 3 de julho, e para a Universidade Marxista Internacional de 23 a 26 do mesmo mês, evento que reunirá revolucionários de todo o mundo de forma on-line para 14 palestras sobre tópicos que abrangem os três pilares da teoria marxista: a filosofia revolucionária do materialismo dialético, os escritos econômicos de Marx sobre as contradições do capitalismo e a abordagem marxista da história, o materialismo histórico.

Os marxistas se dedicam ao estudo da teoria porque compreendem que é a partir da compreensão do mundo em que vivemos que podemos nos armar e armar a classe trabalhadora para a realização da tarefa mais importante que a humanidade se colocou até o momento, que é a de transformar o mundo em que vivemos e construir uma sociedade socialista em que não existam explorados nem exploradores.


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