Eleições na Bolívia: Um voto de classe contra o golpe 

Artigo publicado no jornal Foice&Martelo Especial nº 18, de 29 de outubro de 2020. CONFIRA A EDIÇÃO COMPLETA.

Na madrugada do dia 19/10, chegou ao fim o processo eleitoral na Bolívia que deu a vitória ao Movimento Pelo Socialismo (MAS), partido do ex-presidente Evo Morales. A apuração chegou a 100%, dando à Arce o primeiro lugar com 55,10% dos votos, seguido pelo ex-presidente centrista Carlos Mesa com 28,83%, o terceiro lugar ficou com o direitista Luis Fernando Camacho com 14,00%  informou o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE). 

Na Bolívia, para que não ocorra segundo turno, a diferença de votos entre o primeiro e segundo candidatos tem que ser maior que 10%, ou o primeiro colocado receber 50% mais um dos votos válidos. Ao longo da campanha, vendo que Arce disparava nas pesquisas, Jeanine Áñes que ocupava o cargo de presidente interina e concorria nas eleições desistiu de sua candidatura para dar chances de haver um segundo turno. 

Quase um ano após o golpe arquitetado pelas oligarquias nacionais e o imperialismo estadunidense, a vitória de Arce é uma resposta da classe trabalhadora ao golpe. Em 2019 Evo Morales, que estava há 14 anos no poder, foi impedido de se reeleger, sofrendo pressões dos órgãos burocráticos do sistema, cedendo a avaliações da Organização dos Estados Americanos (OEA) que apontou fraude nas eleições. Pós golpe, depois de longas jornadas de lutas sendo boicotadas pelas direções reformistas do MAS e da Central Obrera Boliviana (COB), para não perder o controle das massas, chegou-se ao acordo de novas eleições entre as direções das forças políticas. 

A crise do capitalismo e o desespero dos empresários para aprofundar os ataques aos direitos dos trabalhadores fizeram com que as medidas de austeridade fossem mais duras, levando ao sacrifício o governo de coalizão com o MAS em 2019.  

A postura de Arce no governo não será muito diferente de Evo, tendo em vista que a burguesia é capaz de articular seus golpes e mobilizar órgãos internacionais para validar suas ações, a tendência é que o governo de Arce ceda muito mais à burguesia aplicando suas medidas de austeridade para se manter no poder. Vale lembrar que Arce é um economista que atuou no governo de Evo, aplicando políticas sociais sem combater de fato o atual sistema financeiro. As políticas sociais aplicadas tendem a diminuir com o crescimento da crise sistêmica do capital. 

Um elemento importante para se destacar nessa conjuntura é a pandemia da Covid-19, gerando incertezas na população sobre se seria possível fazer as eleições nesse ano, a burguesia adiou o máximo que pode o processo eleitoral para poder se preparar e enfraquecer as forças do MAS. Atualmente os dados oficiais desde o começo da pandemia são de 139.771 casos com 8.481 mortes, pela falta de testes os dados oficiais tendem a serem superiores.  

A crise do capital exposta pela pandemia já levou centenas de milhares de trabalhadores a perderem seus empregos e rendas, a bomba de como enfrentar a pandemia agora está nas mãos do governo de Arce que se inclina muito mais a ceder aos empresários do que garantir condições dignas de saúde aos trabalhadores. 

Ainda é cedo para avaliar qual será a postura da burguesia boliviana, com parte dos interesses do capitalismo voltados ao processo eleitoral estadunidense é provável que as tensões se aquietem até o fim de disputa entre Trump e Biden. A golpista e ex-presidente Áñes declarou que o processo eleitoral que levou Arce à vitória não teve irregularidades, pedindo ao MAS para manter a “democracia”. Outros observadores internacionais que acompanhavam o processo na Bolívia também não apontaram irregularidades até o momento. 

O proletariado e o campesinato boliviano, na maioria indígenas, inclinados pelas direções do MAS e da COB, testam mais uma vez esse partido e seus aparatos na defesa de seus interesses de classe, porém diferente de outros tempos, dado as contínuas jornadas de lutas, greves e bloqueios de estradas, é possível ver um crescimento qualitativo na consciência dos trabalhadores e da juventude, o voto de classe contra o golpe imperialista é um importante indicativo disso. 

A democracia burguesa se desfaz a cada passo do capital internacional, com as políticas de conciliação que o MAS pretende aplicar, os movimentos independentes ganham força para a construção de um programa revolucionário. A seção da Corrente Marxista Internacional, Lucha de Clases, se mantém na luta por um governo que avance e supere suas direções burocratizadas e construam de fato o socialismo. 

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