Secretário executivo do Ministerio da Saúde, João Gabbardo dos Reis, em declaração sobre o coronavírus / Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Ag. Brasil

Coronavírus, demagogia e hipocrisia em Brasília

Após o pronunciamento do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyeses, na quarta-feira, dia 11 de março, decretando que a situação relacionada à disseminação da Covid-19 – doença provocada pelo coronavírus – atingira o estágio de pandemia mundial1, o governador de Brasília, Ibaneis Rocha (MDB), demagogicamente se antecipa, para ser a primeira autoridade brasileira a tomar medidas de combate à doença, e, em coletiva de imprensa, anuncia a publicação, em edição extraordinária do Diário Oficial do Distrito Federal, de decreto suspendendo aulas na redes pública e privada de Ensino Básico e Superior e proibindo a realização de eventos de qualquer natureza com mais de cem participantes por cinco dias. Além dessas medidas, o decreto ainda orienta bares e restaurantes quanto a distância entre mesas e prevê que, sendo necessário, haja a prorrogação das medidas por mais cinco dias2.

Por mais que a edição do decreto hipocritamente considere que: “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (grifo nosso),  o governo Ibaneis, em nada diferente de Bolsonaro, tem implementado uma política de retirada de direitos e precarização dos serviços públicos em Brasília, em especial os de saúde, de educação e de assistência social – fundamentais para o enfrentamento de uma situação como a imposta atualmente. A própria edição do decreto mais parece uma tentativa de uso político da situação do que o necessário combate à proliferação do coronavírus entre a população.

Basta considerar os dados divulgados pela própria OMS e demais entidades de saúde e pesquisa envolvidos no combate à pandemia e verificar que as medidas dispostas no decreto são, no mínimo, controversas. A mais gritante é a suspensão das aulas nas escolas sem a suspensão do trabalho. Tal medida tem impacto imediato sobre a maior parcela da classe trabalhadora. Sem alternativas que substituam as escolas como local para seus filhos ficarem durante o expediente de trabalho, mães e pais trabalhadores acabam levando seus filhos para os locais de trabalho ou os deixando com parentes, muitas vezes, mais velhos e já aposentados. Considerando que a doença tem um índice de mortalidade mais elevado entre pessoas com mais de 60 anos de idade, suspender as aulas tanto é uma medida ineficaz como também pode agravar a disseminação do coronavírus, fazendo com que os mais jovens sirvam de veículo transmissor da doença para os mais velhos, exatamente pelo contato mais prolongado causado pela suspensão das aulas.

Se Ibaneis realmente estivesse preocupado em garantir o direito a saúde, como considerado no decreto, não estaria precarizando a saúde pública de Brasília com o claro objetivo de ampliar a privatização do sistema, inclusive contradizendo suas promessas de campanha eleitoral. Ao contrário, mobilizaria ainda mais recursos para o Sistema Único de Saúde em Brasília monitorar a parcela da população no grupo de risco. Além disso, usaria a rede pública de ensino para propagar as necessárias informações e orientações no combate ao coronavírus. Reforçaria a merenda escolar e os restaurantes comunitários com alimentos ricos em proteínas e vitaminas que evitam doenças respiratórias, aumentando, desse modo, a imunidade dos estudantes e de boa parcela da classe trabalhadora. Faria um sério trabalho de fiscalização de preços de mercadorias relacionadas à higienização e a cuidados pessoais indicados para uso na atual situação, tais como álcool em gel e máscaras, que já têm sofrido aumentos absurdos de preço.

Essa crise está evidenciando toda a incapacidade dos governos e do capitalismo de lidar com uma situação que poderia ser resolvida com medidas básicas de higiene e investimentos na saúde. A medida concreta e correta para combater o coronavírus e demais moléstias capitalistas faz parte da luta para derrubar os governos Bolsonaro, Ibaneis e todos os demais que estão a serviço dos interesses do sistema capitalista, erigindo em seu lugar um governo proletário.

Referências:

1 O GLOBO. OMS decreta pandemia mundial por novo coronavírus. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/oms-decreta-pandemia-mundial-por-novo-coronavirus-24298652> Acesso em 11 mar. 2020.

2 FILGUEIRA, Ary. Agência Brasília. Decreto suspende aulas e atividades públicas por cinco dias. Disponível em: <https://www.agenciabrasilia.df.gov.br/2020/03/11/decreto-suspende-aulas-e-atividades-publicas-por-cinco-dias/>. Acesso em 11 mar. 2020.

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