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Depois de 7 de junho, acontecimentos revolucionários estão sendo preparados na Libéria

A centelha de 7 de junho acendeu as contradições na sociedade liberiana. A mobilização massiva das massas no dia 7 foi um tapa na cara dos cínicos que argumentavam que o povo liberiano continuaria a aceitar alegremente o status quo podre sem agir para mudar o curso da história. Mas nada é estático: tudo se encontra em constante fluxo e sujeito à mudança. Também é assim a consciência das massas liberianas.

Durante 12 anos, elas toleraram pacientemente Ellen Johnson Sirleaf. Mas sua paciência terminou para o governo Weah antes de decorridos dois anos. Como disse Lenin: “Há décadas em que nada acontece; e há semanas em que décadas acontecem”. Isso ficou demonstrado pelas massas liberianas em 7 de junho. Essa agitação das massas envolveu a participação dos trabalhadores, dos pobres urbanos, dos idosos, dos jovens, estudantes e setores da pequena burguesia. Foram liberianos de todas as dezesseis tribos e de todos os grupos religiosos no país que entraram poderosamente no cenário da história.

O protesto em grande parte pacífico foi convocado pelo Conselho dos Patriotas (COP) em desafio a anos de austeridade, privatização e hipoteca dos recursos naturais da Libéria ao capital internacional; além do declínio dos padrões de vida, da corrupção sistemática, de uma série de roubos em escala industrial, de desinvestimentos durante a atual administração e dos níveis obscenos de incompetência que caracterizaram o governo liderado por Weah.

Até o ano de 2013, a economia liberiana teve uma taxa de crescimento anual de mais de 8% – um crescimento do PIB que não se refletiu nas condições materiais dos trabalhadores, dos jovens, dos pobres urbanos e rurais devido à lógica da dominação capitalista imperialista. Mas em 2014, esse aumento do PIB foi revertido e colocou a economia à beira do colapso como resultado de três fatores fundamentais.

Primeiramente, houve uma queda nos preços das commodities (incluindo minério de ferro e borracha, as principais exportações da Libéria) como resultado de uma queda na demanda no mercado internacional. Em segundo lugar, o surto de Ebola na África Ocidental atingiu duramente o país em termos econômicos não só assustando o investimento de capital novo como também removendo os investimentos existentes. E, finalmente, a redução da Missão das Nações Unidas na Libéria (UNMIL), que levou a uma queda na oferta de moeda estrangeira e, assim, à depreciação da moeda local (dólares liberianos) e a um período inflacionário, que afetou adversamente a renda dos trabalhadores, dos camponeses e dos pobres urbanos, que ganham a vida através de atividades econômicas informais.

De acordo com uma equipe do FMI que visitou o país entre 25 de fevereiro e 8 de março de 2019, sobre a economia liberiana: “A estabilidade macroeconômica mostrou-se difícil de alcançar apesar da melhoria na arrecadação de receitas na primeira metade do exercício fiscal de 2019, e a posição fiscal se relaxou significativamente. (…) O crescimento para 2018 é agora estimado em 1,2%, enquanto a previsão para 2019 sobre as políticas atuais foi revisada para baixo, a 0,4% dos 4,7%.

“A missão observa que o gasto produtivo está sendo superado pela conta salarial, incluindo subsídios discricionários que totalizam cerca de dois terços das despesas financiadas pelo governo”.

A moeda liberiana se depreciou em 26% em um ano e a inflação subiu para 28%, aumentando assim as dificuldades econômicas experimentadas pelas camadas exploradas da sociedade liberiana.

De acordo com um relatório de 2018 do Banco Central da Libéria (CBL):

O investimento direto declinou 121,2 milhões de dólares americanos para 126,6 milhões em 2018 dos 247,8 milhões em 2017, e 185,1 milhões de dólares americanos quando comparados aos 311,7 milhões em 2016.

(…)

“As operações fiscais do governo durante o ano 2018-2019 registraram um déficit fiscal de 225,5 milhões de dólares americanos (7% do PIB). O déficit resultou da queda na receita total e das receitas de doações durante o ano. Em comparação com 2017, o tamanho do déficit nas operações fiscais líquidas aumentou de 6,1% do PIB”.

Diante de um déficit tão grande que, como de costume, dificultou o investimento na educação, na saúde, infraestrutura, eletricidade, habitação, água potável etc., 490,3 milhões de dólares foram registrados como valor de exportação das principais commodities de exportação do país, incluindo o minério de ferro, a borracha, ouro, diamantes, cacau e café em grão etc. Assim, enquanto bilhões são extraídos dos recursos naturais da nação, as massas ficam sem satisfazer as necessidades básicas da vida.

Todos esses fatores criaram uma base objetiva para a ira que se expressou no movimento de 7 de junho. Os níveis de descontentamento na sociedade liberiana encontram sua expressão em um ânimo nacional de resistência, mostrando que as ilusões que as massas tinham em George Weah há alguns anos evaporaram.

Natureza da liderança do movimento (Conselho de Patriotas)

Sob a força das condições objetivas descritas acima, como há uma falta flagrante de organizações populares de massa, juntamente com o fato de que a natureza abomina o vazio, o Conselho de Patriotas emergiu para direcionar a ira popular nas ações de protesto contra o governo. Essa organização é uma coleção de jovens da elite emergente, originários do Partido da Unidade; quadros júnior da antiga administração de Ellen-Johnson Sirleaf; outros do Partido da Liberdade; um apresentador popular de talk show; vestígios do regime de Charles Taylor; alguns legisladores nacionais que se posicionaram de forma oportunista para enfrentar a onda de ira popular e outros aduladores que se espalham por todo o espectro político. Eles prepararam o movimento desde o início para um compromisso. Não foram capazes de apresentar um programa coerente e claro que possa resolver os problemas mais fundamentais que os liberianos enfrentam cotidianamente.

É um truísmo que, na medida em que a luta por uma ordem socioeconômica alternativa não está sendo levada a frente pela classe trabalhadora sob uma clara liderança Marxista, figuras duvidosas e gangsters obedientes, que são parte integrante do establishment – alienados e distantes do povo – vão sequestrar a luta para promover seus próprios interesses de classe. Quando as pessoas embarcam na tarefa de livrar o país da dominação e exploração imperialista, essas elites, em colaboração com seus amos – seja na oposição ou na camarilha dominante – se unirão sob a bandeira de uma frente comum em uma tentativa de destruir o movimento e frustrar qualquer processo de transformação nacional baseado em princípios socialistas. Esta é uma lei de ferro da história.

Portanto, não é surpreendente para os Marxistas que o Conselho de Patriotas (COP) tenha interrompido qualquer assembleia mais pacífica e dado ao governo um mês para responder aos itens de sua petição. Essa é uma clara evidência de que não tem nenhum programa revolucionário e que obviamente não é uma liderança revolucionária. O prazo de um mês é apenas um período para negociação e compromisso entre o governo e a liderança do COP. Mas as massas liberianas estão em um momento muito crítico na história. O que os lançou às ruas em 7 de junho não pode ser resolvido em um mês, nem sob a agenda econômica capitalista do regime de George Weah.

O que vem depois de 7 de junho?

Hoje o povo na Libéria do capitalismo neocolonial enfrenta uma ameaça monstruosa. Esse sistema econômico degenerado está destilando pobreza e atraso na sociedade. Incapaz de governar e liderar, carente de um itinerário histórico para a transformação progressista, esse sistema se tornou um freio ao progresso da nação. Em geral, a classe trabalhadora e as massas camponesas estão sentindo as dores da fome, da privação e da expropriação. Agora está claro que a ideia de que Weah tinha uma varinha mágica que ele podia usar para alterar o curso da história e levantar o país a alturas nobres era uma mera ilusão, que está sendo destruída a cada dia.

Na descrição do colapso da II Internacional, Lenin sublinhou as condições para uma revolução:

“1) Quando é impossível para a classe dominante manter o seu domínio sem qualquer mudança; quando há uma crise, de uma forma ou de outra, entre as ‘classes altas’, uma crise na política da classe dominante, levando a uma fissura através da qual o descontentamento e a indignação das classes oprimidas podem irromper. Para que ocorra uma revolução, normalmente é insuficiente para ‘as classes baixas não quererem’ mais viver da forma antiga; é necessário que ‘as classes altas não possam mais’ viver da velha forma;

“2) Quando o sofrimento e a miséria das classes oprimidas se tornaram mais agudos do que o habitual;

“3) Quando, como resultado das causas acima, existe um aumento considerável na atividade das massas, que, sem reclamar, se deixam roubar em ‘tempos de paz’, mas que, nos tempos turbulentos, são atraídas por todas as circunstâncias da crise e pelas próprias ‘classes superiores’ em ação histórica independente” (V. I. Lenin, O Colapso da II Internacional, maio-junho 1915).

A fermentação revolucionária que vem se acumulando desde o reinado de Ellen Johnson Sirleaf finalmente se manifestou através da ação ousada das massas. Seu entusiasmo pela transformação da sociedade, em uma sociedade em que elas estejam no centro da vida nacional, foi demonstrado através de uma série de protestos mesmo antes do levantamento de 7 de junho, incluindo o protesto de 24 de setembro sobre os bilhões de dólares perdidos. A terrível crise econômica, somada à perda de 16 bilhões de libras, e o desvio de 25 milhões de dólares são as centelhas que empurraram o povo às ruas.

Existe agora uma divisão feroz dentro da hierarquia superior da elite dominante, como o demonstra a hostilidade entre o presidente e seu vice-presidente. O primeiro acusou o último de todos os tipos de crimes, desde insubordinação grave durante os dias iniciais da administração até ao fato de que foi o mentor do protesto de 7 de junho convocado pelo Conselho de Patriotas (COP).

O fator subjetivo está flagrantemente ausente na Libéria, como o está no Sudão e na Argélia, isto é: uma liderança armada com um programa socialista, que guiará o povo a ascender desde baixo às alturas dominantes da economia liberiana, liberada das mãos das multinacionais. Com o povo já mobilizado, essa liderança é necessária para levar a luta de libertação das massas liberianas a sua conclusão lógica.

Nessa etapa há um sentimento de euforia e empolgação ante as enormes mobilizações. O movimento está em ascensão. Mas logo se tornará evidente que para se remover o atual regime é necessário muito mais, e mesmo assim se tornará evidente que, mesmo que seja removido, a menos que seja realizada uma mudança radical na economia, isto é, uma transformação socialista através da qual os recursos econômicos sejam colocados sob o controle da classe trabalhadora, então será um caso de “tudo deve mudar para que nada mude”. Todos os tipos de políticos burgueses duvidosos vão fingir ser “amigos do povo”, mas com o objetivo de empurrar o povo para trás.

Se essa contradição não for resolvida através da construção de um partido consciente baseado nas ideias do Marxismo e que ganhe o apoio dos trabalhadores, camponeses e pobres, então, no longo prazo, a contrarrevolução acabará exercendo uma amarga vingança contra as massas. Não se deve permitir que isso aconteça. Os eventos no Sudão mostram até que ponto um movimento pode ir, mas também quão limitado ele pode se tornar se não tiver a liderança revolucionária necessária.

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